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julho 27, 2012

O Pão, não o Circo.

A sociedade é um corpo de corpos a dirigir-se, em tumulto e pandemónio, numa direcção que não sabemos. Para se manter utiliza mecanismos de coesão que lhe garantem continuidade e cujo preço é uma inércia que aprendemos com a idade a amar e odiar. Convenções sociais, ética, comportamentos instituídos e ensinados desde criança, estados de alma e uma grelha de pensamentos apropriados. Uma vasta fábrica de gente. Isto facilita o sentido da acção justa, simplifica a moral vigente, o que se deve fazer ou evitar. Um jogo a justiça. Uma contabilidade de castigos e recompensas, um labirinto de sombras. Nisto o Dr. Spleen observa a vítima, prostada na mesa de cirurgia de um qualquer esqueleto de hospital abandonado. Pensa como tudo isto é reflexo de um corpo humano. O que na pele e sangue é analogia à comunidade? Com que regras jogamos e perdemos? Qual o processo? Como os mecanismos inatos, automáticos, nos levam entre A e B, entre o início e o fim do tempo e da acção. O fim, essa taxa democrática, avizinha-se a todos. Especialmente para alguém, como o padeiro da aldeia, cujo desleixo impensado conduz ao erro e irreversível castigo.

novembro 25, 2010

Teoria de Grafos

A rede social determina os seus individuos e enreda-os, sob pena de isolamento e evaporação, num comportamento dito normal. Quanto maior for o grau de ligação aos outros, quantas mais dependências se formarem, menor a mobilidade, menor a escolha de opções 'perigosas' ou, salientando a definição, associais. Ao cortar laços, ao aumentar a distância invisível porque implícita aos outros, aumenta a possibilidade dessa rede, também ela um sistema imunitário, reagir de forma violenta, exilando, emprisionando, ridiculizando quem assim se afasta (é dificil controlar alguém descomprometido). Por isso, o subtil de cada passo, a necessidade de silêncio -- e com quem conversar, uma vez tomada a via? -- a vigilância. Também neste lado da fronteira, Spleen considera que não se pode largar o irredutível mínimo do medo, a parte útil, o alarme biológico que nos relembra que estamos sozinhos. Talvez o medo seja um preço da consciência, talvez mesmo um preço da vida, e como saber sem dar esse último passo irreversível? Queimar o pânico, de perder tudo, todos, de obliterar aquilo que não somos, o assassino que nos deixa imóveis. Depois, o segundo passo.

maio 31, 2010

Ecos e sombras

Cada um de nós é uma colecção de fragmentos. Carinhosamente agregados, cada alteração consentida uma derrota, cada conceito aprendido uma concessão ao que éramos antes, um átomo de mudança e morte. Nunca poderemos apreender o mundo neste arqueológico cérebro de mamífero. Haverá sempre distâncias entre o todo e o que se ganha, que se vê, ouve, que se sente em cada pensamento descoberto. Vivemos num oceano de simplificações, alimentando-nos de equívocos, de mensagens mal entendidas, de partilhas e negociações parciais. E pela sobrevivência, pelo arcaico impulso de manter uma comunidade multi-celular que nos permite a existência, aceitamos a imposição dos outros, a normalização dos nossos apetites e desejos, a troca da acção pela espera, da satisfação pelo plano, o sacrifício do agora pelo depois (e nesse sacrifício inevitável, tudo, ou seja nada, se mostra sagrado). O Dr. Spleen admite que, porém, é nessas restrições que cada um de nós existe. O irrestrito dilui, o universo sem invariantes seria apenas uma maré uniforme de vazio. Nesses limites, nessas regras impostas, no exercício subtil da coerção, a ciência, a arte, o nosso possível e a insanidade que o acompanha. Por isso, quando Spleen exercita o seu talento e sacia a sua sede ao dissecar uma pessoa, sabe que apenas retira à linha do mundo uma aliança fragilmente conseguida, um aproximar ao aproximar dos outros, uma possibilidade contingente cujo eco rapidamente se desfaz. Já e apenas uma sombra.

