fevereiro 13, 2008

Escalas Cósmicas

Esta imagem dá-nos uma perspectiva interessante de quão pequenos somos neste sistema solar (é um gif animado, esperem uns segundos para ver a próxima iteração).

fevereiro 07, 2008

Ritmos

O maior excesso encontra-se na perfeita banalidade. Os rostos parados da multidão que o atravessa, símbolos de um tempo que se esvai, de um espaço, de um caminho já explorado, de um hábito criado na iteração do mesmo. Os gestos de ontem, as ideias, velhas, partilhadas por todos, os preconceitos que substituem o pouco que resta às - das - pessoas. O Dr. Spleen reconhece que não é possível cultivar a inexistência de padrões (até porque essa falta seria, ela mesma, um padrão de ausência. Um ciclo de novidades não deixa de ser um ciclo). Por isso, prefere-os distantes dos apetites mais próximos, servindo como testemunhas, ou melhor, como árbitros de um presente que serve e se prepara, criticamente, para observar com novos olhos (melhores olhos?, talvez, mas Spleen não é muito dado a atribuições de valor, interessando-lhe que a mudança se faça na direcção da estratégia que o define) o futuro que se avizinha. Um rosto não deveria ser um molde do que acontece lá fora, mas uma superfície espelhada que encerra o que vem de dentro.

janeiro 15, 2008

Simulação e realidade

"Após várias gerações de experiência com a cultura dos computadores, a simulação tornar-se-á totalmente natural. A autenticidade, no sentido tradicional do termo, perderá valor e será um vestígio de outros tempos.

Seja o seguinte momento, em 2005: levo a minha filha de 14 anos à exibição sobre o Charles Darwin no Museu Americano de História Natural. A exibição documenta a vida de Darwin [...] e, à entrada, encontra-se uma tartaruga das ilhas Galápagos. O animal repousa da sua jaula, perfeitamente imóvel. “Podiam ter usado um robot.” comenta a minha filha. “É uma pena trazer uma tartaruga até aqui para um papel que atrai tão pouca atenção”. Eu fico surpreendido com estes comentários, ao mesmo tempo solícitos pela pobre tartaruga presa, como pela despreocupação da autenticidade da mesma. Como a fila de espera para comprar os bilhetes é grande, aproveito o tempo para perguntar aos outros pais e aos seus filhos se ligam ou não ao facto da tartaruga estar viva. Uma menina de dez anos também preferiria um robot porque a autenticidade tem as suas desvantagens estéticas, “A água está muito suja. É nojento.” Na maioria dos casos, as opiniões reflectem as da minha filha. Neste cenário, o facto de escolher uma tartaruga real não parece valer o trabalho de a ter trazido até ali. Uma rapariga de doze anos: “Para o que as tartarugas fazem, não é preciso ter uma viva.” O pai dela, observa-a, sem compreender: “Mas o que interessa é ela estar viva, é precisamente esse o ponto.” [...] A exposição foca-se na autenticidade: podemos olhar para a lente que Darwin realmente usava, ver os seus cadernos com algumas das frases onde se falou pela primeira vez da Evolução. Mas as reacções das crianças apontam que a ideia do ‘original’ está em crise.

Há muito que acredito que, na cultura da simulação, a noção do autêntico está para nós como o sexo estava para os Vitorianos – “ameaça e obsessão, tabu e fascínio”. Tenho convivido com esta noção desde há muitos anos. Porém, no museu, acho surpreendente e perturbadora a reacção das crianças. Para elas, neste contexto, o animal vivo não parece ter valor intrínseco. Seria apenas útil se servisse um determinado objectivo. “Se a substituir-mos por um robot, deveríamos dizer às pessoas que a tartaruga não estaria viva?”, pergunto eu. “Nem por isso”, respondem-me diversas crianças. Esse tipo de informação pode ser partilhado apenas se houver necessidade disso. Assim, qual é o propósito das coisas vivas? Quando precisamos saber se algo está vivo?

