novembro 22, 2010

Compromisso

Dentro de nós vivem multidões e consensos. A diversidade é tanta, desde os biliões de células neuronais até aos sistemas mentais que constróem a ilusão do eu, que apenas um certo grau de abstracção ou indiferença permite a narrativa que somos seres indivisos. Mas não nos devemos esquecer que o corpo age, muitas vezes, contra o eu que encerra. A repulsão, o pânico, o contágio das multidões (o bocejo), podem ser impossíveis de controlar mesmo por uma mente experiente, inteligente, habituada a bem usar a razão e as emoções em situações mais normais. A mente que me define controla este animal que socialmente me identifica. Mas é uma situação que exige um esforço constante. Por isso os automatismos, talvez até o sono. Por isso, também, a dissolução no descontrolo.

novembro 13, 2010

Pendor

«We don't start out with a moral duty to "reduce bias", because biases are bad and evil and Just Not Done. This is the sort of thinking someone might end up with if they acquired a deontological duty of "rationality" by social osmosis, which leads to people trying to execute techniques without appreciating the reason for them. [...] Rather, we want to get to the truth, for whatever reason, and we find various obstacles getting in the way of our goal. These obstacles are not wholly dissimilar to each other - for example, there are obstacles that have to do with not having enough computing power available, or information being expensive. It so happens that a large group of obstacles seem to have a certain character in common - to cluster in a region of obstacle-to-truth space - and this cluster has been labeled "biases".» Eliezer Yudkowsky, Less Wrong

novembro 02, 2010

Constituição

O cérebro não evoluiu para efectuar qualquer tipo específico de pensamento. Este orgão não é excepção na regra que a selecção natural não tem um determinado fim à vista. As mentes e as culturas humanas originaram-se a partir das restrições e capacidades cognitivas do cérebro humano mas isso não significa que estamos irremediavelmente reféns dessas limitações. Há hoje já demasiada evidência para a irracionalidade da mente humana e da nossa capacidade sub-óptima de tomar decisões com a informação disponível [1, 2, 3]. Mas temos ferramentas para lidar com este problema, como a matemática, a lógica, a ciência ou a filosofia, que nos permitem acumular e aperfeiçoar conhecimento ao longo de gerações, criando, mantendo e melhorando conceitos abstractos, teorias e modelos, ou instrumentos tecnológicos que minimizam a falibilidade dos nossos sentidos e do nosso raciocínio. Se seguirmos certos protocolos de acção, se mantivermos uma dúvida sistemática, se controlarmos os nossos preconceitos, podemos avançar mais longe e com a liberdade possível na descoberta do mundo. Se aplicarmos, em resumo, uma das muitas faces do que se designa por método científico, estaremos mais preparados para descobrir, lidar e corrigir o erro que está e sempre esteve ligado ao ser pessoa. Nesse aspecto, o método científico é a constituição não escrita da razão humana.

outubro 25, 2010

Lindo!

In probability theory there is a very clever trick for handling a problem that becomes too difficult. We just solve it anyway by:
  1. making it still harder;
  2. redefining what we mean by ‘solving’ it, so that it becomes something we can do;
  3. inventing a dignified and technical-sounding word to describe this procedure, which has the psychological effect of concealing the real nature of what we have done, and making it appear respectable.
In the case of sampling with replacement, we apply this strategy as follows.
  1. Suppose that, after tossing the ball in, we shake up the urn. However complicated the problem was initially, it now becomes many orders of magnitude more complicated, because the solution now depends on every detail of the precise way we shake it, in addition to all the factors mentioned above.
  2. We now assert that the shaking has somehow made all these details irrelevant, so that the problem reverts back to the simple one where the Bernoulli urn rule applies.
  3. We invent the dignified-soundingword randomization to describe what we have done. This term is, evidently, a euphemism, whose real meaning is: deliberately throwing away relevant information when it becomes too complicated for us to handle.
We have described this procedure in laconic terms, because an antidote is needed for the impression created by some writers on probability theory, who attach a kind of mystical significance to it. For some, declaring a problem to be ‘randomized’ is an incantation with the same purpose and effect as those uttered by an exorcist to drive out evil spirits; i.e. it cleanses their subsequent calculations and renders them immune to criticism.We agnostics often envy the True Believer, who thus acquires so easily that sense of security which is forever denied to us.

