março 30, 2009
"Se quisermos entender o papel da magia na Revolução Científica é importante notar a existência da designada magia natural, discutivelmente, o aspecto dominante da tradição mágica. A magia natural era baseada na assumpção que certas coisas tinham poderes ocultos que afectavam outras coisas e, desse modo, produziam fenómenos inexplicáveis. O sucesso de alguém enquanto mágico natural dependia de um profundo conhecimento dos corpos e como eles actuavam uns nos outros, para obter o resultado que pretendia. Repetidamente vemos, durante a Renascença, mágicos naturais a insistir que a sua forma de magia dependia exclusivamente do conhecimento da Natureza [...] Num senso muito real, porém, a separação dos elementos naturalistas dos restantes aspectos da magia foi apenas concluído durante a Revolução Científica. A história da magia, desde o século XVIII, tem sido a história do que sobrou dessa tradição depois dos elementos principais da magia natural terem sido absorvidos pela filosofia natural. Para além disso, para nós a magia interage com o sobrenatural, mas para os pensadores renascentistas, a magia baseava os seus efeitos na manipulação de objectos e processos naturais. Mesmo o demonologista, ao invocar o demónio - talvez mesmo o próprio Diabo - apenas esperava que o demónio fosse capaz de actuar como um mágico natural extremamente dotado, ao usar os poderes ocultos naturais dos objectos para realizar os eventos desejados. A razão porque a magia natural desapareceu da nossa concepção de magia foi precisamente porque os aspectos mais fundamentais da tradição foram absorvidas pela perspectiva científica. Ou, por outras palavras, a visão científica do Mundo desenvolveu-se, pelo menos em parte, do casamento entre a filosofia natural com o pragmatismo e a tradição empírica da magia natural." pg.55, John Henry, The Scientific Revolution and the Origins of Modern Science
março 26, 2009
A montanha e o rato
O mundo é complexo e não tende a melhorar. Como pode sobreviver o espírito crítico individual a tanta diversidade, a tantas opiniões fundamentais - e fundamentadas - defendidas em milhões de livros, revistas e jornais? Restringir a opinião crítica à respectiva área especializada pode parecer razoável mas arriscamos a ser autómatos que papagueiam opiniões alheias em tudo o resto. Que tarefa esta de defender o razoável que é nosso contra o sublime proclamado por inúmeros sábios do passado e presente.
Por João Neto às 08:00
março 23, 2009
Escalas
A arqueologia, a linguística e a genética produziram um imenso corpo de evidências que mostram ser o ambiente onde uma cultura se origina e desenvolve, determinante na forma como esta progride e, muitas vezes, no seu destino final. Em muitos casos documentados, a diferença entre ser-se conquistador ou conquistado derivou, em última análise, do local e da época onde se iniciaram as respectivas histórias.
Por exemplo, o isolamento é um factor decisivo sobre a dinâmica de uma dada cultura. Centenas de habitantes num ambiente pequeno não conseguem persistir muito tempo até desaparecerem (como atesta a arqueologia em muitas pequenas e isoladas ilhas) seja por migração, extinção ou extermínio. Comunidades dispersas cujo total atinja os milhares de pessoas a viver em áreas um pouco maiores são capazes de subsistir milhares de anos mas correm o risco de ver o seu conhecimento regredir de novo para o paleolítico, pela incapacidade de manter invenções e outras tradições úteis contra os azares ocasionais da história (como no caso das comunidades nativas da Tasmânia). São precisos milhões de pessoas para o surgimento de nações e o suporte de continentes inteiros para que existam comunidades suficientemente dispersas e redes suficientemente resistentes para que as conquistas do passado não se percam das gerações futuras e possam subsistir noutros locais (a Europa Medieval recuperou as obras dos Gregos graças à civilização Árabe). Estas hipóteses são sustentadas por múltiplos dados históricos e científicos e, como excelente ponto de partida desta tese, podem ser lidos os dois livros de Jared Diamond: Guns, Germs and Steel e Collapse.
Se extrapolarmos para a escala seguinte, quais são as limitações da actual comunidade global de sete biliões num único planeta? Olhando para o presente, a humanidade está a consumir o ecossistema planetário a um ritmo demasiado elevado (como o fizeram, localmente, os Maias, os Anasazi ou as culturas do Crescente Fértil) e esta estrutura social pode estar condenada se não forem aplicadas mudanças sociais e ambientais relevantes. Será que na nossa dimensão ainda existem limites aos problemas que conseguimos resolver? O que poderia construir e solucionar uma comunidade de triliões de pessoas espalhadas por milhares de planetas? Que arte, filosofia ou ciência nasceria de uma rede social de dimensão interplanetária?
