abril 29, 2010

Controlo

Uma religião ou uma ideologia são mecanismos de pacificação mental. Ao dispor de uma estrutura explicativa seja do mundo externo, social ou íntimo, protege o crente de um oceano de questões e decisões. Ao querer impossível a pergunta, ao tornar desnecessário a opção, promete aos seus uma vivência simplificada. Este sistema é protegido quer por mecanismos de censura (o index que proíbe textos e imagens de outras perspectivas) quer por auto-censura (graças à excepcional facilidade que temos em isolar certas crenças de qualquer introspecção crítica). Uma sociedade deste tipo usa livremente os media e as escolas como instrumentos de uniformização bem como a polícia e as próprias pessoas como sistema imunitário à diferença, à opinião e à acção não formatada. O inimigo não se encontra necessariamente fora nem dentro, é imanente em tudo o que se faz e pensa e, assim, tudo o que se faz e pensa é potencialmente gerador de culpa, um crime ou pecado. Para a manutenção desta dinâmica viciada, uma das questões essenciais é manter isolado o mecanismo mental da dúvida. A acção em vez da introspecção, a repetição em vez do original, tudo são processos para fixar automatismos e afogar o único de cada pessoa. Felizmente, não é fácil extrair a dúvida totalmente de uma pessoa sem a reduzir a uma sombra. Mesmo que seja possível construir uma sociedade de sombras ela dificilmente se mantém, o nosso passado genético não é o da colmeia. E quanto mais reprimida uma sociedade for, quanto maior o esforço para mantê-la controlada, mais exposta se torna à dúvida que pretende destruir.

abril 26, 2010

Aproximação

Quando perante um problema maior se cria um problema menor para o resolver, ficamos mais perto da solução.

abril 23, 2010

Promessas

O acreditar num principio cósmico indiferente não se encontra muito distante do aceitar uma realidade coerente e objectiva. O primeiro crê numa fonte do Universo (cuja origem é ininteligível) e que, eventualmente, o mantém estável; o segundo crê num início sem causa aparente (o Big-Bang) e vê o Universo como um pano de fundo há muito estabilizado. Existe, claro, uma diferença crucial: há evidências do segundo enquanto o primeiro é imune a qualquer análise. O primeiro é o príncipio das religiões védicas e helenistas ou ainda do deus de Spinoza (o ser cósmico que se confunde com o próprio universo), o segundo o pano de fundo do método científico. Mas enquanto a adopção do segundo resultou na criação de conhecimento fundamental para o progresso social, o primeiro anexou em seu redor uma corte de conceitos artificiais progressivamente mais barrocos: o principio tornou-se pessoal (nas personalidades de deuses e demónios), preocupado com micro-gestão (o karma, a predestinação, os juízos finais) e com espírito de pai natal (uma alma eterna, o paraíso, a reencarnação). Este evoluir é, provavelmente, reflexo do carácter irracional e infantil do ser humano, da nossa fragilidade, do curto tempo, poder e opções que dispomos. Mas também é devido à maior antiguidade que o primeiro conceito tem em relação ao segundo. No ecossistema mental da humanidade é natural que as propostas mais aliciantes às ânsias e aos desejos imediatos das pessoas tenham maior probabilidade de sucesso. Uma resposta fácil e final é mais propícia a manter-se do que uma que só promete dificuldades. E a Ciência é nisto implacável: não há nada lá fora que seja simpático à humanidade; tudo o que podemos obter está no verniz deste planeta preso e alimentado por uma estrela convulsiva; não há sentido em nada excepto naquilo por nós construído; não há um destino excepto a extinção; não há respostas finais excepto as impostas pela autoridade; o conhecimento não é fácil nem revelado mas apenas resultado de suor, de muitos erros, de recuos pesadíssimos e, demasiadas vezes, à custa de sangue. Nosso.

abril 20, 2010

Leis

As leis da natureza formam uma restrição ao comportamento possível. A moral individual também. Mas a definição desta é difusa, uma trajectória na trajectória pessoal que cada um é. Os fundamentos que a moldam podem vir da experimentação, da razão ética, do mito, da ideologia. Em qualquer dos casos as variações são ilimitadas mas, excepto na razão, elas não são só subtis.