Consideremos outra situação de 2005: uma mulher idosa, num lar em Boston, encontra-se triste: o seu filho afastou-se dela há relativamente pouco tempo. Este lar faz parte de um estudo que conduzo sobre robots de apoio à velhice. Gravo as reacções dela, quando ela se senta perto do robot Paro, um robot em forma de foca, anunciado como o primeiro robot terapêutico pelos seus efeitos positivos nos doentes, nos velhos, nos emocionalmente perturbados. Paro é capaz de olhar nos olhos das pessoas detectando a origem da voz, é sensível ao toque, e possui ‘estados de alma’ que dependem de como é tratado, por exemplo, se é acariciado ou tratado com agressividade. Nesta sessão com Paro, a mulher, deprimida pela situação com o seu filho, acredita que o robot também está deprimido. Ela vira-se para Paro e faz-lhe festas enquanto o conforta “Sim, tu estás triste, não estás? É duro estar aqui”, tentando, ao mesmo tempo, confortá-lo. E ao fazê-lo, tenta-se confortar a si mesma.

A crença da mulher de se fazer entender é baseada na capacidade de objectos computacionais, como Paro, convencerem os seus utilizadores que existe uma relação afectiva. Eu chamo a estes artefactos (alguns são virtuais, outros objectos físicos), ‘artefactos relacionais’. A sua capacidade de inspirar relações não é baseada na inteligência ou consciência, mas apenas na habilidade de pressionar certos botões darwinianos que existem nas pessoas (estabelecer contacto visual, por exemplo) que fazem com que respondamos como se existisse uma relação. Para mim, os artefactos relacionais, na nossa cultura digital, são – como Freud disse – o muito familiar a tomar estranhamente uma forma não familiar. E, assim, somos confrontados com uma série de novas perguntas.

O que diz sobre nós esta tecnologia de apoio sentimental nos dois momentos da nossa vida onde estamos mais dependentes (a infância e a velhice)? O que fará por nós? Será que os planos de utilizar robots relacionais far-nos-á não procurar outras soluções? As pessoas terão tendência a amar os seus robots, mas se a nossa experiência com artefactos relacionais se basear numa partilha fundamentalmente falsa, será isso bom para nós? Ou poderá ser bom para nós na sensação superficial do momento mas mau para nós enquanto seres morais?

As relações com robots trazem de volta Darwin e a sua perigosa ideia: o desafio à unicidade do ser humano. Quando vemos crianças ou idosos a trocar carícias com animais de estimação artificiais a questão mais importante não é saber se irão amá-los mais do que aos animais reais, ou até mais que os respectivos pais ou filhos, mas sim, o que passará a significar amar alguém?" adaptado do texto de Shery Turkle

dezembro 19, 2007

Acumulação histórica

Há umas semanas comprei um PC novo. No momento da troca, afastei o velho computador, e deparou-se-me o seguinte cenário:Fio a fio, cabo a cabo, ao longo dos anos de compras de gadjets (todos essenciais) o acumular de 'desordem' deu nisto. Coloco a palavra entre aspas porque na verdade o sistema a que estes fios pertenciam e sustentavam funcionava perfeitamente (só era lento...) [agora vem a veia metafórica e que, suponho, me justifica o post] Como adivinhar a forma de um sistema que evolui através de uma história fortuita, composta por momentos irrepetíveis, por decisões contingentes? Que lei, física, económica, social, pode prever os detalhes da estrutura mesmo que saiba (e como saber o futuro?) a futura função da coisa complexa que observa?

dezembro 17, 2007

Travessia

Terá havido maior invenção que a escrita? Que tentação, a de atravessar o mundo, e tentar deixar nele a marca de uma frase.

dezembro 13, 2007

O consumismo explica o paradox de Fermi

"A história é a seguinte: Algures nos anos 40, Enrico Fermi falava com outros Físicos sobre a possibilidade de inteligências extra-terrestres. Eles estavam impressionados pela nossa Galáxia conter mais de 100 mil milhões de estrelas, que a vida evoluiu rapidamente na Terra, e que uma espécie inteligente, capaz de se reproduzir exponencialmente seria capaz de colonizar a Galáxia em poucos milhões de anos. O raciocínio seguia que, actualmente, essas inteligências já seriam comuns. Fermi ouvia pacientemente e fez-lhes uma pergunta simples: “Então, onde estão eles?” Se a inteligência ET é comum, porque não chegaram ainda ao nosso planeta? Este dilema é hoje conhecido pelo paradoxo de Fermi.

