abril 17, 2009

Teoria e Prática

"Não podemos contentar-nos com uma ética que não se adeque às vicissitudes da vida quotidiana. Se alguém propõe uma ética tão nobre que tentar viver à sua luz constitua um desastre para todos, então - independente de quem a propôs - não é uma ética nobre de todo, é uma ética estúpida que deve ser firmememente recusada. A ética é prática, senão não é verdadeiramente ética. Se não for boa na prática, também não é boa na teoria. Se nos livrarmos da ideia que uma vida ética tem de consistir na absoluta obediência a um qualquer reduzido e simples conjunto de regras morais será mais fácil evitar a armadilha de uma ética que não funciona. Uma compreensão da ética que nos permita levar em linha de conta as circunstâncias especiais em que nos encontramos é já um importante passo em frente para uma ética que poderemos realmente usar para orientar as nossas vidas." Peter Singer, Como havemos de viver?

abril 16, 2009

Ler sempre Vergílio Ferreira

"Como exprimir em duas linhas o que venho tentando explicar já não sei em quantos livros? A vida é um valor desconcertante pelo contraste entre o prodígio que é e a sua nula significação. Toda a «filosofia da vida» tem de aspirar à mútua integração destes contrários. Com uma transcendência divina, a integração era fácil. Mas mais difícil do que o absurdo em que nos movemos seria justamente essa transcendência. Há várias formas de resolver tal absurdo, sendo a mais fácil precisamente a mais estúpida, que é a de ignorá-lo.

Mas se é a vida que ao fim e ao cabo resolve todos os problemas insolúveis - às vezes ou normalmente, pelo seu abandono - nós podemos dar uma ajuda. Ora uma ajuda eficaz é enfrentá-lo e debatê-lo até o gastar… Porque tudo se gasta: a música mais bela ou a dor mais profunda. Que pode ficar-nos para já de um desgaste que promovemos e ainda não operamos? Não vejo que possa ser outra coisa além da aceitação, não em plenitude - que a não há ainda - mas em resignação. Filosofia da velhice, dir-se-á. Com a diferença, porém, de que a velhice quer repouso e nós ainda nos movemos bastante." Vergílio Ferreira, Um Escritor Apresenta-se [via Notas aos Café]

abril 15, 2009

Via Robotica

Não há nada de mais relevante a uma sociedade que dar condições às suas crianças para crescerem com espírito crítico e suficiente cultura e aproveitar, aqui e agora, o igual dos seus direitos e o único das suas capacidades. Como defendido por von Humbolt e Stuart Mill, são necessárias duas coisas: liberdade (de acção, de expressão) e variedade de oportunidades. Só assim se sustém o vigor intelectual e a originalidade da respectiva sociedade. Se não motivarmos o espírito crítico fabricaremos ovelhas mesmo que as haja de diversas cores e tamanhos. Se, ainda por cima, não estimularmos a variedade obtemos um rebanho padronizado em brancos e pretos.

abril 13, 2009

Consequências

Como subordinar à razão os desejos animais que nos mexem por dentro? Esse esforço é (diria Kant, suponho) o que nos faz ser agentes morais, gestores do próprio eu entre o saciar da sede - que apenas precede uma seguinte - e o custo nos outros de a vencer - este sim último porque quase sempre irreversível. Há, no entanto e pelo menos, outro caminho difícil e exigente: perder os desejos na cedência possível do passado biológico e passar a ser um instrumento da razão, temperado no mínimo de emoções inevitáveis (o medo, talvez e só) e filtrado nesse teatro de ecos que são as memórias. O Dr. Spleen, ao optar por este trilho, há muito que perdeu o contacto íntimo com a Humanidade em geral e com Kabila em particular, limitando-se a observar, neutro, como este improvisa, após o encravar da arma e do punhal esquecido em casa, para investir contra os três adolescentes, agora muito mais atentos, depois de insultarem abstractamente a sua vetusta mãezinha.

