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outubro 09, 2009

Direito à defesa

"A well regulated Militia, being necessary to the security of a free State, the right of the people to keep and bear Arms, shall not be infringed." 2ª emenda da Constituição America

O livro Constitutional Chaos, do juiz americano Andrew Napolitano, aborda os hábitos inconstitucionais do poder judicial, da polícia e do Estado Federal. Achei o conteúdo dos capítulos um pouco desiquilibrado mas, no capítulo quatro, é apresentado um argumento a favor do porte e uso individual de arma que me pareceu interessante (e eu até defendo a opinião webberiana de ser o Estado a controlar os meios de violência). O direito constitucional expresso na 2ª emenda tem várias interpretações, variando entre aqueles que defendem ser esse direito expresso no ramo militar como um todo (e, eventualmente, para auto-defesa individual) até aos que defendem a legalidade das mílicias armadas e que parece ser o sentido expresso da emenda, seja pelo texto, seja pelo contexto histórico na qual ela foi redigida (as mílicias armadas faziam parte da lei comum inglesa; a guerra contra o império não foi só uma guerra entre exércitos profissionais).

Napolitano argumenta que os genocídios são impostos a populações desarmadas incapazes de se defender. Apesar do facto de uma população desarmada não ser condição suficiente para o estabelecer de um despotismo genocida (podemos dar o exemplo de Portugal e muitos outros), parece ser condição necessária dado não haver, pelo menos no século XX, um único caso de genocídio contra uma população armada. Ele refere exemplos de desarmamento como na República do Weimar (pré-Hitler), no Cambodja (pré-Khmer Vermelhos), na Turquia (antes do assassinato em massa contra os Arménios) como políticas planeadas para permitirem, a seguir, situações genocidas.

É um facto que o excesso de armas pela população resulta em muitas mortes desnecessárias (discussões acaloradas entre vizinhos, respostas e contra-respostas a assaltos, etc.). Por outro lado, quando se criminaliza o uso das armas, apenas os criminos andam armados. É verdade que nos estados democráticos actuais, é muito difícil uma derrapagem para uma ditadura. Mas o futuro concreto não é previsível. Quando olhamos para o passado, parece-nos mais evidente que os déspotas tenham tomado o poder porque escolhemos, de uma míriade de eventos, aqueles mais relevantes à situação que efectivamente aconteceu. Mas esquecemo-nos do oceano de factos que, à posteriori, se tornaram irrelevantes mas que, no momento, tinham tanto potencial para ocorrer como quaisquer outros. É impossível destrinçar o futuro no meio desse ruído. E, se chegados a uma situação irremediável, não haverá tempo para preparativos atempados, como armar a população. Apenas se poderá usar o que foi planeado e cumprindo em tempos de paz, quando nada fazia intuir que seriam realmente necessários.

abril 30, 2009

Acordar

Leio muito sobre a Segunda Guerra. Livros gerais, biografias, romances, diários, muito sobre a chaga humana do Holocausto. Mesmo agora, das últimos três livros comprados, dois são sobre o assunto. Este teimar no tema vem de onde? Talvez seja apenas o meu gosto pela história em geral (também leio sobre o Império Romano, sobre as Cruzadas...), ou o meu esforço individual para combater o esquecimento que vai caindo sobre a última geração que ainda viveu aquela terrível época. Talvez seja o desejo infantil de querer, pela força da leitura, que cinquenta milhões de pessoas possam ainda viver a plenitude das suas vidas arrancadas, que se torne só um terrível sonho que finalmente acaba.

dezembro 29, 2008

Simbiose

Cada sociedade humana é o resultado de um acumular incontável de trocas entre humanos e sociedades, vizinhos e estrangeiros, limitada pela geografia e pelos compromissos e tradições do passado, pela biologia e psicologia do homo sapiens. Entre cada sociedade e os seus cidadãos há algo mais profundo que o implícito contrato social e os direitos reconhecidos, há uma simbiose. Sem sociedade não haveriam pessoas, sem pessoas não haveria sociedades com linguagem, arte, ciência ou história. Alguém que sobreviva à sua cultura (como os que se salvaram de um genocídio, nas implosões civilizacionais ou mesmo os últimos falantes de uma língua) tornam-se, pouco a pouco, num incómodo para os outros, um terrível aviso de outra forma de morte.

dezembro 11, 2008

Um Holocausto (quase) esquecido

No meio de um dos episódios da "Grande Guerra" da BBC é referido o genocídio do Congo Belga pela mão responsável do Rei Leopoldo II da Bélgica. O número de mortos descrito nesse episódio era na ordem dos milhões. Quando ouvi este número (milhões, seja um, seja dez, são milhões) tive dificuldade em acreditar que uma nação neutral durante a maior parte do século XX, e vítima consecutiva das duas guerras europeias, fosse capaz de tal coisa. Este é um Holocausto da dimensão sofrida pelos Judeus, Ciganos e outros às mãos do Nazis. Diversas fontes referem dez milhões de mortos e que, após o assassinato concertado de populações inteiras durante cerca de vinte anos (acompanhadas por violações sistemáticas, de amputações de mãos como prova de morte), reduziu a metade a população do Zaire! Uma das primeiras obras que descreve este monstruoso acto é de 1909 pela mão de Conan Doyle e pode ser lido aqui. Outra referência encontra-se no livro "Heart of Darkness" de Joseph Conrad cujos horrores descritos se baseiam nestes acontecimentos. Outra coisa que espanta e revolta é o silêncio à volta deste evento. Até à publicação do livro King Leopold's Ghost de Adam Hochschildem (em1998) e que vendeu centenas de milhares de cópias [1, 2], não havia sequer um debate na Bélgica quanto mais um assumir de responsabilidade histórica pelo sucedido (há, de 2006, um documentário norte-americano sobre este período). O sucesso do livro provocou a ira de vários historiadores belgas que, em 2002, decidiram estudar o assunto (!). No museu belga Royal Museum for Central Africa (Tervuren Museum) não havia qualquer indicação para o genocídio [3]. Como não encontrei nada sobre a conclusão dos tais historiadores ofendidos, não faço ideia se já mudaram alguma coisa neste caso patológico de amnésia colectiva (o parlamento britânico também não). Tanto quanto sei, a história belga continua a ter em grande consideração o seu Rei Leopoldo II.

