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novembro 18, 2015
julho 01, 2009
Mistura
Somos movidos por entre vagas de razões e emoções. Sem as primeiras seríamos um mover de causas e efeitos sem nada em nós, um sobrepor de tudo em todos. Sem as segundas apenas estátuas, redes lógicas infinitas mas incapazes de justificar um motivo, escolher uma palavra, mover um dedo.
Por João Neto às 08:17 0 comentário(s)
dezembro 29, 2008
Simbiose
Cada sociedade humana é o resultado de um acumular incontável de trocas entre humanos e sociedades, vizinhos e estrangeiros, limitada pela geografia e pelos compromissos e tradições do passado, pela biologia e psicologia do homo sapiens. Entre cada sociedade e os seus cidadãos há algo mais profundo que o implícito contrato social e os direitos reconhecidos, há uma simbiose. Sem sociedade não haveriam pessoas, sem pessoas não haveria sociedades com linguagem, arte, ciência ou história. Alguém que sobreviva à sua cultura (como os que se salvaram de um genocídio, nas implosões civilizacionais ou mesmo os últimos falantes de uma língua) tornam-se, pouco a pouco, num incómodo para os outros, um terrível aviso de outra forma de morte.
Por João Neto às 14:36 3 comentário(s)
outubro 13, 2008
Tudo ou Nada
O analógico é vulnerável como o corpo: o tempo decompõe-no, desfigura-o num processo de erosão e envelhecimento. Essa transfiguração, porém, é contínua, suave, uma sequência de pequenas diferenças que perdem, pouco a pouco, a mensagem inicial, mas que no nevoeiro do ruído que o substitui sobra algo mais que sombra e ecos. No digital tudo se mantém estável, intocável, perene. Só que a dependência do contexto, dos formatos, de leitores específicos de uma complexidade crescente, criou um caminho sem saída. E tornar-se-á inimitável se, ou quando, um dia perdermos os algoritmos e essas máquinas que os evocam.
Por João Neto às 20:47 1 comentário(s)
junho 28, 2008
Fim
O tempo necessário para garantir uma sociedade estável (o trabalho, a burocracia, a casa, o crescer dos filhos) torna-nos máquinas. O nosso corpo e mente não se adequam nessa mecânica imposta, nessa igualdade que nos força a ser eco de carimbo, uma emanação bem formatada do Normal. E nesse passar de anos, tijolo a tijolo, de compromisso em compromisso, numa arquitectura cada vez mais elaborada e sólida de responsabilidades, construímos as nossas confortáveis prisões. Por vezes esse tempo é tão vasto, essa prisão tão barroca, que nos esvaziam totalmente. Fica apenas a aparência de alguém diferente, o fantasma seco de uma possibilidade passada.
Por João Neto às 10:13 0 comentário(s)
maio 23, 2008
Dupla Via
O passado e o futuro são os dois sentidos dessa fluída trajectória que é uma pessoa. Quando fazemos planos para o futuro, quando nos sacrificamos agora para aproveitar depois, estamos a tirar de quem somos para dar a alguém que poderá ser muito diferente, a alguém que nos possa desiludir e cuja distância não se meça apenas na partilha de um mesmo ADN, nome e número fiscal. Mas fazê-mo-lo porque é esta a diplomacia possível, a doce e necessária ilusão deste querer de constância, deste achar-nos perenes, invariantes, no percurso a que chamamos vida. Já olhar para o passado, exercitar nele a nostalgia, gozar emoções, gestos, memórias perdidas, é uma homenagem, um reconhecer agradecido à difusa sequência de ténues estranhos que tiveram a amabilidade, que correram o risco, de nos trazer aqui.
Por João Neto às 16:34 0 comentário(s)
abril 16, 2008
Retrato
Um regulamento moral é um conjunto de preceitos derivados de uma tradição e mantidos por uma classe profissional de sacerdotes. Esse regulamento, que cria a rede de crenças e que mantém essa classe, é uma burocracia ética cuja própria mudança é sempre mais lenta que as mutações inevitáveis da sociedade. O ónus dessa diferença crescente, entre o que era suposto no passado e no presente, recai, fora esporádicas e imprevisíveis revoluções, na população que alimenta o sacerdócio. O objectivo de uma burocracia não é retratar o real, mas subjugá-lo às arbitrariedades que a prolongam; é um espelho a fingir-se uma janela.
