Novembro 12, 2009

As Regras do Jogo

O Dr. Spleen examina, ponto a ponto, as regras que dele os outros estimam que respeite. Desde a infância que o seu corpo (esse inevitável que não encontrou forma de se abster) o força às pulsões do animal que o encerra, aos padrões visíveis na projecção do mundo, ao imitar o normal dos outros, à atracção para o centro de gravidade que a maioria receia se afastar. Depois, as normas, escritas ou implícitas, da sociedade, essa fronteira que rejeita e castiga que não lha obedece ou pertence por direito ou decreto. Também aqui uma força normalizadora, uma imensa fábrica de robots - infectados pelo vírus de uma consciência negociada - ocupada a fazer mais robots. Por fim, as leis de Física, da Química, do que faz os quarks à gravidade. Excepto por estas últimas e pelo aceitar da linguagem (esta, uma derrota que admite) Spleen não segue nem respeita mais nenhuma regra. E nessa distância aos outros, um encenar, seu, de gestos, decisões e ideias, quase todas perturbantes pela ausência do uniforme cheiro dessa besta que é o normal. E nessa distância, uma arma.

Novembro 09, 2009

Antropologia

[entrevista à Ípsilon, 9 Setembro de 2009]

Gustavo Rubim: O que o interessa naquilo que os antropólogos portugueses fazem hoje? E o que é que não suporta?

Filipe Verde: Vou ser franco: salvo algumas excepções, quase nada. E o que não suporto é muito, e não é específico da antropologia feita em Portugal, que não é diferente da que se faz fora de Portugal. Não suporto a mediocridade das questões, a insignificância e irrelevância dos objectos da sua curiosidade, a falta de cultura científica e o facilitismo relativista da maioria dos praticantes, que são uma espécie de aplicadores burocráticos do que decidiram considerar como uma "metodologia" ou um "olhar". E depois há a assimilação auto-congratulatória da forma contemporânea do preconceito: o politicamente correcto, de que muitas vezes querem tirar dividendos e autoridade política. E contudo a antropologia é talvez (para mim de certeza, e a par da história) a mais interessante das ciências do Homem, com um legado de valor inestimável para a tradição humanística.


Novembro 05, 2009

Escolhas

O comportamento inato que me inicia, com os anos acumulados de experiência e aprendizagem, é a semente que me faz cidadão desta sociedade e membro da minha cultura, é o começo desse caminho percorrido que chamamos pessoa e que, em cada instante, designamos por eu. Outra cultura, outro século, e o mesmo início dirigir-se-ia para outro lado, num outro processo, construindo um outro diferente que eu não reconheceria. Cada pessoa não é um caminho de escolhas, mas a deriva possível e inevitável nessa maré que é o ponto de Mundo onde nascemos.

Novembro 03, 2009

Atalhos

Há na Geometria um caminho mais curto que os Elementos? - Ptolomeu
Não há um caminho dourado para a Geometria - Euclides

Uma regra do ensino avisa que o uso de analogias só nos leva até certo ponto. A partir daí é necessário trabalhar arduamente para conquistar a compreensão. Mas, por outro lado, não é todo o nosso discurso metafórico? Se tentar sair de uma analogia, como não entrar noutra? Na religião esse salto costuma ser dado pelo caminho da heresia. Na Ciência pelos acrescentos ou pelas mudanças de modelos, de paradigmas (o que, para alguns, também são heresias). O novo local onde se chega, porém, é também ele uma analogia, talvez mais útil, completa, funcional, lógica, ética ou até emocionalmente mais adequada. Terminando com mais uma analogia, o trabalho árduo é o de conseguir sair de uma ilha de conhecimento à descoberta de uma melhor, para aí permanecer. Não o é negar o Oceano.

Outubro 31, 2009

Critérios

Escolher, entre dois candidatos, o mais inteligente e capaz, não é um critério óptimo para escolher a melhor pessoa para um trabalho. Interessa saber o quão de esforço - em tempo, na seriedade mental, no cuidado - cada candidato irá aplicar às decisões em causa.

