janeiro 17, 2011

Ficções

"Many anthropologists have observed that when they ask their native informants about «theological» details—their gods' whereabouts, specific history, and methods of acting in the world— their informants find the whole inquiry puzzling. Why should they be expected to know or care anything about that? Given this widely reported reaction, we should not dismiss the corrosive hypothesis that many of the truly exotic and arguably incoherent doctrines that have been unearthed by anthropologists over the years are artifacts of inquiry, not pre-existing creeds. It is possible that persistent questioning by anthropologists has composed a sort of innocently collaborative fiction, newly minted and crystallized dogmas generated when questioner and informant talk past each other until a mutually agreed-upon story results. The informants deeply believe in their gods—"Everybody knows they exist!"—but they may never before have thought about these details (maybe nobody in the culture has!), which would explain why their convictions are vague and indeterminate. Obliged to elaborate, they elaborate, taking their cues from the questions posed." Daniel Dennett, Breaking the Spell.

janeiro 14, 2011

Gestão danosa

Quando se sabe muito pouco sobre o mundo, não é melhor criar e cultivar um modelo que tudo explica? E se este compensa para quem o aprende e para quem nele apostou o seu estatuto social, há medida que se cristaliza na cultura, na arte, na relação das pessoas, então o seu peso tende a esmagar as sementes de outras explicações. É admirável que a civilização europeia tenha rompido a inércia religiosa de séculos mas, em parte, é da responsabilidade dos seus representantes, pelos excessos deles próprios que não foram capazes de controlar.

janeiro 06, 2011

Initio

Quando se discute o relativo ou absoluto da ética, creio que usamos as pessoas como experiência e medida mas não o humano, que também somos, como base. Numa tábua rasa qualquer possibilidade ética coerente parece admissível. Mas a humanidade carrega um passado como espécie e os muitos compromissos das suas culturas. Está-nos inscrito um conjunto de restrições físicas e uma herança genética que limita a gama dos nossos comportamentos (de outra forma, não existiria a psicologia). Os seres humanos não são tábuas rasas. É esse diferente de zero que permite, por exemplo, a amamentação, o aprender da linguagem, o fundar da mente no que nos rodeia, criar um eu neste cérebro inchado de primata. E nessa gama do possível, um número ilimitado de personalidades, culturas, crenças e línguas. Porque não assumir algo similar para a ética? O diferente de zero é um ponto de partida para o que aceitamos e recusamos, para o que atrai e enoja. isto não significa ser o instinto um ideal - longe disso - mas uma força que é necessário reconhecer, algo que partilhamos como espécie e que não podemos esquecer nos argumentos filosóficos, legais ou científicos que tratam como podemos e devemos agir.

janeiro 04, 2011

Ontologia

"[...] in our view, the existence of a real world that was not created in our imagination, and which continues to go about its business according to its own laws, independently of what humans think or do, is the primary experimental fact of all, without which there would be no point to physics or any other science. The whole purpose of science is learn what that reality is and what its laws are. [...] Any theory about reality can have no consequences testable by us unless it can also describe what humans can see and know. For example, special relativity theory implies that it is fundamentally impossible for us to have knowledge of any event that lies outside our past light cone. Although our ultimate goal is ontological, the process of achieving that goal necessarily involves the acquisition and processing of human information. This information processing aspect of science has not, in our view, been sufficiently stressed by scientists. [...] We suggest that the proper tool for incorporating human information into science is simply probability theory and not the currently taught "random variable" kind, but the original llogical inference" kind of James Bernoulli and Laplace. For historical reasons [...] this is often called "Bayesian inference". When supplemented by the notion of information entropy, this becomes a mathematical tool for scientific reasoning of such power and versatility that we think it will require Centuries to explore all its capabilities." E.T. Jaynes, Probability in Quantum Theory (1996)

dezembro 14, 2010

Separação

A matemática não produz resultados que tenham necessariamente a ver com o mundo real. Os seus teoremas e demonstrações são sobre objectos ideais, enquanto nós lidaremos sempre com aproximações e isso é já todo um mundo de distância. É arriscado forçar as conclusões matemáticas a eventos da realidade física, social e cognitiva. Há uma fronteira assimptótica entre a certeza e o impossível por um lado, e as probabilidades por outro. A dedução é a ferramenta para lidar com as primeiras e ao seu uso chamamos matemática. A indução é a ferramenta para lidar com as segundas e ao seu uso designamos método científico.

