março 31, 2010

Negócios

 

março 29, 2010

The Road to Serfdom III

The point which is so important is the basic fact that it is impossible for any man to survey more than a limited field, to be aware of the urgency of more than a limited number of needs. Whether his interests centre round his own physical needs, or whether he takes a warm interest in the welfare of every human being he knows, the ends about which he can be concerned will always be only an infinitesimal fraction of the needs of all men. This is the fundamental fact on which the whole philosophy of individualism is based. It does not assume, as is often asserted, that man is egoistic or selfish, or ought to be. It merely starts from the indisputable fact that the limits of our powers of imagination make it impossible to include in our scale of values more than a sector of the needs of the whole society, and that, since, strictly speaking, scales of value can exist only in individual minds, nothing but partial scales of values exist, scales which are inevitably different and often inconsistent with each other. From this the individualist concludes that the individuals should be allowed, within defined limits, to follow their own values and preferences rather than somebody else's, that within these spheres the individual's system of ends should be supreme and not subject to any dictation by others. It is this recognition of the individual as the ultimate judge of his ends, the belief that as far as possible his own views ought to govern his actions, that forms the essence of the individualist position. F.A.Hayek, The Road to Serfdom

março 25, 2010

março 22, 2010

The Road to Serfdom II

The liberal argument is in favour of making the best possible use of the forces of competition as a means of co-ordinating human efforts, not an argument for leaving things just as they are. It is based on the conviction that where effective competition can be created, it is a better way of guiding individual efforts than any other. It does not deny, but even emphasises, that, in order that competition should work beneficially, a carefully thought-out legal framework is required, and that neither the existing nor the past legal rules are free from grave defects. Nor does it deny that where it is impossible to create the conditions necessary to make competition effective, we must resort to other methods of guiding economic activity. Economic liberalism is opposed, however, to competition being supplanted by inferior methods of coordinating individual efforts. And it regards competition as superior not only because it is in most circumstances the most efficient method known, but even more because it is the only method by which our activities can be adjusted to each other without coercive or arbitrary intervention of authority. Indeed, one of the main arguments in favour of competition is that it dispenses with the need for "conscious social control" and that it gives the individuals a chance to decide whether the prospects of a particular occupation are sufficient to compensate for the disadvantages and risks connected with it. F.A.Hayek, The Road to Serfdom

março 18, 2010

The Road to Serfdom I

There is nothing in the basic principles of liberalism to make it a stationary creed, there are no hard-and-fast rules fixed once and for all. The fundamental principle that in the ordering of our affairs we should make as much use as possible of the spontaneous forces of society, and resort as little as possible to coercion, is capable of an infinite variety of applications. There is, in particular, all the difference between deliberately creating a system within which competition will work as beneficially as possible, and passively accepting institutions as they are. Probably nothing has done so much harm to the liberal cause as the wooden insistence of some liberals on certain rough rules of thumb, above all the principle of laissez-faire. Yet in a sense this was necessary and unavoidable. Against the innumerable interests who could show that particular measures would confer immediate and obvious benefits on some, while the harm they caused was much more indirect and difficult to see, nothing short of some hard-and-fast rule would have been effective. And since a strong presumption in favour of industrial liberty had undoubtedly been established, the temptation to present it as a rule which knew no exceptions was too strong always to be resisted. F.A.Hayek, The Road to Serfdom

março 15, 2010

Poupança

Gustavo Matamouros vê-se perante um caso inédito, não só na sua carreira de polícia de homicídios mas também nos anais da história criminosa bem como nos argumentos de séries e livros policiais. Um mafioso albanês, seja A, devido à guerra com o cartel brasileiro, montou uma armadilha a um dos seus chefes, seja B. Este B, individuo recalcitrante, por sua vez, preparou um plano para matar o responsável pela contabilidade da máfia chinesa, seja C (o leitor atento poderá suspeitar que estou a escolher os países pela sua letra inicial matematicamente apetecível e não seria eu a desmentir tal inteligente crença). Ora A era amante da mulher de C o que, após a descoberta levou igualmente a que este, tendo alguma facilidade no acesso a armas de fogo, fosse à casa de A para ajustar contas. Logo a seguir a A ter montado a bomba incendiária ao retardador no carro de B, A foi para casa a pé (eles não moravam longe uns dos outros). O que acontece é que, nesse mesmo dia, B decidira-se reformular o cérebro de C e segui-o até à casa de A. No momento em que A roda a chave, C acciona a bazuca dinamarquesa (seja D) com sucesso e faz desaparecer a face sul da mansão albanesa. Segundo depois, C usa a besta medieval -- artefacto que, pensa ele com alguma razão, lhe dá estilo -- para trespassar as principais artérias de B, instante esse em que a bomba dispara, levando o carro, a besta e o corpo de C para níveis atmosféricos. Um triplo assassinato circular, pensa Gustavo Matamouros, admirado pelo convergir dos eventos que as pistas lhe indicam e na poupança judicial aos contribuintes da cidade, já que Gustavo Matamouros era um indivíduo, acima de tudo, com carácter económico.