abril 13, 2010

Conquista

Há uma ideia que, espero, conquistará o mundo: somos todos iguais no sentido em que devemos ter os mesmo direitos, obrigações e oportunidades mas somos diferentes nas capacidades, nas crenças e nos gostos. Esta ideia, um pouco como a evolução, é um diluente universal, dissolvendo preconceitos opressores de minorias e desviantes. Ninguém é especial ou escolhido, nem povos, nem pessoas nem deuses. Não há nações melhores que outras, não há gostos nem crenças especiais, vícios ou virtudes absolutas, ninguém tem a última palavra nem há dogmas finais. Resta, a cada um, a liberdade possível e a responsabilidade das acções que comete. Nisto, a comunidade é apenas um meio (e nesse apenas, tanto) e não um fim. Um facilitador e não um normalizador. Um palco para o escrutínio público produzir conhecimento e não uma muralha para defender crenças arbitrárias. Um amigo exigente, não um pai.

abril 08, 2010

Conflito

"[...] my disbelief in determinism must be contained in the set of factors which determine my behavior; one of the conditions for fulfilling the prearranged pattern is that I should not believe it is prearranged.. Destiny can only have its way by forcing me to disbelieve in it. Thus the very concept of determinism implies a split between thinking and doing; it condemns man to live in a world where the rules of conduct are based on As-Ifs and the rules of logic on Becauses. This paradox is not confined to scientific determinism; the Moslem, living in a world of religious determinism, displays the same mental split. Though he believes, in the words of the Koran, that «every man's destiny is fastened on his neck», yet he curses his enemy, and himself when he blunders, as if all were masters of their choice. [...] Destiny versus freedom (or explanation vs volition) is an eternal duality in man's mental structure. Both concepts are derived from fundamental instincts, though in different periods they are expressed in different forms.

The idea of destiny responds to the need to find some organizing principle, a universal order behind the threatening chaos of the natural world. Its instinctual root is probably the feeling of insecurity, a cosmic anxiety, which craves for reassurance by «explanation», that is, the reduction of the strange and threatening to the familiar. In primitive religion this is achieved by explaining the forces of nature through animism and personification. [...] About 1600 the character of destiny underwent a change. A new method of explanation arose in the measurements of the quantitative aspects of things and the formulation of their rules of interaction. Many phenomena which had appeared different in kind proved to be explainable in differences of degree. The success of this method meant that the organizing principle of the universe could now be more satisfactorily explained in therm of these quantities and relations. Deity, whose human passions had gradually decreased with increasing wisdom, now became entirely de-personalized. The idea of enforced order, «fastened around man's neck» remained untouched, but the seat of the organizing power had been shifted. The gods had been supermen, extrapolations of an ascending scale; atoms and electrons were subhuman, extrapolation of a descending scale. Destiny which had operated from above now operated from below." Arthur Koestler, The Yogi & The Commissar II.

abril 05, 2010

Evolução

As crianças são muito atentas quando há alguma diferença de tratamento ou de situação (por exemplo, se uma tem um brinquedo, outra quer um igual; se a janela do carro está aberta, a criança, lá atrás, quer também abrir a sua). À primeira vista pode parecer inveja ainda não domesticada, mas creio que se trata de um primeiro esforço de ética e justiça. Provavelmente é um passo necessário na formação de uma pessoa (deve haver extensa literatura sobre este assunto da psicologia infantil e confesso, desde já, a minha ausência de referências) e pode mesmo ter moldado as éticas primitivas das primeiras culturas (como o 'olho por olho, dente por dente').

O importante para este texto é a constatação de que há comportamentos em adultos similares a esta proto-ética. Um exemplo. Num campeonato de matemática que organizei, há uns anos, aconteceu haver 200 livros para oferecer a 250 alunos participantes. Houve professores que sugeriram que, como não poderíamos dar um livro por aluno, para não ferir susceptibilidades (das crianças, imagino), mais valia não dar qualquer prémio de participação. Isto, para mim, é o raciocínio mental típico de uma criança. Era evidente que apenas os 200 melhores classificados levariam prémio de participação, ou seja, havia um critério objectivo e justo para a atribuição dos referidos livros e devia ser aproveitado. Esta segundo opção é tão evidente, e de tal modo mais apropriada, que fiquei surpreendido que alguém quisesse preteri-la pela primeira opção. Mesmo que não houvesse um critério hierárquico evidente, como a classificação do campeonato, haveria sempre o recurso ao aleatório. Ao quebrar a causalidade, uma lotaria garante a eliminação de vários critérios preferenciais e injustos. Uma lotaria para entregar 200 prémios a 200 de 250 crianças é sempre melhor que negar tudo a todos por incapacidade de recompensar a todos por igual. A ética é um exercício sobre recursos limitados, não é um tudo ou nada resultante do confronto entre o real e a fantasia.