dezembro 09, 2010

Contexto

"The most succinct criticism of postmodernist philosophy as applied to science that I have heard is this – that proponents confuse the context of discovery with the context of later justification. It occurred to me that the same is true of the role of both anecdotes and anomalies in science. Often when I criticize reliance on anecdotes or so-called anomaly hunting, I get feedback that makes the exact same confusion of context.

The context of discovery refers to how new ideas are generated in science. Playing off of Thomas Kuhn’s work on paradigms (and without getting into a side discussion of Kuhn’s own position), some post-modernists argued that science is a humanist-type of endeavor because scientists come up with their ideas in quirky and culturally contingent ways, rather than rigorous or methodical ways. However, what makes science methodologically rigorous is not how new ideas are generated (the context of discovery) but how they are tested (the context of later justification)." Steve Novella, citado do post The Context of Anecdotes and Anomalies

novembro 25, 2010

Teoria de Grafos

A rede social determina os seus individuos e enreda-os, sob pena de isolamento e evaporação, num comportamento dito normal. Quanto maior for o grau de ligação aos outros, quantas mais dependências se formarem, menor a mobilidade, menor a escolha de opções 'perigosas' ou, salientando a definição, associais. Ao cortar laços, ao aumentar a distância invisível porque implícita aos outros, aumenta a possibilidade dessa rede, também ela um sistema imunitário, reagir de forma violenta, exilando, emprisionando, ridiculizando quem assim se afasta (é dificil controlar alguém descomprometido). Por isso, o subtil de cada passo, a necessidade de silêncio -- e com quem conversar, uma vez tomada a via? -- a vigilância. Também neste lado da fronteira, Spleen considera que não se pode largar o irredutível mínimo do medo, a parte útil, o alarme biológico que nos relembra que estamos sozinhos. Talvez o medo seja um preço da consciência, talvez mesmo um preço da vida, e como saber sem dar esse último passo irreversível? Queimar o pânico, de perder tudo, todos, de obliterar aquilo que não somos, o assassino que nos deixa imóveis. Depois, o segundo passo.

novembro 22, 2010

Compromisso

Dentro de nós vivem multidões e consensos. A diversidade é tanta, desde os biliões de células neuronais até aos sistemas mentais que constróem a ilusão do eu, que apenas um certo grau de abstracção ou indiferença permite a narrativa que somos seres indivisos. Mas não nos devemos esquecer que o corpo age, muitas vezes, contra o eu que encerra. A repulsão, o pânico, o contágio das multidões (o bocejo), podem ser impossíveis de controlar mesmo por uma mente experiente, inteligente, habituada a bem usar a razão e as emoções em situações mais normais. A mente que me define controla este animal que socialmente me identifica. Mas é uma situação que exige um esforço constante. Por isso os automatismos, talvez até o sono. Por isso, também, a dissolução no descontrolo.