[...] Parecem existir duas possibilidades. Ou a Ciência sobrestimou a possibilidade de inteligência ET ou talvez essas inteligências tenham uma tendência para se auto-limitarem, até mesmo auto-exterminarem. [...] Eu sugiro uma terceira possibilidade, talvez uma ainda mais sombria solução para o paradoxo de Fermi. Basicamente, os ETs não se explodem a si mesmos, eles apenas se viciam em jogos de computador. Eles esquecem-se de enviar sinais rádio ou colonizar o espaço porque estão muito ocupados a consumir e em exercitar o seu narcisismo numa qualquer realidade virtual. Eles não precisam de Sentinelas para os escravizar numa Matriz, eles fazem-no a si próprios, como nós fazemos hoje em dia.

O problema fundamental é que uma mente desenvolvida precisa tomar atenção a pistas indirectas de adaptação biológica, em vez de se focar na própria adaptação. Nós não procuramos o sucesso reprodutivo directamente; nós procuramos comida saborosa que promova a sobrevivência e parceiros interessantes que nos possam dar a melhor descendência possível. Resultado moderno: fast food e pornografia. A tecnologia é bastante boa para controlar a realidade externa e aumentar a nossa adaptação biológica real, mas é ainda melhor a criar e promover adaptações falsas – pistas subjectivas de sobrevivência e reprodução, sem os efeitos reais. Um sumo natural de laranja custa muito mais que um refrigerante de fruta light. Ter amigos requer um muito maior esforço que seguir o Friends na TV. Na verdade, colonizar a Galáxia é muito mais difícil que fingir fazê-lo na Guerra das Estrelas.

A tecnologia que cria adaptações falsas tende a evoluir muito mais depressa que a nossa resistência psicológica ao processo. Desde que a imprensa foi inventada, as pessoas lêem mais e têm menos filhos. Desde que a Xbox foi inventada, as pessoas preferem ser uma versão de alta-definição do King Kong do que ser um ser humano real de definição perfeita. Os adolescentes vêem-se cercados por uma multidão de produtos electrónicos que lhes cativam a atenção, e fazem menos exercício físico. Um licenciado no MIT prefere entrar na indústria dos jogos do que ir para a NASA.

Por volta de 1900 as invenções eram sobre a realidade física: carros, aviões, luz eléctrica, soutiens, zippers. Em 2005, a maioria das invenções são sobre entretenimento virtual. As principais patentes são da IBM, Canon, HP, Intel, Toshiba, não da Boeing, Toyota ou Wonderbra. Nós já mudámos de uma economia real para uma economia virtual., da física para a psicologia como critério para a alocação de valores e de recursos. O princípio do prazer de Freud triunfa sobre o princípio da realidade. Nós concentramo-nos em emitir localmente estórias de interesse humano, uns para os outros, e não em emitir mensagens de paz e progresso universal para outros sistemas solares.

Talvez os ETs tenham feito o mesmo. Eu suspeito que um período de narcisismo e de adaptações falsas seja inevitável quando uma espécie inteligente evolui. Esta é a Grande Tentação para qualquer espécie tecnológica – de moldar a sua realidade subjectiva para providenciar sobrevivência e sucesso reprodutivo sem substância real. Talvez a maioria destas espécies se extingam gradualmente, alocando cada vez mais tempo e recursos para os seus prazeres, e cada vez menos para as suas crianças.

Talvez certas personalidades, passadas geneticamente e culturalmente, resistam à Grande Tentação e durem mais. Aqueles que persistirem terão mais auto-controle, serão mais pragmáticos. Terão um horror ao virtual, às drogas que alteram a mente, à contracepção. Irão salientar o valor do trabalho árduo, a gratificação adiada, a educação dos filhos, a protecção ambiental.

