fevereiro 02, 2009

Movimento Browniano

Trivializar não é trivial. Os assuntos relevantes ao tecido social (por exemplo, a economia, a estatística, a ética) não podem ser comprimidos em cinco minutos de exposição e muito menos no aforismo televisivo de dez palavras. Quanto mais invasiva e instantânea for a propaganda e a comunicação social, maior será a tendência de substituir a ideia correcta pela simplificação do que soa bem ao senso da multidão. Seja porque é deles o voto e as audiências, seja porque o argumento da maioria parece sempre uma aposta segura, o preço que pagamos é o progressivo desligar das nossas opiniões partilhadas em relação à realidade que nos mantém e restringe. Esta é uma guerra que não podemos vencer. Quem caminha ao sabor do acaso e do contingente devia abrir os olhos por causa do abismo.

janeiro 29, 2009

Brain...

(c) Non Sequitur, Wiley Miller

janeiro 26, 2009

Jeitos

Gerimos as emoções pior do que gerimos a indiferença. Tão capazes na razão mas ainda mais previsíveis na irracionalidade. Mantemos civilizações de milhões por séculos mas tão trapalhões que somos no único das relações humanas. Eis, no seio do turbilhão, o H.Sapiens.

janeiro 19, 2009

Fronteira

O que é nosso no domínio da mente? O que faz uma ideia, um argumento, uma crença ser minha ou tua? Que diferença há entre o original e o aprendido? Por exemplo, as palavras que uso, a gramática que as arruma, foram-me ensinadas e são a partilha que nos une. As frases que escrevo são minhas. Mas entre elas e a informação lá contida, onde se desenha a fronteira da originalidade? Excepto do trivial de um plágio, o que dizer de usar a estrutura de um mito ou de uma história universal? Se reescreve-se Romeu e Julieta ou o Quixote a partir de que arte ou de que diferenças passaria a ter mérito nessa obra revisitada? Na complexa rede de ideias e conceitos, como julgar onde se cruzam a recriação e o inexplorado?

janeiro 16, 2009

Dinheiro

A noção de rendimento decrescente (em inglês, diminishing returns) é um conceito económico poderoso também na argumentação em outras áreas. Na economia é possível usá-lo para mostrar, por exemplo, que o petróleo deixará de ser extraído muito antes de desaparecer do planeta, pois apenas será usado aquele que se conseguir obter de forma rentável. Todas as reservas demasiado profundas ou em locais de muito díficil acesso serão deixadas em paz pois outras formas de energia passarão a ser economicamente mais interessantes. Da mesma forma, o conhecimento e a tecnologia nunca se irão aproximar do (eventual) limite teórico. Só se investigará e investirá numa área enquanto for economicamente racional fazê-lo. Os limites da Física das Partículas, as experiências para determinar a origem do Universo, mesmo futuras tecnologias, como o teletransporte, as viagens interestelares ou a simulação digital de pessoas só poderão ocorrer (assumindo que sejam teoricamente possíveis) se os recursos necessários às mesmas forem considerados apropriados pelas sociedades futuras. Se, por algum motivo, for demasiado oneroso implementar estas ideias, elas nunca serão ferramentas ao dispor da Humanidade, não por serem impossíveis mas, simplesmente, por serem demasiado caras.

janeiro 12, 2009

Auctoritate

"Na sua essência, a autoridade não consiste em mandar: etimologicamente, a palavra vem de um verbo latino que significa «ajudar a crescer». A autoridade na família deveria servir para ajudar a crescer os membros mais jovens, configurando o que poderemos chamar o «princípio da realidade». Este princípio é a capacidade por parte de cada um de limitar as próprias inclinações tendo em vista as dos outros, e de adiar ou temperar a satisfação de alguns prazeres imediatos tendo em vista o cumprimento de objectivos a longo prazo. É natural que as crianças careçam de experiência vital imprescindível à compreensão da sensatez racional desta exigência, pelo que esta deve ser-lhes ensinada. As crianças - verdade óbvia, mas frequentemente esquecida - são educadas para virem a ser adultos, e não para continuarem a ser crianças." Fernando Savater, O valor de Educar

janeiro 08, 2009

Analfabetismo

Antes da Torah, da Bíblia ou do Corão, os deuses não sabiam escrever. Os textos sobre o sagrado não eram sagrados, eram somente humanos e por isso sujeitos a contestação, discussão e correcção. Já a palavra revelada é perene. O problema é não o serem as pessoas e o mundo.