março 31, 2010

Negócios

 

março 29, 2010

The Road to Serfdom III

The point which is so important is the basic fact that it is impossible for any man to survey more than a limited field, to be aware of the urgency of more than a limited number of needs. Whether his interests centre round his own physical needs, or whether he takes a warm interest in the welfare of every human being he knows, the ends about which he can be concerned will always be only an infinitesimal fraction of the needs of all men. This is the fundamental fact on which the whole philosophy of individualism is based. It does not assume, as is often asserted, that man is egoistic or selfish, or ought to be. It merely starts from the indisputable fact that the limits of our powers of imagination make it impossible to include in our scale of values more than a sector of the needs of the whole society, and that, since, strictly speaking, scales of value can exist only in individual minds, nothing but partial scales of values exist, scales which are inevitably different and often inconsistent with each other. From this the individualist concludes that the individuals should be allowed, within defined limits, to follow their own values and preferences rather than somebody else's, that within these spheres the individual's system of ends should be supreme and not subject to any dictation by others. It is this recognition of the individual as the ultimate judge of his ends, the belief that as far as possible his own views ought to govern his actions, that forms the essence of the individualist position. F.A.Hayek, The Road to Serfdom

março 25, 2010

março 22, 2010

The Road to Serfdom II

The liberal argument is in favour of making the best possible use of the forces of competition as a means of co-ordinating human efforts, not an argument for leaving things just as they are. It is based on the conviction that where effective competition can be created, it is a better way of guiding individual efforts than any other. It does not deny, but even emphasises, that, in order that competition should work beneficially, a carefully thought-out legal framework is required, and that neither the existing nor the past legal rules are free from grave defects. Nor does it deny that where it is impossible to create the conditions necessary to make competition effective, we must resort to other methods of guiding economic activity. Economic liberalism is opposed, however, to competition being supplanted by inferior methods of coordinating individual efforts. And it regards competition as superior not only because it is in most circumstances the most efficient method known, but even more because it is the only method by which our activities can be adjusted to each other without coercive or arbitrary intervention of authority. Indeed, one of the main arguments in favour of competition is that it dispenses with the need for "conscious social control" and that it gives the individuals a chance to decide whether the prospects of a particular occupation are sufficient to compensate for the disadvantages and risks connected with it. F.A.Hayek, The Road to Serfdom

março 18, 2010

The Road to Serfdom I

There is nothing in the basic principles of liberalism to make it a stationary creed, there are no hard-and-fast rules fixed once and for all. The fundamental principle that in the ordering of our affairs we should make as much use as possible of the spontaneous forces of society, and resort as little as possible to coercion, is capable of an infinite variety of applications. There is, in particular, all the difference between deliberately creating a system within which competition will work as beneficially as possible, and passively accepting institutions as they are. Probably nothing has done so much harm to the liberal cause as the wooden insistence of some liberals on certain rough rules of thumb, above all the principle of laissez-faire. Yet in a sense this was necessary and unavoidable. Against the innumerable interests who could show that particular measures would confer immediate and obvious benefits on some, while the harm they caused was much more indirect and difficult to see, nothing short of some hard-and-fast rule would have been effective. And since a strong presumption in favour of industrial liberty had undoubtedly been established, the temptation to present it as a rule which knew no exceptions was too strong always to be resisted. F.A.Hayek, The Road to Serfdom

