maio 18, 2009

Esforço

Quanto mais plástico for o sistema nervoso característico de uma espécie, menos papel terão os instintos e maior será o peso da aprendizagem. Esta usa o ambiente como parâmetro e, reduzindo a a influência da herança genética, deriva, ou possibilita, a liberdade de agir dos respectivos organismos. Essa liberdade permite que a história de cada organismo se torne única em relação à população onde se insere e, consequentemente, esta separação dos seus iguais e do mundo é a base da formação do individuo. Isto tem custos porque o mundo é tudo menos simples e pacífico. É mais fácil ser maré do que remar contra ela.

maio 14, 2009

Possibilidades

Cada cidadão tem direitos inalienáveis, como a sua vida ou a sua liberdade, e que devem ser garantidos pelo Estado. Há excepções admissíveis como, por exemplo, quando alguém comete um crime e se vê privado de parte da sua liberdade. Mas até que limite pode o Estado ir para forçar os seus cidadãos a cumprir todo o edifício legal que o sustenta? Herbert Spencer no seu livro de 1851, Social Statics, argumenta sobre esse limite e defende que uma pessoa tem o direito de deixar de ser cidadão. A consequência desta decisão seria perder as benesses e os deveres do Estado, desligando-se deste etéreo contrato social a que pertencemos legalmente desde que nascemos. Isto não significa que, a partir daí, pudesse ser morto ou se tornar escravo de alguém. Estes direitos estão acima do Estado que tem o dever de os garantir a todos, sejam cidadãos ou não (como no caso dos estrageiros). Porém, poderiam ser-lhe negados os serviços de saúde ou o direito à reforma, tal como estaria liberto de pagar impostos (neste caso, os directos, como o IRS; o argumento não funciona para os impostos indirectos como o IVA porque isso implicaria prejudicar o particular privado ou o geral público que providencia o respectivo serviço) ou na participação em serviços cívicos obrigatórios (como o serviço militar). Estaria sujeito a coerção caso não respeitasse os direitos dos outros mas estaria isento dos deveres individuais de cada cidadão se não prejudicasse ninguém directamente. Ora isto, aqui e agora, não é possível. Porquê? Os argumentos que defendem que, para manter o princípio da igualdade, se deve forçar cada indivíduo a participar na gestão dos direitos/deveres sociais não parecem ser mais fortes que os argumentos que afirmam não haver relação causal nesta obrigatoriedade. Se, afinal, o geral da sociedade for mesmo mais benéfico do que a soma das restrições particulares, porquê impedir quem quiser se prejudicar por desejar sair desta rede social à qual, afinal e desde o início, ninguém lhe perguntou se queria participar?

abril 30, 2009

Acordar

Leio muito sobre a Segunda Guerra. Livros gerais, biografias, romances, diários, muito sobre a chaga humana do Holocausto. Mesmo agora, das últimos três livros comprados, dois são sobre o assunto. Este teimar no tema vem de onde? Talvez seja apenas o meu gosto pela história em geral (também leio sobre o Império Romano, sobre as Cruzadas...), ou o meu esforço individual para combater o esquecimento que vai caindo sobre a última geração que ainda viveu aquela terrível época. Talvez seja o desejo infantil de querer, pela força da leitura, que cinquenta milhões de pessoas possam ainda viver a plenitude das suas vidas arrancadas, que se torne só um terrível sonho que finalmente acaba.

abril 27, 2009

Segundo R.M.Hare um acto ético deve parecer justo aos envolvidos na acção, devendo eu sugeri-lo quer ganhe ou perca com a sua execução. Porém, uma decisão ética pode ser demasiado complexa para calcular, no tempo disponível, qual a melhor opção a tomar. Por isso a utilidade da existência de regras éticas aplicáveis a uma maioria de situações normais que - não sendo verdades absolutas - demonstraram-se guias úteis e geralmente eficazes. Mas para as situações extraordinárias precisamos de tempo, reflexão e, muitas vezes, da total capacidade da nossa consciência colectiva e intelecto. Tentar forçar uma regra para lá do seu domínio ou período de aplicação é fonte de muitas tragédias quer pessoais quer históricas. [1]

abril 24, 2009

Problema

A interacção entre sociedade e as pessoas produz uma cultura cujos feitos e efeitos ninguém é capaz de compreender totalmente. Os frutos desta cultura, seja a sua tecnologia, a sua arte e literatura ou a complexidade das suas instituições há muito que ultrapassaram a capacidade individual dos seus cidadãos. Isto significa que as decisões tomadas pelos respectivos líderes são, na melhor das hipóteses, fragmentadas e incompletas. Como reduzir os problemas e as crises inerentes, como evitar a distância entre o que desejamos e o que fazemos?