However, in defense of this procedure, we have to admit that it often leads to a useful approximation to the correct solution; i.e. the complicated details, while undeniably relevant in principle, might nevertheless have little numerical effect on the answers to certain particularly simple questions, such as the probability for drawing r red balls in n trials when n is sufficiently small. But from the standpoint of principle, an element of vagueness necessarily enters at this point; for, while we may feel intuitively that this leads to a good approximation, we have no proof of this, much less a reliable estimate of the accuracy of the approximation, which presumably improves with more shaking. The vagueness is evident particularly in the fact that different people have widely divergent views about how much shaking is required to justify step (2). Witness the minor furor surrounding a US Government-sponsored and nationally televized game of chance some years ago, when someone objected that the procedure for drawing numbers from a fish bowl to determine the order of call-up of young men for Military Service was ‘unfair’ because the bowl hadn’t been shaken enough to make the drawing ‘truly random’, whatever that means. Yet if anyone had asked the objector: ‘To whom is it unfair?’ he could not have given any answer except, ‘To those whose numbers are on top; I don’t know who they are.’ But after any amount of further shaking, this will still be true! So what does the shaking accomplish?

Shaking does not make the result ‘random’, because that term is basically meaningless as an attribute of the real world; it has no clear definition applicable in the real world. The belief that ‘randomness’ is some kind of real property existing in Nature is a form of the mind projection fallacy which says, in effect, ‘I don’t know the detailed causes – therefore – Nature does not know them.’ What shaking accomplishes is very different. It does not affect Nature’s workings in any way; it only ensures that no human is able to exert any wilful influence on the result. Therefore, nobody can be charged with ‘fixing’ the outcome.

At this point, you may accuse us of nitpicking, because you know that after all this sermonizing, we are just going to go ahead and use the randomized solution like everybody else does. Note, however, that our objection is not to the procedure itself, provided that we acknowledge honestly what we are doing; i.e. instead of solving the real problem, we are making a practical compromise and being, of necessity, content with an approximate solution. That is something we have to do in all areas of applied mathematics, and there is no reason to expect probability theory to be any different. E.T. Jaynes, Probability Theory, The Logic of Science

outubro 21, 2010

Areia Movediça

outubro 18, 2010

Rumo

Temos disponível (somos?), no cérebro, um modelo do mundo, uma aproximação cujos detalhes a nossa cultura dá especial valor na interacção com a realidade externa. Apesar dos compromissos e da negociação, para este modelo funcionar fabricamos ilusões e arbitrários vários. Por exemplo, os objectos não têm cor nem cheiro, uma música ou uma voz são ondulações de ar, mas temos palavras, tradições e estéticas para lidar com eles. O 'agora', o 'aqui' e o 'eu' são igualmente peças desse modelo mas não têm um correspondente físico objectivo. Porém, incrivelmente, no seio deste difuso e imenso oceano de padrões e informação, conseguimos navegar com o possível de um rumo.

outubro 14, 2010

Equilíbrio

A experiência passada altera, ajusta o nosso comportamento. Podemos agir de forma distinta sobre dois casos similares apenas porque integrámos, na nossa mente, as consequências do primeiro. A lei escrita não se comporta assim. É apenas revista após a passagem de vários anos (ou como reacção ao inesperado de uma catástrofe). Isto é uma desvantagem porque dá à lei uma inércia que certos aspectos do mundo não toleram. Mas também é uma vantagem porque, assim, é mais imune a excessos emocionais, traumas, modas passageiras. Neste hesitar de balança talvez resida um argumento em favor da jurisprudência assente numa deontologia concisa, exigente e cega porque justa.

outubro 09, 2010

Não fazemos porque não sabemos

Many people are fond of saying, ‘They will never make a machine to replace the human mind – it does many things which no machine could ever do.’ A beautiful answer to this was given by J. von Neumann in a talk on computers given in Princeton in 1948, which the writer was privileged to attend. In reply to the canonical question from the audience (‘But of course, a mere machine can’t really think, can it?’), he said:
You insist that there is something a machine cannot do. If you will tell me precisely what it is that a machine cannot do, then I can always make a machine which will do just that!
In principle, the only operations which a machine cannot perform for us are those which we cannot describe in detail, or which could not be completed in a finite number of steps. E.T.Jaynes, Probability Theory, The Logic of Science

outubro 06, 2010

Sentidos...

