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janeiro 24, 2011

Fronteiras

A xenofobia faz para uma comunidade o que a membrana faz à célula e as sinfonias de feromonas ao formigueiro. Elas definem a fronteira, são função de separação e controlo, de homeostase. Mas querem as comunidades ser comparadas com células e insectos?

novembro 27, 2009

Excessos

[entrevista à ípsilon, 6 Novembro 2009]

António Marujo: Dê um exemplo das más traduções da Bíblia [...]

Enri de Lucca: No original hebraico, não está a condenação de Eva de parir com dor. A palavra hebraica é esforço, fadiga. Não é dor, porque ali não há intenção punitiva da divindade. Há apenas uma verificação. Àqueles dois, que comeram da árvore do conhecimento do bem e do mal e que se encontraram nus, diz: "Vocês tornaram-se outra coisa, não pertencem já a nenhuma espécie animal; nenhuma espécie animal sabe que está nua; aconteceu uma mudança total." Está dizendo que a felicidade, a agilidade do parto ou naturalidade com que os animais têm os filhos não acontecerá mais. E Adão diz logo: "Maldita a terra". Porquê, se a terra não lhe fez nada? Porque há outra verificação: Adão não se contentará com o fruto espontâneo, mas esforçará a terra, irá afadigá-la também com o seu suor, irá desfrutá-la para tirar o maior lucro. A terra será maldita por causa dos esgotamento dos recursos.

Não há, então, um castigo?

Vê-se que não há intenção punitiva, porque logo a seguir a divindade faz vestes de peles para cobrir aqueles dois nus. Este é o gesto mais afectuoso. A palavra hebraica que aqui é traduzida como dor, aparece outras cinco vezes: quatro nos Provérbios e uma nos Salmos. Cinco vezes em seis é traduzida como esforço e fadiga. Ali, metem na boca da divindade uma condenação. E sobre isto baseou-se toda a subordinação feminina, a culpa de Eva.
Enri de Lucca (que não é cristão) lê a Bíblia directamente do hebraico e faz uma interpretação mais humana do texto original, a qual faz mais sentido, pelo menos numa perspectiva moderna e liberal (a meu ver, exagerando com a referência ecológica). Mas o mito do Adão e Eva, por razões de controle social, fruto de políticas e preconceitos enterrados na história, tem uma versão oficial indoutrinada durante séculos de gerações cristãs. Como contraste entre a tradução de Lucca e a oficial percebe-se melhor a hipocrisia e misoginia de uma hierarquia episcopal que compõe a Igreja desde o início da Idade Média. Como é estúpido esse pretenso castigo desmesurado (e nesse excesso absurdo o intuir do que realmente sustenta esta religião, o infantilismo e a ignorância) do desejo de saber, crescer. De ser-se adulto.

julho 18, 2009

Absolutamente

Kant sistematizou uma ponte entre razão e moral. Ao fazê-lo, fundou-as no absoluto sem restrições dos deveres, regras e do imperativo categórico. Mas, tanto nas leis como na argumentação, há um acumular de prioridades que estabelecem excepções umas às outras, e cujo grau de prioridade depende, em última análise, do subtil de cada caso concreto. Não nos escapamos à constante fricção do presente com um bem pensado conjunto de regras. É preciso a sua constante invocação, interacção, aplicação e revisão para conseguirmos chegar ao fim do dia sem a consciência muito pesada.

maio 27, 2009

Sinónimos forçados

Para a maioria, os conceitos 'pessoa' e 'ser humano' (i.e., homo sapiens) representam o mesmo. Discordo: não acho que ser-se humano seja, desde logo, condição suficiente nem necessária para ser-se pessoa. Na condição necessária, consigo imaginar contra-exemplos do passado (o homem de Neanderthal, pela sua inteligência aparente, seria naturalmente considerado uma pessoa hoje em dia); do presente (a maioria dos primatas superiores e cetáceos como as baleias e os golfinhos, possuem personalidade e capacidade cognitivas suficientes bem como estruturas sociais, no caso dos primatas, que só por especismo não são considerados como pessoas); e do eventual futuro (o advento da inteligência artificial ou um encontro de civilizações extraterrestres forçar-nos-ia a reformular esta equivalência). Na condição suficiente confesso que há seres humanos, pelo seu comportamento social e/ou pela inteligência que demonstram, precisam, dos outros, de muita boa vontade para a equivalência se manter...

