abril 05, 2011

Leituras

Se segues um livro sagrado que contém bons e maus mandamentos morais, e consegues destinguir quais são quais, qual é a utilidade moral do livro?

abril 04, 2011

Manutenção

Os direitos cívicos como o direito a uma vida integra, a liberdade de expressão e acesso à informação, de associação familiar e colectiva ou a uma educação secular, são os necessários direitos fundamentais que cumprem dois objectivos: (a) protegem todas as pessoas de forma igual, e (b) mantêm uma sociedade onde eles podem ser aplicados (designada aqui por sociedade civil).

Como corolário de (a) verificamos que a plena execução destes objectivos necessita de uma república (no sentido da igualdade de direitos e deveres fundamentais ou legais). Relativamente a (b) obtemos uma resposta sobre as questões de tolerância a ideias contrárias: uma sociedade civil deve proteger-se contra quaisquer acções que ameacem a sua existência (especialmente se originadas pelos líderes eleitos para exercer a governação). Também por (b) se justifica que o direito à educação seja universal, grátis e compulsório (uma população mais iletrada é menos capaz de sustentar uma sociedade civil).

Existem outros tipos de direitos, como direitos políticos (direito ao voto, de poder ser eleito, de petição) ou direitos económicos (direito à troca e ao lucro, acesso a um mercado o mais livre possível e de igual oportunidades, etc.). Estes direitos são muitíssimo importantes mas não creio que sejam tão importantes como os direitos civis referidos. Os direitos políticos implicam uma democracia, e os económicos um sistema capitalista. Ora, a democracia e o capitalismo são as melhores ferramentas que possuímos para manter uma sociedade civil (apesar das suas implementações presentes serem passíveis de muitos melhoramentos). Mas elas são apenas ferramentas. Encontrando melhores soluções, estes sistemas poderiam ser substituídos (talvez isto nunca venha a acontecer mas diz-nos o passado que o futuro encerra imensas potencialidades inesperadas). O que eu não estou disposto a sacrificar é o ideal da sociedade civil em troca de qualquer outra proposta, por mais apetecível e viável que seja*.

(*) Somos cidadãos do nosso tempo. A ideologia, mais ou menos cerrada, apanha-nos a todos.

março 31, 2011

Solidariedade Inter-geracional

Salvo morte ou má-sorte inesperada é errado a um pai deixar aos seus filhos uma herança com mais dívidas que créditos. Esta ideia deveria servir de analogia às decisões económicas da sociedade. Uma geração deve evitar viver à conta do esforço futuro dos seus filhos. Assim, qualquer política insustentável, ou sustentável sobre premissas de duvidosa probabilidade, seria vista como socialmente errada. Com isto em mente, o que dizer-lhes sobre as nossas escolhas? Sobre os investimentos públicos que escolhemos, os benefícios que a nós próprios concedemos, a exigência e qualidade da educação que lhes damos?

março 29, 2011

Exploração

Por volta de 1990, sentado à frente de um então poderoso Intel 80486, lembro-me ainda do prazer de explorar os infinitos interstícios do conjunto de Mandelbrot com o velhinho Fractint (software que ainda existe!). Deixo-vos um pouco dessa sensação, agora actualizada a 3D, na exploração do Mandelbox:

março 28, 2011

Redução

Os nossos preconceitos tiram-nos liberdade ao reduzir as opções possíveis às opções aceitáveis. O mesmo se passa com a honra ou com a exigência da virtude. Ou no acordo social da comunidade onde somos o que somos.

Há outras restrições às opções possíveis, e que reflectem aspectos da realidade não deliberados: restrições económicas, geográficas, tecnológicas, de recursos, físicas ou mentais. Mas estas não são do domínio da liberdade, não são resultado directo de uma opressão consciente, política ou social, individual ou colectiva. E estas não são as mais difíceis de resolver ou minorar.

março 25, 2011

Hipocrisia Aplicada

Isto pode-se fazer:Já isto é proibido:

On October 21, 1971, [...] Disney accused the Pirates of copyright infringement, trademark infringement, unfair competition, intentional interference with business, and trade disparagement through the wrongful use of its characters. It stated that Disney, through "great effort and...large sums of money," had created characters whose "image of innocent delightfulness...are known and loved by people all over the world, particularly children" and that the defendants' efforts to "disparage and ridicule" these characters threatened to destroy Disney's business. The complaint requested that Disney be awarded all of the Pirates' profits, $5,000 for each copyright infringement, treble damages for the trademark infringement, punitive damages of $100,000 from each defendant, surrender of the offending books, and reimbursement of its attorneys' fees. [ref]
Disney filed a million dollar lawsuit against a family-owned clown company for trademark infringement. Marisol Perez-Chaveco and her husband run Kool Klown Party People in Claremont. The couple bought Winnie-the-Pooh, Eyeore and Tigger costumes on eBay for $700 and advertised the caracters on their company website, MySpace and Craig's List. Disney sent them three letters demanding them to remove the pictures and turn the costumes over to Disney so they can be destroyed. If not they would be sued. [ref]


Mapas e Territórios

(c) xkcd

março 21, 2011

Inércia II

Parte da moral de uma cultura resulta das condições de vida, dos recursos e da simpatia dos elementos naturais. O problema de dogmatizar preceitos morais é estes perderem a razão de ser com o progresso social e com a eliminação dos problemas que motivaram inicialmente esse comportamento. O que antes tivera uma utilidade social passa a ser um travão, uma restrição ou permissão irracional.

março 18, 2011

Inércia

Se existe um mecanismo inato para a aprendizagem de uma moral particular (a da cultura onde se nasce), isto significa que, à imagem da linguagem, as possíveis morais humanas - para além de limitadas pelas capacidades cognitivas da espécie - também partilham uma estrutura básica comum, sendo os detalhes, os diversos parâmetros dessa gramática moral, preenchidos pela respectiva sociedade onde o individuo se insere e se faz adulto. Mas isto terá uma outra implicação: se a aprendizagem da primeira moral é natural e automática (como o aprender da língua nativa), aprender uma segunda moral é uma tarefa onerosa, difícil e quase nunca totalmente concretizada. Se for assim, este é um mecanismo de inércia à mudança, uma resistência passiva própria das culturas. Para quem nasce numa comunidade que desenvolveu, ao longo da sua história, uma moral mais dogmática, preconceituosa, provinciana, a oportunidade da uma saída representa um choque, a possibilidade uma nova tragédia.

março 14, 2011

Interesses

Um post completo de um novo blog de teoria política muito interessante:

"The remarkable truth of this conversation between bleeding heart libertarians and progressives is that our disagreement is exclusively empirical. If we all agree that political institutions should be arranged to alleviate poverty, then the only remaining question is which policies actually do this. Why is it then that we cannot agree, or at least converge, by just looking at reliable data, studies, and empirical theories?

I suggest an answer: in the political arena, a person often supports a policy, not because of the effects he thinks that policy will have, but because his supporting it has symbolic value for himself or others. Supporting the minimum wage is an act that stands for a value such as concern for the poor. The person who is concerned for the poor wants to express that concern, and there are acts that socially symbolize that concern: praising the New Deal, announcing that you voted for a Democrat, supporting public schools, criticizing Bush.

Symbolic behavior, I hasten to say, is not exclusive of progressives. In libertarian circles someone may oppose environmental regulation for symbolic reasons. That position evinces a hostile attitude toward government regulation in general which he wants to express. In his haste to send the right signals he overlooks (say) the problems of externalities and market failure.

The speaker in these cases might not simply want to express himself. He may be anxious to be accepted in certain groups who associate the verbal act with other beliefs that the speaker presumably has and that make him a desirable candidate for admission.

I have found that this problem, self-defeating political symbolism, is extraordinarily hard to eradicate and fatally gets in the way of agreement between these two audiences. Progressives feel compelled to stand by their positions even in the face of evidence that the policies they advocate frustrate the goal they profess. They stick to those views because the views strongly symbolize and give unity to a vision of the world associated with social justice. Libertarians, on the other hand, have a hard time convincing progressives that they care for the poor because they endorse policies that do not socially symbolize concern for social justice.

I do not know how to get around this problem, but, for whatever is worth, I find symbolic behavior morally objectionable, because the speaker cares about the values he expresses more than about those persons he says he wants to help." Fernando Teson, Bleeding Heart Libertarians

março 08, 2011

Heresias

A Heresia é um crime de pensamento. Ela que ocorre quando se rejeitam dogmas da religião ou ideologia em questão. Quando o limite imposto ao que é aceite como modelo ou verdade se baseia num arbitrário tradicional, qualquer reavaliação crítica vê-se perante uma resposta violenta. Não é possível dialogar com uma corporação religiosa ou ideológica que se proclama revelada. Sustenta-os a palavra que é dogma, seja de origem divina, profética ou fossilizada numa obra secular. E essa palavra, uma vez em acção, não se altera pacificamente porque não é no argumento racional que encontra forças. É surda e agressiva, conservadora do poder que obteve na sorte do processo histórico.