março 09, 2010

Dicotomias

Lidar com as causas ou mitigar os sintomas. Se o assunto é o individuo essa é a diferença entre a medicina e a aspirina. Mas se falamos da sociedade, os sintomas encarnam-se nos desviantes da regra moral vigente. O Dr. Spleen reconhece que se trocarmos o objectivo da razão pelo subjectivo da tradição, a possibilidade pela limitação, as causas pelas consequências, todos se arriscam em ser loucos se a alternativa única for o robot. O problema é ser cada sociedade um acumular de restrições históricas e irracionalidades cristalizadas na inércia cognitiva dos seus cidadãos. Desse modo, pelo mundo fora (porque a tecnologia ainda não lhe permite atravessar a galáxia à procura de um canto mais sossegado) o vírus da humanidade cozinhou milhares de versões deste problema fundamental, ao qual a escolha, sua, de habitar o menos mau aliado ao hábito de cortar, enfim, pessoas, não chega para compensar o irredutível deste facto.

novembro 12, 2009

As Regras do Jogo

O Dr. Spleen examina, ponto a ponto, as regras que dele os outros estimam que respeite. Desde a infância que o seu corpo (esse inevitável que não encontrou forma de se abster) o força às pulsões do animal que o encerra, aos padrões visíveis na projecção do mundo, ao imitar o normal dos outros, à atracção para o centro de gravidade que a maioria receia se afastar. Depois, as normas, escritas ou implícitas, da sociedade, essa fronteira que rejeita e castiga que não lha obedece ou pertence por direito ou decreto. Também aqui uma força normalizadora, uma imensa fábrica de robots - infectados pelo vírus de uma consciência negociada - ocupada a fazer mais robots. Por fim, as leis de Física, da Química, do que faz os quarks à gravidade. Excepto por estas últimas e pelo aceitar da linguagem (esta, uma derrota que admite) Spleen não segue nem respeita mais nenhuma regra. E nessa distância aos outros, um encenar, seu, de gestos, decisões e ideias, quase todas perturbantes pela ausência do uniforme cheiro dessa besta que é o normal. E nessa distância, uma arma.

julho 03, 2009

Rebordo

Considerar alternativas é um dos motes da inteligência. Argumentar decisões e crenças também. Na busca infinda da verdade - e nesse ideal de procura uma obtenção de sentido - colaboramos, aplicamos o que de nós é possível, oferecemos ou trocamos possibilidades, julgamos, gerimos probabilidades, factos, quase certezas. O Dr. Spleen vê neste processo (ideal, ainda assim, porque se sabe o quão ignóbeis, porque fáceis, são a estupidez e a ignorância) a virtude de uma rede, da ligação necessária entre iguais para combater o vazio gelado, o turbilhão que se encontra para lá da fronteira humana. Mas nessa rede também a ansiedade da diferença, o necessário reconhecer do abismo, desse caos sem significado, o deteriorar constante que provém de um inimigo sem olhos, sem vontade, uma maré apenas, só que imensa. Spleen não se espelha nessa rede nem sequer no infinito, que admite não ter capacidade de apreender, restando-lhe assim a fronteira. Nesse desenhar fluido, na geometria rendilhada, fractal, dessa linha, tem diariamente de encontrar espaço suficiente para estancar a dissipação, a evaporação do eu que, apesar de tudo, o define.

junho 23, 2009

Máscaras

Entre o que acreditar e o comportamento que nos classifica, entre o edíficio justificado da epistemologia e as redes enlaçadas aos outros dessa nossa ética, o mundo testa as crenças que nos sustentam e pelas quais nos restringe. Usamos o possível da razão perante a realidade que a sempre desafia, nos seus quase infinitos de tempo, espaço e matéria. E no entanto, por muito concreta e coerente que seja a filosofia, são aos impulsos, às pulsões mais fortes porque antigas, à neurose encarnada que se desvenda neles, que a vítima cede e que o Dr. Spleen, por fim, tão atentamente estuda. É quando as escolhas se esvaem, quando o sonho do livre arbitrio finalmente dá de si e, no seu lugar, o vazio que lá sempre esteve só que antes opaco, que o gesto último (e perfeito) do bisturi na sua mão revela o verdadeiro individuo que, como a espiral quebrada do fumo de um cigarro que termina, se desvenda única e, nesse logo, se esvai.

abril 13, 2009

Consequências

Como subordinar à razão os desejos animais que nos mexem por dentro? Esse esforço é (diria Kant, suponho) o que nos faz ser agentes morais, gestores do próprio eu entre o saciar da sede - que apenas precede uma seguinte - e o custo nos outros de a vencer - este sim último porque quase sempre irreversível. Há, no entanto e pelo menos, outro caminho difícil e exigente: perder os desejos na cedência possível do passado biológico e passar a ser um instrumento da razão, temperado no mínimo de emoções inevitáveis (o medo, talvez e só) e filtrado nesse teatro de ecos que são as memórias. O Dr. Spleen, ao optar por este trilho, há muito que perdeu o contacto íntimo com a Humanidade em geral e com Kabila em particular, limitando-se a observar, neutro, como este improvisa, após o encravar da arma e do punhal esquecido em casa, para investir contra os três adolescentes, agora muito mais atentos, depois de insultarem abstractamente a sua vetusta mãezinha.