abril 24, 2009

Problema

A interacção entre sociedade e as pessoas produz uma cultura cujos feitos e efeitos ninguém é capaz de compreender totalmente. Os frutos desta cultura, seja a sua tecnologia, a sua arte e literatura ou a complexidade das suas instituições há muito que ultrapassaram a capacidade individual dos seus cidadãos. Isto significa que as decisões tomadas pelos respectivos líderes são, na melhor das hipóteses, fragmentadas e incompletas. Como reduzir os problemas e as crises inerentes, como evitar a distância entre o que desejamos e o que fazemos?

março 18, 2009

Diferença

Na interacção entre pessoa e sociedade há um definir de normalidade que inclui até onde alguém se pode afastar desse ideal difuso sem começar a pagar o preço do excesso de diferença. Podemos achar injusto mas todos temos medo, seja do desconhecido, da mudança. Dos cancros.

março 16, 2009

Impedimento

Uma pessoa saudável não vê como agressores a gravidade ou o envelhecer ou mesmo a recusa de um afecto que desejava recíproco. Desta forma, será que a limitação é sentida como injusta apenas quando nos é vedado algo possível e razoável para esse outro que nos impede?

janeiro 26, 2009

Jeitos

Gerimos as emoções pior do que gerimos a indiferença. Tão capazes na razão mas ainda mais previsíveis na irracionalidade. Mantemos civilizações de milhões por séculos mas tão trapalhões que somos no único das relações humanas. Eis, no seio do turbilhão, o H.Sapiens.

janeiro 08, 2009

Analfabetismo

Antes da Torah, da Bíblia ou do Corão, os deuses não sabiam escrever. Os textos sobre o sagrado não eram sagrados, eram somente humanos e por isso sujeitos a contestação, discussão e correcção. Já a palavra revelada é perene. O problema é não o serem as pessoas e o mundo.

maio 07, 2008

Diferenças

Entre a eucaristia realizada por verdadeiros crentes e o evento, similar nos gestos e palavras, animado por um teatro de actores, estão, apenas e só, a tradição que sustenta os primeiros e o enredo que guia os segundos.

março 10, 2008

Efeitos

A nossa tradição jurídica faz interferir a intenção no acto em si. Por exemplo, um assassinato involuntário tem mais atenuantes que um premeditado. O mesmo ocorre se se provar que o réu estava num estado de loucura momentânea. O estado mental é determinante na atribuição de responsabilidades. Isto não ocorria no pensamento clássico, onde a vontade (ou a falta dela) não era relevante no julgamento do executante. Não interessava o quão extensa era a sua ignorância, o quanto dos seus desejos determinaram a acção, o quão pouco do seu espírito residia naquele momento. Sem querer defender a primeira ou a segunda, a nossa visão tem uma consequência potencialmente nefanda: se a acção sem intenção pode ser, em parte, desculpada; a intenção sem acção pode igualmente ser, em parte, acusada. Mas, nos casos mais subtis, como vigiar pensamentos? Aqui se encontra uma utilidade à omnipresença de um deus fiscalizador, um grande irmão para lavrar a contabilidade da culpa e dos impulsos incumpridos de cada cérebro.

outubro 24, 2007

Colapso

Há aqueles que, num dado momento, seja pela fortuna ou pelo mérito que os elevou socialmente, perdem um pouco do que, a todos, nos faz pessoas. São os que se vestem, comem, trabalham e falam sem nunca sair dessa máscara social que tanto consideram. Desde juízes, médicos, advogados, catedráticos, deputados, engenheiros, (ex-)ministros, bispos e muitos outros (a sociedade também se estima pelos diferentes tipos de sucesso que sustenta) deixaram de ouvir a metade da humanidade que avaliam como abaixo deles. A vida, a rede social que nos liga, passou a ser a imagem destorcida dessa hierarquia que habitam. Ouvem os que estão acima e falam para os que estão abaixo. O que era (e é) uma via aberta de dois sentidos transforma-se numa complicada burocracia de direcções únicas. Ao destruir esta maioria de laços com a sociedade, perdem o contacto do real fora deles e distanciam-se, lentamente, para um mundo mais pequeno, uma ilha onde exercem a actividade que tanto prezam, satisfazem a ambição que os motiva, concretizam o objectivo que os sufoca. Um arquipélago envernizado na pretensão de excelência, cercado (como todas as ilhas) de um Oceano de banalidade que ignoram, desprezam ou, não raras vezes, temem.

