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fevereiro 28, 2011

Asserções Sustentadas

Uma asserção universal (como "Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos", artº 1 da Declaração Universal dos Direitos Humanos) tem uma abrangência tal que deve ser sustentada quer por teses e argumentos válidos como por evidência concreta a seu favor. As asserções liberais defendidas por pessoas como John Locke, Adam Smith, Thomas Jefferson ou Stuart Mill possuem forte sustentação argumentativa nas vertentes filosófica, ética e económica. A complementar estas teses temos agora a experiência histórica e social do Século XX. Esta evidência é de tal modo forte que, hoje em dia, é difícil contrariá-la sem uma pesada componente ideológica (um eufemismo para cegueira cognitiva).

novembro 27, 2009

Excessos

[entrevista à ípsilon, 6 Novembro 2009]

António Marujo: Dê um exemplo das más traduções da Bíblia [...]

Enri de Lucca: No original hebraico, não está a condenação de Eva de parir com dor. A palavra hebraica é esforço, fadiga. Não é dor, porque ali não há intenção punitiva da divindade. Há apenas uma verificação. Àqueles dois, que comeram da árvore do conhecimento do bem e do mal e que se encontraram nus, diz: "Vocês tornaram-se outra coisa, não pertencem já a nenhuma espécie animal; nenhuma espécie animal sabe que está nua; aconteceu uma mudança total." Está dizendo que a felicidade, a agilidade do parto ou naturalidade com que os animais têm os filhos não acontecerá mais. E Adão diz logo: "Maldita a terra". Porquê, se a terra não lhe fez nada? Porque há outra verificação: Adão não se contentará com o fruto espontâneo, mas esforçará a terra, irá afadigá-la também com o seu suor, irá desfrutá-la para tirar o maior lucro. A terra será maldita por causa dos esgotamento dos recursos.

Não há, então, um castigo?

Vê-se que não há intenção punitiva, porque logo a seguir a divindade faz vestes de peles para cobrir aqueles dois nus. Este é o gesto mais afectuoso. A palavra hebraica que aqui é traduzida como dor, aparece outras cinco vezes: quatro nos Provérbios e uma nos Salmos. Cinco vezes em seis é traduzida como esforço e fadiga. Ali, metem na boca da divindade uma condenação. E sobre isto baseou-se toda a subordinação feminina, a culpa de Eva.
Enri de Lucca (que não é cristão) lê a Bíblia directamente do hebraico e faz uma interpretação mais humana do texto original, a qual faz mais sentido, pelo menos numa perspectiva moderna e liberal (a meu ver, exagerando com a referência ecológica). Mas o mito do Adão e Eva, por razões de controle social, fruto de políticas e preconceitos enterrados na história, tem uma versão oficial indoutrinada durante séculos de gerações cristãs. Como contraste entre a tradução de Lucca e a oficial percebe-se melhor a hipocrisia e misoginia de uma hierarquia episcopal que compõe a Igreja desde o início da Idade Média. Como é estúpido esse pretenso castigo desmesurado (e nesse excesso absurdo o intuir do que realmente sustenta esta religião, o infantilismo e a ignorância) do desejo de saber, crescer. De ser-se adulto.

outubro 06, 2009

Candidaturas

Se a tolerância fosse o aceitar acrítico de qualquer crença, nada nela a distinguiria da indiferença. Assim, havendo algo que a tolerância não aceita, porque não procurar por candidatos nas crenças intolerantes?

junho 07, 2009

Realidade

"[..] Estou confiante que a noite em que Lisboa seja considerado um sitio tão espectacular para o país como o afamado "país real" precederá o dia em que todos compreenderemos que se as "elites" são elites é porque são elites e que, portanto, sendo elites, será bom que lhes demos mais atenção que aos que não são elites. Toda a deselitização que havia a fazer fez-se com a democracia, agradecendo, nomeadamente, que não a aprofundem, como estão sempre a ameçar aqueles gajos da esquerda, com o objectivo e a irresponsabilidade que todos bem conhecemos." maradona, A Causa foi Modificada

março 16, 2009

Impedimento

Uma pessoa saudável não vê como agressores a gravidade ou o envelhecer ou mesmo a recusa de um afecto que desejava recíproco. Desta forma, será que a limitação é sentida como injusta apenas quando nos é vedado algo possível e razoável para esse outro que nos impede?