A história da Igreja Católica é milenar. Tendo em conta o número de dogmas impostos ao longo dos séculos, muitos deles derivados de questões políticas ou de lutas de poder (como no concílio de Niceia) mas que há muito perderam significado. Por isso, não é surpreendente o número de heresias erradicadas pelo ramo mais bem sucedido do cristianismo. Entre a extensa lista, encontrei dois exemplos de heresia que usavam a racionalidade como arma.

Monarquianismo: Assentavam na natureza única de deus que implicava a rejeição da trindade. Estas heresia nasceu nos séculos II e III. Os seus seguidores estudavam os textos sagrados através de silogismos e eram admiradores de sábios como Euclides, Aristóteles ou Galeno. Houve vários ramos desta heresia, como os Modalistas, e diz-se que sobreviveram de uma forma ou de outra até ao século IX. [1]

Socinianismo: Esta também é uma heresia sobre a natureza de deus. Dois irmãos de sobrenome Sozinni na Polónia em meados do séc. XVI. A opinião herege era igualmente a negação da trindade por negar a unidade de deus. Neste caso, deus é uma entidade única sendo o espírito santo o seu poder. Assim, ao promover a unicidade, cristo não poderia ser uma entidade humana e divina. E isso implica negar a divindade de Jesus bem como a sua pré-existência. A Bíblia era autoridade apenas quando interpretada através da razão [1, 2]. Esta crença teve um grande impacto na Europa de Leste, tendo durado cerca de um século antes de desaparecer.

março 03, 2011

Ideologia

A ideologia é uma falha cognitiva humana que impede um sujeito de processar evidência incompatível com os seus princípios. Isto costuma ocorrer de forma inconsciente e automática. Ninguém está a salvo deste problema. Os preconceitos e as inclinações são-nos naturais e é apenas através de um esforço crítico constante que conseguimos lutar contra esta tendência. A partir de um certo nível, a cegueira ideológica pode transformar-se em fanatismo (religioso, político) onde nenhuma evidência contrária é considerada. O fanático é um sujeito que habita um mundo maniqueísta de certezas e dogmas revelados.

Sou da opinião que a filosofia liberal (no sentido clássico do termo) deu-nos a resposta mais apropriada para lidar com este problema. Uma atitude liberal assenta no admitir sempre a possibilidade que o outro possa ter razão, e que é errado coagi-lo para que não proponha soluções diversas. Ou seja, a promoção da tolerância. A tolerância tem custos e riscos (devemos ser tolerantes em relação aos fanáticos? deve ir a eleições um partido antidemocrático?) mas, no geral, é uma aproximação pouco ideológica que, diz-nos a experiência, é capaz de lidar com o bem comum.

Ser tolerante não significa aceitar de igual modo todas as soluções ou que todas elas são igualmente válidas (as teses sofistas ou pós-modernas). Cada solução é suportada em argumentos e evidência, o que lhes atribui um certo grau de qualidade e viabilidade. Uma solução é melhor se do seu lado houver mais argumentos a favor que contra, mais evidência positiva que negativa. Sem informação relevante não podemos ter convicções fortes que uma política é melhor que outra, ou seja, não há soluções absolutas nem argumentos últimos. Há sim um acumular de razões, de teorias, de experiências que podemos usar para melhorar as nossas decisões presentes e futuras.

Estas noções são subjacentes às sociedades liberais modernas, sejam elas conservadoras, social-democratas ou liberais (eis uma palavra com demasiados usos...). A tolerância, a democracia, os direitos fundamentais são conceitos considerados não negociáveis na cultura dita ocidental e tão óbvios que os assumimos naturalmente. Por um lado isto seria expectável porque estes conceitos correspondem a uma prática política e social que obteve muitos sucessos e trouxe uma melhoria geral nas condições de muitos povos, principalmente se comparados com a esmagadora maioria dos estados totalitários. Por outro, é um pouco surpreendente dada a sua implementação social, em termos históricos, ser muitíssimo recente e estando ainda por concluir (lembrar as polémicas e alergias gregárias que levantam os direitos dos homossexuais ou o aceitar da eutanásia activa).

