maio 26, 2011

Derek Parfit


Hoje é lançado o novo livro de Derek Parfit, On What Matters [2 volumes, amazon.uk], um importante filósofo ético, autor do já clássico, Reasons and Person (1984). Este novo livro, referido por Peter Singer como uma das obras mais importantes em ética dos últimos 150 anos (desde Sidgwick em 1873), discute e explora uma síntese das principais escolas morais.

maio 25, 2011

Pluralismo

Seja um agente X, numa situação W, com comportamento Y e cujas consequências são Z. A ética da virtude foca-se em X, a deontologia em Y e o utilitarismo em WZ. Porque não focar no XYWZ?

maio 20, 2011

maio 17, 2011

Linguagem

"What is meant by the word red?"
"It's a color."
"What's a color?"
"Why, it's a quality things have."
"What's a quality?"
"Say, what are you trying to do, anyway?"

You have pushed him into the clouds. If, on the other hand, we habitually go down the abstraction ladder to lower levels of abstraction when we are asked the meaning of a word, we are less likely to get lost in verbal mazes; we will tend to "have our feet on the ground" and know what we are talking about. This habit displays itself in an answer such as this:

"What is meant by the word red?"
"Well, the next time you see some cars stopped at an intersection, look at the traffic light facing them. Also, you might go to the fire department and see how their trucks are painted."

-- S. I. Hayakawa, Language in Thought and Action [via Less Wrong]

maio 09, 2011

Dinâmica

Quando alguém com poder percebe o início do falhanço das medidas nas quais está fundada a sua carreira, pode admitir essa constatação ou forçar a situação através das artes de propaganda que ainda mantém. E porquê desistir ao primeiro sinal persistente de contrariedade? Quem garante, quem pode fornecer uma certeza de não ser apenas uma contrariedade um pouco mais teimosa que o habitual dos problemas? Afinal, como adivinhar o futuro? Mas ao escolher o segundo modo torna-se, quer perceba ou não, adversário da realidade. É necessário então, para tornar tudo um pouco mais suportável, reforçar a ilusão, a si e à sua corte, que a distância que os separam (do resto, dos outros) não está a aumentar. Não é de admirar o seu afastamento, a lenta transformação de pessoa em símbolo, a característica progressivamente acrítica dos seus próximos, a ideologia a menorizar a importância dos problemas concretos, o crescer barroco dos protocolos que o protege e sustenta. Mas a realidade não se coaduna com fabricações ou sentimentos mágicos e uma das suas qualidades, mesmo que exasperante para alguns, é a persistência. À medida que o tempo avança, os factos e o desastre que prenunciam acumulam-se. Pouco a pouco, tornam-se complexos, enredados e, num qualquer dia futuro, sem surpresa, irresolúveis. O que pode ter começado como a tensão natural entre interpretações possíveis quando a evidência era curta, ambígua, transforma-se em camuflagem e silenciamento perante a súbita clareza da situação. O monopólio da maquilhagem e da contenção toma precedência à gestão da coisa pública. Depois é esperar que a realidade force essa muralha e, por fim, consiga entrar. Com sede de miséria. Ou de sangue.

maio 05, 2011

Traduções

A linguagem não me é suficiente para mapear, nas minhas, o total das tuas metáforas. Será sempre insuficiente a interpretação dessa palavra, deste gesto, daquele silêncio. Mas não leves assim tanto a mal: são os mesmos problemas de mapear, em mim próprio, as metáforas que me carregam.

abril 29, 2011

Evento não raro

abril 25, 2011

A linguagem da felicidade

"He was terribly afraid that happiness might be a habit, or a quality knitted into the temperament; or it might be something you learn when you're a child, a kind of language, harder than Latin or Greek, that you should have a good grasp on by the time you're seven. What if you haven't got that grasp?What if you're in some way happiness-stupid, happiness-blind? It occurred to him that there are some people,ashamed of being illiterate, who always pretend to others that they can read. Sooner or later they get found out, of course. But it is always possible that while you are valiantly pretending, the principles of reading strike you for the first time, and you are saved. By analogy, it is possible that while you, the unhappy person, are trying out some basic expressions - the kind of thing you get in phrase books for travelers - the grammar and syntax of this neglected language are revealing themselves, somewhere at the back of your mind. That's all very well, he thought, but the process could take years. He understood Lucile's problem:how do you know you will live long enough to be fluent?" Hilary Mantel, A Place of Greater Safety