abril 22, 2009

Composição

Há uma analogia próxima entre programar, escrever e compor. São actividades combinatórias que usam um número limitado de conceitos e vocabulários para produzir um ilimitado de possibilidades. No caso da escrita produz-se textos, expõe-se argumentos; na música são compostas canções, sonatas, sinfonias; na programação escreve-se programas, resolve-se problemas. Qualquer uma precisa de prática, seja de ler livros, ouvir obras, interpretar código, seja de escrever histórias, músicas ou algoritmos. Em todas existem os elementos técnicos a aprender e reproduzir pelo aluno, em todas a arte de criar e romper fronteiras do mestre.

abril 21, 2009

Dogma

[...] 26Enquanto comiam, Jesus tomou o pão e, depois de pronunciar a bênção, partiu-o e deu-o aos seus discípulos, dizendo: «Tomai, comei: Isto é o meu corpo.» 27Em seguida, tomou um cálice, deu graças e entregou-lho, dizendo: «Bebei dele todos. 28Porque este é o meu sangue, sangue da Aliança, que vai ser derramado por muitos, para perdão dos pecados. [Mateus 26-28]
O milagre da transubstanciação, durante a Eucaristia, transforma o pão e o vinho na carne e no sangue de Cristo. Para além da dúbia vantagem na conversão de canibais e vampiros com poderes de abstracção, esta crença medieval causa, hoje, perplexidade à maioria das pessoas e poucos católicos a interpretam como literal (mas deveriam fazê-lo, segundo a ortodoxia). No entanto, no passado, ela tinha algum sentido porque se assumia que os objectos, como Aristóteles argumentara, possuíam propriedades secundárias (como a cor, o sabor ou a textura) mais uma substância primária que definia, essa sim, o objecto. Desta forma, durante a Eucaristia, o pão e o vinho manteriam as suas propriedades secundárias mudando apenas, de forma imperceptível aos sentidos, as suas substâncias passando a ser o corpo de Cristo. A Revolução Científica trouxe uma mudança da nossa perspectiva do Mundo, e a ontologia de Aristóteles tornou-se obsoleta com as descobertas e os argumentos dos últimos 400 anos. Mas a ortodoxia não muda (ou muda pouco). A transubstanciação é um desses ecos que persiste do passado, cada vez mais distorcido pela habitual e progressiva distância que os dogmas tendem a acumular com a realidade. [1]

abril 17, 2009

Teoria e Prática

"Não podemos contentar-nos com uma ética que não se adeque às vicissitudes da vida quotidiana. Se alguém propõe uma ética tão nobre que tentar viver à sua luz constitua um desastre para todos, então - independente de quem a propôs - não é uma ética nobre de todo, é uma ética estúpida que deve ser firmememente recusada. A ética é prática, senão não é verdadeiramente ética. Se não for boa na prática, também não é boa na teoria. Se nos livrarmos da ideia que uma vida ética tem de consistir na absoluta obediência a um qualquer reduzido e simples conjunto de regras morais será mais fácil evitar a armadilha de uma ética que não funciona. Uma compreensão da ética que nos permita levar em linha de conta as circunstâncias especiais em que nos encontramos é já um importante passo em frente para uma ética que poderemos realmente usar para orientar as nossas vidas." Peter Singer, Como havemos de viver?

abril 16, 2009

Ler sempre Vergílio Ferreira

"Como exprimir em duas linhas o que venho tentando explicar já não sei em quantos livros? A vida é um valor desconcertante pelo contraste entre o prodígio que é e a sua nula significação. Toda a «filosofia da vida» tem de aspirar à mútua integração destes contrários. Com uma transcendência divina, a integração era fácil. Mas mais difícil do que o absurdo em que nos movemos seria justamente essa transcendência. Há várias formas de resolver tal absurdo, sendo a mais fácil precisamente a mais estúpida, que é a de ignorá-lo.