março 12, 2010

Crime

A política, enquanto actor de uma ética racional, deveria ter, como princípio deontológico, aumentar as opções de escolha dos cidadãos da sociedade na qual gere os recursos comuns. Limitada pelos direitos individuais, todos esses recursos deveriam ser usados nesse sentido. Tudo o que é oposto e consumidor, como guerras, cultivar preconceitos artificiais (como a nação), subjugar a justiça e a economia a ideologias não racionalmente defensáveis, serão sempre crimes.

março 09, 2010

Dicotomias

Lidar com as causas ou mitigar os sintomas. Se o assunto é o individuo essa é a diferença entre a medicina e a aspirina. Mas se falamos da sociedade, os sintomas encarnam-se nos desviantes da regra moral vigente. O Dr. Spleen reconhece que se trocarmos o objectivo da razão pelo subjectivo da tradição, a possibilidade pela limitação, as causas pelas consequências, todos se arriscam em ser loucos se a alternativa única for o robot. O problema é ser cada sociedade um acumular de restrições históricas e irracionalidades cristalizadas na inércia cognitiva dos seus cidadãos. Desse modo, pelo mundo fora (porque a tecnologia ainda não lhe permite atravessar a galáxia à procura de um canto mais sossegado) o vírus da humanidade cozinhou milhares de versões deste problema fundamental, ao qual a escolha, sua, de habitar o menos mau aliado ao hábito de cortar, enfim, pessoas, não chega para compensar o irredutível deste facto.

março 05, 2010

Balanço

A distância do outro, do vizinho da porta ao lado, que normalmente não vejo, não falo e que vive separado apesar da geografia comum, é uma solução para o decréscimo de conflitos (veja-se as assembleias de condomínio para um aperitivo do que seria de outro modo). Quanto maior o isolamento, menor a violência. Quando o isolamento não pode ser físico, como no caso da urbanidade compacta das nossas cidades, ele expressa-se em apatia, em reserva, em boas maneiras e discreta civilidade. A desintegração da comunidade, como tudo, tem vantagens e desvantagens. Baixa a violência mas aumenta o espaço de manobra do estado paternalista.

março 03, 2010

Sci-Philosophy IV

We have a disturbed relationship with our past which religion cannot explain. We are primitive in unexplainable ways, our lives woven of the familiar and the strange, the reasonable and the insane.

Governments always commit their entire populations when the demands grow heavy enough. By their passive acceptance, these populations become accessories to whatever is done in their name.

Does a populace have informed consent when a ruling minority acts in secret to ignite a war, doing this to justify the existence of the minority's forces? History already has answered that question. Every society in the ConSentiency today reflects the historical judgment that failure to provide full information for informed consent on such an issue represents an ultimate crime.

Does a population have informed consent when that population is not taught the inner workings of its monetary system, and then is drawn, all unknowing, into economic adventures?

Communal/managed economics have always been more destructive of their societies than those driven by greed. This is what the Dosadi says: Greed sets its own limits, is self-regulating. Frank Herbert, The Dosadi Experiment

fevereiro 25, 2010

Sci-Philosophy III

Casual acceptance demonstrated how easily rational thought could be directed by wishful thinking. This was a common susceptibility of all sentients.

The play of words can lead to certain expectations which life is unable to match. This is a source of much insanity and other forms of unhappiness.

But the dreams would be gone, lost in that season of death. There would be a special kind of silence: no more beautiful speech strewn with arrows of meaning. Who could console the universe for such a loss?

Never underestimate the power of wishful thinking to filter what the eyes see and what the ears hear.