Outubro 29, 2009

Deus ex Machina

Na literatura, o termo deus ex machina refere-se a um subterfúgio narrativo que introduz um ente ou uma força mágica para resolver um ponto do enredo cuja resolução (supõe-se) ultrapassou a capacidade explicativa do escritor. É vista como uma forma inferior porque é uma espécie de batota, um engano ao leitor que espera uma resolução coerente de acordo com as premissas iniciais da história (onde devem ser introduzidas todas as componentes mágicas/tecnológicas necessárias ao contexto).

Na última década, com a consolidação da internet e a generalização dos computadores pessoais, começou a ser usado de forma intensiva na produção de filmes e séries de televisão. Agora existem Oráculos, personagens cujo conhecimento técnico permite consultar um estranho media que é a Internet Omnisciente, um 1984 digital de milhões de bases de dados cruzadas capazes de intersectar os actos individuais diários mais banais. Estes dois conceitos são caricaturas da realidade: nem há hackers oraculares, que formariam uma estranha espécie de computadores orgânicos, nem há expectativa de existir um dia capacidade computacional para armazenar digitalmente a evolução social nas suas quase infinitas interacções. Séries como Criminal Minds, os diversos CSI - que ainda têm a ajuda de uma química bem comportada, sem margens de erro, e de distinções bem delimitadas ("este tipo de X só existe na zona Y") - usam e abusam deste esquema narrativo para resolver problemas que a preguiça dos argumentistas não foi capaz de solucionar.

Outubro 26, 2009

Eu

Um jantar com dois casais, cada um com um filho. Seis pessoas a partilhar uma refeição. Quantos «eus» estarão ali? Para lá da resposta óbvia, gostaria de argumentar que depende do crivo, que a definição do eu é instrumental, um mecanismo de separação e identificação social a que nos habituámos e ao qual transformámos em definição. Se olharmos mais perto para o processo cognitivo, surge-nos uma imagem paradoxal, de um certo prisma parecem ser mais de seis, de outro menos.

Porquê mais que seis? Cada um de nós possui diferentes personas consoante as situações a que, voluntariamente ou não, nos sujeitamos. É trivial que nos comportamos de forma distinta quando no emprego, em casa, nas reuniões familiares, nos transportes públicos, perante uma situação de violência, na guerra. Mas, aparte dessas diferenças, onde se encontra esse verdadeiro eu? Quando estamos com quem nos é mais íntimo? Quando sozinhos? Mesmo nessas situações continuamos a restringir-nos perante o que interiorizamos poder e o que desejamos fazer (seja por força de normas sociais, seja por auto-preservação, seja pelo necessário compromisso que existe mesmo entre aqueles que nos são mais próximos). Onde se encontra esse eu? Talvez a noção de eu seja apenas a ilusão dessa sequência de diferentes representações, um palco que, de outro modo, sem sociedade, sem outros palcos para interagir, sem máscaras para contrapor às nossas máscaras, estaria vazio e não teria sentido. Como um espelho sem nada para reflectir.

Porquê menos que seis? Existem evidências obtidas pela psicologia experimental que o cérebro não reconhece uma fronteira fixa ao que associamos como corpo. Quando fazemos aproximar um objecto da mão de uma pessoa é activado um conjunto de processos neuronais que terão a ver com mecanismos de defesa, de atenção entre outros. Mas, se por exemplo, essa mesma pessoa segurar uma bengala e fizermos aproximar o anterior objecto da bengala, os mesmos processos são activados. O cérebro estende a noção do seu corpo às respectiva extensões (seja uma bengala, seja o carro que guiamos, etc.). Assim, a noção que a nossa mente tem do corpo é mais restrita, menos dinâmica, do que aquela que o nosso cérebro possui. Se esta extensão automática ocorre perante objectos, mais facilmente será vísivel quando seguramos a mão de um filho, de alguém que amamos. Nessa situação, o nosso corpo (cognitivamente, mesmo que não o assumamos mentalmente) estende-se a mais do que uma pessoa. Se interiozarmos isto, se considerarmos e aceitarmos racionalmente esta ligação, o toque, o segurar da mão, o abraço que damos, a ligação física da mãe desde a gravidez à amamentação, podem tornar-se apenas uma faceta dessa ligação. A geografia não é relevante para a associação entre aqueles a que emocionalmente nos sentimos chegados, como é o exemplo mais forte da família e, normalmente em menor grau, dos amigos próximos. Nesta perspectiva, a noção de pessoa, o átomo social, deixa de ser sinónimo do eu, que, mais que uma invariante psicológica, torna-se uma estrutura relacional, uma rede afectiva. Assim, nessa sala, durante o jantar, haja apenas um eu, talvez fugaz, mas por todos partilhado.