Por exemplo, o isolamento é um factor decisivo sobre a dinâmica de uma dada cultura. Centenas de habitantes num ambiente pequeno não conseguem persistir muito tempo até desaparecerem (como atesta a arqueologia em muitas pequenas e isoladas ilhas) seja por migração, extinção ou extermínio. Comunidades dispersas cujo total atinja os milhares de pessoas a viver em áreas um pouco maiores são capazes de subsistir milhares de anos mas correm o risco de ver o seu conhecimento regredir de novo para o paleolítico, pela incapacidade de manter invenções e outras tradições úteis contra os azares ocasionais da história (como no caso das comunidades nativas da Tasmânia). São precisos milhões de pessoas para o surgimento de nações e o suporte de continentes inteiros para que existam comunidades suficientemente dispersas e redes suficientemente resistentes para que as conquistas do passado não se percam das gerações futuras e possam subsistir noutros locais (a Europa Medieval recuperou as obras dos Gregos graças à civilização Árabe). Estas hipóteses são sustentadas por múltiplos dados históricos e científicos e, como excelente ponto de partida desta tese, podem ser lidos os dois livros de Jared Diamond: Guns, Germs and Steel e Collapse.
Se extrapolarmos para a escala seguinte, quais são as limitações da actual comunidade global de sete biliões num único planeta? Olhando para o presente, a humanidade está a consumir o ecossistema planetário a um ritmo demasiado elevado (como o fizeram, localmente, os Maias, os Anasazi ou as culturas do Crescente Fértil) e esta estrutura social pode estar condenada se não forem aplicadas mudanças sociais e ambientais relevantes. Será que na nossa dimensão ainda existem limites aos problemas que conseguimos resolver? O que poderia construir e solucionar uma comunidade de triliões de pessoas espalhadas por milhares de planetas? Que arte, filosofia ou ciência nasceria de uma rede social de dimensão interplanetária?
Por João Neto às 13:29
março 18, 2009
Diferença
Na interacção entre pessoa e sociedade há um definir de normalidade que inclui até onde alguém se pode afastar desse ideal difuso sem começar a pagar o preço do excesso de diferença. Podemos achar injusto mas todos temos medo, seja do desconhecido, da mudança. Dos cancros.
Por João Neto às 11:11
março 16, 2009
Impedimento
Uma pessoa saudável não vê como agressores a gravidade ou o envelhecer ou mesmo a recusa de um afecto que desejava recíproco. Desta forma, será que a limitação é sentida como injusta apenas quando nos é vedado algo possível e razoável para esse outro que nos impede?
Por João Neto às 07:57
março 13, 2009
Gestão
Para definir e manter um grupo, para assegurar as vantagens de ser-se parte e cobrar a despesa dessa participação, é necessário que a fronteira que o define se destaque e que não seja fácil de cruzar, mudar ou esbater. É preciso que o respectivo regulamento seja tão díficil de actualizar como os comportamentos partilhados pela conquista da comunidade. É preciso que o preço seja alto para o serviço ter valor. É preciso que os preconceitos desfavoreçam a intimidade com o estrangeiro para que só se encontre dentro, com os seus, o que se necessita. Quanto mais coesa for uma comunidade, quanto maior for a confiança cega entre os seus membros, maior será o medo de uma dissolução, do evaporar desse centro ordenado pela caótica mudança da periferia, mais fácil o cultivar de um sentimento xenófobo em relação aos outros. Ao reduzir e simplificar o social, ao limitar o favorecimento aos eleitos, movimentos como nacionalismos, sexismos, fundamentalismos ou racismos nunca serão soluções morais para as questões que pretendem resolver ou minimizar. Prescrever fronteiras para classificar pessoas é, infelizmente, uma velha e lucrativa fórmula de gerir recursos e criar problemas.
Por João Neto às 08:04
março 12, 2009
Prioridades
Não devemos defender ou favorecer um grupo que nasceu em X, que fala Y, que venera Z ou que se governa em W. Devemos estar do lado dos que partilham os valores dessa razão a que chamamos ética.