It is impossible to see any absolute through a screen of interpreters.

One species can, all by itself, produce infinite varieties of experiences. The interaction between many species creates the illusion that infinity has been enlarged by several orders of magnitude.

Providence and Manifest Destiny are synonyms often invoked to support arguments founded in wishful thinking.

If you believe yourself sufficiently hungry, you will eat your own thoughts.

Any conversation is a unique jazz performance. Some are more pleasing to the ears, but that is not necessarily a measure of their importance.

If words are your symbols of reality, you live in a dream world. Frank Herbert, The Whipping Star

fevereiro 22, 2010

Sci-Philosophy II

We sift reality through screens composed of ideas. These idea systems are limited by language. That is to say: language cuts the grooves in which our thoughts must move. If we seek new validity forms, we must step outside the language.

What was instinct? An innate pattern impressed on the nervous system.

To remove a man's delusions is to create a vacuum. What rushes into that vacuum?[...] It's normal to share the delusions of one's society. It's abnormal to develop private delusions.

Societies don't believe they can die. It must follow that a society, as such, does not worship at all. If it cannot die, it'll never face a final judgment.

Every system and every interpretation becomes false in the light of a more complete system. I wonder if that's why you're here -- to remind us no positive statement may be made that's free from contradictions. Frank Herbert, - The Santaroga Barrier

fevereiro 18, 2010

Axiomas II

Na Matemática procura-se axiomatizar as disciplinas que a compõem (como a geometria, a aritmética ou as probabilidades). As características que os axiomas têm de possuir são a coerência e a expressividade. Elas focam o aspecto da utilidade da respectiva disciplina (axiomas incoerentes demonstram qualquer coisa e o seu contrário, pouca expressividade amputa a aplicabilidade do sistema) não sendo suposto os axiomas reflectirem alguma verdade subjacente. Assim, certos axiomas não são nada evidentes (e.g., o axioma da escolha) e há disciplinas que usam axiomas opostos (e.g., as geometrias euclidiana e não-euclidianas).

Pode esta atitude ser aproveitada na ética ou na epistemologia? Sejam os dois seguintes axiomas: "Todas as pessoas devem ter direitos iguais" e "Existe uma realidade objectiva". Seguindo o raciocínio anterior, não teriam de ser evidentes mas sim coerentes e expressivos (a expressividade, aqui, corresponde ao que podemos obter com a sua adopção). E se há argumentos fortes a favor da coerência destes axiomas, a evidência histórica é indiscutível em relação às vantagens obtidas do seu uso. O suficiente, creio, para os aceitarmos como axiomas mesmo que, para os mais cépticos ou mais cínicos, eles não se mostrem óbvios.

fevereiro 16, 2010

Carnaval

fevereiro 11, 2010

Axiomas I

"Ask a beginning philosophy of mathematics student why we believe the theorems of mathematics and you are likely to hear, "because we have proofs!" The more sophisticated might add that those proofs are based on true axioms, and that our rules of inference preserve truth. The next question, naturally, is why we believe the axioms, and here the response will usually be that they are "obvious", or "self-evident", that to deny them is "to contradict oneself" or "to commit a crime against the intellect". Again, the more sophisticated might prefer to say that the axioms are "laws of logic" or "implicit definitions" or "conceptual truths" or some such thing.

Unfortunately, heartwarming answers along these lines are no longer tenable (if they ever were). On the one hand, assumptions once thought to be self-evident have turned out to be debatable, like the law of the excluded middle, or outright false, like the idea that every property determines a set. Conversely, the axiomatization of set theory has led to the consideration of axiom candidates that no one finds obvious, not even their staunchest supporters. In such cases, we find the methodology has more in common with the natural scientist's hypotheses formation and testing than the caricature of the mathematician writing down a few obvious truths and preceeding to draw logical consequences. [...] The fact that these few axioms [of set theory] are commonly enshrined in the opening pages of mathematics texts should be viewed as an historical accident, not a sign of their privileged epistemological or metaphysical status." Believing the Axioms, Penelope Maddy (1987)

fevereiro 08, 2010

Sci-Philosophy I

The sweeping passage of shoreline caught her eyes hypnotically: fused movement. It was like time -- the immediate past never quite discarded, no fixed starting point for the future -- all one, all melted into one gliding, stretched-out forever. . .