janeiro 05, 2009

A Guerra dos Clones

Ser normal numa sociedade garante muitos privilégios mas exige interiorizar centenas de gestos e comportamentos apropriados. Vastos na sua diversidade (como vestir, comer, falar, como se relacionar, fazer sexo, como educar os filhos, o que ler, ouvir, o que é apropriado amar, odiar e ignorar...) exigem uma conformidade, por vezes, demasiado pesada. Há o perigo da personalidade que se forma ser aplanada por esta burocracia emocional e a normalidade, isto é, o processo de normalização, produzir apenas cópias aceitáveis de um conjunto limitado de personas ideais. Mas como evitar ser-se uma mera máquina cognitiva e não arriscar uma neurose, um isolamento excessivo, a loucura?

dezembro 29, 2008

Simbiose

Cada sociedade humana é o resultado de um acumular incontável de trocas entre humanos e sociedades, vizinhos e estrangeiros, limitada pela geografia e pelos compromissos e tradições do passado, pela biologia e psicologia do homo sapiens. Entre cada sociedade e os seus cidadãos há algo mais profundo que o implícito contrato social e os direitos reconhecidos, há uma simbiose. Sem sociedade não haveriam pessoas, sem pessoas não haveria sociedades com linguagem, arte, ciência ou história. Alguém que sobreviva à sua cultura (como os que se salvaram de um genocídio, nas implosões civilizacionais ou mesmo os últimos falantes de uma língua) tornam-se, pouco a pouco, num incómodo para os outros, um terrível aviso de outra forma de morte.

dezembro 22, 2008

Maquilhagem

Quem está à frente deste espelho? Somos máscaras sobrepostas e, mesmo sem pensar, agimos perante elas quando lidamos com outros. Com quem falamos quando compramos o jornal? Quem é esse aluno ou professor do lado oposto de um exame? De onde vem o sorriso do vendedor? Em quem votamos? Que parte amamos dessa pessoa ao nosso lado? E, se após a realização de uma experiência impossível, tirássemos todas as máscaras, o que sobraria para reflectir no espelho que ainda observo?

dezembro 18, 2008

Padrão

Das profundezas eléctricas de um cérebro emanam padrões, tempestades caóticas entre sinapses e neurónios, que se atravessam e sobrepõem. De alguma forma, no crescer, emerge uma industrialização por áreas, especialidades a que pedaços de massa cinzenta se dedicam mesmo antes do nascimento. O Dr. Spleen admite, por isso, a existência de diversas inteligências em qualquer ser vivo. Admira em silêncio o voo cirúrgico das aves, a precisão mortífera de um tubarão, a sinfonia química dos insectos sociais, o olhar penetrante do xadrezista, a tensão no sono de um gato. Por outro lado, essa panóplia de capacidades determina também a possibilidade de se falhar em múltiplas frentes. Este pensamento é-lhe especialmente relembrado quando observa o inexistente rigor táctico dos seus associados quando em piloto automático (e dos seus semelhantes em geral, pois nada na sua recruta se desviou do normal possível da educação vigente). Se um talento é a aplicação de uma inteligência, a falta destas abre a porta às Pandoras que desde sempre nos observam.