Mas se é a vida que ao fim e ao cabo resolve todos os problemas insolúveis - às vezes ou normalmente, pelo seu abandono - nós podemos dar uma ajuda. Ora uma ajuda eficaz é enfrentá-lo e debatê-lo até o gastar… Porque tudo se gasta: a música mais bela ou a dor mais profunda. Que pode ficar-nos para já de um desgaste que promovemos e ainda não operamos? Não vejo que possa ser outra coisa além da aceitação, não em plenitude - que a não há ainda - mas em resignação. Filosofia da velhice, dir-se-á. Com a diferença, porém, de que a velhice quer repouso e nós ainda nos movemos bastante." Vergílio Ferreira, Um Escritor Apresenta-se [via Notas aos Café]

abril 15, 2009

Via Robotica

Não há nada de mais relevante a uma sociedade que dar condições às suas crianças para crescerem com espírito crítico e suficiente cultura e aproveitar, aqui e agora, o igual dos seus direitos e o único das suas capacidades. Como defendido por von Humbolt e Stuart Mill, são necessárias duas coisas: liberdade (de acção, de expressão) e variedade de oportunidades. Só assim se sustém o vigor intelectual e a originalidade da respectiva sociedade. Se não motivarmos o espírito crítico fabricaremos ovelhas mesmo que as haja de diversas cores e tamanhos. Se, ainda por cima, não estimularmos a variedade obtemos um rebanho padronizado em brancos e pretos.

abril 13, 2009

Consequências

Como subordinar à razão os desejos animais que nos mexem por dentro? Esse esforço é (diria Kant, suponho) o que nos faz ser agentes morais, gestores do próprio eu entre o saciar da sede - que apenas precede uma seguinte - e o custo nos outros de a vencer - este sim último porque quase sempre irreversível. Há, no entanto e pelo menos, outro caminho difícil e exigente: perder os desejos na cedência possível do passado biológico e passar a ser um instrumento da razão, temperado no mínimo de emoções inevitáveis (o medo, talvez e só) e filtrado nesse teatro de ecos que são as memórias. O Dr. Spleen, ao optar por este trilho, há muito que perdeu o contacto íntimo com a Humanidade em geral e com Kabila em particular, limitando-se a observar, neutro, como este improvisa, após o encravar da arma e do punhal esquecido em casa, para investir contra os três adolescentes, agora muito mais atentos, depois de insultarem abstractamente a sua vetusta mãezinha.

abril 09, 2009

Do real à metáfora

"Existem trabalhos muito interessantes que argumentam sobre o impacto do desenvolvimento político não só sobre os métodos de fazer ciência, mas igualmente nas crenças científicas. [...] Não há qualquer dúvida, por exemplo, de existir simbolismo político associado à cosmologia, e que a interpretação correcta desse simbolismo ser frequentemente argumentado pelo discurso político. O arranjo ptolemático dos objectos celestes colocava o Sol, o símbolo comum da realeza, junto aos outros planetas, sugerindo que o Rei e a nobreza (representada pelos planetas) partilhavam a autoridade política, com muito do poder real a ser mediado pelos nobres. O sistema de Copérnico, porém, dispunha-se mais facilmente a suportar monarquias absolutistas. Há medida que os monarcas caminhavam em direcção ao poder absoluto, a cosmologia copernicana mostrava-se progressivamente mais útil. É preciso não supor que aos absolutistas apenas interessava apresentar o novo sistema, de forma casual, como uma imagem da nova ordem: era virtualmente essencial para eles demonstrar um apoio natural que suportasse as suas afirmações políticas. Apenas desta forma poderiam eles satisfazer a expectativa geral de, como criação de Deus, a ordem do cosmos reflectia, de forma relativamente óbvia, a ordem da sociedade. Para nós, este tipo de conversa parece não mais que uma metáfora, mas no período inicial da modernidade era uma expectativa real baseada na crença das correspondências (a ideia que partes diferentes da criação divina correspondiam a outras partes, revelando, assim, o plano de Deus). Os novos arranjos políticos tinham de ser justificados em termos dos arranjos naturais, de outra forma pareceriam artificiais e disfuncionais. Isto não significa que Copérnico e os seus seguidores desenvolveram deliberadamente a nova astronomia para promover as suas crenças políticas. A progressiva aceitação do heliocentrismo, porém, pode talvez ser vista como uma indicação da mudança fundamental do que era visto como a ordem natural das coisas." pg.103-5, John Henry, The Scientific Revolution and the Origins of Modern Science

abril 07, 2009

Reviver o Passado em Braindead

Podes fazer o zapping que quiseres, está a dar televisão em todos os canais.

