Cartas a Séneca
Encontro-me de costas para os augures. Observo o voo das aves e nada nele vejo. Os pássaros vão atrás uns dos outros, naquelas nuvens que fazem, na confusão e chilrear que aprendemos quando crianças a reconhecer. Ficaram alguns instantes nisto, como treinados, pareceu-me no meu tédio, para demorar certo tempo e não mais. Acabado o exercício voltaram para as toscas casas de madeira de onde os tinham libertados dois jovens no silêncio e com os olhos no chão durante o tempo que este teatro demorou. Paro um pouco a olhar para o mais alto dos dois. A cicatriz geométrica no ombro nu revela a sujeição ao culto, um símbolo que o acompanhará pela vida, reduzida a abrir portas a animais, no passar de utensílios nos sacrifícios, talvez a satisfazer as outras necessidades destes homens espirituais. E antes dele, quantas outras cicatrizes iguais, quantas dedicadas à antiguidade do mistério. O mais velho dos bruxos levantou-se, a encenar uma majestade nos gestos, uma imitação forçada que tanto contrasta com a facilidade natural daqueles que nascem e crescem nas nossas famílias romanas. Seguiu-se a ladainha do costume que enche o jus augurum, premonições e avisos, sentenças com as variações treinadas pela prática. O futuro, os receios vagos e não respondidos do presente, algo do nosso passado conhecido nesta cidade. A minha esposa ouve, com fervor, a leitura dos auspícios, o olhar fixo nos lábios do velho, eu fixo nos dela, o seu querer reduzido perante o culto. Na minha vontade, rápida e fugaz sim porém real, um desejo de ter este desejo, de acolher vontades de um passado que não o nosso. Algo das profundezas do que somos, talvez. Mas de mim visível, apenas eu quase imóvel, a abanar a cabeça levemente a mais esta superstição, apenas e mais outro luxo que suporto. Tanto que foi dito nas linhas vazias e cruzadas daquelas aves. A lembrar-me de alguma coisa pensaria no cruzar que os interesses, as ambições, a fortuna que nos limita uns contra os outros, uns com os outros, tão misteriosas e convolutas, tão caprichosas como os simples desejos de alguns pássaros. Que sinais são estes que precisamos, nós Romanos, ainda reconhecer? E que presságios esperamos encontrar no furtuíto do mundo natural que não encontramos na nossa filosofia? No fim, antes de sairmos, retive a mesma pergunta que raramente partilho, "Onde estão essas vozes que Aquiles, que Odisseus seguiam? As vozes que tanto se preocuparam e escreveram os antigos."

"Tudo começou com as unidades móveis de comunicação. Na espiral de mercado, esta tecnologia incorporou uma crescente gama de equipamentos que nada tinham a ver com o objectivo inicial de telefonar. As imagens em tempo real provocaram os primeiros impactos nas relações humanas mais instáveis, era agora possível exigir ao outro que mostrasse onde se encontrava num dado momento. Com a incorporação de sistemas de localização por satélite, o controlo tornou-se invisível e permanente. Alguém obsessivamente ciumento podia monitorar cada metro percorrido do conjugue. Mas o indivíduo ainda era capaz de desligar a sua unidade e tornar-se novamente anónimo. Não durou muito. Rapidamente, num contexto de combate ao medo e à crescente necessidade de segurança que permearam a vivência da sociedade de consumo dos séculos XXI e XXII, foram adoptados mecanismos biométricos generalizados (retina, DNA, padrões de feromonas). As unidades pessoais (cada cidadão estava obrigado por lei a usar uma) podia identificar a posição de todos que por ela se cruzavam ao mesmo tempo que controlava a situação do seu proprietário. A vantagem? Qualquer acidente, qualquer violência ou problema era instantaneamente assinalado e identificado. A corrupção e o crime quase desapareceram. A desvantagem? Mesmo desligando a própria unidade, já não se podia fugir ao 'controle protector' da sociedade. As poucas críticas que se levantaram, as Cassandras do seu tempo, não tiveram (nunca têm) suficiente força. Depois de duas, três gerações, o sistema de protecção tornou-se padrão, o cordão umbilical que a maioria temia perder. Muitos turistas, visitantes de locais inóspitos, sofriam a privação desse véu de segurança ubíquo que os mantinha seguros na Europa, na América, no Japão ou na China desenvolvida. [...] Em 1948, George Orwell escreveu um romance sobre uma sociedade omnipresente, baseada numa tecnologia de controle capaz de esmagar a liberdade individual para motivar valores e objectivos colectivos. Cento e cinquenta anos depois, por um caminho diferente do temido por Orwell (a via do totalitarismo), os cidadãos do Primeiro Mundo encontraram-se num cenário demasiado semelhante. Só que o caminho foi demasiado suave. Cada alteração, cada porta agora aberta, fora suficiente lenta para ocorrer despercebida. Como a face que não se olha ao espelho até nele ver o rosto do horror." - Sinh Naltaen, "O Degenerar da Segurança: 2001-2193", 2ª Ed.