março 15, 2010

Poupança

Gustavo Matamouros vê-se perante um caso inédito, não só na sua carreira de polícia de homicídios mas também nos anais da história criminosa bem como nos argumentos de séries e livros policiais. Um mafioso albanês, seja A, devido à guerra com o cartel brasileiro, montou uma armadilha a um dos seus chefes, seja B. Este B, individuo recalcitrante, por sua vez, preparou um plano para matar o responsável pela contabilidade da máfia chinesa, seja C (o leitor atento poderá suspeitar que estou a escolher os países pela sua letra inicial matematicamente apetecível e não seria eu a desmentir tal inteligente crença). Ora A era amante da mulher de C o que, após a descoberta levou igualmente a que este, tendo alguma facilidade no acesso a armas de fogo, fosse à casa de A para ajustar contas. Logo a seguir a A ter montado a bomba incendiária ao retardador no carro de B, A foi para casa a pé (eles não moravam longe uns dos outros). O que acontece é que, nesse mesmo dia, B decidira-se reformular o cérebro de C e segui-o até à casa de A. No momento em que A roda a chave, C acciona a bazuca dinamarquesa (seja D) com sucesso e faz desaparecer a face sul da mansão albanesa. Segundo depois, C usa a besta medieval -- artefacto que, pensa ele com alguma razão, lhe dá estilo -- para trespassar as principais artérias de B, instante esse em que a bomba dispara, levando o carro, a besta e o corpo de C para níveis atmosféricos. Um triplo assassinato circular, pensa Gustavo Matamouros, admirado pelo convergir dos eventos que as pistas lhe indicam e na poupança judicial aos contribuintes da cidade, já que Gustavo Matamouros era um indivíduo, acima de tudo, com carácter económico.

março 12, 2010

Crime

A política, enquanto actor de uma ética racional, deveria ter, como princípio deontológico, aumentar as opções de escolha dos cidadãos da sociedade na qual gere os recursos comuns. Limitada pelos direitos individuais, todos esses recursos deveriam ser usados nesse sentido. Tudo o que é oposto e consumidor, como guerras, cultivar preconceitos artificiais (como a nação), subjugar a justiça e a economia a ideologias não racionalmente defensáveis, serão sempre crimes.

março 09, 2010

Dicotomias

Lidar com as causas ou mitigar os sintomas. Se o assunto é o individuo essa é a diferença entre a medicina e a aspirina. Mas se falamos da sociedade, os sintomas encarnam-se nos desviantes da regra moral vigente. O Dr. Spleen reconhece que se trocarmos o objectivo da razão pelo subjectivo da tradição, a possibilidade pela limitação, as causas pelas consequências, todos se arriscam em ser loucos se a alternativa única for o robot. O problema é ser cada sociedade um acumular de restrições históricas e irracionalidades cristalizadas na inércia cognitiva dos seus cidadãos. Desse modo, pelo mundo fora (porque a tecnologia ainda não lhe permite atravessar a galáxia à procura de um canto mais sossegado) o vírus da humanidade cozinhou milhares de versões deste problema fundamental, ao qual a escolha, sua, de habitar o menos mau aliado ao hábito de cortar, enfim, pessoas, não chega para compensar o irredutível deste facto.

março 05, 2010

Balanço

A distância do outro, do vizinho da porta ao lado, que normalmente não vejo, não falo e que vive separado apesar da geografia comum, é uma solução para o decréscimo de conflitos (veja-se as assembleias de condomínio para um aperitivo do que seria de outro modo). Quanto maior o isolamento, menor a violência. Quando o isolamento não pode ser físico, como no caso da urbanidade compacta das nossas cidades, ele expressa-se em apatia, em reserva, em boas maneiras e discreta civilidade. A desintegração da comunidade, como tudo, tem vantagens e desvantagens. Baixa a violência mas aumenta o espaço de manobra do estado paternalista.

março 03, 2010

Sci-Philosophy IV

We have a disturbed relationship with our past which religion cannot explain. We are primitive in unexplainable ways, our lives woven of the familiar and the strange, the reasonable and the insane.

Governments always commit their entire populations when the demands grow heavy enough. By their passive acceptance, these populations become accessories to whatever is done in their name.

Does a populace have informed consent when a ruling minority acts in secret to ignite a war, doing this to justify the existence of the minority's forces? History already has answered that question. Every society in the ConSentiency today reflects the historical judgment that failure to provide full information for informed consent on such an issue represents an ultimate crime.

Does a population have informed consent when that population is not taught the inner workings of its monetary system, and then is drawn, all unknowing, into economic adventures?

Communal/managed economics have always been more destructive of their societies than those driven by greed. This is what the Dosadi says: Greed sets its own limits, is self-regulating. Frank Herbert, The Dosadi Experiment

fevereiro 25, 2010

Sci-Philosophy III

Casual acceptance demonstrated how easily rational thought could be directed by wishful thinking. This was a common susceptibility of all sentients.