dezembro 11, 2008

Um Holocausto (quase) esquecido

No meio de um dos episódios da "Grande Guerra" da BBC é referido o genocídio do Congo Belga pela mão responsável do Rei Leopoldo II da Bélgica. O número de mortos descrito nesse episódio era na ordem dos milhões. Quando ouvi este número (milhões, seja um, seja dez, são milhões) tive dificuldade em acreditar que uma nação neutral durante a maior parte do século XX, e vítima consecutiva das duas guerras europeias, fosse capaz de tal coisa. Este é um Holocausto da dimensão sofrida pelos Judeus, Ciganos e outros às mãos do Nazis. Diversas fontes referem dez milhões de mortos e que, após o assassinato concertado de populações inteiras durante cerca de vinte anos (acompanhadas por violações sistemáticas, de amputações de mãos como prova de morte), reduziu a metade a população do Zaire! Uma das primeiras obras que descreve este monstruoso acto é de 1909 pela mão de Conan Doyle e pode ser lido aqui. Outra referência encontra-se no livro "Heart of Darkness" de Joseph Conrad cujos horrores descritos se baseiam nestes acontecimentos. Outra coisa que espanta e revolta é o silêncio à volta deste evento. Até à publicação do livro King Leopold's Ghost de Adam Hochschildem (em1998) e que vendeu centenas de milhares de cópias [1, 2], não havia sequer um debate na Bélgica quanto mais um assumir de responsabilidade histórica pelo sucedido (há, de 2006, um documentário norte-americano sobre este período). O sucesso do livro provocou a ira de vários historiadores belgas que, em 2002, decidiram estudar o assunto (!). No museu belga Royal Museum for Central Africa (Tervuren Museum) não havia qualquer indicação para o genocídio [3]. Como não encontrei nada sobre a conclusão dos tais historiadores ofendidos, não faço ideia se já mudaram alguma coisa neste caso patológico de amnésia colectiva (o parlamento britânico também não). Tanto quanto sei, a história belga continua a ter em grande consideração o seu Rei Leopoldo II.

dezembro 10, 2008

Basta

"O cepticismo não é irrefutável, mas manifestamente um contra-senso, se pretende duvidar onde não se pode perguntar." Ludwig Wittgenstein, Tratactus Logico-Philosophicus, 6.51
"Eis por que razão não faz sentido ser céptico relativamente ao problema da Imaculada Conceição assim como a tudo o que tenha a ver com a religião. Na religião não há problemas. E se na religião não há problemas também não há perguntas. E se não há perguntas não há dúvidas. Basta estar de joelhos."Ponteiros Parados, 8/Dez, José Ricardo Costa

dezembro 03, 2008

Let the kids decide


(c) 2005 The Philadelphia Inquirer.

Podíamos também ensinar ao mesmo tempo matemática e numerologia, heliocentrismo e geocentrismo, ...

novembro 26, 2008

Ser

O Mundo é. E é desse ser que nos chega a informação sensorial para fazermos, interna e colectivamente, uma imagem dele. Como qualquer projecção, essa imagem é parcial, relativa, estruturada nas limitações do cérebro humano. E nela, nos desenhamos, uns aos outros, cortamos opções, tomamos decisões, seguimos em frente. Como o Mundo não é (só) o que pensamos dele, estes caminhos por nós percorridos tornam-se, se não revistos e criticados, mais próximos de uma qualquer alucinação negociada. Por isso, o Dr. Spleen, não espera das ideologias e religiões tradicionais um grande apego à busca da verdade. Uma corporação, uma instituição aceite pelo corpo morno da sociedade, é sempre mais reconfortante, mais simples e maternal que o furacão cerrado da essência das coisas. Talvez por isso Spleen não procure com excessivo afinco a sua sede num qualquer notário dos deuses e prefira espíritos mais críticos que, por acaso e seguindo a lei dos grandes números, mais se tenham aproximado do que é.

novembro 17, 2008

Extremos

As emoções não são o inverso da razão. Pode-se tanto ser inteligente e emotivo como estúpido e frígido. É verdade que um excesso de emoções perturba a decisão racional, como o pânico, a ansiedade ou a histeria, mas tanto a razão como as emoções são essenciais para formar uma pessoa integra e responsável. O contrário da razão é a irracionalidade, a incoerência acrítica como forma de vida, e existem várias formas de a estimular: por ignorância, pela indiferença, no confiar cego de uma fé qualquer.