A minha ideia perigosa é que isto já está a acontecer. Os fundamentalistas, os activistas anti-consumo, já entenderam o que é a Grande Tentação, e têm uma resposta para evitá-la. Eles isolam-se da nossa economia e produtos virtuais e esperam pacientemente que o nosso narcisismo nos destrua. Serão eles a herdar a Terra, como ETs semelhantes a eles herdaram os respectivos planetas. Quando, finalmente, se estabelecer Contacto, não será uma reunião de leitores de ficção científica ou de apreciadores de jogos de computador. Será um encontro de pais de família extremamente sérios que irão congratular-se mutuamente por terem sobrevivido não só à Bomba mas também à XBox. E trocarão brindes não num ambiente virtual semi-erótico mas sim no solo sagrado de uma Igreja." adaptado do texto de Geoffrey Miller

dezembro 10, 2007

Incompreensão

Se na morte não houvesse perda não seria uma tragédia. Eis algo que a futura vítima, amarrada à parede, semi-nua, num quase de penumbra e ciente da sua situação, encontra dificuldades em aceitar. O silêncio da face daquele que o executa é, segundo a experiência do Dr. Spleen, a mensagem possível, a comunicação que resta. Porque evita o uso das palavras que são, como se sabe, órbitas que nos seguem e, logo, ferramentas inúteis em eventos deste género. E porque salienta, nesse momento resgatado antes do fim que sempre se quis adiado, o confronto da rara nudez dos rostos e concentra os olhares no olhar do Outro. Dizem que o silêncio é de Ouro (e anda-se muito em redor destes atómos de setenta e nove protões, porque raros?, porque juntos brilham?) mas no fixar gelado do Dr. Spleen revela-se, ao contrário, que o silêncio é de Carbono, Oxigénio, Azoto e Hidrogénio. Um querer de vida para se notar, para ter sentido, para se perder enfim.

dezembro 07, 2007

O inferno não são os outros

A noção de Vida é um assunto que os biólogos têm cuidado a tratar. Conhecemos apenas um exemplo de vida (esta nossa, baseada no carbono e no ADN) e, por isso, os especialistas evitam apontar condições necessárias para que algo esteja vivo e preferem falar de condições suficientes à vida. Desta forma, não caem no erro de criar uma definição demasiado restrita e preocupam-se apenas em incluir o que entendemos serem seres vivos aqui na Terra. Grosso modo, as condições suficientes dizem que um ser é considerado vivo se possuir metabolismo (i.e., capacidade de processar energia vinda do exterior usando-a na sua manutenção e dissipando os restos) e seja capaz de se reproduzir (criando uma cópia sua, cuja qualidade dessa cópia é proporcional à possibilidade de sobrevivência pelo mecanismo da selecção natural). Curiosamente, olhando para estas condições de forma estrita, um animal ou vegetal sexuado que seja o último da sua espécie ou que se encontre irremediavelmente isolado, apesar de conter uma comunidade de seres que satisfazem os critérios (células, bactérias, fungos, parasitas...), não poderia considerar-se vivo.

dezembro 05, 2007

O Mundo pode ser Fundamentalmente Inexplicável

"A Ciência progrediu durante 400 anos por conseguir explicar fenómenos observáveis em termos de teorias fundamentais que são fixas. Qualquer desvio do comportamento esperado não é permitido pela teoria, assim, qualquer desvio observado é uma evidência da necessidade de a alterar ou mesmo substitui-la por outra lei mais ampla.

O objectivo último da Física, como é normalmente descrito, é ter uma «teoria de tudo», onde todas as leis fundamentais que descrevem a Natureza possam ser descritas na frente de uma T-Shirt. Porém, com o reconhecimento que a energia dominante do Universo reside do espaço vazio - algo tão peculiar que é muito difícil entender no contexto das teorias físicas que possuímos - cada vez mais físicos têm explorado a ideia que talvez a Física seja uma «ciência ambiental», ou seja, que as leis que observamos são meros acidentes e que existe um número infinito de Universos diferentes, cada um com diferentes leis físicas. [...] Neste caso, o fim da física teórica «fundamental» (i.e., a procura das leis microscópicas fundamentais... porque existirá sempre muito trabalho para os físicos entenderem a multidão de fenómenos complexos que ocorrem nas diferentes escalas do mundo) pode ocorrer não através da teoria de tudo mas sim com o reconhecimento que as ditas leis fundamentais que podem descrever o mundo são fenomenológicas, ou seja, que podem ser deriváveis da observação de fenómenos mas que não reflectem uma profunda ordem matemática do Universo (e que nos traria o entendimento básico de como o Universo é como é)." adaptado do texto de Lawrence Krauss em http://www.edge.org/q2006/q06_8.html#krauss