Por João Neto às 09:56 0 comentário(s)
janeiro 21, 2005
Fé
Vivemos mais, melhor, com progressiva educação, cultura e justiça. Mas não mudámos. Mesmo sendo o progresso indiscutível, a fé no progresso é igual a outra qualquer.
Por João Neto às 09:54 0 comentário(s)
setembro 27, 2004
Cultura e Geografia (parte II)
A mais óbvia diferença entre culturas é que umas são materialmente mais bem sucedidas que outras. Nos últimos milénios, culturas Europeias e Asiáticas têm conquistado e destruído culturas Africanas, Americanas, Australianas e Polinésias. Porque é que o movimento não foi ao contrário? O resposta imediata passa pelo facto que Impérios mais ricos possuem melhores armas, maiores exércitos, melhor tecnologia e uma organização económica e social mais avançada. Mas esta resposta limita-se a empurrar a pergunta inicial. Como certas culturas obtiveram esses ganhos e não outras?
A resposta do século XIX teve bases biológicas, i.e., raciais. Foi atribuída a disparidade às diferenças como as diferentes raças evoluíram. Brancos e amarelos (ou só os brancos, para os mais entusiasmados) eram mais evoluídos que pretos e vermelhos. A teoria seguinte (entrando já no século XX) estipulou que o comportamento é totalmente determinado pela cultura, sendo esta independente da biologia. Infelizmente, esta reformulação (para além de também estar errada) não responde à pergunta inicial: Porque há culturas com mais sucesso material que outras? De facto, não era a pergunta respondida como nem era sequer mencionada, dado que poderia levantar a suspeita que a mera questão insinuava que a superioridade tecnológica relacionava-se com o julgamento moral que uma cultura mais evoluída era "melhor" que uma menos evoluída. No entanto, é inegável que há culturas que obtém melhores condições de vida para os seus membros. E dizer que essa diferenciação é um produto do acaso é simplesmente uma outra forma de esconder o problema no tapete do politicamente correcto.
Mais recentemente, estudiosos como o economista Thomas Sowell e o psicólogo Jared Diamond, apresentaram uma outra proposta. Eles argumentam que a História não é só um palimpsesto de factos mais ou menos inesperados em sequência temporal. O destino das civilizações não depende da raça ou da sorte mas sim da capacidade humana de adoptar inovações externas combinada com as vicissitudes da geografia e da ecologia. [cont.]
A resposta do século XIX teve bases biológicas, i.e., raciais. Foi atribuída a disparidade às diferenças como as diferentes raças evoluíram. Brancos e amarelos (ou só os brancos, para os mais entusiasmados) eram mais evoluídos que pretos e vermelhos. A teoria seguinte (entrando já no século XX) estipulou que o comportamento é totalmente determinado pela cultura, sendo esta independente da biologia. Infelizmente, esta reformulação (para além de também estar errada) não responde à pergunta inicial: Porque há culturas com mais sucesso material que outras? De facto, não era a pergunta respondida como nem era sequer mencionada, dado que poderia levantar a suspeita que a mera questão insinuava que a superioridade tecnológica relacionava-se com o julgamento moral que uma cultura mais evoluída era "melhor" que uma menos evoluída. No entanto, é inegável que há culturas que obtém melhores condições de vida para os seus membros. E dizer que essa diferenciação é um produto do acaso é simplesmente uma outra forma de esconder o problema no tapete do politicamente correcto.
Mais recentemente, estudiosos como o economista Thomas Sowell e o psicólogo Jared Diamond, apresentaram uma outra proposta. Eles argumentam que a História não é só um palimpsesto de factos mais ou menos inesperados em sequência temporal. O destino das civilizações não depende da raça ou da sorte mas sim da capacidade humana de adoptar inovações externas combinada com as vicissitudes da geografia e da ecologia. [cont.]
Por João Neto às 09:07 0 comentário(s)
setembro 21, 2004
Cultura e Geografia (parte I)
(baseado no 4º capítulo do livro "The Black Slate" de Steven Pinker)
A cultura é um conjunto de inovações sociais e tecnologias acumuladas no processo histórico que nos ajuda a viver as nossas vidas. A cultura não é uma colecção arbitrária de regras e símbolos com o objectivo de modelar homens e mulheres.