novembro 04, 2008

v.2.0

Um televisor possui milhares de milhões de cores. Um microfone capta milhões de tons, de frequências. É possível imaginar um faro electrónico, como um de um cão, onde tudo seria uma sinfonia de cheiros. E para lá dos nossos sentidos muitos outros existem na Natureza (sonares e radares, feromonas...). Imaginemos tudo isto junto num ente artificial. Que monumento de novas sensações um mundo assim sentido proporcionaria? E que cegueira a do seu criador, o Homem.

outubro 21, 2008

Quando?

"Se eu não sou por mim, quem será? Se eu sou por mim, quem sou? E se não agora, quando?" Rabbi Hillel

outubro 13, 2008

Tudo ou Nada

O analógico é vulnerável como o corpo: o tempo decompõe-no, desfigura-o num processo de erosão e envelhecimento. Essa transfiguração, porém, é contínua, suave, uma sequência de pequenas diferenças que perdem, pouco a pouco, a mensagem inicial, mas que no nevoeiro do ruído que o substitui sobra algo mais que sombra e ecos. No digital tudo se mantém estável, intocável, perene. Só que a dependência do contexto, dos formatos, de leitores específicos de uma complexidade crescente, criou um caminho sem saída. E tornar-se-á inimitável se, ou quando, um dia perdermos os algoritmos e essas máquinas que os evocam.

outubro 06, 2008

Foco

A distância entre nós próprios e os outros é maior do que se imagina. Como construir uma ponte entre duas trajectórias? Como edificar um só momento de integral compreensão quando o que nos define é, em si, um fantasma, um conceito que se estilhaça quando o observamos de perto? Na contabilidade de se julgar a si e aos outros, quantas oportunidades para falhar, quantos erros a fazer, quão grandes esses erros? Mesmo assim, apesar do nevoeiro e desse vento que nos rodeia, segura-mo-nos em princípios e preconceitos que dão sentido e decisão aos caminhos que nos deparam. Uns aprendem-se outros decoram-se, uns resultado de raciocínio, experiência e argumento outros pouco mais que frases antigas há muito iteradas. O Dr. Spleen reconhece que entre respeitar uma opinião e a pessoa que a profere mete-se, mesmo que à justa, um mundo. Mas onde termina a Palavra e começa a Pessoa? Sacralizar - palavras, pessoas - é a acção que leva à asfixia estéril da imobilidade. Assim, para evitar um qualquer equívoco, Spleen não admite mais que o corpo à vitima que dá voz a esses princípios ou preconceitos Nesse preciso momento em que tudo se reduz ao ponto focal da sobrevivência.

setembro 30, 2008

Dura Lex

Há um conflito entre a deontologia, que julga as acções pelas leis que a restrigem, e o utilitarismo, que justifica as mesmas acções pelas consequências que provocam. Na primeira, as boas acções podem ser castigadas se violarem a lei, enquanto no segundo podem ser até premiadas. David Hume propôs uma união destas duas perspectivas, que parece-me usarmos hoje em dia, o utilitarismo indirecto, onde defende que se deve ter um pensamento utilitarista (maximizar a felicidade da sociedade) para formular uma deontologia (um corpo de leis). Desta forma, há duas vantagens: a aplicação intransigente das leis tende a melhorar o bem-estar da sociedade e torna-se mais natural a escolha entre opções para leis (preferir aquelas normas que, quando aplicadas, melhoram esse bem-estar).

setembro 26, 2008

Bifurcação

A educação, por natureza, é conservadora nos conteúdos que ensina. Ela pretende preservar um corpo de conhecimentos considerados úteis a quem aprende bem como necessários à permanência da sociedade em questão. Tendo em conta a relação que se pretende que o futuro adulto tenha em relação ao Outro diferente, estes conhecimentos podem ser negativos (no alimentar de nacionalismos extremados, fanatismos, xenofobias, dogmas) ou positivos (no primado da razão e da ética, aos princípios e à tolerância, ao argumento crítico, à coragem e à prudência). Para os responsáveis, uma escolha tão clara como terrível.