março 12, 2009

Prioridades

Não devemos defender ou favorecer um grupo que nasceu em X, que fala Y, que venera Z ou que se governa em W. Devemos estar do lado dos que partilham os valores dessa razão a que chamamos ética.

setembro 26, 2008

Bifurcação

A educação, por natureza, é conservadora nos conteúdos que ensina. Ela pretende preservar um corpo de conhecimentos considerados úteis a quem aprende bem como necessários à permanência da sociedade em questão. Tendo em conta a relação que se pretende que o futuro adulto tenha em relação ao Outro diferente, estes conhecimentos podem ser negativos (no alimentar de nacionalismos extremados, fanatismos, xenofobias, dogmas) ou positivos (no primado da razão e da ética, aos princípios e à tolerância, ao argumento crítico, à coragem e à prudência). Para os responsáveis, uma escolha tão clara como terrível.

abril 26, 2008

Democracia e Liberdade

Democracy is not freedom. Democracy is two wolves and a lamb voting on what to eat for lunch. Freedom comes from the recognition of certain rights which may not be taken, not even by a 99% vote. (…) Voters and politicians alike would do well to take a look at the rights we each hold, which must never be chipped away by the whim of the majority. [citação citada aqui]

abril 14, 2008

(In)tolerância

Dizer que todas as culturas são iguais, e que devemos respeitar e não interferir em qualquer hábito social do Outro, por muito aberrante que nos pareça, soa a civilizado e bem pensante. Mas aceitando isto, de onde se conclui que deve o mais forte ser tolerante e respeitador? Se uma civilização decidir extinguir outras, não deveríamos então respeitar e não interferir nesses seus hábitos sociais?

março 05, 2007

Pessoa = Homo Sapiens + ?

A consciência. É este o reduto último que nos distingue dos restantes animais? Que nos distingue de tudo o resto? Estas duas perguntas não são exactamente iguais. Existem, pelo menos, duas possibilidades de responder sim à primeira questão e não à segunda. Ou o contacto eventual de uma civilização extraterrestre terá de nos obrigar a redefinir a nossa exclusividade ou o advento da consciência em sistemas informáticos.

Associamos «pessoa» aos seres humanos. Poderíamos também usar «pessoa» para definir alguém com consciência. Neste momento da História estas duas definições correspondem ao mesmo. Mas nem sempre foi assim. Há centenas de milhares de anos, chamaríamos ao animal Homo Sapiens, isolado de qualquer cultura, uma pessoa? Quanto ao futuro também não é garantido que esta igualdade se mantenha.

Poderá um programa de computador ser consciente? Este conceito não é facilmente aceite. O que é ser consciente? Podemos assumir a construção de softwares pensantes se não formos capazes de responder à pergunta anterior? Creio que saber as respostas destas perguntas não é um passo essencial para uma tal construção. Quanto interagimos com alguém assumimos implicitamente a sua consciência sem sabermos como tal processo funciona. Mais. Assumimos a nossa própria consciência como facto adquirido e, no entanto, somos incapazes de explicar quais são os detalhes da dinâmica do nosso cérebro, quais os passos específicos que nos define (seja sobre a memória ou o raciocínio, sobre os nossos próprios sentimentos, sobre esse empilhar de máscaras por onde se vislumbra uma personalidade).

Tentemos um exemplo. Seja um CD com o Requiem de Mozart. Esse CD não é a orquestra nem a obra musical por ela tocada. O CD é um sistema de memória que codifica uma aproximação dessa obra, uma aproximação de um momento específico, de uma míriade de nuances, desse instante em que um conjunto de pessoas, cada uma no seu universo familiar e cultural, se reuniu para interpretar uma obra musical. Possuindo um tradutor adequado (o nosso leitor de CDs), essa aproximação é convincente e somos capazes de usufruir a essência (o Requiem). Precisamos conhecer a vida pessoal daqueles músicos? A história de Mozart? O processo como se codifica um CD ou os detalhes técnicos da Física dos Lasers?