novembro 13, 2010

Pendor

«We don't start out with a moral duty to "reduce bias", because biases are bad and evil and Just Not Done. This is the sort of thinking someone might end up with if they acquired a deontological duty of "rationality" by social osmosis, which leads to people trying to execute techniques without appreciating the reason for them. [...] Rather, we want to get to the truth, for whatever reason, and we find various obstacles getting in the way of our goal. These obstacles are not wholly dissimilar to each other - for example, there are obstacles that have to do with not having enough computing power available, or information being expensive. It so happens that a large group of obstacles seem to have a certain character in common - to cluster in a region of obstacle-to-truth space - and this cluster has been labeled "biases".» Eliezer Yudkowsky, Less Wrong

novembro 02, 2010

Constituição

O cérebro não evoluiu para efectuar qualquer tipo específico de pensamento. Este orgão não é excepção na regra que a selecção natural não tem um determinado fim à vista. As mentes e as culturas humanas originaram-se a partir das restrições e capacidades cognitivas do cérebro humano mas isso não significa que estamos irremediavelmente reféns dessas limitações. Há hoje já demasiada evidência para a irracionalidade da mente humana e da nossa capacidade sub-óptima de tomar decisões com a informação disponível [1, 2, 3]. Mas temos ferramentas para lidar com este problema, como a matemática, a lógica, a ciência ou a filosofia, que nos permitem acumular e aperfeiçoar conhecimento ao longo de gerações, criando, mantendo e melhorando conceitos abstractos, teorias e modelos, ou instrumentos tecnológicos que minimizam a falibilidade dos nossos sentidos e do nosso raciocínio. Se seguirmos certos protocolos de acção, se mantivermos uma dúvida sistemática, se controlarmos os nossos preconceitos, podemos avançar mais longe e com a liberdade possível na descoberta do mundo. Se aplicarmos, em resumo, uma das muitas faces do que se designa por método científico, estaremos mais preparados para descobrir, lidar e corrigir o erro que está e sempre esteve ligado ao ser pessoa. Nesse aspecto, o método científico é a constituição não escrita da razão humana.

outubro 25, 2010

Lindo!

In probability theory there is a very clever trick for handling a problem that becomes too difficult. We just solve it anyway by:
  1. making it still harder;
  2. redefining what we mean by ‘solving’ it, so that it becomes something we can do;
  3. inventing a dignified and technical-sounding word to describe this procedure, which has the psychological effect of concealing the real nature of what we have done, and making it appear respectable.
In the case of sampling with replacement, we apply this strategy as follows.
  1. Suppose that, after tossing the ball in, we shake up the urn. However complicated the problem was initially, it now becomes many orders of magnitude more complicated, because the solution now depends on every detail of the precise way we shake it, in addition to all the factors mentioned above.
  2. We now assert that the shaking has somehow made all these details irrelevant, so that the problem reverts back to the simple one where the Bernoulli urn rule applies.
  3. We invent the dignified-soundingword randomization to describe what we have done. This term is, evidently, a euphemism, whose real meaning is: deliberately throwing away relevant information when it becomes too complicated for us to handle.
We have described this procedure in laconic terms, because an antidote is needed for the impression created by some writers on probability theory, who attach a kind of mystical significance to it. For some, declaring a problem to be ‘randomized’ is an incantation with the same purpose and effect as those uttered by an exorcist to drive out evil spirits; i.e. it cleanses their subsequent calculations and renders them immune to criticism.We agnostics often envy the True Believer, who thus acquires so easily that sense of security which is forever denied to us.

However, in defense of this procedure, we have to admit that it often leads to a useful approximation to the correct solution; i.e. the complicated details, while undeniably relevant in principle, might nevertheless have little numerical effect on the answers to certain particularly simple questions, such as the probability for drawing r red balls in n trials when n is sufficiently small. But from the standpoint of principle, an element of vagueness necessarily enters at this point; for, while we may feel intuitively that this leads to a good approximation, we have no proof of this, much less a reliable estimate of the accuracy of the approximation, which presumably improves with more shaking. The vagueness is evident particularly in the fact that different people have widely divergent views about how much shaking is required to justify step (2). Witness the minor furor surrounding a US Government-sponsored and nationally televized game of chance some years ago, when someone objected that the procedure for drawing numbers from a fish bowl to determine the order of call-up of young men for Military Service was ‘unfair’ because the bowl hadn’t been shaken enough to make the drawing ‘truly random’, whatever that means. Yet if anyone had asked the objector: ‘To whom is it unfair?’ he could not have given any answer except, ‘To those whose numbers are on top; I don’t know who they are.’ But after any amount of further shaking, this will still be true! So what does the shaking accomplish?