setembro 30, 2010

Aplicação

Será possível encontrar uma axiomática para a ética? Qualquer princípio - utilitarista, deontológico, virtuoso - tem refutação em situações cuidadosamente elaboradas por filósofos. Mas, enquanto não existir um domínio exacto de aplicação para um dado modelo de ética, não serão estas refutações uma injustiça, uma exigência impossível de cumprir? Seria como criticar a geometria euclidiana por não funcionar numa esfera. Mas, para cada possível da ética, qual a forma dessa esfera?

setembro 27, 2010

Estilhaços

Nós vivemos numa realidade física e social única. Talvez por isso só faça sentido falar funcionalmente de um processo cognitivo integrador, de uma consciência. Mas se, por exemplo, o nosso mundo fosse composto por duas realidades simultâneas (*), faria sentido falar da necessidade de duas consciências? Seríamos uma pessoa dupla capaz de gerir e integrar duas continuidades distintas, podendo trocar conhecimentos e experiências entre essas realidades. Que tipo de coerência forçaríamos na ilusão -- assim reforçada -- de um presente estilhaçado?

(*) Num mundo totalmente virtual, numa eventual matrix, este cenário não é impossível. Que diferenças e comparações entre isto e as personas que agora e hoje somos, nesses diferentes contextos sociais que experimentamos sequencialmente?

setembro 23, 2010

Sugestão de Leitura

Um livro escrito para o público por um filósofo de formação que investiga na área da neurologia. Autor de um livro anterior mais formal, Being No One (e de mui complexa leitura), apresenta nesta obra o mesmo argumento: o eu é uma ficção, uma entidade virtual no mundo virtual que construímos para lidar com a realidade externa.
In order to survive, biological organisms must not only successfully predict what is going to happen next in their immediate environment but also be able to predict accurately their behavior and bodily movements along with their consequences. The self-model is a real-time predictor. [...] In our brains, we have a body emulator that uses motor commands to predict the likely proprioceptive and kinesthetic feedback that results from moving our limbs in a certain way. For our actions to be successfully controlled, we cannot wait for the actual feedback from our arms and legs as we move through the world. We need an internal image of our body as a whole that predicts the likely consequences of, say, an attempt to move our left arm in a certain way. In order to be really efficient, we need to know in advance what this would feel like. Furthermore, by “taking it offline,” we can use our body emulator to create motor imagery in our mind—to plan or imagine our body movements without actually executing them. [pg.111]
A terceira parte do livro, mais especulativa, leva-nos a possíveis futuros onde, argumenta o autor, poderemos ter de desenvolver uma ética para a consciência (a partir do momento em que começarmos a criá-las artificialmente e a manipular mais cirurgicamente as nossas próprias).

junho 27, 2010

Paradoxo

“The book above all others in the world which should be forbidden is a catalog of forbidden books.” — Georg Christoph Lichtenberg [via Futility Closet]

junho 24, 2010

Insectos

"A human being should be able to change a diaper, plan an invasion, butcher a hog, conn a ship, design a building, write a sonnet, balance accounts, build a wall, set a bone, comfort the dying, take orders, give orders, cooperate, act alone, solve equations, analyze a new problem, pitch manure, program a computer, cook a tasty meal, fight efficiently, die gallantly. Specialization is for insects." Robert Heinlein [via Jewels made out of neurons]

junho 21, 2010

Adiar

Seja a busca. Seja da axiomatização da matemática, dos princípios da física ou dos fundamentos da ética, paramos sempre na questão das definições. Por onde começar? Para evitar a circularidade ou a regressão infinita, é necessário criar uma base de trabalho, um conjunto de preceitos flexíveis, expressivos e coerentes e trabalhar a partir daí. Se um preceito pode ser descrito por outro mais simples e abrangente, se corrigir problemas ou limitações, melhor, senão esperamos pela próxima revisão. Enquanto isso, para cada teorema, experiência ou acto de justiça conquistado, fortalecemos a confiança na nossa escolha e adiamos, o quanto possível, a catástrofe.

junho 17, 2010

Reconstrução

Educar uma comunidade tem, como deve ser evidente hoje em dia, várias vantagens. Duas que gostaria de apontar:

* É através da educação que se dilui a diferença das classes sociais. O sistema de castas ainda existe nas sociedades modernas. Este mecanismo, mais subtil que as castas explícitas da Índia, cria muros invisíveis (por vezes nem tanto) entre pessoas de nascimentos distintos. Há círculos mais selectivos onde apenas é convidado quem tem pedigree aprovado e pouco mais que isso. A sua existência não se correlaciona com o poder económico. Entre certas comunidades ciganas e a linha de cascais, o mecanismo de exclusividade funciona de igual modo na selecção e filtro dos seus e que passa, variadas vezes, pelo berço. A educação compulsiva promovida pelo Estado é uma forma de contacto entre diferentes círculos e dota os elementos menos privilegiados de ferramentas que lhes permitem furar o seu círculo e misturar-se. Neste sentido, a educação é essencial a uma comunidade cosmopolita e republicana.(*)

* Uma boa educação deve estimular o pensar crítico da comunidade, ser o agente de transformação do rebanho informe em milhões de indivíduos. Uma comunidade assim encontra-se protegida contra vários tipos de propaganda. Quando a pessoa média for capaz de analisar e questionar o que lhe é dito, torna-se a vida mais difícil para as ideologias, para a incompetência ou para serem aceites aventuras financeiras ou militares várias.

Estas e outras vantagens fazem da educação um terraplanar de muros sociais, de preconceitos passados, para que seja possível erigir outros muros, como as defesas contra arbitrariedades futuras. Neste aspecto, educar é reconstruir.

(*) Mas estas castas podem combater a imposição do Estado. Os mais pobres impedindo a educação aos filhos, os mais ricos criando escolas muradas onde apenas entram crianças aceitáveis. Aqui há um dilema de difícil resolução para um espírito liberal.

junho 15, 2010

junho 14, 2010

Combate II

Se quebrarmos a produção de conhecimento, se ofuscarmos o uso da dúvida sistemática, se deixarmos de lado a evidência e a razão, a nossa civilização entrará em declínio e colapsará. Qualquer passo nessa direcção é da nossa responsabilidade colectiva enquanto indivíduos da comunidade global. Cada um desses passos carrega consigo um débito ético objectivo (a ignorância mata). Há muita gente, na educação, nos media, na política, a não ajudar. O nosso inimigo somos nós.

junho 10, 2010

Combate

Como se combate o conhecimento obtido pelo método científico? Há, pelo menos, duas formas. Com dogmas, que mutilam a razão de quem neles de revê, ou com ruído, manipulação de dados e desinformação. A primeira impede a discussão, a segunda confunde, criando sistematicamente dúvida para combater o que a dúvida sistemática obtém. A primeira é principalmente usada por religiões e ideologias, a segunda por grupos de pressão com a ajuda comprada ou ignorante dos media.

junho 08, 2010

Domínios de Aplicação

A liberdade representa a ausência da coerção não da necessidade. Ela aumenta as possibilidades bem como as dificuldades e também as oportunidades. Ela não tenta eliminar as circunstâncias, o imprevisível, ou as desvantagens de cada um. Ela diversifica não nivela; vive da polémica não de acordos impostos; evita médias e unanimidades. Para a ausência da necessidade não se deve usar a palavra liberdade mas sim a palavra poder.

junho 03, 2010

Velhices

"A democracia estende a esfera da liberdade individual, o socialismo restringe-a. A democracia anexa todos os valores possíveis a cada homem; o socialismo faz cada homem um agente, um número. Democracia e socialismo não têm nada em comum senão uma palavra: igualdade. Mas reparem na diferença: enquanto a democracia procura igualdade na liberdade, o socialismo procura a igualdade na restrição e servitude" A. Tocqueville (1848)

junho 01, 2010

Pandemónio

 
John Martin, Pandemonium (1841),
gravura do palácio de Satã no Paradise Lost de John Milton