Por João Neto às 09:00
março 10, 2009
março 05, 2009
Separação
Para além de toda a estrutura mental que nos permite lidar com o Mundo, existe associado uma rede de processos interiores cuja execução é crucial para a definição do eu e da nossa personalidade (vamos designá-los aqui por Mundo Interior). Um deles é a própria consciência que, mesmo que a sua importância seja sobrevalorizada no que toca aos papeis que executa - o que é natural pois será a própria consciência a atribuir-se relevância nessa lista viciada de prioridades -, terá um papel imprescindível na existência das sociedades e da noção de pessoa. É quase certo que existiam Homo Sapiens antes de haver pessoas (pelo menos no sentido moderno do termo) e agrupamentos sociais complexos, e que a consciência, um pouco como a linguagem apesar da natureza diferente desta, foi sendo construída ao mesmo tempo que as sociedades humanas*. Assim, neste Mundo Interior, a partir da consciência, todo um ecossistema de emoções pode desenvolver-se e estratificar-se, moldando as experiências e as suas memórias, a razão e a aprendizagem, consoante a intensidade e a mistura dessas emoções, criando assim a trajectória que, em abstracto, é a chave que nos individualiza. Alguma dessa trajectória é determinada por eventos externos, por uma sequência complexa de traumas, concretizações e muito tédio à mistura, mas também pela própria dinâmica interna que funciona mesmo na falta de impulsos externos relevantes (a ausência de eventos externos é, em si mesmo, um evento).
Na filosofia a noção de zombie é útil na discussão da cognição. Em vez de ser o morto-vivo dos filmes de terror, um zombie é um simulacro de pessoa (apesar deste termo conter já um juízo de valor), um corpo que, externamente, se comporta como uma pessoa sendo impossível de distinguirmos entre quem é zombie e quem não o é. Em resumo, um zombie é igual em tudo menos na consciência (ou no Mundo Interior). Mas o que aconteceria se programássemos esse zombie para pensar que tinha um Mundo Interior? Ou seja, parte do cérebro do zombie seria gasto a executar um conjunto de processos inúteis (do ponto de vista do desempenho externo, já que nada mudaria na sua interacção com o mundo) de modo a enganá-lo com a sensação de ter esse ecossistema emocional tão típico das mentes humanas? Que diferença sobraria entre nós e «eles»?
* Poderíamos, numa linha conspiratória, dizer que a consciência é um conjunto de memes que sequestrou a espécie humana para a fazer construir sociedades cujo fundamento básico é a sua auto-perpetuação, ou seja, tornar inevitável a cópia desses processos nas crianças que nascem e que são educadas no seu seio; mas este é um cenário um pouco mais literário e talvez menos útil.
Na filosofia a noção de zombie é útil na discussão da cognição. Em vez de ser o morto-vivo dos filmes de terror, um zombie é um simulacro de pessoa (apesar deste termo conter já um juízo de valor), um corpo que, externamente, se comporta como uma pessoa sendo impossível de distinguirmos entre quem é zombie e quem não o é. Em resumo, um zombie é igual em tudo menos na consciência (ou no Mundo Interior). Mas o que aconteceria se programássemos esse zombie para pensar que tinha um Mundo Interior? Ou seja, parte do cérebro do zombie seria gasto a executar um conjunto de processos inúteis (do ponto de vista do desempenho externo, já que nada mudaria na sua interacção com o mundo) de modo a enganá-lo com a sensação de ter esse ecossistema emocional tão típico das mentes humanas? Que diferença sobraria entre nós e «eles»?
* Poderíamos, numa linha conspiratória, dizer que a consciência é um conjunto de memes que sequestrou a espécie humana para a fazer construir sociedades cujo fundamento básico é a sua auto-perpetuação, ou seja, tornar inevitável a cópia desses processos nas crianças que nascem e que são educadas no seu seio; mas este é um cenário um pouco mais literário e talvez menos útil.
Por João Neto às 14:47
fevereiro 26, 2009
fevereiro 23, 2009
Custo-Benefício
Os líderes religiosos acreditam num paraíso eterno pós-morte. Isto significa que a nossa vida actual é menos que um grão num Universo de experiências por obter. Deste ponto de vista é perfeitamente lógico que se invista menos na felicidade ou liberdade terrena e mais no sacrifício do regulamento moral que dá entrada nesse clube celestial. O ganho é tão grande (é infinito) que justifica qualquer acção humana (porque finita) nesse sentido, incluindo autos-de-fé ou aviões a entrar por arranha-céus. O problema disto tudo é que a premissa inicial é falsa e, assim, todo este esforço resulta numa imensa tragédia que se arrasta há milénios e que consome centenas de milhões num delírio infantil.