Outubro 22, 2009

Ferramenta

Se fosse possível repetir com total exactidão, i.e., o mesmo mundo mental e externo, uma qualquer situação do passado em que tomamos uma decisão, que hipótese haveria na segunda vez em tomar uma decisão diferente? A resposta a esta experiência mental só pode ser uma: não haveria qualquer hipótese de tomar uma outra decisão. A resposta contrária teria de se justificar indicando que diferença seria essa, se todo o mundo fosse igual, e essa diferença teria de reintroduzir algum tipo de dualismo (um espírito, uma alma, algo imaterial, não físico) ou um evento totalmente aleatório (e.g., algo quântico). Nem um nem outro são respostas satisfatórias do ponto de vista do livre-arbítrio pessoal (sendo que o dualismo é um preço demasiado alto). Como o conceito de deus foi importante para a dinâmica das sociedade antigas, o livre-arbítrio é-o nesta sociedade baseada na justiça e na responsabilidade. Mas um conceito não precisa de existência concreta para se mostrar relevante.

Outubro 19, 2009

Import / Export

As nossas acções, se suficientemente iteradas, são automatizadas pelo cérebro obtendo, assim, uma certa independência. A experiência é uma interiorização, um libertar de recursos, uma opção ganha para desviar a atenção para o que é novo, potencialmente perigoso ou desejável. A juntar ao que o cérebro controla desde o nascimento (o bater do coração, por exemplo) programamos, ao longo da vida, as mais diversas rotinas (como comer, tomar banho, guiar, fazer sexo). Cada automatismo é uma cedência do eu ao seu corpo, um perder dessa trajectória difusa que é a personalidade em detrimento da comunidade multi-celular que a sustenta. Pode-se ver nisso uma ameaça. Pode olhar-se como uma homenagem. Do eu mental que os outros próximos partilham ao robot físico que a sociedade precisa, usa e reconhece.

Outubro 14, 2009

Mísero rimar aos media

Gritar o rumor sem sentido de humor.
Fixar a histeria no assunto do dia.
Os factos são caros, cada opinião um tostão.
Sem cérebro a pensar dói menos falar.

Outubro 12, 2009

Pastoreio

Ser antílope é menos exigente do que viver-se leopardo. Vai-se com o grupo, repete-se quase tudo e pensa-se quase nada. A comida, essa, é muita. Já para o felino é uma chatice: o isolamento de ser raro, a pressão do futuro imediato, a exigência sempre intensa da caça. Porém, dorme-se descansado. Homenagem ao FLV do Mar Salgado e autor do livro "Amor e Ódio"

Outubro 09, 2009

Direito à defesa

"A well regulated Militia, being necessary to the security of a free State, the right of the people to keep and bear Arms, shall not be infringed." 2ª emenda da Constituição America

O livro Constitutional Chaos, do juiz americano Andrew Napolitano, aborda os hábitos inconstitucionais do poder judicial, da polícia e do Estado Federal. Achei o conteúdo dos capítulos um pouco desiquilibrado mas, no capítulo quatro, é apresentado um argumento a favor do porte e uso individual de arma que me pareceu interessante (e eu até defendo a opinião webberiana de ser o Estado a controlar os meios de violência). O direito constitucional expresso na 2ª emenda tem várias interpretações, variando entre aqueles que defendem ser esse direito expresso no ramo militar como um todo (e, eventualmente, para auto-defesa individual) até aos que defendem a legalidade das mílicias armadas e que parece ser o sentido expresso da emenda, seja pelo texto, seja pelo contexto histórico na qual ela foi redigida (as mílicias armadas faziam parte da lei comum inglesa; a guerra contra o império não foi só uma guerra entre exércitos profissionais).