abril 09, 2009

Do real à metáfora

"Existem trabalhos muito interessantes que argumentam sobre o impacto do desenvolvimento político não só sobre os métodos de fazer ciência, mas igualmente nas crenças científicas. [...] Não há qualquer dúvida, por exemplo, de existir simbolismo político associado à cosmologia, e que a interpretação correcta desse simbolismo ser frequentemente argumentado pelo discurso político. O arranjo ptolemático dos objectos celestes colocava o Sol, o símbolo comum da realeza, junto aos outros planetas, sugerindo que o Rei e a nobreza (representada pelos planetas) partilhavam a autoridade política, com muito do poder real a ser mediado pelos nobres. O sistema de Copérnico, porém, dispunha-se mais facilmente a suportar monarquias absolutistas. Há medida que os monarcas caminhavam em direcção ao poder absoluto, a cosmologia copernicana mostrava-se progressivamente mais útil. É preciso não supor que aos absolutistas apenas interessava apresentar o novo sistema, de forma casual, como uma imagem da nova ordem: era virtualmente essencial para eles demonstrar um apoio natural que suportasse as suas afirmações políticas. Apenas desta forma poderiam eles satisfazer a expectativa geral de, como criação de Deus, a ordem do cosmos reflectia, de forma relativamente óbvia, a ordem da sociedade. Para nós, este tipo de conversa parece não mais que uma metáfora, mas no período inicial da modernidade era uma expectativa real baseada na crença das correspondências (a ideia que partes diferentes da criação divina correspondiam a outras partes, revelando, assim, o plano de Deus). Os novos arranjos políticos tinham de ser justificados em termos dos arranjos naturais, de outra forma pareceriam artificiais e disfuncionais. Isto não significa que Copérnico e os seus seguidores desenvolveram deliberadamente a nova astronomia para promover as suas crenças políticas. A progressiva aceitação do heliocentrismo, porém, pode talvez ser vista como uma indicação da mudança fundamental do que era visto como a ordem natural das coisas." pg.103-5, John Henry, The Scientific Revolution and the Origins of Modern Science

abril 07, 2009

Reviver o Passado em Braindead

Podes fazer o zapping que quiseres, está a dar televisão em todos os canais.

abril 06, 2009

Muralha

Como aceitar a liberdade e, daí, o único que há em nós, e não ser esmagado pelo oceano de diferenças e responsabilidades, lá fora, entre o vazio e os outros?

abril 01, 2009

Vantagens competitivas

O efeito placebo está estudado e bem documentado e, hoje, há suficiente evidência científica para crermos na sua existência. Isto significa que, numa época pré-médica, houve vantagem selectiva entre um crente nas enfabulações de um qualquer xamã em comparação com alguém menos sugestionável. Desta forma, ao longo de milhares de gerações, a pressão terá sido para aumentar a percentagem de crédulos nas populações humanas. Somos todos originários de linhagens com maiorias de crentes. As religiões do presente são apenas instâncias barrocas - porque antigas e prenhas de compromissos históricos e políticos ocorridos durante séculos de expansões e aglutinações - dessa vantagem em acreditar.

março 30, 2009

Magia e Ciência

"Se quisermos entender o papel da magia na Revolução Científica é importante notar a existência da designada magia natural, discutivelmente, o aspecto dominante da tradição mágica. A magia natural era baseada na assumpção que certas coisas tinham poderes ocultos que afectavam outras coisas e, desse modo, produziam fenómenos inexplicáveis. O sucesso de alguém enquanto mágico natural dependia de um profundo conhecimento dos corpos e como eles actuavam uns nos outros, para obter o resultado que pretendia. Repetidamente vemos, durante a Renascença, mágicos naturais a insistir que a sua forma de magia dependia exclusivamente do conhecimento da Natureza [...] Num senso muito real, porém, a separação dos elementos naturalistas dos restantes aspectos da magia foi apenas concluído durante a Revolução Científica. A história da magia, desde o século XVIII, tem sido a história do que sobrou dessa tradição depois dos elementos principais da magia natural terem sido absorvidos pela filosofia natural. Para além disso, para nós a magia interage com o sobrenatural, mas para os pensadores renascentistas, a magia baseava os seus efeitos na manipulação de objectos e processos naturais. Mesmo o demonologista, ao invocar o demónio - talvez mesmo o próprio Diabo - apenas esperava que o demónio fosse capaz de actuar como um mágico natural extremamente dotado, ao usar os poderes ocultos naturais dos objectos para realizar os eventos desejados. A razão porque a magia natural desapareceu da nossa concepção de magia foi precisamente porque os aspectos mais fundamentais da tradição foram absorvidas pela perspectiva científica. Ou, por outras palavras, a visão científica do Mundo desenvolveu-se, pelo menos em parte, do casamento entre a filosofia natural com o pragmatismo e a tradição empírica da magia natural." pg.55, John Henry, The Scientific Revolution and the Origins of Modern Science

março 26, 2009

Disclaimer

(Andy Fielding, Musician, Composer, Music Editor, Richmond, BC) via Dark Roasted Blend