"A digitalização do conhecimento iniciou-se nas últimas décadas do Século XX com a proliferação de protocolos para codificar as diferentes actividades Humanas (literatura, música, imagens, algoritmia, hologramia). Há medida que o corpo do saber Humano ocupava Exabytes, as primeiras ferramentas de acesso a essa informação eram manifestamente passivas (meros leitores e gravadores). O comércio informal de cópias não autorizadas era considerado um problema sério, apesar de se ter mantido numa margem que garantia suficientes lucros para a contínua produção de criações originais [...]
"Depois de 2032, a integração de câmaras digitais para substituir os olhos dos cegos tornou-se prática comum. O sucesso desta tecnologia deveu-se, acima de tudo, à compreensão da interface que o nervo óptico estabelece entre o sistema ocular e o cérebro. Agora, quase quatro Séculos depois, compreende-se a falha generalizada da ciência da época. É impossível dissecar a estrutura neuronal e sináptica do sistema nervoso central. É inútil deduzir a partir de um sistema dinâmico e da complexidade inerente, o intricado e subtil caminho que resulta na mente Humana. Apenas restou entender como se interage no Mundo, como funcionam os sentidos que relatam uma diminuta faceta da Realidade, como melhorar essas deficientes estruturas (por exemplo, o olhar e a audição) até níveis não imaginados no Século XXI, e - principalmente - como criar novos sentidos (entre os que actualmente possuímos). Foi a partir desta motivação, do quarto passo atrás dado pelo antropocentrismo - depois do advento da Física Moderna na Renascença, da evolução Darwinista do Século XIX e da Psicologia do Século XX - a agora designada Neo-Cibernética estabeleceu que a capacidade de aprendizagem pode transgredir os limites fixados pela Natureza sem ser necessário compreender exactamente a forma como a própria aprendizagem se realiza. [...] o conceito de cyborg deixou de ser assombrado pela violação do corpo pelo metal, pela desagregação do Eu orgânico face ao digital, pela dissolução da invariante psicológica que nos define. [...]" - Introdução à 7ª Edição do "Reser Cyborg"
"[...] e assim, em dezembro de 25, foi efectuada a primeira teletransmissão com sucesso de um mamífero inferior que viajou de Nova Yorque até Paris em alguns milésimos de segundo. Não se verificaram nenhuns dos nocivos efeitos secundários que teimavam em surgir nas experiências passadas, como profundas disfunções comportamentais ou cancros malignos da mais variada ordem. [...] desde então, o progresso tecnológico foi imenso. Voluntários humanos experimentaram a sensação de serem reposicionados num outro canto do globo em meros instantes. Nenhuma alteração psicossomática tem sido observada. Na nossa década, até os críticos mais cerrados foram obrigados a admitir: o teletransporte era mais do que uma possibilidade teórica, era uma realidade operacional! [...] A revolução dos transportes não se fez esperar. Uma viagem para as colónias marcianas demora hoje pouco mais de vinte minutos para quem a observa e é instantânea para o viajante. [...] O processo de transmissão passa pela análise atómica do sujeito, pela sua codificação e envio do sinal até ao posto receptor. [...] foi essencialmente neste processo que surgiram os maiores preconceitos. O sujeito não é efectivamente transportado. É antes transformado em informação, sendo restituído por um outro conjunto de átomos disponíveis no destino. O original é duplicado, imediatamente destruído e a matéria prima reciclada. As implicações para a sociedade desta nova visão do Homem ainda são imprevisíveis e será, sem dúvida, um dos mais apaixonantes temas de debate dos próximos anos. No entanto, o autor não é capaz de deixar de pensar sobre uma questão que já teima nos nossos espíritos: O que aconteceria se o original não fosse destruído?"