abril 06, 2009

Muralha

Como aceitar a liberdade e, daí, o único que há em nós, e não ser esmagado pelo oceano de diferenças e responsabilidades, lá fora, entre o vazio e os outros?

abril 01, 2009

Vantagens competitivas

O efeito placebo está estudado e bem documentado e, hoje, há suficiente evidência científica para crermos na sua existência. Isto significa que, numa época pré-médica, houve vantagem selectiva entre um crente nas enfabulações de um qualquer xamã em comparação com alguém menos sugestionável. Desta forma, ao longo de milhares de gerações, a pressão terá sido para aumentar a percentagem de crédulos nas populações humanas. Somos todos originários de linhagens com maiorias de crentes. As religiões do presente são apenas instâncias barrocas - porque antigas e prenhas de compromissos históricos e políticos ocorridos durante séculos de expansões e aglutinações - dessa vantagem em acreditar.

março 30, 2009

Magia e Ciência

"Se quisermos entender o papel da magia na Revolução Científica é importante notar a existência da designada magia natural, discutivelmente, o aspecto dominante da tradição mágica. A magia natural era baseada na assumpção que certas coisas tinham poderes ocultos que afectavam outras coisas e, desse modo, produziam fenómenos inexplicáveis. O sucesso de alguém enquanto mágico natural dependia de um profundo conhecimento dos corpos e como eles actuavam uns nos outros, para obter o resultado que pretendia. Repetidamente vemos, durante a Renascença, mágicos naturais a insistir que a sua forma de magia dependia exclusivamente do conhecimento da Natureza [...] Num senso muito real, porém, a separação dos elementos naturalistas dos restantes aspectos da magia foi apenas concluído durante a Revolução Científica. A história da magia, desde o século XVIII, tem sido a história do que sobrou dessa tradição depois dos elementos principais da magia natural terem sido absorvidos pela filosofia natural. Para além disso, para nós a magia interage com o sobrenatural, mas para os pensadores renascentistas, a magia baseava os seus efeitos na manipulação de objectos e processos naturais. Mesmo o demonologista, ao invocar o demónio - talvez mesmo o próprio Diabo - apenas esperava que o demónio fosse capaz de actuar como um mágico natural extremamente dotado, ao usar os poderes ocultos naturais dos objectos para realizar os eventos desejados. A razão porque a magia natural desapareceu da nossa concepção de magia foi precisamente porque os aspectos mais fundamentais da tradição foram absorvidas pela perspectiva científica. Ou, por outras palavras, a visão científica do Mundo desenvolveu-se, pelo menos em parte, do casamento entre a filosofia natural com o pragmatismo e a tradição empírica da magia natural." pg.55, John Henry, The Scientific Revolution and the Origins of Modern Science

março 26, 2009

Disclaimer

(Andy Fielding, Musician, Composer, Music Editor, Richmond, BC) via Dark Roasted Blend

A montanha e o rato

O mundo é complexo e não tende a melhorar. Como pode sobreviver o espírito crítico individual a tanta diversidade, a tantas opiniões fundamentais - e fundamentadas - defendidas em milhões de livros, revistas e jornais? Restringir a opinião crítica à respectiva área especializada pode parecer razoável mas arriscamos a ser autómatos que papagueiam opiniões alheias em tudo o resto. Que tarefa esta de defender o razoável que é nosso contra o sublime proclamado por inúmeros sábios do passado e presente.

março 23, 2009

Escalas

A arqueologia, a linguística e a genética produziram um imenso corpo de evidências que mostram ser o ambiente onde uma cultura se origina e desenvolve, determinante na forma como esta progride e, muitas vezes, no seu destino final. Em muitos casos documentados, a diferença entre ser-se conquistador ou conquistado derivou, em última análise, do local e da época onde se iniciaram as respectivas histórias.