novembro 26, 2007

Eventuais fronteiras

Entre as disciplinas do saber humano há uma enorme variação temática e metodológica. A minha preferência vai para duas famílias. Uma são as disciplinas que procuram a verdade. Esta palavra tem muitas interpretações, pode-se argumentar que nem sequer existe, que depende do contexto ou da perspectiva. Mais vale usar uma definição: a verdade contém todos os eventos que aconteceram, os que agora acontecem, bem como as leis da Natureza que os guiam ou limitam e que restringem, assim, os eventos que irão acontecer. Nesta família cabem as disciplinas que fundamentam o seu trabalho no método científico da observação, da indução, da elaboração de teses verificáveis. Mas também se incluem as disciplinas da História ou do Jornalismo. A outra família reúne os saberes baseados na razão, na argumentação e na sequência implacável da arte dedutiva. Nestas o objectivo não se centra na verdade mas sim na coerência. Aqui encontra-se a Matemática e a Filosofia (e, por ignorância ou falta de memória, não me lembro de mais nenhuma). O resto, porque há muito que sobra, é uma mistura mais ou menos elaborada de fé, de superstição e de pensamento positivo mágico. Uma rede arcaica de ideias, um ruído branco à possibilidade de melhores pessoas.

novembro 21, 2007

Não existem suficientes mentes para albergar o explosivo crescimento da população de memes.

"As ideias podem ser perigosas. Darwin, teve uma, por exemplo. Nós responsabilizamos todos os tipos de inventores e inovadores por avaliarem, à priori, o impacto ambiental das suas criações, e como as ideias podem ter um impacto enorme do ambiente, não vejo razão para isentar os pensadores da responsabilidade de colocar em quarentena alguma ideia mortal que possam imaginar. Assim, se eu encontrar uma destas ideias, devo cerrar os meus lábios, estudá-la e reflectir até que encontre uma forma de a expressar de forma segura. [...] Mas aqui está uma ideia inquietante que há-de inevitavelmente de ser verdade, numa ou outra versão, e até onde posso ver, não é prejudicial publicitá-la. Talvez até ajude:

A população humana ainda está a crescer, mas não ao ritmo do crescimento dos memes. Existe uma competição entre memes para ocupar o espaço limitado dos cérebros humanos, e muitos terão de ficar de fora. Graças aos nossos brilhantes e incessantes esforços e ao nosso apetite insaciável por novidades, criámos um fluxo crescente de informação, em todos os meios de comunicação e em todos os tópicos e assuntos. Agora, ou (1) afogar-nos-emos em informação ou (2) não nos afogamos. Qualquer das alternativas é perturbadora. O que quero eu dizer por afogar? Que iremos ficar psicologicamente submergidos, incapazes de processar a informação disponível e realizar decisões sobre a nossa vida face à imensa quantidade de possibilidades e opções oferecidas. [...] Se não nos afogarmos, como vamos lidar com esta situação? Se, de alguma forma, aprendermos a nadar da crescente maré da infosfera, isso significará que nós -- ou seja, os nossos netos e bisnetos -- seremos muito diferentes dos nossos antepassados. Como seremos? O que quer que «nós» sejamos, ainda mamíferos, já robots, o que saberemos e o que teremos, para sempre, esquecido? O que acontecerá com as nossas referências culturais? Provavelmente os nossos descendentes reconhecerão algumas (as pirâmides do Egipto, a Aritmética, a Bíblia, Paris, Shakespeare, Einstein, Bach...) mas à medida que ondas e ondas de novidade passam sobre elas, o que perderemos? Os Beatles são maravilhosos, mas se a sua imortalidade cultural for comprada à custa de outras figuras do Século XX, como Billie Holiday, Igor Stravinsky, ou Georges Brassens (hmm... quem é este?) o que restará desta nossa cultura?

As diferenças intergeracionais que todos nós experimentamos, presumivelmente serão multiplicadas até ao ponto que a informação pura que todos armazenamos nos nossos gadgets serão incompreensíveis para os outros, excepto que teremos muitas pedras de Roseta inteligentes capazes de «traduzir» material estranho em formatos que (pensamos nós) seremos capazes de interpretar. [...] O que acontecerá ao nosso conhecimento comum no futuro? Penso que os nossos antepassados tiveram a tarefa facilitada: fora as informações discretas dos rumores e de alguns segredos de estado ou de comércio, as pessoas sabiam essencialmente as mesmas coisas, e sabiam que sabiam o mesmo. Simplesmente não havia muito que saber.