maio 31, 2010

Ecos e sombras

Cada um de nós é uma colecção de fragmentos. Carinhosamente agregados, cada alteração consentida uma derrota, cada conceito aprendido uma concessão ao que éramos antes, um átomo de mudança e morte. Nunca poderemos apreender o mundo neste arqueológico cérebro de mamífero. Haverá sempre distâncias entre o todo e o que se ganha, que se vê, ouve, que se sente em cada pensamento descoberto. Vivemos num oceano de simplificações, alimentando-nos de equívocos, de mensagens mal entendidas, de partilhas e negociações parciais. E pela sobrevivência, pelo arcaico impulso de manter uma comunidade multi-celular que nos permite a existência, aceitamos a imposição dos outros, a normalização dos nossos apetites e desejos, a troca da acção pela espera, da satisfação pelo plano, o sacrifício do agora pelo depois (e nesse sacrifício inevitável, tudo, ou seja nada, se mostra sagrado). O Dr. Spleen admite que, porém, é nessas restrições que cada um de nós existe. O irrestrito dilui, o universo sem invariantes seria apenas uma maré uniforme de vazio. Nesses limites, nessas regras impostas, no exercício subtil da coerção, a ciência, a arte, o nosso possível e a insanidade que o acompanha. Por isso, quando Spleen exercita o seu talento e sacia a sua sede ao dissecar uma pessoa, sabe que apenas retira à linha do mundo uma aliança fragilmente conseguida, um aproximar ao aproximar dos outros, uma possibilidade contingente cujo eco rapidamente se desfaz. Já e apenas uma sombra.

maio 28, 2010

Tratamento Preferencial

O Jesus dos Evangelhos mostra-nos um importante filósofo moral. O que somos de bom para os nossos filhos, irmãos e pais, a forma como amamos essas pessoas e que, muitas vezes, estendemos aos amigos e vizinhos, deve ser estendido à humanidade. Somos todos uma única família, todos irmãos e irmãs. Para além disso, porque do passado há erros, cicatrizes, sementes de rancor, devemos usar o perdão para limpar e manter essa irmandade o mais protegida possível. Uma família universal mantida e acarinhada com amor e perdão é uma forte e profunda mensagem moral. Mas os Evangelhos não são só isto. Para além de uma colectânea de episódios mágicos e de momentos simbólicos vários, muitos dos quais, senão todos, adaptados de crenças mais antigas, são também uma outra mensagem, contraditória com a mensagem moral referida e, creio, causa de muita dor: a ideia do Paraíso (uma promessa falsa e impossível de cumprir) ser apenas para os pobres de espírito, os despojados e os mansos, um monopólio da sua crença e da lei que propõe. Aqui há uma fenda, uma separação entre os que acreditam num arbitrário X e os que acreditam num outro Y, uma promessa e ameaça de perdição eterna. Não é assim que se tratam os membros de uma família.

maio 25, 2010

Produto Completo

O génio da publicidade é vender a solução e o problema - George Orwell

maio 20, 2010

Sãos e normais

Seja a sanidade o funcionamento psicossomático correcto (saudável, consistente) do corpo e, em especial, do cérebro e da mente. Seja a normalidade a adaptação à respectiva cultura, i.e., uma integração social adequada. Uma cultura -- o resultado de uma complexa negociação sobre uma visão simplificada do real -- impõe limites, normas e proibições ao possível do corpo. A aceitação ou não desses limites define a fronteira entre o normal e a neurose. O grau de liberdade numa cultura estabelece apenas onde se desenha essa fronteira, o quão diferente podemos ser uns em relação aos outros, mas não é capaz de eliminá-la porque há sempre compromissos a fazer quando se vive em comunidade (talvez aí a atracção do paraíso). Como só numa cultura faz sentido falar de pessoas, o animal humano nela criado vê-se, assim, sobre uma pressão inevitável que impede a sua sanidade completa, irrestrita, mas que é essencial à coesão da própria cultura. O 'objectivo' de uma cultura é formar pessoas normais (e manter, gerir, a sua medida de normalidade), não é criar animais sãos. Esta última, para ser estável e douradora, é a tarefa do formigueiro.