The humans were very difficult to understand with their gods and their accumulation patterns. [...] The brain thought then how strange it was, this thought-mode of existence, this transference of internal energy to create imaginary visions that were in fact plans and schemes and that sometimes must move for a way along non-survival paths. How curious, how subtle, yet how beautiful was this human discovery which had now been copied and adapted to the uses of other creatures. How admirable and elevated it was, this manipulation of the universe that existed only within the passive confines of imagination.

Decisions -- conscious decisions, the Brain thought, these are a punishment inflicted upon the single-self by consciousness. There are conscious decisions that can fragment the single-self. How can humans stand up under such a load of decisions? Frank Herbert, The Green Brain

fevereiro 05, 2010

Teoria de Jogos

A Justiça é uma virtude. A Lei não. Só que a Justiça é apenas um conceito, um ideal não implementável na sua totalidade. Assim, a Lei é um mal necessário, um conjunto de coerções sustentadas pela força do estado com o objectivo de uniformizar soluções para os problemas inatos à dinâmica da sociedade. Um dos perigos da Lei é fazê-la tão vasta, tão ubíqua, que a comunidade se vê substituída pelo jogo arbitrário que o legalismo define e impõe.

fevereiro 02, 2010

Realidade

Construir juízos sem ouvir as partes envolvidas serve apenas para reforçar as nossas próprias convicções. Iterar este comportamento demasiado tempo é o caminho para a dissociação com a realidade e um gerador de injustiça.

janeiro 27, 2010

Transição

Um indivíduo sem outros entra em perigo de dissipação. Cada mente está viciada pelos compromissos de uma cultura. Perder essa cultura é um passo perigoso e de difícil adaptação, só sendo mitigado se passar a interagir noutra cultura. Já uma cultura só existe na dinâmica dos seus elementos. Sem eles passa para o domínio do mito, da arqueologia, aproximada nas reconstruções artísticas e científicas de um eventual futuro. Até ao desaparecimento inevitável, todos, desde o individuo até à sociedade multicultural, sofrem momentos de depressão e crescimento, quedas e renascimentos, ajudas e violências interiores e exteriores, tédio e anomias. Para sobreviver-se a si mesma a pessoa pode deixar-se na memória dos outros, nos pensamentos que escreve, nas acções que comete. A cultura pode fazer história ou, de tempos em tempos, uma diáspora. Em nenhuma delas se fica na mesma.

janeiro 25, 2010

Fronteira

Uma fronteira não existe para isolar totalmente o interior do exterior. Se assim fosse, seria pior que uma prisão, seria uma sentença de morte. A fronteira não é uma parede que isola mas uma porta de dois sentidos que preserva. E por ela atravessa, filtrado, o necessário para alimentar ou limpar o que lá está dentro.

janeiro 21, 2010

Mínimo máximo

Um hábito social não tem necessariamente de estar certo ou errado. Só se torna errado quando viola os direitos fundamentais de pelo menos um indivíduo. Há aqui uma prioridade implícita, uma que coloca o mínimo de cada um de nós à frente de toda a sociedade que nos sustém.

janeiro 19, 2010

Sensação

janeiro 18, 2010

Distâncias

O conflito entre o que posso e o que quero resulta num difícil compromisso que cada um negoceia consigo e com os outros. Essa negociação não é necessariamente mais fácil numa república que num sistema de desigualdade política (em casos limites, onde nada posso ou nada quero, não há sequer negociação) mas as melhores soluções, diz-nos a evidência histórica, encontram-se na república. A ética (o que devo fazer) simplifica o compromisso por condicionar o que desejo fazer, seja pelo uso de normas sociais, seja pela aplicação de argumentos racionais. Mas, sem entrar na dimensão ética, há várias formas de lidar com esta complexidade. Ou diminuir o que quero (o estoicismo, o epicurismo, as ordens monásticas ou o budismo são algumas tentativas históricas) ou pelo aumentar do que posso (através do aumento da liberdade e propriedade individual e do diminuir da coerção da comunidade e do estado que dela preside).

janeiro 14, 2010

Retribuição

O cristianismo é uma religião de escravos que, quando a oportunidade surgiu, os transformou em esclavagistas. Não é tanto uma surpresa porque o mundo do oprimido é o mesmo do opressor. A moral cristã nunca procurou quebrar o ciclo, apenas em invertê-lo. Durante mil anos conseguiu-o admiravelmente.