Tendo em conta o carácter axiomático que um liberal clássico dá às liberdades individuais, uma política só é adequada se a sua execução não colocar essas liberdades em risco. Este ponto pode ser usado para arremessar a acusação ideológica ao liberal. Sem grande surpresa existe a variante fanática do liberalismo, os libertários, que advogam a quase total obliteração do estado com a premissa ideológica que nada que provenha do estado é positivo. Como qualquer tipo de pensamento fortemente ideológico, esta posição política é irracional sendo cega a factos históricos indiscutíveis (como a abolição da escravatura, a emancipação das mulheres ou a escolaridade universal, só para dar três exemplos básicos).

Como se disse no início, não parece ser possível erradicar as inclinações e preconceitos de um ser humano. Mas isso não significa que devamos minimizar o seu efeito. Ora um liberal também traça uma linha perante a qual não recua; um liberal não é um anarquista ou um niilista. Essa linha existe para defender os direitos fundamentais de cada pessoa (sendo crítica a discussão de quais exactamente são esses direitos). O que o liberal acredita é que essa linha não deve desenhada em favor de qualquer projecto social idealizado no passado (típico do conservador radical) ou no futuro (do progressista radical).

Argumenta o pensamento liberal que a livre expressão de todas as opiniões é o melhor caminho para apresentar, debater e encontrar soluções sustentadas. Estas soluções poderão, se a comunidade assim o entender, ser experimentadas no âmbito público. Daqui a necessidade da democracia para legitimar esta dinâmica pública de discussão. Prefere-se o uso de políticas suportadas na experiência, adaptáveis às circunstâncias presentes e resultados passados do que aquelas inspiradas em dogmas e certezas ideológicas. E se as soluções escolhidas ficarem aquém do prometido, o debate livre de ideias, alimentado com a nova evidência da experiência anterior, será capaz de propor e implementar novas soluções. Por isso um liberal clássico pode concordar com políticas conservadoras ou progressistas mas é totalmente incompatível com a execução de políticas totalitárias (pela sua própria natureza, antidemocráticas).

Não é de admirar que as sociedades liberais do ocidente se baseiam na experimentação (muitas vezes sincronizadas com ciclos eleitorais ou remodelações governamentais) e que esse experimentar produza múltiplos falhanços e, devido à inércia social e legislativa, num acumular de gordura estatal e burocracia redundante. O motivo é que elas também nos oferecem uma dinâmica e poder de adaptação que, mostra-nos a história dos últimos séculos, não encontra paralelo com governos ideológicos, fundados no absoluto tão típico dos regimes totalitários e teocráticos.

fevereiro 28, 2011

Asserções Sustentadas

Uma asserção universal (como "Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos", artº 1 da Declaração Universal dos Direitos Humanos) tem uma abrangência tal que deve ser sustentada quer por teses e argumentos válidos como por evidência concreta a seu favor. As asserções liberais defendidas por pessoas como John Locke, Adam Smith, Thomas Jefferson ou Stuart Mill possuem forte sustentação argumentativa nas vertentes filosófica, ética e económica. A complementar estas teses temos agora a experiência histórica e social do Século XX. Esta evidência é de tal modo forte que, hoje em dia, é difícil contrariá-la sem uma pesada componente ideológica (um eufemismo para cegueira cognitiva).

fevereiro 25, 2011

Resíduo

"The third-person methods of the natural sciences suffice to investigate consciousness as completely as any phenomenon in nature can be investigated, without significant residue. What is the import of “significant” here? Simply this: If scientists were to study a single grain of sand, there would always be more that could be discovered about it, no matter how long they worked. The sums of the attractive and repulsive forces between all the subatomic particles composing the atoms composing the grain will always have some residual uncertainty in the last significant digit we have calculated to date, and backtracking the location in space-time of the grain of sand over the eons will lead to a spreading cone of indiscernibility. But our ignorance will not be significant. The principle of diminishing returns applies. My claim is that if we use the third-person methods of science to study human consciousness, whatever residual ignorance we must acknowledge “at the end of the day” will be no more unsettling, no more frustrating or mystifying, than the ignorance that is ineliminable when we study photosynthesis, earthquakes, or grains of sand. In short, no good reasons have been advanced for the popular hypothesis that consciousness is, from the point of view of third-person science, a mystery in a way that other natural phenomena are not" - Daniel Dennett, Sweet Dreams