Napolitano argumenta que os genocídios são impostos a populações desarmadas incapazes de se defender. Apesar do facto de uma população desarmada não ser condição suficiente para o estabelecer de um despotismo genocida (podemos dar o exemplo de Portugal e muitos outros), parece ser condição necessária dado não haver, pelo menos no século XX, um único caso de genocídio contra uma população armada. Ele refere exemplos de desarmamento como na República do Weimar (pré-Hitler), no Cambodja (pré-Khmer Vermelhos), na Turquia (antes do assassinato em massa contra os Arménios) como políticas planeadas para permitirem, a seguir, situações genocidas.

É um facto que o excesso de armas pela população resulta em muitas mortes desnecessárias (discussões acaloradas entre vizinhos, respostas e contra-respostas a assaltos, etc.). Por outro lado, quando se criminaliza o uso das armas, apenas os criminos andam armados. É verdade que nos estados democráticos actuais, é muito difícil uma derrapagem para uma ditadura. Mas o futuro concreto não é previsível. Quando olhamos para o passado, parece-nos mais evidente que os déspotas tenham tomado o poder porque escolhemos, de uma míriade de eventos, aqueles mais relevantes à situação que efectivamente aconteceu. Mas esquecemo-nos do oceano de factos que, à posteriori, se tornaram irrelevantes mas que, no momento, tinham tanto potencial para ocorrer como quaisquer outros. É impossível destrinçar o futuro no meio desse ruído. E, se chegados a uma situação irremediável, não haverá tempo para preparativos atempados, como armar a população. Apenas se poderá usar o que foi planeado e cumprindo em tempos de paz, quando nada fazia intuir que seriam realmente necessários.

Outubro 06, 2009

Candidaturas

Se a tolerância fosse o aceitar acrítico de qualquer crença, nada nela a distinguiria da indiferença. Assim, havendo algo que a tolerância não aceita, porque não procurar por candidatos nas crenças intolerantes?

Outubro 01, 2009

Imposição


Setembro 29, 2009

Definições e Limites

A maioria define a normalidade e, por arrasto, os seus extremos, como a loucura ou o génio. Mas, por maior que seja, nem sempre decide bem, nem sempre age correctamente, não é dela o domínio da verdade.

Setembro 25, 2009

Lances

O sistema judicial não é sinónimo da Justiça, nem sequer é uma instância desse ideal impossível. Este sistema, a que por coerção social nos sujeitamos, é um jogo. Um jogo com regras muito complexas, mutáveis (teria sempre de o ser, nos seus detalhes, para espelhar a dinâmica do mundo) e construídas, maioritariamente, por pessoas que dela precisam para o seu sustento financeiro (advogados, juízes, juristas...). Dirão que as regras têm de ser definidas por especialistas, o que faz sentido. Mas pensaria o leigo, tendo em consideração que o Direito é uma venerável disciplina milenar, que o resultado disso seriam leis estáveis, coerentes, legíveis e pouco ambíguas. Mas o resultado, não raras vezes, é tudo menos isso. Quem não versado nas leis, ao tentar ler um decreto que lhe interesse, depara-se com um texto denso, quase impenetrável. Um texto que foge a uma interpretação concreta, que dê uma explicação simples sem exigir uma travessia labiríntica, por outros decretos, numa causalidade sem fim aparente e que derrota o leitor deixando-o desamparado. Serão as regras deste jogo necessariamente tão complexas ao ponto de ninguém externo ao mundo legal as possa entender sem ajuda desse mesmo mundo legal? Quando um conjunto de pessoas detém a feitura das regras do jogo que depois o usa para ganhar dinheiro e estatuto, há uma pressão, uma tentação fundamental, de tornar a sua própria presença inevitável. Isso seria, só por si, muito pouco ético. Mas receio que seja pior. O palimpsesto legal é tão imenso que é capaz de suportar vários níveis de especialistas. É tão fragmentado e complexo que existem sempre refúgios e saídas, excepções de excepções de excepções que tornam, para quem tenha a mestria necessária, até o mais óbvio numa embrulhada legal que aborta qualquer conclusão rápida ou mesmo, ao limite, qualquer conclusão justa. Imagino um advogado como um jogador de um xadrez barroco, com milhares de regras e ressalvas, a tentar ganhar, com lealdade, a partida ao seu cliente. Só que a qualidade do jogador que o cliente é capaz de contratar para a sua defesa é proporcional à sua capacidade financeira. Nem todos podem contratar grandes mestres de xadrez. Assim, qualquer caso, por mais injusto que seja, por mais culpa que um dos litigantes tenha, por mais desvantagem inicial que possua, é, em última análise, a qualidade do jogador que determina o resultado da partida. Só que o resultado da partida deveria ter mais a ver com essa difícil, mas irredutível coisa, que é a realidade do que aconteceu.