abril 21, 2011

Dissolução

"Imagine a language in which, instead of saying ‘I found nobody in the room’ one said, ‘I found Mr. Nobody in the room.’ Imagine the philosophical problems that would arise out of such a convention." Wittgenstein, The Blue Book

abril 18, 2011

Centralização e Comunicação

"[...] many economists argue that socialism is infeasible because people lack the cognitive capacities it requires to work. The “Calculation Problem” [cf. wikipedia] holds that in large-scale societies, it is impossible to make good economic calculations without market prices. Market prices convey information about the relative scarcity of a good in light of the effective demand for that good. Market prices provide a simple vehicle for producers and consumers to adjust their behavior to scarcity and demand. According to the Calculation Problem, socialist planning cannot work, even if everyone were motivated to make it work, because planners do not have access to real prices or to a workable substitute for prices. The problem of planning an economy is too hard for a small bureau of planners. (In contrast, in a capitalistic economy, everyone is a planner.)" Jason Brennan, Cohen's Why Not Socialism?


abril 14, 2011

Resumo

Francesco Hayez (1791-1882) - Meditação sobre a História da Itália

abril 13, 2011

Escassez II

Creation [...] is neither necessary nor sufficient to estab­lish ownership. The focus on creation distracts from the crucial role of first occupation as a property rule for addressing the fundamental fact of scarcity. First occupation, not creation or labor, is both neces­sary and sufficient for the homesteading of unowned scarce resources.

One reason for the undue stress placed on creation as the source of property rights may be the focus by some on labor as the means to homestead unowned resources. This is manifest in the argument that one homesteads unowned property with which one mixes one’s labor because one “owns” one’s labor. However, as Palmer correct­ly points out, “occupancy, not labor, is the act by which external things become property.” [...] there is no need to maintain the strange view that one “owns” one’s labor in order to own things one first occupies. Labor is a type of action, and action is not ownable; rather, it is the way that some tangible things (e.g., bodies) act in the world.

Kinsella - Against Intellectual Property [pdf do artigo]

abril 11, 2011

Escassez

What is it about tangible goods that makes them sub­jects for property rights? Why are tangible goods property? A little reflection will show that it is these goods’ scarcity—the fact that there can be conflict over these goods by multiple human actors. The very possibility of conflict over a resource renders it scarce, giving rise to the need for ethical rules to govern its use. Thus, the fundamental social and ethical function of property rights is to prevent interpersonal conflict over scarce resources. As Hoppe notes:
[O]nly because scarcity exists is there even a problem of formulating moral laws; insofar as goods are superabun­dant (“free” goods), no conflict over the use of goods is possible and no action-coordination is needed. Hence, it follows that any ethic, correctly conceived, must be for­mulated as a theory of property, i.e., a theory of the as ­signment of rights of exclusive control over scarce means. Because only then does it become possible to avoid oth­erwise inescapable and unresolvable conflict.
[...] Nature, then, contains things that are economically scarce. My use of such a thing conflicts with (excludes) your use of it, and vice­ versa. The function of property rights is to prevent interpersonal con­flict over scarce resources, by allocating exclusive ownership of re­sources to specified individuals (owners). [...] Ideas are not naturally scarce. However, by recognizing a right in an ideal object, one creates scarcity where none existed before.

Kinsella - Against Intellectual Property [pdf do artigo]

abril 10, 2011

Storm

Uma excelente curta de animação que vale a pena para quem tem de ouvir, por educação, adultos a falar de variações sobre o Pai Natal.

abril 08, 2011

Diferença de Tratamento

É suposto a uma associação tratar de forma distinta os seus associados das restantes pessoas. O estado é uma associação que representa todos aqueles que pertencem a um dado espaço geográfico ou cultural e vê, assim, impedida essa diferença de tratamento. Um estado não pode ser neutral até porque precisa de um orçamento (e nunca há voluntários que cheguem) mas tem de ser imparcial.

abril 06, 2011

Intenção

A intenção é irrelevante se algum direito fundamental for violado. A sociedade tem o dever de erguer muros legais e éticos que previnam até as más acções involuntárias.

abril 05, 2011

Leituras

Se segues um livro sagrado que contém bons e maus mandamentos morais, e consegues destinguir quais são quais, qual é a utilidade moral do livro?

abril 04, 2011

Manutenção

Os direitos cívicos como o direito a uma vida integra, a liberdade de expressão e acesso à informação, de associação familiar e colectiva ou a uma educação secular, são os necessários direitos fundamentais que cumprem dois objectivos: (a) protegem todas as pessoas de forma igual, e (b) mantêm uma sociedade onde eles podem ser aplicados (designada aqui por sociedade civil).