setembro 15, 2008

Diferença

Olhar para a totalidade do sistema solar por séculos sem fazer o esforço de entender como o mundo funciona. Diríamos que ali estava tudo exposto, todos os factos, todas as relações entre a miríades de corpos celestes. Mas, mesmo após esse tempo todo, não teríamos obtido nada. É no esforço honesto e imparcial de entender que recolhemos conhecimento útil. Apenas coleccionar factos é mostrar tudo e dizer nada.

setembro 10, 2008

Piloto Automático vs.'Eu'

"Cognitive control is necessary when we block a habitual behavior and instead execute a less-familiar behavior. Because cognitive control requires an effort, it is not efficient to maintain a high level of control all the time — the nervous system needs to know when cognitive control is necessary." Matsumoto - Conflict & Cognitive Control, Science 303, pp.969-70

setembro 05, 2008

Cebolada

Querer perder os preconceitos culturais que nos restringem é uma tarefa para décadas. Se a constatação que deus não existe pode surgir rapidamente, demora uma vida perceber como a instituição secular dos seus funcionários controlou a sociedade e - preza-se a honestidade do termo - o seu rebanho. Como destruiu sistematicamente o desenvolver do pensar crítico, substituindo-o por uma subtil rede de complexos de culpa, medos e vigilância que formam o regulamento moral que nos prende. Como recusou - excepto pela intensidade das forças externas - as liberdades e as diferenças incómodas dos indivíduos que assumiu o dever de proteger. Como isso, cá por dentro, cresce connosco. Como extirpar camada a camada, a peçonha que também responde pelo nosso nome.

agosto 02, 2008

Aproximações

Os sistemas dinâmicos suficientemente complexos partilham uma característica: o caos. O caos é uma etiqueta para um conjunto de comportamentos definidos matematicamente, um dos quais é a sensibilidade aos parâmetros iniciais, vulgo, o efeito borboleta. Esta sensibilidade indica que mínimas discrepâncias nos valores dos parâmetros implicam, ao fim de um espaço limitado de tempo, uma divergência muito maior de comportamento. Isto significa que estes sistemas são, de certa forma, irredutíveis: a única forma de saber como se desenrolam é esperar que ocorram, que se desenvolvam. A meteorologia tem como estudo um sistema destes: o tempo atmosférico. Mesmo conhecendo todos os factores relevantes, todas as equações que determinam a dinâmica - reparar que irredutível não é o mesmo que não modelável-, é materialmente impossível saber como o tempo se comporta exactamente ao fim de um mês. Claro que existem limites, sabemos que daqui a um mês não estaremos numa época glacial, mas dentro de um intervalo de variação, como saber se vai chover ou não num determinado local, é melhor olhar para as medições do passado recente e escolher o valor mais comum. Outro sistema dinâmico de enorme complexidade é o cérebro. O cérebro é constituído por uma rede de impulsos bio-eléctricos suportada por biliões de neurónios e árvores dendríticas a funcionar em paralelo. Mesmo que a neurofisiologia do futuro seja capaz de dissecar todos os detalhes do cérebro, estabelecer como se conjugam estes detalhes e entender o relevante do seu funcionamento, teremos o mesmo problema que na meteorologia: o funcionamento do cérebro, isto é, a mente, será irredutível. Ou seja, mesmo conhecendo o meu estado mental no presente com toda a precisão possível, a capacidade tecnológica para prever o que farei, o que escolherei no futuro será limitada pelo mesmo limite que subjuga a previsão do tempo. Talvez se deduza que posso fazer X ou Y em condições sensoriais controladas, na próxima hora, digamos, mas após isso, o meu historial será mais fidedigno a prever o meu comportamento futuro.