Por João Neto às 09:19
fevereiro 18, 2009
Sala de Fumo
O eu é um recurso adequado à escala humana e largamente valorizado, o que não é surpresa dado ser essa a única medida que conhecíamos até ao passado recente. Visto ao microscópio dilui-se entre míriades de actividades eléctricas e o caos intrínseco dos sistemas dinâmicos. No macro-cosmos é uma passageira insignificância que o princípio da parcimónia tem a amabilidade de ignorar. Assim, entre as flutuações estatísticas do muito pequeno e do muito grande, é numa estreita (talvez pródiga, talvez fértil) linha de fronteira que nos achamos relevantes. O Dr. Spleen, porém, acha que nem essa fronteira existe. Derivado do seu cepticismo da justiça e da sociedade (onde o eu, no fundo, se usa), de ver cada um como colónias de células com ilusões de importância, ele próprio apenas um vento mais forte num labirinto cruzado de breves sopros.
Por João Neto às 15:45
fevereiro 16, 2009
Big Bangs
Os momentos únicos são pontos focais no definir de fronteiras. Quando quase tudo é difuso e progressivo, uma mudança brusca, uma alteração de estado atrai-nos o olhar, a atenção, até a capacidade de julgar. Por exemplo, na vida de um indivíduo, muitos dão relevo ao momento da concepção, outros ao parto. Mas poucos discutem o período em que o feto se torna suficiente em termos somáticos ou a criança se torna psicologicamente independente, passos tão importantes, ou mais, na formação dessa pessoa.
Por João Neto às 12:00
fevereiro 12, 2009
Sustentação
"Quando não temos argumentos válidos em defesa do que consideramos um «bom» comportamento, é a nossa concepção de bem que se revela deficiente" Bertrand Russel
Por João Neto às 10:03
fevereiro 10, 2009
Custo Benefício
Dado o jornalismo e a indústria da opinião terem de relatar factos recentes dessa hegemonia que é o presente, os media vêem-se obrigados a publicitar irrelevâncias diárias em detrimento do silêncio e da reflexão. Na maioria das vezes desperdiçamos tempo e atenção a discutir sobre ruído e, como sociedade, pagamos por isso.
Por João Neto às 14:27
fevereiro 05, 2009
Espelho (m)eu
O Dr. Spleen observa-se, dedicado, através do espelho que o surpreendeu naquele verso de porta. O opaco da sua face esconde um labirinto de imagens, sensações e desejos que tão bem reconhece apesar dessa erosão constante que é a memória. Entre as marés dos humores e as muralhas das certezas que paciente construiu, um fosso de quereres deixados, intenções falhadas, uma sequência de eus em putrefacção inodora. O que o liga ao passado? Que filtro o cortará para se refazer no futuro? No silêncio conquistado daquela casa de campo, onde apenas destoa, em vermelho disperso, o corpo do analista financeiro, e eliminados que estão agora os ruídos da civilização e a fúria material, a sua, pela perda da substancial conta suíça (somos desligados do mundo o quanto conseguimos, mas o dinheiro tem ligações complexas com o mais valioso dos recursos, o tempo) resta teimoso, no reflexo, o desafio perene e derradeiro de se continuar a ser.
Por João Neto às 13:05
fevereiro 02, 2009
Movimento Browniano
Trivializar não é trivial. Os assuntos relevantes ao tecido social (por exemplo, a economia, a estatística, a ética) não podem ser comprimidos em cinco minutos de exposição e muito menos no aforismo televisivo de dez palavras. Quanto mais invasiva e instantânea for a propaganda e a comunicação social, maior será a tendência de substituir a ideia correcta pela simplificação do que soa bem ao senso da multidão. Seja porque é deles o voto e as audiências, seja porque o argumento da maioria parece sempre uma aposta segura, o preço que pagamos é o progressivo desligar das nossas opiniões partilhadas em relação à realidade que nos mantém e restringe. Esta é uma guerra que não podemos vencer. Quem caminha ao sabor do acaso e do contingente devia abrir os olhos por causa do abismo.