Se produzirmos um programa de computador com um elaborado processo de aprendizagem capaz de se aproximar do comportamento consciente e que satisfaça os critérios mais ou menos arbitrários que a nossa cultura determina, não será admissível classificar esse programa como consciente? Não necessitamos de saber os detalhes (que aliás poderão ser tão obscuros como a bioquímica do cérebro) para classificar uma sequência de padrões comportamentais como próprias de alguém consciente. Não sei se eu ou o próximo somos conscientes, até porque não detenho um critério objectivo que defina com exactidão essa hipotética fronteira. Parecemos conscientes e isso, para todos os efeitos, é suficiente.

O processo histórico tem, felizmente, assistido a progressivas generalizações da noção de pessoa e cidadão (os escravos não o eram, os bárbaros, os negros, os judeus, as mulheres e as crianças). Num eventual futuro haverá espaço para expandir ainda mais esta definição.

setembro 01, 2005

Vantagem

Na luta entre fanáticos e moderados, os primeiros têm a vantagem de um irrestringir na força e na vontade que, por definição, os segundos não possuem. Mas, para além do maior número de moderados, estes têm uma grande vantagem: os fanáticos também lutam uns contra os outros.

junho 29, 2005

Deflação

Com o decorrer do progresso, o mundo tornou-se menor. É agora mais fácil entender as ilusões dos outros, mais difícil manter as nossas.

maio 16, 2005

Igualdade

"A noção de Igualdade não é o dado empírico que todos os grupos humanos são iguais, é o princípio moral que ninguém deve ser julgado ou limitado pelas características médias dos grupos a que pertence." - Stephen Pinker

julho 21, 2004

Fronteiras IV

Felizmente que muitos de nós concordam que excesso de certezas, abuso de preconceitos e intolerância aos outros que diferentes é mau e produz péssimos resultados. Mas não largues tudo. Escolhe com cuidado porque nem tudo é relativo, há ideias a serem defendidas e há quem não mereça confiança. Manter a mente aberta é bom mas que não ta caia ao chão por ser grande a janela.

julho 02, 2004

Fronteiras III

Como ver a escuridão senão pela luz? Como descobrir o labirinto sem a esperança da saída? Como se saber feliz sem a memória do momento oposto? Dou valor aos cinzentos por lhes conhecer os extremos.

setembro 09, 2003

Extremos Não Moderados

Quando olhamos em volta, tanto nacional como internacionalmente, observamos que muitas das ideologias que guiaram o Mundo estão a esbater-se. Algumas desapareceram (ou estão em risco de) e outras tendem para uma de duas direcções que podemos chamar simplesmente de extremista e moderada. Ao que tudo indica, os extremistas ganham terreno. As grandes guerras perdem-se na História, a guerra fria não aqueceu, mas um grande conjunto de individuos parece singrar num mar de incompreensão e intolerância. Não só o fundamentalismo Árabe, como também a administração Americana, os Palestinianos e Judeus, o racismo, a ignorância... Curiosamente, para um extremista, o mundo é muito simples: tem duas cores, há bons, e corajosos, maus e covardes, as dúvidas são poucas pois deus e a moral estão do seu lado, as causas e as consequências bem delineadas e definitivamente explicadas (pelo respectivo guia espiritual/secular) e no entanto... encontram sempre outros extremistas que lhes fazem frente! É nesta construção simplificada da realidade, nesse espelho que não reflecte o mundo, que eles se olham e nos levam para um abismo que ainda não conseguimos observar. Os moderados não são sem defeitos, pois tendem a cultivar a indiferença, a dar demasiado para evitar conflitos, a tentar compreender para lá do tempo de decidir. Não é a primeira vez que estas coisas acontecem nem, tenho impressão, será a última...