fevereiro 21, 2011

Adaptação Moral

O instinto moral do Homo Sapiens evoluiu tal como a sua capacidade para falar. Não é coincidência que tabus como o incesto, o canibalismo ou o assassinato são praticamente universais. Eles são uma expressão de como os nossos processos cognitivos evoluíram há centenas de milhar de anos. Esta estrutura comportamental básica é independente das crenças regionais das populações humanas. Todo o regulamento moral expresso numa dada cultura derivou deste conjunto inicial, gravado algures no nosso cérebro. Fazê-lo melhor, com menos erros e arbitrariedades, mais apropriado às complexidades e exigências das sociedades actuais é um projecto similar à obtenção de qualquer outro tipo de conhecimento. Neste caso, é uma tarefa da ética, das ciências cognitivas e da psicologia comportamental.

fevereiro 16, 2011

A Emergência da Polícia

Uma economia onde quem contribuí para a sociedade (via impostos e taxas, por exemplo) mas que não tenha um sistema de fiscalização, permite a invasão de elementos parasitas (free-riders) cuja estratégia é aproveitar-se do bem comum sem colaborar (e, assim, obter maiores ganhos). Desta forma, é natural que surjam esquemas de punição para coagir os elementos da comunidade a participar no esforço conjunto. Isto ocorre mesmo em comunidades pequenas, onde não existe um estado central que produz normas e fiscaliza o seu cumprimento. Experiências recentes feitas em laboratório mostram evidência que até em interacções anónimas (onde não existe reputação nem redes familiares que motivam e reforçam a colaboração) emerge naturalmente um esquema de punição que força, com sucesso, a colaboração média da comunidade. Este tipo de investigação vê a cooperação como um sinónimo de punição altruísta [1,2,3].

Existem dois esquemas básicos de punição: a vingança (termo técnico: peer punishment) e a polícia (pool punishment). Numa sociedade com poucos parasitas, a vingança é economicamente mais eficiente (manter uma polícia sai caro) mas é menos estável. Na maior parte dos casos reais, a polícia acaba sempre por emergir (exemplo: no Wild West um dos primeiros acordos comunitários numa nova cidade era atribuir a alguém os poderes de xerife).

Também em laboratório estudou-se as causas responsáveis pela emergência de uma polícia [4,5,6]. Em resumo: manter uma polícia é custoso e é vista pela comunidade como um bem comum. Um cidadão que não tenha um comportamento parasita mas que não contribua para o esforço de manter a polícia, passa a ser visto como um parasita de 2ª ordem, ao qual é adequado forçar certo tipo de punição. O que se verificou é que quando esta punição de 2ª ordem não é estabelecida, a polícia tende a dissolver-se (cada vez há menos pessoas a sustentá-la) e passa-se para um esquema de peer punishment onde a punição pelas próprias mãos passa a ser a norma. Quando a punição de 2ª ordem é imposta à comunidade, a pool punishment torna-se a estratégia dominante (resultando numa baixa percentagem de parasitas de 1ª e 2ª ordem).

Refs:

fevereiro 13, 2011

O mapa não é o território

O cérebro habita o território, a mente desenha e desenha-se nos mapas.

fevereiro 10, 2011

Muralhas

A burocracia promove a economia paralela. Ela cria uma muralha legal e financeira que impede pessoas e recursos de se inscreverem no mercado formal. A burocracia também promove a corrupção. Quando se força um labirinto, abre-se a possibilidade a muitos atalhos.

fevereiro 07, 2011

Experimentação

"The life of the Law has not been Logic, it has been experience" Oliver Wendell Holmes

fevereiro 04, 2011

Progresso

A complexidade progressiva das sociedades modernas torna irreversível a descentralização. Já não são opção o comité central, a agremiação de sábios ou a oligarquia dos influentes (apesar da sua existência persistir enquanto for lucrativo o respectivo roubo). A única opção que poderá restar ao movimento contrário é o eventual big brother cibernético, um suicídio de poder provavelmente não muito desejável.

fevereiro 02, 2011

"[...] many statistical results from scientific studies that showed great significance early in the analysis are less and less robust in later studies. For instance, a pharmaceutical company may release a new drug with great fanfare that showed extremely promising results in clinical trials, and then later, when numbers from its use in the general public trickle back, shows much smaller effects. Or a scientific observation of mate choice in swallows may first show a clear preference for symmetry, but as time passes and more species are examined or the same species is re-examined, the effect seems to fade.