Como corolário de (a) verificamos que a plena execução destes objectivos necessita de uma república (no sentido da igualdade de direitos e deveres fundamentais ou legais). Relativamente a (b) obtemos uma resposta sobre as questões de tolerância a ideias contrárias: uma sociedade civil deve proteger-se contra quaisquer acções que ameacem a sua existência (especialmente se originadas pelos líderes eleitos para exercer a governação). Também por (b) se justifica que o direito à educação seja universal, grátis e compulsório (uma população mais iletrada é menos capaz de sustentar uma sociedade civil).

Existem outros tipos de direitos, como direitos políticos (direito ao voto, de poder ser eleito, de petição) ou direitos económicos (direito à troca e ao lucro, acesso a um mercado o mais livre possível e de igual oportunidades, etc.). Estes direitos são muitíssimo importantes mas não creio que sejam tão importantes como os direitos civis referidos. Os direitos políticos implicam uma democracia, e os económicos um sistema capitalista. Ora, a democracia e o capitalismo são as melhores ferramentas que possuímos para manter uma sociedade civil (apesar das suas implementações presentes serem passíveis de muitos melhoramentos). Mas elas são apenas ferramentas. Encontrando melhores soluções, estes sistemas poderiam ser substituídos (talvez isto nunca venha a acontecer mas diz-nos o passado que o futuro encerra imensas potencialidades inesperadas). O que eu não estou disposto a sacrificar é o ideal da sociedade civil em troca de qualquer outra proposta, por mais apetecível e viável que seja*.

(*) Somos cidadãos do nosso tempo. A ideologia, mais ou menos cerrada, apanha-nos a todos.

março 31, 2011

Solidariedade Inter-geracional

Salvo morte ou má-sorte inesperada é errado a um pai deixar aos seus filhos uma herança com mais dívidas que créditos. Esta ideia deveria servir de analogia às decisões económicas da sociedade. Uma geração deve evitar viver à conta do esforço futuro dos seus filhos. Assim, qualquer política insustentável, ou sustentável sobre premissas de duvidosa probabilidade, seria vista como socialmente errada. Com isto em mente, o que dizer-lhes sobre as nossas escolhas? Sobre os investimentos públicos que escolhemos, os benefícios que a nós próprios concedemos, a exigência e qualidade da educação que lhes damos?

março 29, 2011

Exploração

Por volta de 1990, sentado à frente de um então poderoso Intel 80486, lembro-me ainda do prazer de explorar os infinitos interstícios do conjunto de Mandelbrot com o velhinho Fractint (software que ainda existe!). Deixo-vos um pouco dessa sensação, agora actualizada a 3D, na exploração do Mandelbox:

março 28, 2011

Redução

Os nossos preconceitos tiram-nos liberdade ao reduzir as opções possíveis às opções aceitáveis. O mesmo se passa com a honra ou com a exigência da virtude. Ou no acordo social da comunidade onde somos o que somos.

Há outras restrições às opções possíveis, e que reflectem aspectos da realidade não deliberados: restrições económicas, geográficas, tecnológicas, de recursos, físicas ou mentais. Mas estas não são do domínio da liberdade, não são resultado directo de uma opressão consciente, política ou social, individual ou colectiva. E estas não são as mais difíceis de resolver ou minorar.

março 25, 2011

Hipocrisia Aplicada

Isto pode-se fazer:Já isto é proibido:

On October 21, 1971, [...] Disney accused the Pirates of copyright infringement, trademark infringement, unfair competition, intentional interference with business, and trade disparagement through the wrongful use of its characters. It stated that Disney, through "great effort and...large sums of money," had created characters whose "image of innocent delightfulness...are known and loved by people all over the world, particularly children" and that the defendants' efforts to "disparage and ridicule" these characters threatened to destroy Disney's business. The complaint requested that Disney be awarded all of the Pirates' profits, $5,000 for each copyright infringement, treble damages for the trademark infringement, punitive damages of $100,000 from each defendant, surrender of the offending books, and reimbursement of its attorneys' fees. [ref]
Disney filed a million dollar lawsuit against a family-owned clown company for trademark infringement. Marisol Perez-Chaveco and her husband run Kool Klown Party People in Claremont. The couple bought Winnie-the-Pooh, Eyeore and Tigger costumes on eBay for $700 and advertised the caracters on their company website, MySpace and Craig's List. Disney sent them three letters demanding them to remove the pictures and turn the costumes over to Disney so they can be destroyed. If not they would be sued. [ref]