Por exemplo, o isolamento é um factor decisivo sobre a dinâmica de uma dada cultura. Centenas de habitantes num ambiente pequeno não conseguem persistir muito tempo até desaparecerem (como atesta a arqueologia em muitas pequenas e isoladas ilhas) seja por migração, extinção ou extermínio. Comunidades dispersas cujo total atinja os milhares de pessoas a viver em áreas um pouco maiores são capazes de subsistir milhares de anos mas correm o risco de ver o seu conhecimento regredir de novo para o paleolítico, pela incapacidade de manter invenções e outras tradições úteis contra os azares ocasionais da história (como no caso das comunidades nativas da Tasmânia). São precisos milhões de pessoas para o surgimento de nações e o suporte de continentes inteiros para que existam comunidades suficientemente dispersas e redes suficientemente resistentes para que as conquistas do passado não se percam das gerações futuras e possam subsistir noutros locais (a Europa Medieval recuperou as obras dos Gregos graças à civilização Árabe). Estas hipóteses são sustentadas por múltiplos dados históricos e científicos e, como excelente ponto de partida desta tese, podem ser lidos os dois livros de Jared Diamond: Guns, Germs and Steel e Collapse.

Se extrapolarmos para a escala seguinte, quais são as limitações da actual comunidade global de sete biliões num único planeta? Olhando para o presente, a humanidade está a consumir o ecossistema planetário a um ritmo demasiado elevado (como o fizeram, localmente, os Maias, os Anasazi ou as culturas do Crescente Fértil) e esta estrutura social pode estar condenada se não forem aplicadas mudanças sociais e ambientais relevantes. Será que na nossa dimensão ainda existem limites aos problemas que conseguimos resolver? O que poderia construir e solucionar uma comunidade de triliões de pessoas espalhadas por milhares de planetas? Que arte, filosofia ou ciência nasceria de uma rede social de dimensão interplanetária?

março 18, 2009

Diferença

Na interacção entre pessoa e sociedade há um definir de normalidade que inclui até onde alguém se pode afastar desse ideal difuso sem começar a pagar o preço do excesso de diferença. Podemos achar injusto mas todos temos medo, seja do desconhecido, da mudança. Dos cancros.

março 16, 2009

Impedimento

Uma pessoa saudável não vê como agressores a gravidade ou o envelhecer ou mesmo a recusa de um afecto que desejava recíproco. Desta forma, será que a limitação é sentida como injusta apenas quando nos é vedado algo possível e razoável para esse outro que nos impede?

março 13, 2009

Gestão

Para definir e manter um grupo, para assegurar as vantagens de ser-se parte e cobrar a despesa dessa participação, é necessário que a fronteira que o define se destaque e que não seja fácil de cruzar, mudar ou esbater. É preciso que o respectivo regulamento seja tão díficil de actualizar como os comportamentos partilhados pela conquista da comunidade. É preciso que o preço seja alto para o serviço ter valor. É preciso que os preconceitos desfavoreçam a intimidade com o estrangeiro para que só se encontre dentro, com os seus, o que se necessita. Quanto mais coesa for uma comunidade, quanto maior for a confiança cega entre os seus membros, maior será o medo de uma dissolução, do evaporar desse centro ordenado pela caótica mudança da periferia, mais fácil o cultivar de um sentimento xenófobo em relação aos outros. Ao reduzir e simplificar o social, ao limitar o favorecimento aos eleitos, movimentos como nacionalismos, sexismos, fundamentalismos ou racismos nunca serão soluções morais para as questões que pretendem resolver ou minimizar. Prescrever fronteiras para classificar pessoas é, infelizmente, uma velha e lucrativa fórmula de gerir recursos e criar problemas.

março 12, 2009

Prioridades

Não devemos defender ou favorecer um grupo que nasceu em X, que fala Y, que venera Z ou que se governa em W. Devemos estar do lado dos que partilham os valores dessa razão a que chamamos ética.

março 10, 2009

Crenças

"Uma crença é razoável apenas quando existe evidência em favor da sua verdade" James Rachels

março 05, 2009

Separação

Para além de toda a estrutura mental que nos permite lidar com o Mundo, existe associado uma rede de processos interiores cuja execução é crucial para a definição do eu e da nossa personalidade (vamos designá-los aqui por Mundo Interior). Um deles é a própria consciência que, mesmo que a sua importância seja sobrevalorizada no que toca aos papeis que executa - o que é natural pois será a própria consciência a atribuir-se relevância nessa lista viciada de prioridades -, terá um papel imprescindível na existência das sociedades e da noção de pessoa. É quase certo que existiam Homo Sapiens antes de haver pessoas (pelo menos no sentido moderno do termo) e agrupamentos sociais complexos, e que a consciência, um pouco como a linguagem apesar da natureza diferente desta, foi sendo construída ao mesmo tempo que as sociedades humanas*. Assim, neste Mundo Interior, a partir da consciência, todo um ecossistema de emoções pode desenvolver-se e estratificar-se, moldando as experiências e as suas memórias, a razão e a aprendizagem, consoante a intensidade e a mistura dessas emoções, criando assim a trajectória que, em abstracto, é a chave que nos individualiza. Alguma dessa trajectória é determinada por eventos externos, por uma sequência complexa de traumas, concretizações e muito tédio à mistura, mas também pela própria dinâmica interna que funciona mesmo na falta de impulsos externos relevantes (a ausência de eventos externos é, em si mesmo, um evento).