Alguns pontos:

1) O livre-arbítrio estará para sempre protegido pela irredutibilidade do processo cognitivo. Não sendo analisável, será esta uma demonstração do seu carácter subjectivo?
2) O facto que ser irredutível faz com que seja impossível testar se a mente é ou não clonável (como saber se as duas mentes fariam o mesmo num futuro suficientemente distante?). Não parece tecnicamente possível copiar exactamente todo um cérebro, mas mesmo que fosse exequível, as duas mentes começariam desde logo a divergir devido à sensibilidade aos parâmetros inerente à cognição.
3) Copiar uma mente é diferente que criar uma boa aproximação. Uma aproximação permite relaxar certos pontos. Por exemplo, se tivermos uma teoria suficientemente precisa do tempo atmosférico, apesar de ser impossível recriar o tempo real, é possível alimentar um modelo com valores aceitáveis e executar um tempo virtual. Este tempo virtual não permite prever o tempo real, mas matematicamente, dentro da estrutura abstracta dessa teoria, não existem diferenças qualitativas entre os dois. Por analogia, tendo nós uma teoria da cognição, poderíamos criar uma simulação (o necessário poder computacional será uma inevitabilidade ainda neste século) e executar 'uma pessoa'. Não uma pessoa que exista ou existiu, mas uma pessoa possível, talvez mesmo uma aproximação minha, vossa. Será algo, alguém, que nos dirá que sente, que pensa, e que argumentará connosco em sua própria defesa, como o faria qualquer um de nós.

julho 31, 2008

Imagens

À medida que a Ciência se desenvolveu no século XX tornou-se cada vez mais claro que as imagens e os modelos físicos que usamos para tentar compreender fenómenos em escalas para lá dos nossos sentidos, não são mais que muletas para a nossa imaginação e só podemos dizer que um fenómeno se comporta, por exemplo, como uma corda vibrante e não que é uma corda vibrante. Dependendo das circunstâncias, é possível que várias pessoas usem diferentes modelos para representar um mesmo fenómeno, mas que cheguem às mesmas predições e resultados baseados na matemática de como o fenómeno responde a determinados estímulos. Não podemos dizer que a luz é uma onda ou uma partícula mas sim que, dependendo da situação, a luz comporta-se como uma onda ou como uma partícula. John Gribbin - Science, A History

julho 30, 2008

O Fim do Destino

Quatrocentos anos de avanços científicos e filosóficos, desde o Renascimento, passando pelo Iluminismo até aos dias de hoje, destruíram a solidez de muitos dogmas e das instituições que deles se alimentavam. As pessoas que eram tratadas como eternas crianças, como robots no trabalho e prenhos de muitos filhos, viram-se, lentamente, livres dos destinos que outros lhes achavam apropriados. O preço a pagar foram as opções por tomar, o fim dessa vida pré-fabricada, o repensar de muitos preconceitos. Quando se abre uma comporta, tanto entra água límpida como muitos tipos de água suja.

julho 21, 2008

Passagem

A vida é uma janela a separar dois imensos nadas. A falta do mundo antes de nascer é a mesma depois da morte. No meio faz-se cor e som e luz. Faz-se dor e prazer, pensamentos e medos, um embrulho de gente, nomes e memórias, razões e impulsos, o belo e o terrível, o deslumbrar e o tédio das coisas. Uma lenta explosão até voltarmos ao seio do abismo que como que nos embala.

julho 15, 2008

Separação

Usar as características - reais ou imaginadas - de um grupo para julgar e agir sobre um seu individuo é moralmente errado. Este corolário da regra de ouro, infelizmente não reconhecido por muitos, é díficil de perceber até onde deve ser levado. Para uma pessoa, alguém racista, xenófobo ou sexista é um insulto continuado contra o Outro que somos todos. Mas e ser-se especista? Ou favorecer este em desfavor de outro por motivos de amizade, família ou grupo profissional? Quão desligados devemos ser dessa rede social que nos faz para que sejamos justos?