maio 17, 2010

Refocar

Philosophers for centuries have wasted their time, and that of others, on such questions as "are their other minds?" or "is there an external world?" I think the question "what is moral (right, good, etc.)" is much the same. Peirce, I think, was right to poke fund at Hume and Descartes. Dewey was right as well when he wrote philosophy will recover itself when it ceases to deal with the problems of philosophers, and seeks instead a method to resolve the problems of men. That morality cannot be established in the same sense that other things may be established (i.e., the temperature at which water boils) should be a non-issue. That it is a human construct is obvious (what else could it be?) and insignificant. We make value judgments all the time; some are better, and more reasonable, than others. Perhaps we should focus on how to make the best possible value judgments, rather than wondering what is "really" valuable. - ciceronianus


maio 16, 2010

Vaticano, 1999

Giuseppe Maria Crespi
L'Immaculée Conception avec les saints Anselme et Martin (1738)

Intitulée "Témoigner de Dieu le Père: la réponse chrétienne à l'athéisme", l'audience du 14 avril 1999 a abordé la question de la nature intrinsèque des athées en évitant le douloureux problème théologique qu'est leur existence. Plutôt que de s'interroger sur l'absurdité des raisons auxquelles "Dieu" se seraient abandonné pour provoquer ou admettre l'existence des athées, le vieux pontife s'est évertué à les décrire comme des individus anormaux, insensés, n'ayant rien compris à la nature humaine.

En guise de première cible, la laïcité est naturellement un danger pour l'institution catholique: "Le sécularisme, en particulier, se révèle dangereux en raison de son indifférence à l'égard des questions ultimes et de la foi". Mais on savourera la désillusion de Wojtyla: "L'athéisme «pratique» est ainsi une réalité concrète amère", qui se poursuit par le constat de son étendue: "S'il est vrai qu'il se manifeste surtout dans les civilisations les plus économiquement et techniquement avancées, ses effets s'étendent également aux situations et aux cultures qui commencent actuellement un processus de développement".

Les athées sont qualifiés de "sots" en se référant à la Bible qui affuble aussi leurs actions des épithètes suivants: "Corrompues, abominables leurs actions; non, plus d'honnête homme" (Ps 14, 1). Mais un saut sémantique est opéré qui transforme les athées en idolâtres puisque ceux-ci ne reconnaissent pas "la vraie nature de la réalité créée" pour la "rendre absolue"; on voit mal pourtant en quoi cela relève de l'idolâtrie. Niant l'autonomie de l'homme, de la nature et de la science, JP2 présente l'athéisme comme une idéologie intolérante. A l'argument que la religion ne serait qu'une béquille de la pensée, il oppose avec véhémence que l'Église "refuse avec fermeté l'interprétation de la religiosité comme projection de la psychée humaine ou comme résultat des conditions sociologiques". Pour ensuite peiner à masquer le désespoir qui frappe les mystiques devant les conquêtes du rationalisme: "l'expérience religieuse authentique n'est pas une expression d'infantilisme." Une bonne connaissance des tares dont elle est accusée est une indication encourageante sur l'évolution future de l'Église.

Enfin, sur les causes de l'apparition de l'athéisme, le pape en rend les croyants coupables, seule pitance à sa disposition vu que les athées n'ont que faire de ses imprécations et menaces: "Le Concile a reconnu que, dans la genèse de l'athéisme, les croyants ont pu jouer un rôle, n'ayant pas toujours manifesté de façon adéquate le visage de Dieu". L'audience s'achève sur quelques raisons d'espérer, pour l'Église, que tout ne va pas si mal et que l'athéisme peut être combattu au moyen de son arme principale: le rationalisme! Le pape cède ainsi finalement à la récupération, qui est tant de mode, de tout et son contraire pour sauver une institution en perdition: répondre à l'athéisme "exige également une présentation correcte des motifs d'ordre rationnel qui conduisent à la reconnaissance de Dieu." La "science qui mène à Dieu" n'est qu'une impasse éculée et on ne saurait trop conseiller l'Église de s'y fourvoyer plus avant afin de la vider rapidement de sa substance...

Un dernier mot est adressé à ses "frères et sœurs" où il lâche ce que la fausse courtoisie de sa charge avait jusque-là retenu: "La Bible nous aide à comprendre que ceux qui veulent nier Dieu sont insensés et se laissent attirer par de vaines idoles." [http://www.atheisme.org/pape-atheisme.html]

maio 14, 2010

Obrigação

Não é uma definição ideológica mas um facto natural que cada pessoa é única, distinta de todas as outras. Mas uma comunidade justa tem de ser mais que a cega aplicação da selecção natural: é-lhe exigida a possibilidade de realizares essa diferença que te define.