Na filosofia a noção de zombie é útil na discussão da cognição. Em vez de ser o morto-vivo dos filmes de terror, um zombie é um simulacro de pessoa (apesar deste termo conter já um juízo de valor), um corpo que, externamente, se comporta como uma pessoa sendo impossível de distinguirmos entre quem é zombie e quem não o é. Em resumo, um zombie é igual em tudo menos na consciência (ou no Mundo Interior). Mas o que aconteceria se programássemos esse zombie para pensar que tinha um Mundo Interior? Ou seja, parte do cérebro do zombie seria gasto a executar um conjunto de processos inúteis (do ponto de vista do desempenho externo, já que nada mudaria na sua interacção com o mundo) de modo a enganá-lo com a sensação de ter esse ecossistema emocional tão típico das mentes humanas? Que diferença sobraria entre nós e «eles»?

* Poderíamos, numa linha conspiratória, dizer que a consciência é um conjunto de memes que sequestrou a espécie humana para a fazer construir sociedades cujo fundamento básico é a sua auto-perpetuação, ou seja, tornar inevitável a cópia desses processos nas crianças que nascem e que são educadas no seu seio; mas este é um cenário um pouco mais literário e talvez menos útil.

fevereiro 26, 2009

Mistério

Um texto que não possui conteúdo não pode estar errado e é, assim, imune à crítica ou à passagem do tempo. Como um liquido sem viscosidade, desliza imune por qualquer tentativa de interpretação ou refutação. Contra o ruído não se ganham discussões.

fevereiro 23, 2009

Custo-Benefício

Os líderes religiosos acreditam num paraíso eterno pós-morte. Isto significa que a nossa vida actual é menos que um grão num Universo de experiências por obter. Deste ponto de vista é perfeitamente lógico que se invista menos na felicidade ou liberdade terrena e mais no sacrifício do regulamento moral que dá entrada nesse clube celestial. O ganho é tão grande (é infinito) que justifica qualquer acção humana (porque finita) nesse sentido, incluindo autos-de-fé ou aviões a entrar por arranha-céus. O problema disto tudo é que a premissa inicial é falsa e, assim, todo este esforço resulta numa imensa tragédia que se arrasta há milénios e que consome centenas de milhões num delírio infantil.

fevereiro 18, 2009

Um melhor mapa da Evolução...

... que é um acontecimento muito não-linear:

Sala de Fumo

O eu é um recurso adequado à escala humana e largamente valorizado, o que não é surpresa dado ser essa a única medida que conhecíamos até ao passado recente. Visto ao microscópio dilui-se entre míriades de actividades eléctricas e o caos intrínseco dos sistemas dinâmicos. No macro-cosmos é uma passageira insignificância que o princípio da parcimónia tem a amabilidade de ignorar. Assim, entre as flutuações estatísticas do muito pequeno e do muito grande, é numa estreita (talvez pródiga, talvez fértil) linha de fronteira que nos achamos relevantes. O Dr. Spleen, porém, acha que nem essa fronteira existe. Derivado do seu cepticismo da justiça e da sociedade (onde o eu, no fundo, se usa), de ver cada um como colónias de células com ilusões de importância, ele próprio apenas um vento mais forte num labirinto cruzado de breves sopros.

fevereiro 16, 2009

Big Bangs

Os momentos únicos são pontos focais no definir de fronteiras. Quando quase tudo é difuso e progressivo, uma mudança brusca, uma alteração de estado atrai-nos o olhar, a atenção, até a capacidade de julgar. Por exemplo, na vida de um indivíduo, muitos dão relevo ao momento da concepção, outros ao parto. Mas poucos discutem o período em que o feto se torna suficiente em termos somáticos ou a criança se torna psicologicamente independente, passos tão importantes, ou mais, na formação dessa pessoa.