Mapas e Territórios

(c) xkcd

março 21, 2011

Inércia II

Parte da moral de uma cultura resulta das condições de vida, dos recursos e da simpatia dos elementos naturais. O problema de dogmatizar preceitos morais é estes perderem a razão de ser com o progresso social e com a eliminação dos problemas que motivaram inicialmente esse comportamento. O que antes tivera uma utilidade social passa a ser um travão, uma restrição ou permissão irracional.

março 18, 2011

Inércia

Se existe um mecanismo inato para a aprendizagem de uma moral particular (a da cultura onde se nasce), isto significa que, à imagem da linguagem, as possíveis morais humanas - para além de limitadas pelas capacidades cognitivas da espécie - também partilham uma estrutura básica comum, sendo os detalhes, os diversos parâmetros dessa gramática moral, preenchidos pela respectiva sociedade onde o individuo se insere e se faz adulto. Mas isto terá uma outra implicação: se a aprendizagem da primeira moral é natural e automática (como o aprender da língua nativa), aprender uma segunda moral é uma tarefa onerosa, difícil e quase nunca totalmente concretizada. Se for assim, este é um mecanismo de inércia à mudança, uma resistência passiva própria das culturas. Para quem nasce numa comunidade que desenvolveu, ao longo da sua história, uma moral mais dogmática, preconceituosa, provinciana, a oportunidade da uma saída representa um choque, a possibilidade uma nova tragédia.

março 14, 2011

Interesses

Um post completo de um novo blog de teoria política muito interessante:

"The remarkable truth of this conversation between bleeding heart libertarians and progressives is that our disagreement is exclusively empirical. If we all agree that political institutions should be arranged to alleviate poverty, then the only remaining question is which policies actually do this. Why is it then that we cannot agree, or at least converge, by just looking at reliable data, studies, and empirical theories?

I suggest an answer: in the political arena, a person often supports a policy, not because of the effects he thinks that policy will have, but because his supporting it has symbolic value for himself or others. Supporting the minimum wage is an act that stands for a value such as concern for the poor. The person who is concerned for the poor wants to express that concern, and there are acts that socially symbolize that concern: praising the New Deal, announcing that you voted for a Democrat, supporting public schools, criticizing Bush.

Symbolic behavior, I hasten to say, is not exclusive of progressives. In libertarian circles someone may oppose environmental regulation for symbolic reasons. That position evinces a hostile attitude toward government regulation in general which he wants to express. In his haste to send the right signals he overlooks (say) the problems of externalities and market failure.

The speaker in these cases might not simply want to express himself. He may be anxious to be accepted in certain groups who associate the verbal act with other beliefs that the speaker presumably has and that make him a desirable candidate for admission.

I have found that this problem, self-defeating political symbolism, is extraordinarily hard to eradicate and fatally gets in the way of agreement between these two audiences. Progressives feel compelled to stand by their positions even in the face of evidence that the policies they advocate frustrate the goal they profess. They stick to those views because the views strongly symbolize and give unity to a vision of the world associated with social justice. Libertarians, on the other hand, have a hard time convincing progressives that they care for the poor because they endorse policies that do not socially symbolize concern for social justice.

I do not know how to get around this problem, but, for whatever is worth, I find symbolic behavior morally objectionable, because the speaker cares about the values he expresses more than about those persons he says he wants to help." Fernando Teson, Bleeding Heart Libertarians

março 08, 2011

Heresias

A Heresia é um crime de pensamento. Ela que ocorre quando se rejeitam dogmas da religião ou ideologia em questão. Quando o limite imposto ao que é aceite como modelo ou verdade se baseia num arbitrário tradicional, qualquer reavaliação crítica vê-se perante uma resposta violenta. Não é possível dialogar com uma corporação religiosa ou ideológica que se proclama revelada. Sustenta-os a palavra que é dogma, seja de origem divina, profética ou fossilizada numa obra secular. E essa palavra, uma vez em acção, não se altera pacificamente porque não é no argumento racional que encontra forças. É surda e agressiva, conservadora do poder que obteve na sorte do processo histórico.

