Morrerás em breve. É incontestável. E quanta verdade morrerá contigo sem saberes que a sabias. Só por não teres tido a sorte de num simples encontro ou encontrão ta fazerem vir ao de cima - Vergílio Ferreira
março 31, 2005
março 29, 2005
Botões Políticos (parte II)
O eixo esquerda-direita atravessa um conjunto impressionante de crenças distintas. Se alguém defende um corpo militar forte, é uma boa aposta que também defende um sistema penal rigoroso. Um defensor da economia de mercado tende a dar mais valor ao patriotismo, à estrutura familiar e à religião, é tendencialmente mais velho que novo, pragmático que idealista, censório que permissivo, defensor do mérito e não do igualitarismo, dos passos graduais em vez de revoluções, da baixa de impostos, e estará mais provavelmente num negócio do que na função pública. Já na posição oposta encontramos o mesmo tipo de aglomerados: se é alguém simpatizante da reabilitação social e de programas governamentais de ajuda, é provável que seja tolerante com as diferenças (como o homossexualismo), um pacifista, um igualitário e um secularista.
Porque será que a opinião sobre comportamentos sexuais está relacionado com políticas militares? O que tem a religião a ver com impostos? Antes de tentar entender porque as crenças de uma pessoa se identificam com uma estrutura mental conservadora ou liberal, é necessário entender como estas estruturas se constroem. [cont.]
março 24, 2005
Desculpas
março 22, 2005
março 21, 2005
março 17, 2005
Botões Políticos (parte I)
As ciências que estudam a natureza humana pressionam dois tópicos políticos muito controversos. O primeiro refere-se à nossa ideia de sociedade:
- Na tradição sociológica, a sociedade é uma entidade orgânica coesiva. As pessoas são vistas como intrinsecamente sociais, partes de um superorganismo. Esta é a tradição de Platão, Hegel, Marx, Durkheim, Weber, Kroeber, Lévi-Strauss, do pós-modernismo e das ciências sociais.
- Na tradição económica e do contrato social, a sociedade é um arranjo negociado por agentes racionais e com interesses próprios. A sociedade emerge quando um conjunto de indivíduos acorda em sacrificar alguma da sua autonomia em troca de segurança contra terceiros. Esta é a tradição de Maquiavel, Hobbes, Locke, Rousseau, Smith e Bentham. É a base da maioria dos modelos económicos actuais e das análises custo-benefício nas decisões públicas.
A teoria da Evolução moderna balança para o lado da segunda tradição. Defende que as adaptações do organismo e das suas estratégias comportamentais tendem a favorecer o indivíduo e não a comunidade, a espécie ou o ecossistema onde se insere. A organização social surge quando os benefícios de longo prazo do indivíduo compensam os ganhos imediatos. O altruísmo recíproco é apenas o conceito tradicional do contrato social redefinido em termos biológicos. Todas as sociedades - animais ou humanas - estão repletas de conflitos de interesse e são mantidas por uma dinâmica mista de domínio e cooperação.
É claro que os humanos não são solitários e não inauguraram a vivência em grupo após assinar um contrato. A sociedade é central à existência humana desde que esta existe. Mas a lógica do contrato social pode ter catalizado a evolução de capacidades mentais que tendem a manter-nos em grupos porque os benefícios eram maiores que os custos. Com um diferente conjunto de contingências (um outro ecossistema ou outra história evolucionária, por exemplo) e poderíamos agora ser parecidos com os orangotangos (que são animais solitários). [cont.]