The play of words can lead to certain expectations which life is unable to match. This is a source of much insanity and other forms of unhappiness.

But the dreams would be gone, lost in that season of death. There would be a special kind of silence: no more beautiful speech strewn with arrows of meaning. Who could console the universe for such a loss?

Never underestimate the power of wishful thinking to filter what the eyes see and what the ears hear.

It is impossible to see any absolute through a screen of interpreters.

One species can, all by itself, produce infinite varieties of experiences. The interaction between many species creates the illusion that infinity has been enlarged by several orders of magnitude.

Providence and Manifest Destiny are synonyms often invoked to support arguments founded in wishful thinking.

If you believe yourself sufficiently hungry, you will eat your own thoughts.

Any conversation is a unique jazz performance. Some are more pleasing to the ears, but that is not necessarily a measure of their importance.

If words are your symbols of reality, you live in a dream world. Frank Herbert, The Whipping Star

fevereiro 22, 2010

Sci-Philosophy II

We sift reality through screens composed of ideas. These idea systems are limited by language. That is to say: language cuts the grooves in which our thoughts must move. If we seek new validity forms, we must step outside the language.

What was instinct? An innate pattern impressed on the nervous system.

To remove a man's delusions is to create a vacuum. What rushes into that vacuum?[...] It's normal to share the delusions of one's society. It's abnormal to develop private delusions.

Societies don't believe they can die. It must follow that a society, as such, does not worship at all. If it cannot die, it'll never face a final judgment.

Every system and every interpretation becomes false in the light of a more complete system. I wonder if that's why you're here -- to remind us no positive statement may be made that's free from contradictions. Frank Herbert, - The Santaroga Barrier

fevereiro 18, 2010

Axiomas II

Na Matemática procura-se axiomatizar as disciplinas que a compõem (como a geometria, a aritmética ou as probabilidades). As características que os axiomas têm de possuir são a coerência e a expressividade. Elas focam o aspecto da utilidade da respectiva disciplina (axiomas incoerentes demonstram qualquer coisa e o seu contrário, pouca expressividade amputa a aplicabilidade do sistema) não sendo suposto os axiomas reflectirem alguma verdade subjacente. Assim, certos axiomas não são nada evidentes (e.g., o axioma da escolha) e há disciplinas que usam axiomas opostos (e.g., as geometrias euclidiana e não-euclidianas).

Pode esta atitude ser aproveitada na ética ou na epistemologia? Sejam os dois seguintes axiomas: "Todas as pessoas devem ter direitos iguais" e "Existe uma realidade objectiva". Seguindo o raciocínio anterior, não teriam de ser evidentes mas sim coerentes e expressivos (a expressividade, aqui, corresponde ao que podemos obter com a sua adopção). E se há argumentos fortes a favor da coerência destes axiomas, a evidência histórica é indiscutível em relação às vantagens obtidas do seu uso. O suficiente, creio, para os aceitarmos como axiomas mesmo que, para os mais cépticos ou mais cínicos, eles não se mostrem óbvios.

fevereiro 16, 2010

Carnaval

fevereiro 11, 2010

Axiomas I

"Ask a beginning philosophy of mathematics student why we believe the theorems of mathematics and you are likely to hear, "because we have proofs!" The more sophisticated might add that those proofs are based on true axioms, and that our rules of inference preserve truth. The next question, naturally, is why we believe the axioms, and here the response will usually be that they are "obvious", or "self-evident", that to deny them is "to contradict oneself" or "to commit a crime against the intellect". Again, the more sophisticated might prefer to say that the axioms are "laws of logic" or "implicit definitions" or "conceptual truths" or some such thing.

Unfortunately, heartwarming answers along these lines are no longer tenable (if they ever were). On the one hand, assumptions once thought to be self-evident have turned out to be debatable, like the law of the excluded middle, or outright false, like the idea that every property determines a set. Conversely, the axiomatization of set theory has led to the consideration of axiom candidates that no one finds obvious, not even their staunchest supporters. In such cases, we find the methodology has more in common with the natural scientist's hypotheses formation and testing than the caricature of the mathematician writing down a few obvious truths and preceeding to draw logical consequences. [...] The fact that these few axioms [of set theory] are commonly enshrined in the opening pages of mathematics texts should be viewed as an historical accident, not a sign of their privileged epistemological or metaphysical status." Believing the Axioms, Penelope Maddy (1987)

fevereiro 08, 2010

Sci-Philosophy I

The sweeping passage of shoreline caught her eyes hypnotically: fused movement. It was like time -- the immediate past never quite discarded, no fixed starting point for the future -- all one, all melted into one gliding, stretched-out forever. . .