Por João Neto às 10:17
janeiro 26, 2009
janeiro 19, 2009
Fronteira
O que é nosso no domínio da mente? O que faz uma ideia, um argumento, uma crença ser minha ou tua? Que diferença há entre o original e o aprendido? Por exemplo, as palavras que uso, a gramática que as arruma, foram-me ensinadas e são a partilha que nos une. As frases que escrevo são minhas. Mas entre elas e a informação lá contida, onde se desenha a fronteira da originalidade? Excepto do trivial de um plágio, o que dizer de usar a estrutura de um mito ou de uma história universal? Se reescreve-se Romeu e Julieta ou o Quixote a partir de que arte ou de que diferenças passaria a ter mérito nessa obra revisitada? Na complexa rede de ideias e conceitos, como julgar onde se cruzam a recriação e o inexplorado?
Por João Neto às 12:21
janeiro 16, 2009
Dinheiro
A noção de rendimento decrescente (em inglês, diminishing returns) é um conceito económico poderoso também na argumentação em outras áreas. Na economia é possível usá-lo para mostrar, por exemplo, que o petróleo deixará de ser extraído muito antes de desaparecer do planeta, pois apenas será usado aquele que se conseguir obter de forma rentável. Todas as reservas demasiado profundas ou em locais de muito díficil acesso serão deixadas em paz pois outras formas de energia passarão a ser economicamente mais interessantes. Da mesma forma, o conhecimento e a tecnologia nunca se irão aproximar do (eventual) limite teórico. Só se investigará e investirá numa área enquanto for economicamente racional fazê-lo. Os limites da Física das Partículas, as experiências para determinar a origem do Universo, mesmo futuras tecnologias, como o teletransporte, as viagens interestelares ou a simulação digital de pessoas só poderão ocorrer (assumindo que sejam teoricamente possíveis) se os recursos necessários às mesmas forem considerados apropriados pelas sociedades futuras. Se, por algum motivo, for demasiado oneroso implementar estas ideias, elas nunca serão ferramentas ao dispor da Humanidade, não por serem impossíveis mas, simplesmente, por serem demasiado caras.
Por João Neto às 09:34
janeiro 12, 2009
Auctoritate
"Na sua essência, a autoridade não consiste em mandar: etimologicamente, a palavra vem de um verbo latino que significa «ajudar a crescer». A autoridade na família deveria servir para ajudar a crescer os membros mais jovens, configurando o que poderemos chamar o «princípio da realidade». Este princípio é a capacidade por parte de cada um de limitar as próprias inclinações tendo em vista as dos outros, e de adiar ou temperar a satisfação de alguns prazeres imediatos tendo em vista o cumprimento de objectivos a longo prazo. É natural que as crianças careçam de experiência vital imprescindível à compreensão da sensatez racional desta exigência, pelo que esta deve ser-lhes ensinada. As crianças - verdade óbvia, mas frequentemente esquecida - são educadas para virem a ser adultos, e não para continuarem a ser crianças." Fernando Savater, O valor de Educar
Por João Neto às 16:18
janeiro 08, 2009
Analfabetismo
Antes da Torah, da Bíblia ou do Corão, os deuses não sabiam escrever. Os textos sobre o sagrado não eram sagrados, eram somente humanos e por isso sujeitos a contestação, discussão e correcção. Já a palavra revelada é perene. O problema é não o serem as pessoas e o mundo.
Por João Neto às 22:29
janeiro 05, 2009
A Guerra dos Clones
Ser normal numa sociedade garante muitos privilégios mas exige interiorizar centenas de gestos e comportamentos apropriados. Vastos na sua diversidade (como vestir, comer, falar, como se relacionar, fazer sexo, como educar os filhos, o que ler, ouvir, o que é apropriado amar, odiar e ignorar...) exigem uma conformidade, por vezes, demasiado pesada. Há o perigo da personalidade que se forma ser aplanada por esta burocracia emocional e a normalidade, isto é, o processo de normalização, produzir apenas cópias aceitáveis de um conjunto limitado de personas ideais. Mas como evitar ser-se uma mera máquina cognitiva e não arriscar uma neurose, um isolamento excessivo, a loucura?