Setembro 22, 2009

Axiomas e Dogmas

Qualquer ideologia - qualquer sistema de olhar para o mundo com uma certa finalidade - que se baseie num ou outro livro «sagrado» (seja uma Biblia, seja um Capital) padece do mal da heresia. Ao dogmatizar as milhares de frases do livro que a criou, dá demasiada importância à interpretação das mesmas, tornando essa interpretação uma ferramenta de poder. Qualquer divergência, qualquer desviar do dogma consensual, é um desafio e uma ameaça, um canal aberto por onde as massas podem desaguar e que deve ser fechado pelos meios que esse poder dispõe. Um pequeno conjunto de axiomas simples necessita de um esforço continuo de argumentação racional para acompanhar e vigiar uma dinâmica de sociedade. Já uma imensa lista arbitrária e incoerente de preceitos apenas se sustenta através da força opaca do acreditar.

Setembro 19, 2009

Evidência e Lógica Precisam-se

Setembro 17, 2009

Domínio

"Uma das estratégias dos regimes totalitários é terem regulamentos legais (leis criminais) tão severos que, se tomados literalmente, todos seriam culpados de alguma coisa. Mas então a aplicação total da lei é revertida. Desta forma, o sistema parece misericordioso: "Veja, se nós quiséssemos, poderíamos prendê-los e condená-los, mas não tenham medo, nós somos indulgentes..." Ao mesmo tempo, o regime mantém a permanente ameaça de disciplinar os seus cidadãos. Na antiga Jugoslávia havia o infame artigo 133 do código penal que podia sempre ser invocado para perseguir escritores e jornalistas. Ele criminalizava qualquer texto que falsamente apresentasse os progressos da revolução socialista ou que pudesse causar tensão ou descontentamento na população pela forma como lidava com questões políticas, sociais ou outras. A última categoria não só é infinitamente elástica como, convenientemente, auto-referente: o próprio facto de se ser acusado por aqueles no poder não é, em si, prova que se provocou tensão ou descontentamento na população? [...] Temos aqui uma sobreposição de uma potencial culpabilidade (qualquer acção pode ser um crime) e misericórdia (o facto de se viver livre não é consequência de se ser inocente, mas sim da benevolência de quem está no poder). Isto é uma evidência que os regimes totalitários são, por definição, regimes de misericórdia: eles toleram violações da lei porque, na forma como modelam a vida social, essa violação bem como os subornos e a batota tornaram-se condições de sobrevivência." Slavoj Zizek, Violence

Setembro 14, 2009

Religião Aplicada

A fé é o inverso da razão, a sua némesis. Nenhum dos seus frutos pode resultar em algo útil para a humanidade. Seria possível imaginar uma religião sem fé se os deuses existissem, se estes deixassem, no mundo, marcas profundas e suficientes padrões para que, após um período de adaptação, um conjunto de ritos os permitissem aplacar. Seria um exemplo de religião aplicada, uma versão científica para lidar com superforças naturais e conscientes. Mas os deuses não existem e, assim, as religiões têm de se basear em asserções de fé, na crença inane que sai tanto mais fortalecida quanto menor for a evidência apresentada a seu favor pela realidade.