julho 13, 2004

Geração

Decidi procurar na Internet informação sobre massacres a civis pós-Holocausto. Sabia que haveria muitos mas não sabia que eram tantos. Deixo aqui uma lista - certamente incompleta - dos eventos que produziram a morte a mais de dez mil civis. Os números desta lista são aproximações muito grosseiras (e não necessariamente fiáveis) dos verdadeiros números que, por sua vez, são aproximações grosseiras da realidade das vidas que se perderam. Sinceramente não sei se o pior da tragédia é o mal que provoca ou a indiferença que gera.

Bolívia 1955-67 Conflito com a Guerrilha 200,000 mortos civis
Chile 1974 Execuções da Junta Militar 20,000 mortos civis
Colômbia 1949-62 Liberais vs. Conservadores 200,000 mortos civis
Colômbia 1970s-90s Governo vs. Guerrilha Comunista 120,000 mortos civis
Guatemala 1966-89 Governo vs. URNG 100,000 mortos civis
Nicarágua 1978-79 Guerra Civil 40,000 mortos civis
Peru 1981-89 Sendero Luminoso 20,000 mortos civis
Peru 19?? Comissão da Paz e Reconciliação 60,000 mortos civis
Egipto/Israel 1967-70 Guerra dos Seis Dias e pós-guerra 50,000 mortos civis
Síria 1981 Massacre pelo Governo da Irmandade islâmica de Hamah 10,000 mortos civis
Turquia 1984-89 Governo vs. Partido Trabalhista Curdo 10,000 mortos civis
Bangladesh 1971 Guerra civil, intervenção Indiana 1,000,000 mortos civis
Iraque 1960s-1980s Massacre dos Curdos 100,000 mortos civis
Iraque 1991 Guerra com EUA 100,000 mortos civis(?)
Iraque 2003/4 Guerra com EUA 10,000 mortos civis
Guerra Irão/Iraque 1980s 1,000,000 mortos civis
Índia 1946-48 Processo de Partição 800,000 mortos civis
Índia 1965 Índia vs. Paquistão 13,000 mortos civis
Afeganistão 1980s,90s Guerras continuas 1,000,000 mortos civis
Tadjiquistão 1992 Guerra Civil 60,000 mortos civis
Tchechénia 1990s Conflito com Rússia 30,000 mortos civis
Camboja 1975-78 Governo de Pol Pot 2,000,000 mortos civis
Camboja 1978-90 Invasão Vietname e guerra civil 20,000 mortos civis
China 1946-50 Guerra civil 5,000,000 mortos civis
China 1949-54 Reforma Agrária 4,500,000 mortos civis
China 1949-54 Supressão da contra-revolução 3,000,000 mortos civis
China 1965-75 Revolução Cultural 1,613,000 mortos civis
Indonésia 1965-66 Massacres relacionados com golpe de estado 500,000 mortos civis
Indonésia 1975-89 Anexação de Timor Leste 90,000 mortos civis
Sri Lanka 19??-hoje Conflito governo - Tigres Tamil 50,000 mortos civis
Coreias 1950-53 Guerra da Coreia 3,000,000 mortos civis
Laos 1960-73 Guerra Civil, conflito com Indónesia 12,000 mortos civis
Laos 1975-87 Governo vs Frente Libertação Nacional 30,000 mortos civis
Filipinas 1972-87 Governo vs. Movimento Muçulmano (MNLF, MILF) 20,000 mortos civis
Vietname 1945-54 Guerra da Independência com França 300,000 mortos civis
Vietname 1960-75 Guerra com EUA 1,200,000 mortos civis
Angola 1961-75 Guerra da Independência com Portugal 300,000 mortos civis
Angola 1980-88 Guerra civil 500,000 mortos civis
Algéria 1992-2002 Governo vs. FIS e GIA 100,000 mortos civis
Burundi 1972 Hutus vs. Governo 80,000 mortos civis
Burundi 1988 Hutus vs. Governo 200,000 mortos civis
Nigéria 1967-70 Guerra Civil 1,000,000 mortos civis
Ruanda 1956-65 Tutsis vs. Governo 102,000 mortos civis
Ruanda 1995 Hutu vs Tutsi 1,050,000 mortos civis
Somália 1990-93 Guerra civil 250,000 mortos civis
Sudão 1955-hoje Guerra Civil 1,900,000 mortos civis
Uganda 1971-78 Massacres Idi Amin 300,000 mortos civis
Uganda 1981-85 Massacres Governo Obote 300,000 mortos civis
Uganda 1981-89 Resistência Nacional vs. Governo 100,000 mortos civis
Congo 1960-64 Conflito de Independência(?) 100,000 mortos civis
Congo 1998-hoje Guerra civil 3,000,000 mortos civis
Jugoslávia 1990s Guerra civil 300,000 mortos civis

Principais fontes: [1,2]