outubro 04, 2007

Retirada Estratégica

É inútil argumentar com os que já passaram a fase de ouvir argumentos. O melhor que se pode fazer numa situação dessas é, não podendo evitá-la, manter a calma e limitar-se a não perder a discussão.

setembro 24, 2007

Avaliação

Se as pessoas são órbitas, mudando um pouco, raramente muito, em cada instante, qualquer exame a que as sujeitamos é sempre sobre alguém que, em breve, deixará de existir. A única esperança é que nelas fique um pouco da experiência que as motivou a chegar ali.

junho 18, 2007

Distância

É o argumentar uma negociação? Diz-se que num bom negócio ambas as partes ganham com isso. Mas regatear um argumento? Como se concede, em geral, uma parte do que acreditamos para aproximar distâncias? Como se garante, no fim, que ainda se fala e se defende a mesma coisa?

março 13, 2007

Dos outros

Dos grandes erros que não fizeste, quantos deles foram os outros ou o mundo que te impediram de os cometer?

fevereiro 09, 2007

Duas medidas

Os preconceitos são, pelo menos, de dois tipos: os que construímos e os que nos são dados. Os nossos derivam da experiência pessoal e, em geral quando não contaminados por outros preconceitos, possuem correlação positiva com a realidade. Sem eles não poderiamos viver num mundo repleto de eventos perigosos mesmo que filtrados pela capa protectora e uniformizante da sociedade. Os outros preconceitos, porém, não lhes controlamos o desenvolvimento. São derivados por um processo histórico e social tortuoso, velam por interesses que os originaram e que, hoje em dia, podem já nem fazer sentido. Estes preconceitos, também pelo seu percurso comunitário e geracional, tendem a generalizar mais do que faríamos sozinhos, e nessa generalização - que rasga como inútil a experiência pessoal dos seus seguidores - existe contida uma simplificação da realidade, não uma correspondência útil mas um restringir da nossa capacidade de avaliar casos particulares. Isto tem duas consequências igualmente nefastas. Primeiro, cada preconceito deste tipo tem como preço tornar, cada um, um pouco menos pessoa: alguém que cegamente segue um regulamento moral que lhe tolda o espírito crítico paga um preço muito elevado. Segundo, nisto resulta que julgamos pessoas, eventos ou locais por olhos que não os nossos. Agimos com convicções que vão, por vezes, contra o nosso próprio bom senso. Construímos muralhas onde não há guerras, substituímos pontes por fossos, um possível de amizade por uma certeza de desprezo. Além disso, mesmo que fosse um facto que um grupo ou um conjunto era melhor, maior ou mais atraente que outro, nunca poderemos julgar e agir sobre cada pessoa como se fosse a personificação de uma estatística. É um facto inegável que as médias não são instâncias.

novembro 15, 2006

Metamorfose em contra-mão

Na de Kafka, a metamorfose que Gregor Samsa não se deu conta era de corpo, da reacção exterior ao eu por lá preso. Mas quando agimos ou falamos, repetindo e sem pensar o coral do dia-a-dia, quando a resposta que damos não é filtrada pela diferença que nos faz, quanto de nós é ainda insecto? O que nos distingue de meras junções de músculos, esqueleto e sistema nervoso?

outubro 31, 2006

Delta

Nunca nos demos bem com distâncias. Fossem elas medidas em quilómetros ou em diferenças diversas no olhar o outro.

setembro 19, 2006

Nacionalidade

Qual a distância entre o que dizem ser errado e o que dentro de ti te revolta? Da lei escrita o que segues por seguir e da tua, o que te proíbem? Quão estrangeiro és no teu país?