janeiro 12, 2010

Crença e Conhecimento

"Conhecimento é uma crença que passou, com sucesso, pelo crivo crítico do escrútinio público [...] Todo o conhecimento é temporário. [...] Acreditar em algo errado nunca é um crime, mas acreditar simplesmente é nunca ter conhecimento. A ciência liberal não restringe as crenças mas restringe o conhecimento." Jonathan Raugh, Kindly Inquisitors

"Conhecimento garantido e textos fixos, como empregos garantidos e preços fixos, criam dependências. Se estás habituado a depender de uma ortodoxia e ela falha, é mais provável procurares uma nova ortodoxia do que procurares pelos erros da primeira." Yuri P. Maltsev [citado no Kindly Inquisitors]

janeiro 08, 2010

Propostas de Leitura

Gostaria de sugerir três livros que considero excelentes e que dizem respeito à divulgação e ao estímulo do pensar crítico (clicando na imagem vão ter à amazon.uk).

Kindly Inquisitors

O livro de Jonathan Rauch é sobre a livre expressão, a sua importância numa sociedade liberal e os seus inimigos modernos. O autor (um jornalista de investigação) escreve com rara clareza sobre os fundamentos e o motivo porque devemos manter e acarinhar uma sociedade baseada nos princípios da dúvida sistemática; na rejeição de últimas palavras e autoridades indiscutíveis; no recolher de evidência e no discutir público de ideias e crenças privadas para que, algumas, possam tornar-se conhecimento público e partilhado por todos até que outras, melhores, as possam substituir; e que ninguém está acima da crítica ou da caricatura (o livro é de 1991 e termina com uma análise da relevância da tentativa de assassinato de Salman Rushdie). Qualquer sumário deste livro (e especialmente, não este) não lhe faz jus. (180 páginas)

How to Think Straight About Psychology

O título deste livro do professor Keith Stanovich é talvez demasiado específico. O livro mostra o que é o método científico de forma exemplar e muito prática, baseando as afirmações que faz e os princípios que defende com vários estudos e exemplos da medicina e da psicologia (mostrando alguns erros modernos que se fizeram, várias vezes com vítimas, por não terem sido seguidos). Desse ponto de vista, não é só relevante pelo conhecimento da Psicologia enquanto Ciência (porque, como o autor indica, a Psicologia é uma palavra que engloba uma vasta áreas de estudos, nem sempre relacionados, algumas das quais usam ferramentas não científicas) mas para qualquer um que se interesse ou estude outra área que utilize o método científico na produção de conhecimento. Muito bem escrito, documentado e sucinto (cerca de 200 páginas).

Irrationality

O psicólogo Stuart Sutherland (morreu em 1998) escreveu um livro muito esclarecedor, repleto de evidência científica, sobre um dado por vezes esquecido pela teoria económica vigente: o nosso cérebro é fonte de múltiplas decisões irracionais. No entanto, a boa notícia é que tendemos a ser irracionais sempre da mesma forma (irracionais mas não aleatórios) o que permite que estudemos este aspecto da psicologia humana para nos conhecermos melhor e tomar melhores decisões quer individualmente, quer colectivamente. Repleto de humor inglês e apoiado em diversos estudos, o autor apresenta-nos, em cada capítulo, tipos comuns de erros, muitos dos quais originam-se pela fraca capacidade natural de entendermos probabilidades, o que mostra como é importante a educação desta matéria (a par, a meu ver, com a ética) aos membros de uma sociedade que pretenda reduzir a sua cota de irracionalidade. Breve, bem humorado e com uma mensagem muito importante (250 páginas)