Eu vejo pequenos projectos que poderão nos proteger, até certo grau, se realizados com sabedoria. Pensem em todo o trabalho publicado em jornais científicos antes de, por exemplo 1990, que está em perigo de se tornar practicamente invisível para os investigadores porque não podem ser acedidos online por um bom motor de busca. Digitalizar tudo e disponibilizar na net não é suficiente pois há demasiada informação. Mas podemos criar projectos de comunidades virtuais formadas por investigadores reformados, com motivação e conhecimento dessas bibliotecas, que possam usar a sua experiência para seleccionar os melhores trabalhos tornando-os acessíveis à próxima geração de investigadores. Este tipo de actividade tem sido vista como um trabalho académico próprio para classissistas e historiadores mas não digno de cientistas de ponta. Acho que devemos mudar esta perspectiva e ajudar as pessoas a reconhecer a importância de providenciar, aos outros, caminhos mais claros entre as nossas florestas de informação. É uma gota de água, mas talvez se começarmos a pensar na conservação de informação valiosa, possamos salvar os nossos descendentes de um colapso informacional." adaptado do texto de Daniel Dennet em http://www.edge.org/q2006/q06_8.html#dennett

novembro 15, 2007

O 'eu' é uma quimera conceptual

"A dúvida da existência de um ser supernatural é banal, mas a dúvida mais radical se nós existimos, pelo menos como algo mais que entidades marginalmente integradas com etiquetas convenientes, como "Ana" ou "João", é o meu candidato a Ideia Perigosa. Esta é a ideia de Hume - e de Buda - que o eu é uma colecção de crenças, percepções e atitudes em constante mudança, não sendo uma entidade persistente nem essencial, mas antes uma quimera conceptual. Se esta ideia alguma vez se tornasse comum numa sociedade - por causa dos avanços na neurobiologia, da ciência cognitiva, da reflexão filosófica... - os seus efeitos nessa sociedade seria incalculáveis (ou assim pensa esta associação de crenças, percepões e atitudes)." John Allen Paulos, http://www.edge.org/q2006/q06_index.html#paulos

novembro 12, 2007

Luz e Calor

O futuro é o que sobra no prisma de todos os possíveis e a este prisma chamamos nós presente. O ângulo da luz que o atravessa, a possibilidade que se torna real é, em parte, da nossa responsabilidade. O quanto e o quê dessa parte há-de decidir-se na fricção da lógica com o acaso.

novembro 07, 2007

Mistura

Hoje, mais cedo cá fora neste entardecer de dia, um hábito que raramente vê: são ondas de gente nas artérias da cidade, um fervilhar de insecto, um vibrar ansioso da hora seguinte. Na rua, lento, quase de olhos fechados como à procura, observa os padrões do mundo, ouve, cheira, quase toca. Não nos separa do mundo os sentimentos que à flor de pele os nossos impulsos formam. Esses são os que faz a humanidade ser uma massa vulcânica de emoções incontroláveis, tão pródiga em respectivos desastres. O que sobra desse magma intersectado com cada um de nós são as mentes que separam e classificam, esses rostos imperturbados que nos distinguem. O Doutor Spleen não sabe quantas pessoas efectivamente existem neste planeta mas sabe ser um número flutuante, e menor, que o número de humanos expressos nas seguras contabilidades dos respectivos Estados. Por exemplo, na multidão que agora rejeita instintivamente a diferença expressa - neste instante porque haverá outros - na corcunda do pedinte, Spleen apenas vê uma mistura dispersa, comum, a atravessar-se rápida para os dois outros lados da mesma rua.

outubro 29, 2007

Ilusionismo

A matilha pisa a relva molhada da última chuva, são trajectórias perdidas de significado, vontades sem o conforto conhecido dos objectivos instantâneos. O Dr. Spleen, sentado no banco do jardim à meia-noite de uma lua nova, adivinha o rugir das folhas no vento forte que os rodeia. Aquelas folhas são como as ideias conflituosas, pulsares de electricidade do cérebro humano. Alimentadas, vergadas por preconceitos que as dirigem e focam, é pelo conjunto que fazem na árvore que são julgadas (e note-se a transformação de uma metáfora noutra, coisa que eu - e quando digo eu... -, como narrador, não o deveria realçar se não fossem estas imagens a melhor e a possível tradução da tempestade que dá pelo nome do nosso anfitrião). A mente, assim, longe da rigidez ou da invariante que se designa por medo do vazio, é uma arena para sistemas de crenças, estruturas relacionais de desejos, um mundo de relações em rede. E este desagregar, interpretado de longe, abstraído dos detalhes neuroquímicos de uma realidade indiferente, é visto por alguns como o eu, a personalidade, o espírito, até (vejam lá a parvoíce) a alma imortal. Um outro exemplo de como tudo é decomponível, sejam conceitos, memórias, máscaras. Ou um corpo.