Esta ideia é útil para entender porque diferentes culturas parecem tão diferentes e, ao mesmo tempo, tão iguais. Quando um grupo se separa da sua comunidade e os laços são cortados (por um acidente geográfico, por hostilidades prolongadas), não existe forma de difundir inovações entre os lados. À medida que cada grupo elabora o seu conjunto de descobertas e convenções, há uma progressiva divergência que produz duas culturas diferentes. Esta ramificação é facilmente visível na evolução das linguagens. Também Darwin tinha utilizado este exemplo como comparação à evolução natural. Normalmente, quanto mais próxima no tempo for a separação, mais próximas são as culturas.
As raízes psicológicas da cultura podem explicar porque alguns hábitos mudam mais facilmente que outros. Algumas práticas colectivas possuem uma inércia enorme porque impõem um custo pessoal muito elevado ao primeiro indivíduo que tentar mudá-las (as religiões estão repletas de exemplos). Outras mudanças só são possíveis por um acordo tácito da própria comunidade (como passar a conduzir à direita em Inglaterra).
Mas as culturas mudam, por vezes, de forma drástica. No Ocidente actual, a preservação da cultura tradicional é considerada uma grande virtude. Porém, muitas culturas não têm a mesma opinião. Quando há uma percepção generalizada que um outro comportamento social é melhor que o tradicional, as culturas absorvem, plagiam, copiam elementos do exterior com uma velocidade surpreendente (a febre dos telemóveis em Portugal...). As culturas não são monólitos parados no tempo, são porosas, possuem uma dinâmica permanente. O mesmo se passa com a linguagem: apesar da eterna lamentação dos puristas e das ameaças das respectivas academias, nenhuma linguagem actual se manteve igual por cem anos. Também as cozinhas tradicionais possuem raízes muito superficiais: as batatas na Europa, os tomates na Itália ou as malaguetas na Índia vêm de plantas do Novo Mundo. [cont.]
Esta ideia é útil para entender porque diferentes culturas parecem tão diferentes e, ao mesmo tempo, tão iguais. Quando um grupo se separa da sua comunidade e os laços são cortados (por um acidente geográfico, por hostilidades prolongadas), não existe forma de difundir inovações entre os lados. À medida que cada grupo elabora o seu conjunto de descobertas e convenções, há uma progressiva divergência que produz duas culturas diferentes. Esta ramificação é facilmente visível na evolução das linguagens. Também Darwin tinha utilizado este exemplo como comparação à evolução natural. Normalmente, quanto mais próxima no tempo for a separação, mais próximas são as culturas.
As raízes psicológicas da cultura podem explicar porque alguns hábitos mudam mais facilmente que outros. Algumas práticas colectivas possuem uma inércia enorme porque impõem um custo pessoal muito elevado ao primeiro indivíduo que tentar mudá-las (as religiões estão repletas de exemplos). Outras mudanças só são possíveis por um acordo tácito da própria comunidade (como passar a conduzir à direita em Inglaterra).
Mas as culturas mudam, por vezes, de forma drástica. No Ocidente actual, a preservação da cultura tradicional é considerada uma grande virtude. Porém, muitas culturas não têm a mesma opinião. Quando há uma percepção generalizada que um outro comportamento social é melhor que o tradicional, as culturas absorvem, plagiam, copiam elementos do exterior com uma velocidade surpreendente (a febre dos telemóveis em Portugal...). As culturas não são monólitos parados no tempo, são porosas, possuem uma dinâmica permanente. O mesmo se passa com a linguagem: apesar da eterna lamentação dos puristas e das ameaças das respectivas academias, nenhuma linguagem actual se manteve igual por cem anos. Também as cozinhas tradicionais possuem raízes muito superficiais: as batatas na Europa, os tomates na Itália ou as malaguetas na Índia vêm de plantas do Novo Mundo. [cont.]
Por João Neto às 14:43 0 comentário(s)
maio 17, 2004
Fluxo
A cada dia acumulamos diferenças que nos alteram. Cada um de nós é um somatório de passados sobrepostos numa série de contigências até este preciso segundo. Talvez explique porque muitas relações não funcionam ao fim de uns anos: quem se juntou já não existe. Somos outros a manter compromissos de outrora.
Por João Neto às 09:21 0 comentário(s)
fevereiro 02, 2004
Gestão
Ontem e hoje. Que diferença entre estes dois dias? Pequenas alterações na forma, menores no conteúdo. Mas é esse lento acumular condensado num ano, numa década que em cada século tudo muda. Como gerir tanto o tédio como o deslumbramento neste subtil fluxo?
Por João Neto às 11:24 0 comentário(s)
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