Shaking does not make the result ‘random’, because that term is basically meaningless as an attribute of the real world; it has no clear definition applicable in the real world. The belief that ‘randomness’ is some kind of real property existing in Nature is a form of the mind projection fallacy which says, in effect, ‘I don’t know the detailed causes – therefore – Nature does not know them.’ What shaking accomplishes is very different. It does not affect Nature’s workings in any way; it only ensures that no human is able to exert any wilful influence on the result. Therefore, nobody can be charged with ‘fixing’ the outcome.

At this point, you may accuse us of nitpicking, because you know that after all this sermonizing, we are just going to go ahead and use the randomized solution like everybody else does. Note, however, that our objection is not to the procedure itself, provided that we acknowledge honestly what we are doing; i.e. instead of solving the real problem, we are making a practical compromise and being, of necessity, content with an approximate solution. That is something we have to do in all areas of applied mathematics, and there is no reason to expect probability theory to be any different. E.T. Jaynes, Probability Theory, The Logic of Science

outubro 21, 2010

Areia Movediça

outubro 18, 2010

Rumo

Temos disponível (somos?), no cérebro, um modelo do mundo, uma aproximação cujos detalhes a nossa cultura dá especial valor na interacção com a realidade externa. Apesar dos compromissos e da negociação, para este modelo funcionar fabricamos ilusões e arbitrários vários. Por exemplo, os objectos não têm cor nem cheiro, uma música ou uma voz são ondulações de ar, mas temos palavras, tradições e estéticas para lidar com eles. O 'agora', o 'aqui' e o 'eu' são igualmente peças desse modelo mas não têm um correspondente físico objectivo. Porém, incrivelmente, no seio deste difuso e imenso oceano de padrões e informação, conseguimos navegar com o possível de um rumo.

outubro 14, 2010

Equilíbrio

A experiência passada altera, ajusta o nosso comportamento. Podemos agir de forma distinta sobre dois casos similares apenas porque integrámos, na nossa mente, as consequências do primeiro. A lei escrita não se comporta assim. É apenas revista após a passagem de vários anos (ou como reacção ao inesperado de uma catástrofe). Isto é uma desvantagem porque dá à lei uma inércia que certos aspectos do mundo não toleram. Mas também é uma vantagem porque, assim, é mais imune a excessos emocionais, traumas, modas passageiras. Neste hesitar de balança talvez resida um argumento em favor da jurisprudência assente numa deontologia concisa, exigente e cega porque justa.

outubro 09, 2010

Não fazemos porque não sabemos

Many people are fond of saying, ‘They will never make a machine to replace the human mind – it does many things which no machine could ever do.’ A beautiful answer to this was given by J. von Neumann in a talk on computers given in Princeton in 1948, which the writer was privileged to attend. In reply to the canonical question from the audience (‘But of course, a mere machine can’t really think, can it?’), he said:
You insist that there is something a machine cannot do. If you will tell me precisely what it is that a machine cannot do, then I can always make a machine which will do just that!
In principle, the only operations which a machine cannot perform for us are those which we cannot describe in detail, or which could not be completed in a finite number of steps. E.T.Jaynes, Probability Theory, The Logic of Science

outubro 06, 2010

Sentidos...

setembro 30, 2010

Aplicação

Será possível encontrar uma axiomática para a ética? Qualquer princípio - utilitarista, deontológico, virtuoso - tem refutação em situações cuidadosamente elaboradas por filósofos. Mas, enquanto não existir um domínio exacto de aplicação para um dado modelo de ética, não serão estas refutações uma injustiça, uma exigência impossível de cumprir? Seria como criticar a geometria euclidiana por não funcionar numa esfera. Mas, para cada possível da ética, qual a forma dessa esfera?