outubro 24, 2007

Colapso

Há aqueles que, num dado momento, seja pela fortuna ou pelo mérito que os elevou socialmente, perdem um pouco do que, a todos, nos faz pessoas. São os que se vestem, comem, trabalham e falam sem nunca sair dessa máscara social que tanto consideram. Desde juízes, médicos, advogados, catedráticos, deputados, engenheiros, (ex-)ministros, bispos e muitos outros (a sociedade também se estima pelos diferentes tipos de sucesso que sustenta) deixaram de ouvir a metade da humanidade que avaliam como abaixo deles. A vida, a rede social que nos liga, passou a ser a imagem destorcida dessa hierarquia que habitam. Ouvem os que estão acima e falam para os que estão abaixo. O que era (e é) uma via aberta de dois sentidos transforma-se numa complicada burocracia de direcções únicas. Ao destruir esta maioria de laços com a sociedade, perdem o contacto do real fora deles e distanciam-se, lentamente, para um mundo mais pequeno, uma ilha onde exercem a actividade que tanto prezam, satisfazem a ambição que os motiva, concretizam o objectivo que os sufoca. Um arquipélago envernizado na pretensão de excelência, cercado (como todas as ilhas) de um Oceano de banalidade que ignoram, desprezam ou, não raras vezes, temem.

outubro 22, 2007

Epsilon [Conclusão]

[«] A execução de uma mente num computador precisaria de ser uma cópia exacta do processo biológico original? Argumentámos que, devido ao processo de tradução - porque o substrato físico onde se processa a ópera mental é distinto - essa exactidão simbólica/sub-simbólica é impossível. Teremos de falar de aproximação, de simulação (e aqui ocorre a imagem da caixa opaca referida posts atrás). Seria necessário parametrizar o algoritmo mental com valores que se aproximassem do necessário (para satisfazer o código moral da cultura em questão) de modo a que o epsilon de diferença entre o «eu de agora» e o «eu simulado» caísse dentro da tal invariante que a sociedade - e nós próprios - convencionamos ser o «eu». Por exemplo, se o processo cognitivo da simulação (sem receio da palavra) fosse mais próximo de mim, do que eu era quando tinha vinte anos, não seria isso suficiente para afirmar que eu também habitaria o ciberespaço, a partir desse momento uma matriz social preenchida por pessoas digitalizadas (ou, simplesmente, pessoas)?

outubro 17, 2007

O objectivo da vida é dispersar energia

Texto de Scott Sampson [adaptado de http://www.edge.org/q2006/q06_3.html#sampson]

Muitos de nós estamos familiarizados com a 2ª lei de Termodinâmica, a tendência da energia para se dispersar, passando de um estado de maior para um de menor qualidade. Em termos mais gerais, como disse o ecologista Eric Schneider, «a natureza abomina o gradiente», onde gradiente significa apenas uma diferença (de temperatura, de pressão, por exemplo) ao longo de uma distância. Sistemas físicos abertos - onde se incluem a atmosfera, a hidroesfera ou a geoesfera - seguem todos esta lei, sendo levados a dispersar energia, em particular o fluxo de calor, tentando sempre atingir o equilíbrio. Fenómenos como o movimento de placas, os fluxos submarinos ou os furacões são manifestações da 2ª lei.

Há cada vez mais evidência que a vida, a bioesfera, não é diferente. É comum ouvir que a complexidade da vida contraria a 2ª lei (invocando uma divindade ou algum processo natural desconhecido). No entanto, a evolução e a dinâmica dos ecossistemas obedecem à 2ª lei funcionando em grande parte para dissipar energia. Eles não o fazem ardendo rápido e desaparecendo, como um fogo numa floresta, mas através de um fogo lento, de ciclos metabólicos estáveis que guardam energia e continuamente reduzem o gradiente solar (principalmente pela fotossíntese, pelas acção das bactérias e das algas).