fevereiro 18, 2009

Sala de Fumo

O eu é um recurso adequado à escala humana e largamente valorizado, o que não é surpresa dado ser essa a única medida que conhecíamos até ao passado recente. Visto ao microscópio dilui-se entre míriades de actividades eléctricas e o caos intrínseco dos sistemas dinâmicos. No macro-cosmos é uma passageira insignificância que o princípio da parcimónia tem a amabilidade de ignorar. Assim, entre as flutuações estatísticas do muito pequeno e do muito grande, é numa estreita (talvez pródiga, talvez fértil) linha de fronteira que nos achamos relevantes. O Dr. Spleen, porém, acha que nem essa fronteira existe. Derivado do seu cepticismo da justiça e da sociedade (onde o eu, no fundo, se usa), de ver cada um como colónias de células com ilusões de importância, ele próprio apenas um vento mais forte num labirinto cruzado de breves sopros.

fevereiro 05, 2009

Espelho (m)eu

O Dr. Spleen observa-se, dedicado, através do espelho que o surpreendeu naquele verso de porta. O opaco da sua face esconde um labirinto de imagens, sensações e desejos que tão bem reconhece apesar dessa erosão constante que é a memória. Entre as marés dos humores e as muralhas das certezas que paciente construiu, um fosso de quereres deixados, intenções falhadas, uma sequência de eus em putrefacção inodora. O que o liga ao passado? Que filtro o cortará para se refazer no futuro? No silêncio conquistado daquela casa de campo, onde apenas destoa, em vermelho disperso, o corpo do analista financeiro, e eliminados que estão agora os ruídos da civilização e a fúria material, a sua, pela perda da substancial conta suíça (somos desligados do mundo o quanto conseguimos, mas o dinheiro tem ligações complexas com o mais valioso dos recursos, o tempo) resta teimoso, no reflexo, o desafio perene e derradeiro de se continuar a ser.

dezembro 18, 2008

Padrão

Das profundezas eléctricas de um cérebro emanam padrões, tempestades caóticas entre sinapses e neurónios, que se atravessam e sobrepõem. De alguma forma, no crescer, emerge uma industrialização por áreas, especialidades a que pedaços de massa cinzenta se dedicam mesmo antes do nascimento. O Dr. Spleen admite, por isso, a existência de diversas inteligências em qualquer ser vivo. Admira em silêncio o voo cirúrgico das aves, a precisão mortífera de um tubarão, a sinfonia química dos insectos sociais, o olhar penetrante do xadrezista, a tensão no sono de um gato. Por outro lado, essa panóplia de capacidades determina também a possibilidade de se falhar em múltiplas frentes. Este pensamento é-lhe especialmente relembrado quando observa o inexistente rigor táctico dos seus associados quando em piloto automático (e dos seus semelhantes em geral, pois nada na sua recruta se desviou do normal possível da educação vigente). Se um talento é a aplicação de uma inteligência, a falta destas abre a porta às Pandoras que desde sempre nos observam.

novembro 26, 2008

Ser

O Mundo é. E é desse ser que nos chega a informação sensorial para fazermos, interna e colectivamente, uma imagem dele. Como qualquer projecção, essa imagem é parcial, relativa, estruturada nas limitações do cérebro humano. E nela, nos desenhamos, uns aos outros, cortamos opções, tomamos decisões, seguimos em frente. Como o Mundo não é (só) o que pensamos dele, estes caminhos por nós percorridos tornam-se, se não revistos e criticados, mais próximos de uma qualquer alucinação negociada. Por isso, o Dr. Spleen, não espera das ideologias e religiões tradicionais um grande apego à busca da verdade. Uma corporação, uma instituição aceite pelo corpo morno da sociedade, é sempre mais reconfortante, mais simples e maternal que o furacão cerrado da essência das coisas. Talvez por isso Spleen não procure com excessivo afinco a sua sede num qualquer notário dos deuses e prefira espíritos mais críticos que, por acaso e seguindo a lei dos grandes números, mais se tenham aproximado do que é.