setembro 27, 2010

Estilhaços

Nós vivemos numa realidade física e social única. Talvez por isso só faça sentido falar funcionalmente de um processo cognitivo integrador, de uma consciência. Mas se, por exemplo, o nosso mundo fosse composto por duas realidades simultâneas (*), faria sentido falar da necessidade de duas consciências? Seríamos uma pessoa dupla capaz de gerir e integrar duas continuidades distintas, podendo trocar conhecimentos e experiências entre essas realidades. Que tipo de coerência forçaríamos na ilusão -- assim reforçada -- de um presente estilhaçado?

(*) Num mundo totalmente virtual, numa eventual matrix, este cenário não é impossível. Que diferenças e comparações entre isto e as personas que agora e hoje somos, nesses diferentes contextos sociais que experimentamos sequencialmente?

setembro 23, 2010

Sugestão de Leitura

Um livro escrito para o público por um filósofo de formação que investiga na área da neurologia. Autor de um livro anterior mais formal, Being No One (e de mui complexa leitura), apresenta nesta obra o mesmo argumento: o eu é uma ficção, uma entidade virtual no mundo virtual que construímos para lidar com a realidade externa.
In order to survive, biological organisms must not only successfully predict what is going to happen next in their immediate environment but also be able to predict accurately their behavior and bodily movements along with their consequences. The self-model is a real-time predictor. [...] In our brains, we have a body emulator that uses motor commands to predict the likely proprioceptive and kinesthetic feedback that results from moving our limbs in a certain way. For our actions to be successfully controlled, we cannot wait for the actual feedback from our arms and legs as we move through the world. We need an internal image of our body as a whole that predicts the likely consequences of, say, an attempt to move our left arm in a certain way. In order to be really efficient, we need to know in advance what this would feel like. Furthermore, by “taking it offline,” we can use our body emulator to create motor imagery in our mind—to plan or imagine our body movements without actually executing them. [pg.111]
A terceira parte do livro, mais especulativa, leva-nos a possíveis futuros onde, argumenta o autor, poderemos ter de desenvolver uma ética para a consciência (a partir do momento em que começarmos a criá-las artificialmente e a manipular mais cirurgicamente as nossas próprias).

junho 27, 2010

Paradoxo

“The book above all others in the world which should be forbidden is a catalog of forbidden books.” — Georg Christoph Lichtenberg [via Futility Closet]

junho 24, 2010

Insectos

"A human being should be able to change a diaper, plan an invasion, butcher a hog, conn a ship, design a building, write a sonnet, balance accounts, build a wall, set a bone, comfort the dying, take orders, give orders, cooperate, act alone, solve equations, analyze a new problem, pitch manure, program a computer, cook a tasty meal, fight efficiently, die gallantly. Specialization is for insects." Robert Heinlein [via Jewels made out of neurons]

junho 21, 2010

Adiar

Seja a busca. Seja da axiomatização da matemática, dos princípios da física ou dos fundamentos da ética, paramos sempre na questão das definições. Por onde começar? Para evitar a circularidade ou a regressão infinita, é necessário criar uma base de trabalho, um conjunto de preceitos flexíveis, expressivos e coerentes e trabalhar a partir daí. Se um preceito pode ser descrito por outro mais simples e abrangente, se corrigir problemas ou limitações, melhor, senão esperamos pela próxima revisão. Enquanto isso, para cada teorema, experiência ou acto de justiça conquistado, fortalecemos a confiança na nossa escolha e adiamos, o quanto possível, a catástrofe.

junho 17, 2010

Reconstrução

Educar uma comunidade tem, como deve ser evidente hoje em dia, várias vantagens. Duas que gostaria de apontar:

* É através da educação que se dilui a diferença das classes sociais. O sistema de castas ainda existe nas sociedades modernas. Este mecanismo, mais subtil que as castas explícitas da Índia, cria muros invisíveis (por vezes nem tanto) entre pessoas de nascimentos distintos. Há círculos mais selectivos onde apenas é convidado quem tem pedigree aprovado e pouco mais que isso. A sua existência não se correlaciona com o poder económico. Entre certas comunidades ciganas e a linha de cascais, o mecanismo de exclusividade funciona de igual modo na selecção e filtro dos seus e que passa, variadas vezes, pelo berço. A educação compulsiva promovida pelo Estado é uma forma de contacto entre diferentes círculos e dota os elementos menos privilegiados de ferramentas que lhes permitem furar o seu círculo e misturar-se. Neste sentido, a educação é essencial a uma comunidade cosmopolita e republicana.(*)

* Uma boa educação deve estimular o pensar crítico da comunidade, ser o agente de transformação do rebanho informe em milhões de indivíduos. Uma comunidade assim encontra-se protegida contra vários tipos de propaganda. Quando a pessoa média for capaz de analisar e questionar o que lhe é dito, torna-se a vida mais difícil para as ideologias, para a incompetência ou para serem aceites aventuras financeiras ou militares várias.

Estas e outras vantagens fazem da educação um terraplanar de muros sociais, de preconceitos passados, para que seja possível erigir outros muros, como as defesas contra arbitrariedades futuras. Neste aspecto, educar é reconstruir.

(*) Mas estas castas podem combater a imposição do Estado. Os mais pobres impedindo a educação aos filhos, os mais ricos criando escolas muradas onde apenas entram crianças aceitáveis. Aqui há um dilema de difícil resolução para um espírito liberal.

junho 15, 2010

junho 14, 2010

Combate II

Se quebrarmos a produção de conhecimento, se ofuscarmos o uso da dúvida sistemática, se deixarmos de lado a evidência e a razão, a nossa civilização entrará em declínio e colapsará. Qualquer passo nessa direcção é da nossa responsabilidade colectiva enquanto indivíduos da comunidade global. Cada um desses passos carrega consigo um débito ético objectivo (a ignorância mata). Há muita gente, na educação, nos media, na política, a não ajudar. O nosso inimigo somos nós.

junho 10, 2010

Combate

Como se combate o conhecimento obtido pelo método científico? Há, pelo menos, duas formas. Com dogmas, que mutilam a razão de quem neles de revê, ou com ruído, manipulação de dados e desinformação. A primeira impede a discussão, a segunda confunde, criando sistematicamente dúvida para combater o que a dúvida sistemática obtém. A primeira é principalmente usada por religiões e ideologias, a segunda por grupos de pressão com a ajuda comprada ou ignorante dos media.

junho 08, 2010

Domínios de Aplicação

A liberdade representa a ausência da coerção não da necessidade. Ela aumenta as possibilidades bem como as dificuldades e também as oportunidades. Ela não tenta eliminar as circunstâncias, o imprevisível, ou as desvantagens de cada um. Ela diversifica não nivela; vive da polémica não de acordos impostos; evita médias e unanimidades. Para a ausência da necessidade não se deve usar a palavra liberdade mas sim a palavra poder.

junho 03, 2010

Velhices

"A democracia estende a esfera da liberdade individual, o socialismo restringe-a. A democracia anexa todos os valores possíveis a cada homem; o socialismo faz cada homem um agente, um número. Democracia e socialismo não têm nada em comum senão uma palavra: igualdade. Mas reparem na diferença: enquanto a democracia procura igualdade na liberdade, o socialismo procura a igualdade na restrição e servitude" A. Tocqueville (1848)

junho 01, 2010

Pandemónio

 
John Martin, Pandemonium (1841),
gravura do palácio de Satã no Paradise Lost de John Milton