A história da Igreja Católica é milenar. Tendo em conta o número de dogmas impostos ao longo dos séculos, muitos deles derivados de questões políticas ou de lutas de poder (como no concílio de Niceia) mas que há muito perderam significado. Por isso, não é surpreendente o número de heresias erradicadas pelo ramo mais bem sucedido do cristianismo. Entre a extensa lista, encontrei dois exemplos de heresia que usavam a racionalidade como arma.

Monarquianismo: Assentavam na natureza única de deus que implicava a rejeição da trindade. Estas heresia nasceu nos séculos II e III. Os seus seguidores estudavam os textos sagrados através de silogismos e eram admiradores de sábios como Euclides, Aristóteles ou Galeno. Houve vários ramos desta heresia, como os Modalistas, e diz-se que sobreviveram de uma forma ou de outra até ao século IX. [1]

Socinianismo: Esta também é uma heresia sobre a natureza de deus. Dois irmãos de sobrenome Sozinni na Polónia em meados do séc. XVI. A opinião herege era igualmente a negação da trindade por negar a unidade de deus. Neste caso, deus é uma entidade única sendo o espírito santo o seu poder. Assim, ao promover a unicidade, cristo não poderia ser uma entidade humana e divina. E isso implica negar a divindade de Jesus bem como a sua pré-existência. A Bíblia era autoridade apenas quando interpretada através da razão [1, 2]. Esta crença teve um grande impacto na Europa de Leste, tendo durado cerca de um século antes de desaparecer.

março 03, 2011

Ideologia

A ideologia é uma falha cognitiva humana que impede um sujeito de processar evidência incompatível com os seus princípios. Isto costuma ocorrer de forma inconsciente e automática. Ninguém está a salvo deste problema. Os preconceitos e as inclinações são-nos naturais e é apenas através de um esforço crítico constante que conseguimos lutar contra esta tendência. A partir de um certo nível, a cegueira ideológica pode transformar-se em fanatismo (religioso, político) onde nenhuma evidência contrária é considerada. O fanático é um sujeito que habita um mundo maniqueísta de certezas e dogmas revelados.

Sou da opinião que a filosofia liberal (no sentido clássico do termo) deu-nos a resposta mais apropriada para lidar com este problema. Uma atitude liberal assenta no admitir sempre a possibilidade que o outro possa ter razão, e que é errado coagi-lo para que não proponha soluções diversas. Ou seja, a promoção da tolerância. A tolerância tem custos e riscos (devemos ser tolerantes em relação aos fanáticos? deve ir a eleições um partido antidemocrático?) mas, no geral, é uma aproximação pouco ideológica que, diz-nos a experiência, é capaz de lidar com o bem comum.

Ser tolerante não significa aceitar de igual modo todas as soluções ou que todas elas são igualmente válidas (as teses sofistas ou pós-modernas). Cada solução é suportada em argumentos e evidência, o que lhes atribui um certo grau de qualidade e viabilidade. Uma solução é melhor se do seu lado houver mais argumentos a favor que contra, mais evidência positiva que negativa. Sem informação relevante não podemos ter convicções fortes que uma política é melhor que outra, ou seja, não há soluções absolutas nem argumentos últimos. Há sim um acumular de razões, de teorias, de experiências que podemos usar para melhorar as nossas decisões presentes e futuras.

Estas noções são subjacentes às sociedades liberais modernas, sejam elas conservadoras, social-democratas ou liberais (eis uma palavra com demasiados usos...). A tolerância, a democracia, os direitos fundamentais são conceitos considerados não negociáveis na cultura dita ocidental e tão óbvios que os assumimos naturalmente. Por um lado isto seria expectável porque estes conceitos correspondem a uma prática política e social que obteve muitos sucessos e trouxe uma melhoria geral nas condições de muitos povos, principalmente se comparados com a esmagadora maioria dos estados totalitários. Por outro, é um pouco surpreendente dada a sua implementação social, em termos históricos, ser muitíssimo recente e estando ainda por concluir (lembrar as polémicas e alergias gregárias que levantam os direitos dos homossexuais ou o aceitar da eutanásia activa).