outubro 06, 2008

Foco

A distância entre nós próprios e os outros é maior do que se imagina. Como construir uma ponte entre duas trajectórias? Como edificar um só momento de integral compreensão quando o que nos define é, em si, um fantasma, um conceito que se estilhaça quando o observamos de perto? Na contabilidade de se julgar a si e aos outros, quantas oportunidades para falhar, quantos erros a fazer, quão grandes esses erros? Mesmo assim, apesar do nevoeiro e desse vento que nos rodeia, segura-mo-nos em princípios e preconceitos que dão sentido e decisão aos caminhos que nos deparam. Uns aprendem-se outros decoram-se, uns resultado de raciocínio, experiência e argumento outros pouco mais que frases antigas há muito iteradas. O Dr. Spleen reconhece que entre respeitar uma opinião e a pessoa que a profere mete-se, mesmo que à justa, um mundo. Mas onde termina a Palavra e começa a Pessoa? Sacralizar - palavras, pessoas - é a acção que leva à asfixia estéril da imobilidade. Assim, para evitar um qualquer equívoco, Spleen não admite mais que o corpo à vitima que dá voz a esses princípios ou preconceitos Nesse preciso momento em que tudo se reduz ao ponto focal da sobrevivência.

junho 02, 2008

Criticalidade

Uma gota de água num Oceano não é nada, é algo. É, para ser preciso, uma gota. Um gesto ínfimo é um gesto. Até um gesto gasto na repetição de uma rotina obrigatória, mesmo que a complexa mecânica muscular que o origina venha do subconsciente e não tenha já qualquer impacto da memória de quem o causou, não deixa de ser um gesto. É que para a realidade não há burocracias, hierarquias de importância ou momentos chave que filtram o que permanece. A realidade tudo contabiliza num acumular subtil que não entendemos. O Dr. Spleen finalmente encontrou a psicose que há anos o seu deambular de rua procurava. Este homem, um silêncio encarnado (nenhum som daquela boca mesmo após a paciência fiscal dos punhos de Kong Sénior ou o furor profissional de Dabila). Eis alguém que acumulava olhares de pessoas por quem passava, medindo, atribuindo-lhes créditos. Spleen apenas vislumbra uma tosca projecção desse classificar. Suspeita que certos números mapeavam um sorriso, um observar curioso, um ver de soslaio, a indiferença dos rostos. E nesse cálculo o espelho da sua curiosidade. Pois atrás dele o desvendar de uma aritmética da acção, o acumular de médias ponderadas até atingir um limite, talvez arbitrário, essa gota de água, esse transbordar que o levava, por fim, a terminar Outros.

maio 20, 2008

Adágio Declarativo

O que é a verdade? Veja-se por exemplo, um relógio. Este instrumento de ponteiros (se os tiver) é, para além da sua função óbvia, testemunha de como resolver uma pergunta semelhante, o que é o tempo?, que tantos no passado procuraram desvendar. No geral, estas questões são intangíveis. No concreto, as soluções tornam-se possíveis, por vezes até, triviais: 17:03, informam os (eventuais) ponteiros. O Dr. Spleen sabe que esta constatação, este simplificar de grandiosos projectos filosóficos para nadas quotidianos não agrada ao que procura dificuldades, relativismos ou dogmas por petrificar. Cada momento é necessário, e muitas vezes suficiente, à resposta da dificuldade que coloca. Como, no instante que se segue, as questões de se o bastão segurado por Dabila é real ou imaginário, se a dívida por pagar do gestor imobiliário ali deitado é ficcional ou verdadeira, se o medo da morte que se aproxima é uma construção social ou, apenas, o desenrolar de um facto que se declara.

maio 05, 2008

Permanência

Gritar-se inocente é, para todos os efeitos, o mesmo que afirmar falar-se verdade. A reiteração verbal de uma intenção, de outra frase, de um olhar até, não serve como mecanismo de garantia. Ela promove, aliás, uma subtil intuição de culpa. O Dr. Spleen também por isso (que uma convicção não é um edifício montado num alicerce de dogmas, mas sim o suster de uma rede cruzada de argumentos lógicos) acha inútil o exigir ao réu essa sua interpretação dos factos, tingida que está de uma parcialidade insuportável porque inevitável. Que Dabila esteja repetidamente focado no baço do industrial vinícola errado é um facto que não se reverte. Como recuperar a vítima de um equivoco? Se somos as acções que fazemos, como (e para quê?) permanecer no eu que perdemos a cada dia que passa?