[adenda] algumas afirmações retiradas do livro de Sutherland:
  • Os grupos tendem a extremar as suas opiniões partilhadas;
  • A construção de estereótipos é uma abstracção irracional, simplificando o mundo através do crescer da injustiça individual;
  • A expressão pública de uma opção torna-a mais difícil de rejeitar no futuro.
  • É mais fácil seguir a acção dos outros do que ir contra essa acção, independentemente da justiça intrínseca das opções. Deste modo reside o perigo, para as pessoas e para o sentido crítico, de participar em multidões.;
  • Obedecer à autoridade ou conformar com os pares é mais fácil que escolher as alternativas.
    A maioria prefere manter a estrutura dos seus valores mesmo que isso sacrifique a lógica, a coerência e a verdade;
  • Individualmente vê-se o outro como sendo bom ou mau e não como uma mistura positiva e negativa de diferentes características (eg, feio e inteligente, bom mas estúpido, carinhoso mas intolerante);
  • Muitos, em vez de voltar atrás numa decisão, optam por extremá-la (por falta de sentido crítico, por terem investido demasiado). Um pequeno erro inicial pode, assim, transformar-se numa tragédia;
  • Para que alguém faça X, erigir um processo iniciático difícil e desagradável, mesmo que nada tenha a ver com X. Esse investimento inicial faz com que o sujeito sinta mais dificuldade de desistir no futuro.

dezembro 15, 2009

Interlúdio até Janeiro. Boas Festas.

dezembro 10, 2009

Indiferença

Heaven and Earth are heartless
treating creatures like straw dogs
Lao Tsu, Tao Te Ching

"Heaven and Earth were not partial. They do not kill living things out of cruelty or give them birth out of kindness. We do the same when we make straw dogs to use in sacrifices. We dress them up and put them on the altar, but not because we love them. And when the ceremony is over, we throw them into the street, but not because we hate them." comentário de Su Ch'e [via wikipedia]

dezembro 05, 2009

Flexibilidade

Aplicar a rigidez de um código moral ou de uma lei ao contínuo variado de uma população traz inevitavelmente pressão sob aqueles que se encontram nos limiares aí definidos. Por isso, espera-se dos responsáveis algum cuidado e contenção nessa ânsia tão humana de desenhar fronteiras.

dezembro 02, 2009

Violência

"[...] serão os terroristas fundamentalistas, sejam cristãos ou islâmicos, realmente fundamentalistas no sentido autêntico da palavra? Será que acreditam mesmo? O que lhes falta é um atributo facilmente discernível em todos os autênticos fundamentalistas, desde os budistas tibetanos até aos Amish americanos: a ausência de ressentimento e inveja, a profunda indiferença em relação ao modo de vida do não-crente. Se os ditos fundamentalistas realmente acreditassem que encontraram o caminho da verdade, porque se sentiriam ameaçados pelos não-crentes, porque os haveriam de invejar? Quando um budista encontra um hedonista ocidental, ele mal o condena, limitando-se a notar que o caminho hedonista para a felicidade derrota-se a si próprio. Em contraste com os verdadeiros fundamentalistas, o pseudo-fundamentalista está profundamente incomodado, intrigado e fascinado pela vida pecaminosa dos não-crentes. Sente-se que, ao lutar com o Outro, eles estão a lutar contra a sua própria tentação. [...] Quão frágil a crença de um muçulmano para se sentir ameaçado pelas estúpidas caricaturas de um jornal dinamarquês de baixa circulação? O terror do fundamentalismo islâmico não está baseado na convicção dos terroristas da sua superioridade e no seu desejo de salvaguardar a sua identidade cultural-religiosa do massacre consumista da civilização ocidental. O problema não é que nós os consideramos inferiores mas que, eles próprios, secretamente se consideram inferiores. [...] Paradoxalmente, o que falta aos fundamentalistas é precisamente a dose dessa convicção «racista» da sua própria superioridade.

O que causa perplexidade nos ataques «terroristas» é que eles não se encaixam na nossa tradicional oposição do mal como egoísmo ou desapego do bem comum, e do bem como o espírito de sacrifício por uma causa maior. [...] O egoísmo, o interesse dos próprios bens, não é oposto ao bem comum porque é possível deduzir normas altruístas a partir de preocupações egoístas. O individualismo vs. a comunidade, o utilitarismo vs. a asserção de normas universais, são oposições falsas dado que este conceitos produzem os mesmos resultados. Os críticos que se queixam da falta de valores, na presente sociedade hedonista-egoísta, falham totalmente o alvo. A verdadeira oposição do egoísmo não é o altruísmo, a atenção pelo bem comum, mas a inveja, o ressentimento, que me faz agir contra o meu próprio interesse. Freud sabia isto muito bem: a pulsão da morte é oposta ao princípio do prazer bem como ao princípio da realidade. O verdadeiro mal, que é a pulsão da morte, envolve auto-sabotagem. Ele faz-nos agir contra os nossos interesses." Slavoj Zizek, Violence