Tendo em conta o carácter axiomático que um liberal clássico dá às liberdades individuais, uma política só é adequada se a sua execução não colocar essas liberdades em risco. Este ponto pode ser usado para arremessar a acusação ideológica ao liberal. Sem grande surpresa existe a variante fanática do liberalismo, os libertários, que advogam a quase total obliteração do estado com a premissa ideológica que nada que provenha do estado é positivo. Como qualquer tipo de pensamento fortemente ideológico, esta posição política é irracional sendo cega a factos históricos indiscutíveis (como a abolição da escravatura, a emancipação das mulheres ou a escolaridade universal, só para dar três exemplos básicos).

Como se disse no início, não parece ser possível erradicar as inclinações e preconceitos de um ser humano. Mas isso não significa que devamos minimizar o seu efeito. Ora um liberal também traça uma linha perante a qual não recua; um liberal não é um anarquista ou um niilista. Essa linha existe para defender os direitos fundamentais de cada pessoa (sendo crítica a discussão de quais exactamente são esses direitos). O que o liberal acredita é que essa linha não deve desenhada em favor de qualquer projecto social idealizado no passado (típico do conservador radical) ou no futuro (do progressista radical).

Argumenta o pensamento liberal que a livre expressão de todas as opiniões é o melhor caminho para apresentar, debater e encontrar soluções sustentadas. Estas soluções poderão, se a comunidade assim o entender, ser experimentadas no âmbito público. Daqui a necessidade da democracia para legitimar esta dinâmica pública de discussão. Prefere-se o uso de políticas suportadas na experiência, adaptáveis às circunstâncias presentes e resultados passados do que aquelas inspiradas em dogmas e certezas ideológicas. E se as soluções escolhidas ficarem aquém do prometido, o debate livre de ideias, alimentado com a nova evidência da experiência anterior, será capaz de propor e implementar novas soluções. Por isso um liberal clássico pode concordar com políticas conservadoras ou progressistas mas é totalmente incompatível com a execução de políticas totalitárias (pela sua própria natureza, antidemocráticas).

Não é de admirar que as sociedades liberais do ocidente se baseiam na experimentação (muitas vezes sincronizadas com ciclos eleitorais ou remodelações governamentais) e que esse experimentar produza múltiplos falhanços e, devido à inércia social e legislativa, num acumular de gordura estatal e burocracia redundante. O motivo é que elas também nos oferecem uma dinâmica e poder de adaptação que, mostra-nos a história dos últimos séculos, não encontra paralelo com governos ideológicos, fundados no absoluto tão típico dos regimes totalitários e teocráticos.

fevereiro 28, 2011

Asserções Sustentadas

Uma asserção universal (como "Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos", artº 1 da Declaração Universal dos Direitos Humanos) tem uma abrangência tal que deve ser sustentada quer por teses e argumentos válidos como por evidência concreta a seu favor. As asserções liberais defendidas por pessoas como John Locke, Adam Smith, Thomas Jefferson ou Stuart Mill possuem forte sustentação argumentativa nas vertentes filosófica, ética e económica. A complementar estas teses temos agora a experiência histórica e social do Século XX. Esta evidência é de tal modo forte que, hoje em dia, é difícil contrariá-la sem uma pesada componente ideológica (um eufemismo para cegueira cognitiva).

fevereiro 25, 2011

Resíduo

"The third-person methods of the natural sciences suffice to investigate consciousness as completely as any phenomenon in nature can be investigated, without significant residue. What is the import of “significant” here? Simply this: If scientists were to study a single grain of sand, there would always be more that could be discovered about it, no matter how long they worked. The sums of the attractive and repulsive forces between all the subatomic particles composing the atoms composing the grain will always have some residual uncertainty in the last significant digit we have calculated to date, and backtracking the location in space-time of the grain of sand over the eons will lead to a spreading cone of indiscernibility. But our ignorance will not be significant. The principle of diminishing returns applies. My claim is that if we use the third-person methods of science to study human consciousness, whatever residual ignorance we must acknowledge “at the end of the day” will be no more unsettling, no more frustrating or mystifying, than the ignorance that is ineliminable when we study photosynthesis, earthquakes, or grains of sand. In short, no good reasons have been advanced for the popular hypothesis that consciousness is, from the point of view of third-person science, a mystery in a way that other natural phenomena are not" - Daniel Dennett, Sweet Dreams