fevereiro 07, 2008

Ritmos

O maior excesso encontra-se na perfeita banalidade. Os rostos parados da multidão que o atravessa, símbolos de um tempo que se esvai, de um espaço, de um caminho já explorado, de um hábito criado na iteração do mesmo. Os gestos de ontem, as ideias, velhas, partilhadas por todos, os preconceitos que substituem o pouco que resta às - das - pessoas. O Dr. Spleen reconhece que não é possível cultivar a inexistência de padrões (até porque essa falta seria, ela mesma, um padrão de ausência. Um ciclo de novidades não deixa de ser um ciclo). Por isso, prefere-os distantes dos apetites mais próximos, servindo como testemunhas, ou melhor, como árbitros de um presente que serve e se prepara, criticamente, para observar com novos olhos (melhores olhos?, talvez, mas Spleen não é muito dado a atribuições de valor, interessando-lhe que a mudança se faça na direcção da estratégia que o define) o futuro que se avizinha. Um rosto não deveria ser um molde do que acontece lá fora, mas uma superfície espelhada que encerra o que vem de dentro.

dezembro 10, 2007

Incompreensão

Se na morte não houvesse perda não seria uma tragédia. Eis algo que a futura vítima, amarrada à parede, semi-nua, num quase de penumbra e ciente da sua situação, encontra dificuldades em aceitar. O silêncio da face daquele que o executa é, segundo a experiência do Dr. Spleen, a mensagem possível, a comunicação que resta. Porque evita o uso das palavras que são, como se sabe, órbitas que nos seguem e, logo, ferramentas inúteis em eventos deste género. E porque salienta, nesse momento resgatado antes do fim que sempre se quis adiado, o confronto da rara nudez dos rostos e concentra os olhares no olhar do Outro. Dizem que o silêncio é de Ouro (e anda-se muito em redor destes atómos de setenta e nove protões, porque raros?, porque juntos brilham?) mas no fixar gelado do Dr. Spleen revela-se, ao contrário, que o silêncio é de Carbono, Oxigénio, Azoto e Hidrogénio. Um querer de vida para se notar, para ter sentido, para se perder enfim.

novembro 07, 2007

Mistura

Hoje, mais cedo cá fora neste entardecer de dia, um hábito que raramente vê: são ondas de gente nas artérias da cidade, um fervilhar de insecto, um vibrar ansioso da hora seguinte. Na rua, lento, quase de olhos fechados como à procura, observa os padrões do mundo, ouve, cheira, quase toca. Não nos separa do mundo os sentimentos que à flor de pele os nossos impulsos formam. Esses são os que faz a humanidade ser uma massa vulcânica de emoções incontroláveis, tão pródiga em respectivos desastres. O que sobra desse magma intersectado com cada um de nós são as mentes que separam e classificam, esses rostos imperturbados que nos distinguem. O Doutor Spleen não sabe quantas pessoas efectivamente existem neste planeta mas sabe ser um número flutuante, e menor, que o número de humanos expressos nas seguras contabilidades dos respectivos Estados. Por exemplo, na multidão que agora rejeita instintivamente a diferença expressa - neste instante porque haverá outros - na corcunda do pedinte, Spleen apenas vê uma mistura dispersa, comum, a atravessar-se rápida para os dois outros lados da mesma rua.

outubro 29, 2007

Ilusionismo

A matilha pisa a relva molhada da última chuva, são trajectórias perdidas de significado, vontades sem o conforto conhecido dos objectivos instantâneos. O Dr. Spleen, sentado no banco do jardim à meia-noite de uma lua nova, adivinha o rugir das folhas no vento forte que os rodeia. Aquelas folhas são como as ideias conflituosas, pulsares de electricidade do cérebro humano. Alimentadas, vergadas por preconceitos que as dirigem e focam, é pelo conjunto que fazem na árvore que são julgadas (e note-se a transformação de uma metáfora noutra, coisa que eu - e quando digo eu... -, como narrador, não o deveria realçar se não fossem estas imagens a melhor e a possível tradução da tempestade que dá pelo nome do nosso anfitrião). A mente, assim, longe da rigidez ou da invariante que se designa por medo do vazio, é uma arena para sistemas de crenças, estruturas relacionais de desejos, um mundo de relações em rede. E este desagregar, interpretado de longe, abstraído dos detalhes neuroquímicos de uma realidade indiferente, é visto por alguns como o eu, a personalidade, o espírito, até (vejam lá a parvoíce) a alma imortal. Um outro exemplo de como tudo é decomponível, sejam conceitos, memórias, máscaras. Ou um corpo.