A montanha e o rato

O mundo é complexo e não tende a melhorar. Como pode sobreviver o espírito crítico individual a tanta diversidade, a tantas opiniões fundamentais - e fundamentadas - defendidas em milhões de livros, revistas e jornais? Restringir a opinião crítica à respectiva área especializada pode parecer razoável mas arriscamos a ser autómatos que papagueiam opiniões alheias em tudo o resto. Que tarefa esta de defender o razoável que é nosso contra o sublime proclamado por inúmeros sábios do passado e presente.

março 23, 2009

Escalas

A arqueologia, a linguística e a genética produziram um imenso corpo de evidências que mostram ser o ambiente onde uma cultura se origina e desenvolve, determinante na forma como esta progride e, muitas vezes, no seu destino final. Em muitos casos documentados, a diferença entre ser-se conquistador ou conquistado derivou, em última análise, do local e da época onde se iniciaram as respectivas histórias.

Por exemplo, o isolamento é um factor decisivo sobre a dinâmica de uma dada cultura. Centenas de habitantes num ambiente pequeno não conseguem persistir muito tempo até desaparecerem (como atesta a arqueologia em muitas pequenas e isoladas ilhas) seja por migração, extinção ou extermínio. Comunidades dispersas cujo total atinja os milhares de pessoas a viver em áreas um pouco maiores são capazes de subsistir milhares de anos mas correm o risco de ver o seu conhecimento regredir de novo para o paleolítico, pela incapacidade de manter invenções e outras tradições úteis contra os azares ocasionais da história (como no caso das comunidades nativas da Tasmânia). São precisos milhões de pessoas para o surgimento de nações e o suporte de continentes inteiros para que existam comunidades suficientemente dispersas e redes suficientemente resistentes para que as conquistas do passado não se percam das gerações futuras e possam subsistir noutros locais (a Europa Medieval recuperou as obras dos Gregos graças à civilização Árabe). Estas hipóteses são sustentadas por múltiplos dados históricos e científicos e, como excelente ponto de partida desta tese, podem ser lidos os dois livros de Jared Diamond: Guns, Germs and Steel e Collapse.

Se extrapolarmos para a escala seguinte, quais são as limitações da actual comunidade global de sete biliões num único planeta? Olhando para o presente, a humanidade está a consumir o ecossistema planetário a um ritmo demasiado elevado (como o fizeram, localmente, os Maias, os Anasazi ou as culturas do Crescente Fértil) e esta estrutura social pode estar condenada se não forem aplicadas mudanças sociais e ambientais relevantes. Será que na nossa dimensão ainda existem limites aos problemas que conseguimos resolver? O que poderia construir e solucionar uma comunidade de triliões de pessoas espalhadas por milhares de planetas? Que arte, filosofia ou ciência nasceria de uma rede social de dimensão interplanetária?

março 18, 2009

Diferença

Na interacção entre pessoa e sociedade há um definir de normalidade que inclui até onde alguém se pode afastar desse ideal difuso sem começar a pagar o preço do excesso de diferença. Podemos achar injusto mas todos temos medo, seja do desconhecido, da mudança. Dos cancros.

março 16, 2009

Impedimento

Uma pessoa saudável não vê como agressores a gravidade ou o envelhecer ou mesmo a recusa de um afecto que desejava recíproco. Desta forma, será que a limitação é sentida como injusta apenas quando nos é vedado algo possível e razoável para esse outro que nos impede?

março 13, 2009

Gestão

Para definir e manter um grupo, para assegurar as vantagens de ser-se parte e cobrar a despesa dessa participação, é necessário que a fronteira que o define se destaque e que não seja fácil de cruzar, mudar ou esbater. É preciso que o respectivo regulamento seja tão díficil de actualizar como os comportamentos partilhados pela conquista da comunidade. É preciso que o preço seja alto para o serviço ter valor. É preciso que os preconceitos desfavoreçam a intimidade com o estrangeiro para que só se encontre dentro, com os seus, o que se necessita. Quanto mais coesa for uma comunidade, quanto maior for a confiança cega entre os seus membros, maior será o medo de uma dissolução, do evaporar desse centro ordenado pela caótica mudança da periferia, mais fácil o cultivar de um sentimento xenófobo em relação aos outros. Ao reduzir e simplificar o social, ao limitar o favorecimento aos eleitos, movimentos como nacionalismos, sexismos, fundamentalismos ou racismos nunca serão soluções morais para as questões que pretendem resolver ou minimizar. Prescrever fronteiras para classificar pessoas é, infelizmente, uma velha e lucrativa fórmula de gerir recursos e criar problemas.