This isn't surprising at all. It's what we expect, and there are many very good reasons for the shift.

  • Regression to the mean: As the number of data points increases, we expect the average values to regress to the true mean…and since often the initial work is done on the basis of promising early results, we expect more data to even out a fortuitously significant early outcome.

  • The file drawer effect: Results that are not significant are hard to publish, and end up stashed away in a cabinet. However, as a result becomes established, contrary results become more interesting and publishable.

  • Investigator bias: It's difficult to maintain scientific dispassion. We'd all love to see our hypotheses validated, so we tend to consciously or unconsciously select reseults that favor our views.

  • Commercial bias: Drug companies want to make money. They can make money off a placebo if there is some statistical support for it; there is certainly a bias towards exploiting statistical outliers for profit.

  • Population variance: Success in a well-defined subset of the population may lead to a bit of creep: if the drug helps this group with well-defined symptoms, maybe we should try it on this other group with marginal symptoms. And it doesn't…but those numbers will still be used in estimating its overall efficacy.

  • Simple chance: This is a hard one to get across to people, I've found. But if something is significant at the p=0.05 level, that still means that 1 in 20 experiments with a completely useless drug will still exhibit a significant effect.

  • Statistical fishing: I hate this one, and I see it all the time. The planned experiment revealed no significant results, so the data is pored over and any significant correlation is seized upon and published as if it was intended. See previous explanation. If the data set is complex enough, you'll always find a correlation somewhere, purely by chance.

[...] Yes, science is hard. Especially when you are dealing with extremely complex phenomena with multiple variables, it can be extremely difficult to demonstrate the validity of a hypothesis (I detest the word "prove" in science, which we don't do, and we know it; Lehrer should, too). What the decline effect demonstrates, when it occurs, is that just maybe the original hypothesis was wrong." P.Z.Myers, Science is not Dead, blog Pharyngula.

janeiro 27, 2011

Umwelt

"In 1909, the biologist Jakob von Uexküll introduced the concept of the umwelt. He wanted a word to express a simple (but often overlooked) observation: different animals in the same ecosystem pick up on different environmental signals. In the blind and deaf world of the tick, the important signals are temperature and the odor of butyric acid. For the black ghost knifefish, it's electrical fields. For the echolocating bat, it's air-compression waves. The small subset of the world that an animal is able to detect is its umwelt. The bigger reality, whatever that might mean, is called the umgebung. The interesting part is that each organism presumably assumes its umwelt to be the entire objective reality "out there." Why would any of us stop to think that there is more beyond what we can sense? [...] a blind person does not miss vision. They do not conceive of it. Electromagnetic radiation is simply not part of their umwelt.

The more science taps into these hidden channels, the more it becomes clear that our brains are tuned to detect a shockingly small fraction of the surrounding reality. Our sensorium is enough to get by in our ecosystem, but is does not approximate the larger picture." David Eagleman [link]

janeiro 24, 2011

Fronteiras

A xenofobia faz para uma comunidade o que a membrana faz à célula e as sinfonias de feromonas ao formigueiro. Elas definem a fronteira, são função de separação e controlo, de homeostase. Mas querem as comunidades ser comparadas com células e insectos?

janeiro 20, 2011

Adaptação

"When I was a child, I used to pray to God for a bicycle. But then I realized that God doesn't work in that way—so I stole a bike and prayed for forgiveness!" Emo Philips

janeiro 17, 2011

Ficções

"Many anthropologists have observed that when they ask their native informants about «theological» details—their gods' whereabouts, specific history, and methods of acting in the world— their informants find the whole inquiry puzzling. Why should they be expected to know or care anything about that? Given this widely reported reaction, we should not dismiss the corrosive hypothesis that many of the truly exotic and arguably incoherent doctrines that have been unearthed by anthropologists over the years are artifacts of inquiry, not pre-existing creeds. It is possible that persistent questioning by anthropologists has composed a sort of innocently collaborative fiction, newly minted and crystallized dogmas generated when questioner and informant talk past each other until a mutually agreed-upon story results. The informants deeply believe in their gods—"Everybody knows they exist!"—but they may never before have thought about these details (maybe nobody in the culture has!), which would explain why their convictions are vague and indeterminate. Obliged to elaborate, they elaborate, taking their cues from the questions posed." Daniel Dennett, Breaking the Spell.