Setembro 11, 2009

Finalmente

2009 has been a year of deep reflection - a chance for Britain, as a nation, to commemorate the profound debts we owe to those who came before. A unique combination of anniversaries and events have stirred in us that sense of pride and gratitude which characterise the British experience. Earlier this year I stood with Presidents Sarkozy and Obama to honour the service and the sacrifice of the heroes who stormed the beaches of Normandy 65 years ago. And just last week, we marked the 70 years which have passed since the British government declared its willingness to take up arms against Fascism and declared the outbreak of World War Two. So I am both pleased and proud that, thanks to a coalition of computer scientists, historians and LGBT activists, we have this year a chance to mark and celebrate another contribution to Britain’s fight against the darkness of dictatorship; that of code-breaker Alan Turing.

Turing was a quite brilliant mathematician, most famous for his work on breaking the German Enigma codes. It is no exaggeration to say that, without his outstanding contribution, the history of World War Two could well have been very different. He truly was one of those individuals we can point to whose unique contribution helped to turn the tide of war. The debt of gratitude he is owed makes it all the more horrifying, therefore, that he was treated so inhumanely. In 1952, he was convicted of ‘gross indecency’ - in effect, tried for being gay. His sentence - and he was faced with the miserable choice of this or prison - was chemical castration by a series of injections of female hormones. He took his own life just two years later.

Thousands of people have come together to demand justice for Alan Turing and recognition of the appalling way he was treated. While Turing was dealt with under the law of the time and we can’t put the clock back, his treatment was of course utterly unfair and I am pleased to have the chance to say how deeply sorry I and we all are for what happened to him. Alan and the many thousands of other gay men who were convicted as he was convicted under homophobic laws were treated terribly. Over the years millions more lived in fear of conviction.

I am proud that those days are gone and that in the last 12 years this government has done so much to make life fairer and more equal for our LGBT community. This recognition of Alan’s status as one of Britain’s most famous victims of homophobia is another step towards equality and long overdue.

But even more than that, Alan deserves recognition for his contribution to humankind. For those of us born after 1945, into a Europe which is united, democratic and at peace, it is hard to imagine that our continent was once the theatre of mankind’s darkest hour. It is difficult to believe that in living memory, people could become so consumed by hate - by anti-Semitism, by homophobia, by xenophobia and other murderous prejudices - that the gas chambers and crematoria became a piece of the European landscape as surely as the galleries and universities and concert halls which had marked out the European civilisation for hundreds of years. It is thanks to men and women who were totally committed to fighting fascism, people like Alan Turing, that the horrors of the Holocaust and of total war are part of Europe’s history and not Europe’s present.

So on behalf of the British government, and all those who live freely thanks to Alan’s work I am very proud to say: we’re sorry, you deserved so much better.

Gordon Brown

Setembro 09, 2009

Espaço de Manobra

Santo Agostinho defendeu que um milagre não é uma violação das leis naturais mas sim uma violação do nosso entendimento das leis naturais. Deste modo, há uma restrição aos poderes do deus de Agostinho, pois as suas acções são restritas pelas próprias leis que definiu. Esta interpretação, porém, não diz tudo. De facto, quando ocorre um milagre, i.e., um evento tão raro ou complexo que nos surpreende ou intimida, é dada à humanidade uma oportunidade para aprofundar e aperfeiçoar o seu entendimento sobre a natureza. A nossa ignorância sobre os mecanismos do Universo é uma ignorância natural e não sobrenatural. O sobrenatural mostra-se, aliás, um conceito vazio - no que diz respeito ao Universo - pois nada do que vai contra as leis naturais é nele possível. Se a nossa ignorância estiver reduzida a um ponto em que os eventos milagrosos se tornam tão extremos que deixam de ter impacto na nossa vivência diária (como é o nosso caso, onde as fronteiras se desenham já no profundo do micro e do macrocosmos) os milagres deixam, pura e simplesmente, de ocorrer. Deus, o agente de acções milagrosas cuja falta de evidência nunca o permitiram ser mais que uma hipótese, vê, deste modo, retirado o seu espaço de manobra e é tornado irrelevante no mundo físico (poderá dizer-se que ainda sobra espaço no plano moral, mas aí é uma outra batalha, tendo de competir com a poderosa força da razão ética). Restaria apenas ser sinónimo do desconhecido se não fossem tantos os equívocos que na sua palavra se acumulam.