março 12, 2009

Prioridades

Não devemos defender ou favorecer um grupo que nasceu em X, que fala Y, que venera Z ou que se governa em W. Devemos estar do lado dos que partilham os valores dessa razão a que chamamos ética.

março 10, 2009

Crenças

"Uma crença é razoável apenas quando existe evidência em favor da sua verdade" James Rachels

março 05, 2009

Separação

Para além de toda a estrutura mental que nos permite lidar com o Mundo, existe associado uma rede de processos interiores cuja execução é crucial para a definição do eu e da nossa personalidade (vamos designá-los aqui por Mundo Interior). Um deles é a própria consciência que, mesmo que a sua importância seja sobrevalorizada no que toca aos papeis que executa - o que é natural pois será a própria consciência a atribuir-se relevância nessa lista viciada de prioridades -, terá um papel imprescindível na existência das sociedades e da noção de pessoa. É quase certo que existiam Homo Sapiens antes de haver pessoas (pelo menos no sentido moderno do termo) e agrupamentos sociais complexos, e que a consciência, um pouco como a linguagem apesar da natureza diferente desta, foi sendo construída ao mesmo tempo que as sociedades humanas*. Assim, neste Mundo Interior, a partir da consciência, todo um ecossistema de emoções pode desenvolver-se e estratificar-se, moldando as experiências e as suas memórias, a razão e a aprendizagem, consoante a intensidade e a mistura dessas emoções, criando assim a trajectória que, em abstracto, é a chave que nos individualiza. Alguma dessa trajectória é determinada por eventos externos, por uma sequência complexa de traumas, concretizações e muito tédio à mistura, mas também pela própria dinâmica interna que funciona mesmo na falta de impulsos externos relevantes (a ausência de eventos externos é, em si mesmo, um evento).

Na filosofia a noção de zombie é útil na discussão da cognição. Em vez de ser o morto-vivo dos filmes de terror, um zombie é um simulacro de pessoa (apesar deste termo conter já um juízo de valor), um corpo que, externamente, se comporta como uma pessoa sendo impossível de distinguirmos entre quem é zombie e quem não o é. Em resumo, um zombie é igual em tudo menos na consciência (ou no Mundo Interior). Mas o que aconteceria se programássemos esse zombie para pensar que tinha um Mundo Interior? Ou seja, parte do cérebro do zombie seria gasto a executar um conjunto de processos inúteis (do ponto de vista do desempenho externo, já que nada mudaria na sua interacção com o mundo) de modo a enganá-lo com a sensação de ter esse ecossistema emocional tão típico das mentes humanas? Que diferença sobraria entre nós e «eles»?

* Poderíamos, numa linha conspiratória, dizer que a consciência é um conjunto de memes que sequestrou a espécie humana para a fazer construir sociedades cujo fundamento básico é a sua auto-perpetuação, ou seja, tornar inevitável a cópia desses processos nas crianças que nascem e que são educadas no seu seio; mas este é um cenário um pouco mais literário e talvez menos útil.

fevereiro 26, 2009

Mistério

Um texto que não possui conteúdo não pode estar errado e é, assim, imune à crítica ou à passagem do tempo. Como um liquido sem viscosidade, desliza imune por qualquer tentativa de interpretação ou refutação. Contra o ruído não se ganham discussões.

fevereiro 23, 2009

Custo-Benefício

Os líderes religiosos acreditam num paraíso eterno pós-morte. Isto significa que a nossa vida actual é menos que um grão num Universo de experiências por obter. Deste ponto de vista é perfeitamente lógico que se invista menos na felicidade ou liberdade terrena e mais no sacrifício do regulamento moral que dá entrada nesse clube celestial. O ganho é tão grande (é infinito) que justifica qualquer acção humana (porque finita) nesse sentido, incluindo autos-de-fé ou aviões a entrar por arranha-céus. O problema disto tudo é que a premissa inicial é falsa e, assim, todo este esforço resulta numa imensa tragédia que se arrasta há milénios e que consome centenas de milhões num delírio infantil.

fevereiro 18, 2009

Um melhor mapa da Evolução...