janeiro 14, 2011

Gestão danosa

Quando se sabe muito pouco sobre o mundo, não é melhor criar e cultivar um modelo que tudo explica? E se este compensa para quem o aprende e para quem nele apostou o seu estatuto social, há medida que se cristaliza na cultura, na arte, na relação das pessoas, então o seu peso tende a esmagar as sementes de outras explicações. É admirável que a civilização europeia tenha rompido a inércia religiosa de séculos mas, em parte, é da responsabilidade dos seus representantes, pelos excessos deles próprios que não foram capazes de controlar.

janeiro 06, 2011

Initio

Quando se discute o relativo ou absoluto da ética, creio que usamos as pessoas como experiência e medida mas não o humano, que também somos, como base. Numa tábua rasa qualquer possibilidade ética coerente parece admissível. Mas a humanidade carrega um passado como espécie e os muitos compromissos das suas culturas. Está-nos inscrito um conjunto de restrições físicas e uma herança genética que limita a gama dos nossos comportamentos (de outra forma, não existiria a psicologia). Os seres humanos não são tábuas rasas. É esse diferente de zero que permite, por exemplo, a amamentação, o aprender da linguagem, o fundar da mente no que nos rodeia, criar um eu neste cérebro inchado de primata. E nessa gama do possível, um número ilimitado de personalidades, culturas, crenças e línguas. Porque não assumir algo similar para a ética? O diferente de zero é um ponto de partida para o que aceitamos e recusamos, para o que atrai e enoja. isto não significa ser o instinto um ideal - longe disso - mas uma força que é necessário reconhecer, algo que partilhamos como espécie e que não podemos esquecer nos argumentos filosóficos, legais ou científicos que tratam como podemos e devemos agir.

janeiro 04, 2011

Ontologia

"[...] in our view, the existence of a real world that was not created in our imagination, and which continues to go about its business according to its own laws, independently of what humans think or do, is the primary experimental fact of all, without which there would be no point to physics or any other science. The whole purpose of science is learn what that reality is and what its laws are. [...] Any theory about reality can have no consequences testable by us unless it can also describe what humans can see and know. For example, special relativity theory implies that it is fundamentally impossible for us to have knowledge of any event that lies outside our past light cone. Although our ultimate goal is ontological, the process of achieving that goal necessarily involves the acquisition and processing of human information. This information processing aspect of science has not, in our view, been sufficiently stressed by scientists. [...] We suggest that the proper tool for incorporating human information into science is simply probability theory and not the currently taught "random variable" kind, but the original llogical inference" kind of James Bernoulli and Laplace. For historical reasons [...] this is often called "Bayesian inference". When supplemented by the notion of information entropy, this becomes a mathematical tool for scientific reasoning of such power and versatility that we think it will require Centuries to explore all its capabilities." E.T. Jaynes, Probability in Quantum Theory (1996)

dezembro 14, 2010

Separação

A matemática não produz resultados que tenham necessariamente a ver com o mundo real. Os seus teoremas e demonstrações são sobre objectos ideais, enquanto nós lidaremos sempre com aproximações e isso é já todo um mundo de distância. É arriscado forçar as conclusões matemáticas a eventos da realidade física, social e cognitiva. Há uma fronteira assimptótica entre a certeza e o impossível por um lado, e as probabilidades por outro. A dedução é a ferramenta para lidar com as primeiras e ao seu uso chamamos matemática. A indução é a ferramenta para lidar com as segundas e ao seu uso designamos método científico.

dezembro 09, 2010

Contexto

"The most succinct criticism of postmodernist philosophy as applied to science that I have heard is this – that proponents confuse the context of discovery with the context of later justification. It occurred to me that the same is true of the role of both anecdotes and anomalies in science. Often when I criticize reliance on anecdotes or so-called anomaly hunting, I get feedback that makes the exact same confusion of context.

The context of discovery refers to how new ideas are generated in science. Playing off of Thomas Kuhn’s work on paradigms (and without getting into a side discussion of Kuhn’s own position), some post-modernists argued that science is a humanist-type of endeavor because scientists come up with their ideas in quirky and culturally contingent ways, rather than rigorous or methodical ways. However, what makes science methodologically rigorous is not how new ideas are generated (the context of discovery) but how they are tested (the context of later justification)." Steve Novella, citado do post The Context of Anecdotes and Anomalies