Julho 18, 2009

Absolutamente

Kant sistematizou uma ponte entre razão e moral. Ao fazê-lo, fundou-as no absoluto sem restrições dos deveres, regras e do imperativo categórico. Mas, tanto nas leis como na argumentação, há um acumular de prioridades que estabelecem excepções umas às outras, e cujo grau de prioridade depende, em última análise, do subtil de cada caso concreto. Não nos escapamos à constante fricção do presente com um bem pensado conjunto de regras. É preciso a sua constante invocação, interacção, aplicação e revisão para conseguirmos chegar ao fim do dia sem a consciência muito pesada.

Julho 14, 2009

Prioridades

"The reason that we spend more [on healthcare] than our grandparents did is not waste, fraud and abuse, but advances in medical technology and growth in incomes. Science has consistently found new ways to extend and improve our lives. Wonderful as they are, they do not come cheap. Fortunately, our incomes are growing, and it makes sense to spend this growing prosperity on better health." Greg Mankin

Julho 13, 2009

Agência

Entre a norma e a descrição, entre o desejo e o facto, entre o que devia ser e o que é, uma luta incessante entre nós, os outros e a realidade. Sempre fácil a separação binária, dois lados a fazerem-se opostos: a autoridade e a autonomia, a cooperação e o egoísmo, a igualdade e a liberdade, esquerda e direita. Olhamo-nos como pontos numa linha recta, projectando e comprimindo, com excessiva simplicidade, as matizes que em cada um nos destingue. Mas como evitar as fronteiras? Mesmo que multipliquemos essa linha sobre novos planos ortogonais, mesmo que o número de dimensões seja suficiente para satisfazer a nossa sede de complexidade, mesmo considerando o nevoeiro que sempre a esbate, ainda que por nós seja traçada, como evitar a classificação que se impõe, quando o tempo acaba e é necessário escolher um lado, responsabilizar uma acção, decidir?

Julho 06, 2009

Três E's

Para muitos dos problemas actuais há três áreas do saber fulcrais para sermos capazes de analisar as informações que nos estão disponíveis e formar uma opinião crítica. Elas são a Estatística, a Economia e a Ética. Vejamos brevemente cada uma. A matemática como é dada presentemente, depois da aritmética, geometria e álgebra, tem muito do seu tempo atribuído ao estudo das funções, dos limites e do contínuo, i.e., das bases da análise e do cálculo que, apesar da sua importância na tecnologia e em muitas ciências, não é relevante no dia-a-dia da maioria das pessoas e, deste modo, fornece argumentos à sua falta de utilidade prática. Porém, as noções de probabilidade, os defeitos e virtudes do aleatório e da informação incompleta, as estimativas e outros conceitos relacionados encontram-se diariamente nos jornais, na recolha e avaliação dos factos, nas decisões legais, médicas ou políticas. E sendo conceitos que os seres humanos têm dificuldade inata (estudada e documentada) em analisar e comparar, mais um motivo haveria para a sua relevância e urgência. Já a importância da Economia, numa sociedade complexa como a nossa, onde decisões ideológicas que sacrificam a razão económica só não são consideradas crime (nos cenários aquém da catástrofe explícita) pela nossa razoável ignorância nesta área. Mesmo que diferentes prioridades económicas sejam resultado de políticas igualmente defensáveis (por exemplo, investir mais na saúde do que na educação, ou vice versa), outras decisões há, populares, eleitoralistas, sectoriais, que são objectivamente prejudiciais à riqueza comum da sociedade, favorecendo poucos e prejudicando muitos. Somente uma população informada do ABC económico seria capaz de distinguir estes tipos de decisões e impedir políticas empobrecedoras que, deste modo, escapam ao escrutínio público. Finalmente, a Ética: aprender os fundamentos deste saber, analisar a sua história passada para melhor ver as limitações do presente, entender o quão relevante é a liberdade do outro e reflectir nos argumentos sobre a justiça, a igualdade política ou a dimensão e as restrições do estado. Tudo isto é essencial para esclarecer e justificar uma base às questões e problemas que se nos deparam como indivíduos, como elementos de maiorias e minorias, como sociedade. É uma coincidência todas começarem por E mas a Estatística, a Economia e a Ética possuem outra coisa em comum e esta não é por acaso: todas são exercícios racionais sobre recursos limitados. Também, nesse aspecto, são pontes importantes entre nós e a realidade que gerimos, dádivas a esse difícil de se ser adulto.