... que é um acontecimento muito não-linear:

Sala de Fumo

O eu é um recurso adequado à escala humana e largamente valorizado, o que não é surpresa dado ser essa a única medida que conhecíamos até ao passado recente. Visto ao microscópio dilui-se entre míriades de actividades eléctricas e o caos intrínseco dos sistemas dinâmicos. No macro-cosmos é uma passageira insignificância que o princípio da parcimónia tem a amabilidade de ignorar. Assim, entre as flutuações estatísticas do muito pequeno e do muito grande, é numa estreita (talvez pródiga, talvez fértil) linha de fronteira que nos achamos relevantes. O Dr. Spleen, porém, acha que nem essa fronteira existe. Derivado do seu cepticismo da justiça e da sociedade (onde o eu, no fundo, se usa), de ver cada um como colónias de células com ilusões de importância, ele próprio apenas um vento mais forte num labirinto cruzado de breves sopros.

fevereiro 16, 2009

Big Bangs

Os momentos únicos são pontos focais no definir de fronteiras. Quando quase tudo é difuso e progressivo, uma mudança brusca, uma alteração de estado atrai-nos o olhar, a atenção, até a capacidade de julgar. Por exemplo, na vida de um indivíduo, muitos dão relevo ao momento da concepção, outros ao parto. Mas poucos discutem o período em que o feto se torna suficiente em termos somáticos ou a criança se torna psicologicamente independente, passos tão importantes, ou mais, na formação dessa pessoa.

fevereiro 12, 2009

Sustentação

"Quando não temos argumentos válidos em defesa do que consideramos um «bom» comportamento, é a nossa concepção de bem que se revela deficiente" Bertrand Russel

fevereiro 10, 2009

Custo Benefício

Dado o jornalismo e a indústria da opinião terem de relatar factos recentes dessa hegemonia que é o presente, os media vêem-se obrigados a publicitar irrelevâncias diárias em detrimento do silêncio e da reflexão. Na maioria das vezes desperdiçamos tempo e atenção a discutir sobre ruído e, como sociedade, pagamos por isso.

fevereiro 05, 2009

Espelho (m)eu

O Dr. Spleen observa-se, dedicado, através do espelho que o surpreendeu naquele verso de porta. O opaco da sua face esconde um labirinto de imagens, sensações e desejos que tão bem reconhece apesar dessa erosão constante que é a memória. Entre as marés dos humores e as muralhas das certezas que paciente construiu, um fosso de quereres deixados, intenções falhadas, uma sequência de eus em putrefacção inodora. O que o liga ao passado? Que filtro o cortará para se refazer no futuro? No silêncio conquistado daquela casa de campo, onde apenas destoa, em vermelho disperso, o corpo do analista financeiro, e eliminados que estão agora os ruídos da civilização e a fúria material, a sua, pela perda da substancial conta suíça (somos desligados do mundo o quanto conseguimos, mas o dinheiro tem ligações complexas com o mais valioso dos recursos, o tempo) resta teimoso, no reflexo, o desafio perene e derradeiro de se continuar a ser.

fevereiro 02, 2009

Movimento Browniano

Trivializar não é trivial. Os assuntos relevantes ao tecido social (por exemplo, a economia, a estatística, a ética) não podem ser comprimidos em cinco minutos de exposição e muito menos no aforismo televisivo de dez palavras. Quanto mais invasiva e instantânea for a propaganda e a comunicação social, maior será a tendência de substituir a ideia correcta pela simplificação do que soa bem ao senso da multidão. Seja porque é deles o voto e as audiências, seja porque o argumento da maioria parece sempre uma aposta segura, o preço que pagamos é o progressivo desligar das nossas opiniões partilhadas em relação à realidade que nos mantém e restringe. Esta é uma guerra que não podemos vencer. Quem caminha ao sabor do acaso e do contingente devia abrir os olhos por causa do abismo.

janeiro 29, 2009

Brain...

(c) Non Sequitur, Wiley Miller

janeiro 26, 2009

Jeitos

Gerimos as emoções pior do que gerimos a indiferença. Tão capazes na razão mas ainda mais previsíveis na irracionalidade. Mantemos civilizações de milhões por séculos mas tão trapalhões que somos no único das relações humanas. Eis, no seio do turbilhão, o H.Sapiens.

janeiro 19, 2009

Fronteira

O que é nosso no domínio da mente? O que faz uma ideia, um argumento, uma crença ser minha ou tua? Que diferença há entre o original e o aprendido? Por exemplo, as palavras que uso, a gramática que as arruma, foram-me ensinadas e são a partilha que nos une. As frases que escrevo são minhas. Mas entre elas e a informação lá contida, onde se desenha a fronteira da originalidade? Excepto do trivial de um plágio, o que dizer de usar a estrutura de um mito ou de uma história universal? Se reescreve-se Romeu e Julieta ou o Quixote a partir de que arte ou de que diferenças passaria a ter mérito nessa obra revisitada? Na complexa rede de ideias e conceitos, como julgar onde se cruzam a recriação e o inexplorado?