julho 20, 2004

Não se pode provar uma negativa universal? (parte I)

(traduzido do artigo Can Science Prove that God Does Not Exist? de Theodore Schick, Jr. Free Inquiry magazine, Vol. 21, 1. )

"Não se pode provar uma negativa universal" é a resposta típica para afirmar que a Ciência não pode provar que Deus não existe. Uma negativa universal é uma afirmação que algo não existe em lado algum. Como não é possível examinar todo o Universo (segue o argumento) não se pode provar conclusivamente a não-existência de algo. No entanto, o princípio que não se pode provar uma negativa universal é uma negativa universal. Ele afirma que não existem provas de negativas universais. Mas se não há provas, então ninguém pode provar que não se pode provar negativas universais! E se ninguém pode provar que não se pode provar, então é logicamente admissível que se pode provar uma negativa universal. Assim, este princípio auto-refuta-se: se é verdadeiro, é falso.

De facto existem muitas negativas universais que foram provadas. Parmenides (há 2500 anos) afirmou que não podem existir contradições lógicas: não há solteiros casados, nenhum circulo é quadrado, e não existe o maior número porque estas noções são contraditórias. Elas violam a mais fundamental lei lógica: a lei da não-contradição (nada pode ter e não ter uma dada propriedade). Uma forma de provar uma negativa universal é provar que uma dada noção é contraditória (também se designa inconsistente). Para provar que Deus não existe, basta demonstrar que a concepção de Deus é inconsistente:
  • O teísmo tradicional define Deus como o ser supremo, do qual não se pode conceber maior, como Santo Agostinho disse. Sabemos que não existe um número supremo X - se existisse, o número 2^X era um número maior (contradição). Muitos acreditam que a noção de um ser supremo é análoga ao de um número supremo.
  • Outros (o cristianismo, por exemplo) afirmam que Deus é perfeitamente justo e misericordioso. Se é perfeitamente justo, todos terão o que merecem. Se é perfeitamente misericordioso, perdoará a todos. Mas não parece ser possível ser as duas coisas. Assim, esta noção pode ser inconsistente.

Estão são apenas algumas inconsistências encontradas nas definições tradicionais de Deus. [...] Os teístas afirmarão que se estas noções forem bem entendidas não existe contradição lógica. E se tiverem razão? Se for logicamente possível existir Deus? Será que isso implica que não se pode provar a inexistência de Deus? Não, para provar que algo não existe basta provar que é epistimologicamente desnecessário, ou seja, que esse algo não é necessário para provar nada. A Ciência tem provado a não-existência de vários conceitos desta forma, como o flogisto, o éter e o planeta Vulcão. As provas cientificas não são como as provas lógicas, não precisam estabelecer as suas conclusões para lá de qualquer dúvida. Basta que as suas conclusões estejam para lá de qualquer dúvida razoável, sendo justificação suficiente para lhes dar valor.

O flogisto, o éter e o planeta Vulcão são entidades teóricas postuladas para explicar certos fenómenos. O flogisto foi usado para explicar o calor, o éter para justificar a propagação da luz através do espaço, e Vulcão para acertar as perturbações da órbita de Mercúrio. A Ciência, desde então, mostrou que os respectivos fenómenos podem ser explicados sem invocar estes conceitos. Ao demonstrar a sua inutilidade, ficou provada a sua inexistência.

Deus é uma entidade teórica postulada pelos teístas para explicar diversos fenómenos, como a origem e o desenho do Universo ou a origem da vida. A Ciência moderna prossegue o seu caminho para explicar todos estes fenómenos sem a ajuda de Deus. Como Laplace disse ao Czar da Rússia: "não preciso dessa hipótese". Ao provar que Deus não é necessário para explicar nada, a Ciência mostra que há tanta razão para acreditar em Deus, como para acreditar no flogisto, no éter ou em Vulcão. [cont.]

2 comentários:

Anónimo disse...

Where did you find it? Interesting read »

Unknown disse...

A concepção de um maior número não é analógo a um ser perfeito.
Ser perfeitamente bom pode ser coerentemente definido por fazer o correto em todas situações.
Ser onisciente pode ser definido por conhecer todas as proposições verdadeiras e só acreditar nelas.