Julho 03, 2009

Rebordo

Considerar alternativas é um dos motes da inteligência. Argumentar decisões e crenças também. Na busca infinda da verdade - e nesse ideal de procura uma obtenção de sentido - colaboramos, aplicamos o que de nós é possível, oferecemos ou trocamos possibilidades, julgamos, gerimos probabilidades, factos, quase certezas. O Dr. Spleen vê neste processo (ideal, ainda assim, porque se sabe o quão ignóbeis, porque fáceis, são a estupidez e a ignorância) a virtude de uma rede, da ligação necessária entre iguais para combater o vazio gelado, o turbilhão que se encontra para lá da fronteira humana. Mas nessa rede também a ansiedade da diferença, o necessário reconhecer do abismo, desse caos sem significado, o deteriorar constante que provém de um inimigo sem olhos, sem vontade, uma maré apenas, só que imensa. Spleen não se espelha nessa rede nem sequer no infinito, que admite não ter capacidade de apreender, restando-lhe assim a fronteira. Nesse desenhar fluido, na geometria rendilhada, fractal, dessa linha, tem diariamente de encontrar espaço suficiente para estancar a dissipação, a evaporação do eu que, apesar de tudo, o define.

Julho 01, 2009

Mistura

Somos movidos por entre vagas de razões e emoções. Sem as primeiras seríamos um mover de causas e efeitos sem nada em nós, um sobrepor de tudo em todos. Sem as segundas apenas estátuas, redes lógicas infinitas mas incapazes de justificar um motivo, escolher uma palavra, mover um dedo.

Junho 29, 2009

Cocktail

O nosso cérebro tem uma enorme capacidade de procurar padrões. Ao mesmo tempo, há suficiente evidência científica que é comum ao ser humano acreditar e tomar acções de forma irracional (ler, por exemplo, Irrationality de Stuart Sutherland). Se juntarmos a isto a possibilidade de extrair padrões de mero ruído aleatório, i.e., sem ser resultado de uma regularidade mais profunda, temos uma mistura explosiva que possibilita as superstições, o pensamento mágico, o concretizar de uma qualquer imaginação.

Junho 25, 2009

Padrões e Combinatórios

As leis científicas são simplificações de certas regularidades, estando abertas a refutação ou reforço. A Ciência produz conhecimento sob a forma de leis científicas e, por isso e acima de tudo, é um método, ou família de métodos, uma forma de perceber e lidar com a realidade (e, assim, prever ou controlar eventos futuros). Porque somos irremediavelmente falíveis, parciais e preconceituosos, cada cientista deve adoptar uma posição de cepticismo e usar apenas a argumentação racional e a recolha sistemática de informação na construção de evidências, seja para criar, desmontar ou reforçar novas ou velhas reivindicações (certas leis recolhem tanta evidência a seu favor que se tornam, para além de qualquer dúvida razoável, factos, como a teoria heliocêntrica, a esfericidade da terra, a deriva dos continentes, ou a evolução das espécies). Há algo na Ciência que a torna para-pessoal: as leis científicas descrevem regularidades que, grosso modo, podem ser redescobertas por mais vezes que o conhecimento se perca (o mesmo se sucede na Matemática e, creio, na Filosofia). Isso não ocorre noutras áreas do saber humano como na Literatura, na Música, na Arte em geral, onde a combinatória permite uma infinidade de produtos que a cultura do momento permite e filtra - através dos seus tabus, desejos e superstições, dos resultados imprevisíveis de uma História contingente - e que uma miríade de acasos revela ou eclipsa.