The humans were very difficult to understand with their gods and their accumulation patterns. [...] The brain thought then how strange it was, this thought-mode of existence, this transference of internal energy to create imaginary visions that were in fact plans and schemes and that sometimes must move for a way along non-survival paths. How curious, how subtle, yet how beautiful was this human discovery which had now been copied and adapted to the uses of other creatures. How admirable and elevated it was, this manipulation of the universe that existed only within the passive confines of imagination.

Decisions -- conscious decisions, the Brain thought, these are a punishment inflicted upon the single-self by consciousness. There are conscious decisions that can fragment the single-self. How can humans stand up under such a load of decisions? Frank Herbert, The Green Brain

fevereiro 05, 2010

Teoria de Jogos

A Justiça é uma virtude. A Lei não. Só que a Justiça é apenas um conceito, um ideal não implementável na sua totalidade. Assim, a Lei é um mal necessário, um conjunto de coerções sustentadas pela força do estado com o objectivo de uniformizar soluções para os problemas inatos à dinâmica da sociedade. Um dos perigos da Lei é fazê-la tão vasta, tão ubíqua, que a comunidade se vê substituída pelo jogo arbitrário que o legalismo define e impõe.

fevereiro 02, 2010

Realidade

Construir juízos sem ouvir as partes envolvidas serve apenas para reforçar as nossas próprias convicções. Iterar este comportamento demasiado tempo é o caminho para a dissociação com a realidade e um gerador de injustiça.

janeiro 27, 2010

Transição

Um indivíduo sem outros entra em perigo de dissipação. Cada mente está viciada pelos compromissos de uma cultura. Perder essa cultura é um passo perigoso e de difícil adaptação, só sendo mitigado se passar a interagir noutra cultura. Já uma cultura só existe na dinâmica dos seus elementos. Sem eles passa para o domínio do mito, da arqueologia, aproximada nas reconstruções artísticas e científicas de um eventual futuro. Até ao desaparecimento inevitável, todos, desde o individuo até à sociedade multicultural, sofrem momentos de depressão e crescimento, quedas e renascimentos, ajudas e violências interiores e exteriores, tédio e anomias. Para sobreviver-se a si mesma a pessoa pode deixar-se na memória dos outros, nos pensamentos que escreve, nas acções que comete. A cultura pode fazer história ou, de tempos em tempos, uma diáspora. Em nenhuma delas se fica na mesma.

janeiro 25, 2010

Fronteira

Uma fronteira não existe para isolar totalmente o interior do exterior. Se assim fosse, seria pior que uma prisão, seria uma sentença de morte. A fronteira não é uma parede que isola mas uma porta de dois sentidos que preserva. E por ela atravessa, filtrado, o necessário para alimentar ou limpar o que lá está dentro.

janeiro 21, 2010

Mínimo máximo

Um hábito social não tem necessariamente de estar certo ou errado. Só se torna errado quando viola os direitos fundamentais de pelo menos um indivíduo. Há aqui uma prioridade implícita, uma que coloca o mínimo de cada um de nós à frente de toda a sociedade que nos sustém.

janeiro 19, 2010

Sensação

janeiro 18, 2010

Distâncias

O conflito entre o que posso e o que quero resulta num difícil compromisso que cada um negoceia consigo e com os outros. Essa negociação não é necessariamente mais fácil numa república que num sistema de desigualdade política (em casos limites, onde nada posso ou nada quero, não há sequer negociação) mas as melhores soluções, diz-nos a evidência histórica, encontram-se na república. A ética (o que devo fazer) simplifica o compromisso por condicionar o que desejo fazer, seja pelo uso de normas sociais, seja pela aplicação de argumentos racionais. Mas, sem entrar na dimensão ética, há várias formas de lidar com esta complexidade. Ou diminuir o que quero (o estoicismo, o epicurismo, as ordens monásticas ou o budismo são algumas tentativas históricas) ou pelo aumentar do que posso (através do aumento da liberdade e propriedade individual e do diminuir da coerção da comunidade e do estado que dela preside).