Por João Neto às 14:50
dezembro 29, 2008
Simbiose
Cada sociedade humana é o resultado de um acumular incontável de trocas entre humanos e sociedades, vizinhos e estrangeiros, limitada pela geografia e pelos compromissos e tradições do passado, pela biologia e psicologia do homo sapiens. Entre cada sociedade e os seus cidadãos há algo mais profundo que o implícito contrato social e os direitos reconhecidos, há uma simbiose. Sem sociedade não haveriam pessoas, sem pessoas não haveria sociedades com linguagem, arte, ciência ou história. Alguém que sobreviva à sua cultura (como os que se salvaram de um genocídio, nas implosões civilizacionais ou mesmo os últimos falantes de uma língua) tornam-se, pouco a pouco, num incómodo para os outros, um terrível aviso de outra forma de morte.
Por João Neto às 14:36
dezembro 22, 2008
Maquilhagem
Quem está à frente deste espelho? Somos máscaras sobrepostas e, mesmo sem pensar, agimos perante elas quando lidamos com outros. Com quem falamos quando compramos o jornal? Quem é esse aluno ou professor do lado oposto de um exame? De onde vem o sorriso do vendedor? Em quem votamos? Que parte amamos dessa pessoa ao nosso lado? E, se após a realização de uma experiência impossível, tirássemos todas as máscaras, o que sobraria para reflectir no espelho que ainda observo?
Por João Neto às 20:46
dezembro 18, 2008
Padrão
Das profundezas eléctricas de um cérebro emanam padrões, tempestades caóticas entre sinapses e neurónios, que se atravessam e sobrepõem. De alguma forma, no crescer, emerge uma industrialização por áreas, especialidades a que pedaços de massa cinzenta se dedicam mesmo antes do nascimento. O Dr. Spleen admite, por isso, a existência de diversas inteligências em qualquer ser vivo. Admira em silêncio o voo cirúrgico das aves, a precisão mortífera de um tubarão, a sinfonia química dos insectos sociais, o olhar penetrante do xadrezista, a tensão no sono de um gato. Por outro lado, essa panóplia de capacidades determina também a possibilidade de se falhar em múltiplas frentes. Este pensamento é-lhe especialmente relembrado quando observa o inexistente rigor táctico dos seus associados quando em piloto automático (e dos seus semelhantes em geral, pois nada na sua recruta se desviou do normal possível da educação vigente). Se um talento é a aplicação de uma inteligência, a falta destas abre a porta às Pandoras que desde sempre nos observam.
Por João Neto às 20:50
dezembro 11, 2008
Um Holocausto (quase) esquecido
No meio de um dos episódios da "Grande Guerra" da BBC é referido o genocídio do Congo Belga pela mão responsável do Rei Leopoldo II da Bélgica. O número de mortos descrito nesse episódio era na ordem dos milhões. Quando ouvi este número (milhões, seja um, seja dez, são milhões) tive dificuldade em acreditar que uma nação neutral durante a maior parte do século XX, e vítima consecutiva das duas guerras europeias, fosse capaz de tal coisa. Este é um Holocausto da dimensão sofrida pelos Judeus, Ciganos e outros às mãos do Nazis. Diversas fontes referem dez milhões de mortos e que, após o assassinato concertado de populações inteiras durante cerca de vinte anos (acompanhadas por violações sistemáticas, de amputações de mãos como prova de morte), reduziu a metade a população do Zaire! Uma das primeiras obras que descreve este monstruoso acto é de 1909 pela mão de Conan Doyle e pode ser lido aqui. Outra referência encontra-se no livro "Heart of Darkness" de Joseph Conrad cujos horrores descritos se baseiam nestes acontecimentos. Outra coisa que espanta e revolta é o silêncio à volta deste evento. Até à publicação do livro King Leopold's Ghost de Adam Hochschildem (em1998) e que vendeu centenas de milhares de cópias [1, 2], não havia sequer um debate na Bélgica quanto mais um assumir de responsabilidade histórica pelo sucedido (há, de 2006, um documentário norte-americano sobre este período). O sucesso do livro provocou a ira de vários historiadores belgas que, em 2002, decidiram estudar o assunto (!). No museu belga Royal Museum for Central Africa (Tervuren Museum) não havia qualquer indicação para o genocídio [3]. Como não encontrei nada sobre a conclusão dos tais historiadores ofendidos, não faço ideia se já mudaram alguma coisa neste caso patológico de amnésia colectiva (o parlamento britânico também não). Tanto quanto sei, a história belga continua a ter em grande consideração o seu Rei Leopoldo II.
Por João Neto às 22:52
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