Virtualmente todos os organismos, humanos incluídos, são transmutações da luz solar, passagens temporárias desse fluxo energético. A dinâmica ecológica, do ponto de vista termodinâmico, é um processo que maximiza a captura e degradação de energia. De igual forma, a tendência para a vida se tornar mais complexa nos últimos 3500 milhões de anos (bem como o aumento da biomassa e da diversidade dos organismos) não é simplesmente derivada da selecção natural, como muitos evolucionistas argumentam, mas também do «esforço» da natureza de absorver cada vez mais luz solar.

A ecologia tem sido resumida à frase «a energia flui, a matéria recicla-se». Porém, esta máxima aplica-se também aos sistemas complexos no mundo não-vivo; unindo literalmente a biosfera à geoesfera. Cada vez mais se percebe que os sistemas complexos, cíclicos, de matéria tem uma tendência natural para emergir face a gradientes de energia. Este fenómeno recorrente pode ter sido uma das forças motrizes para o inicial surgir da vida.

[...] O conceito da vida como um fluxo energético, uma vez totalmente digerido, é profundo. Como Darwin uniu o Homo Sapiens aos restantes animais, a perspectiva termodinâmica conecta inexoravelmente a vida ao mundo não-vivo. Se assim for, a evolução não é dirigida pelas maquinações de genes egoístas com o intuíto de se propagarem pelos milénios. O que pode ocorrer é a ecologia e a evolução operarem em conjunto como uma forma eficiente e muito persistente de reduzir o gradiente gerado pela estrela mais próxima. A minha opinião é que a teoria da evolução (o processo, não o facto da evolução!) e a biologia no geral, estão a dirigir-se para uma revolução uma vez entendida a noção que os sistemas complexos da terra e da vida não estão só inter-conectados mas também são inter-dependentes nesse constante reciclar de matéria para manter o fluxo de energia.

outubro 16, 2007

outubro 11, 2007

Semelhanças

[«] Será o corpo estratégico para definir a mente (humana)? O corpo como um todo não pode ser. Se perder um braço, uma perna, se me derem um coração ou um fígado artificial, continuo a existir enquanto pessoa, apenas alterado pela experiência da perda (mas isso ocorre, em maior ou menor grau, com qualquer experiência). Não pode ser também um sentido em particular. Os cegos, os surdos, os mudos são pessoas inteiras apesar da sua limitação sensorial. Um ser humano privado de qualquer contacto com o exterior (mesmo Hellen Keller possuía o tacto) dificilmente se poderá tornar uma pessoa pela incapacidade de aprender e sociabilizar, mas isso não diz respeito a um sentido humano em particular. Alguém hipotético cujo único sentido fosse um sonar ou um sensor térmico poderia, em princípio, comunicar e desenvolver-se. Assim, o que fica do corpo, do nosso corpo humano? O cérebro. Por isso arrisco reformular a pergunta em duas versões: (a) Será o cérebro humano estratégico para definir a mente humana? (b) Será o cérebro estratégico para definir uma qualquer mente? À pergunta (a) digo que sim quase por definição (lendo estratégico como necessário). À pergunta (b) digo que não por não parecer razoável sermos a única espécie capaz de possuir uma mente (um especismo que nos apresenta uma hipótese de trabalho demasiado restritiva). Uma implicação disto é que, num computador, não poderia ser executada a dinâmica de uma mente humana. Mas poderia ser executada uma outra mente que se lhe pareça - e voltamos à questão da aproximação.

outubro 08, 2007

Fronteira

A arte é o que fica entre uma leitura do mundo e a sua estupefacção. A arte também é o jogo do talento e do esforço, do horror de quem se olha ao espelho e vê o banal. É luta, um suor provocado, o pouco que permanece dessa espuma que é o passado. E, provavelmente, a arte não é nada disto. O Dr. Spleen, na metade sua que se reconhece artista, está habituado a estas contradições (na verdade, o Dr. Spleen, pela força do tédio decorrido dos dias quentes de Verão onde, por decisão pessoal, se encontra encerrado na rotina dos seus vícios caseiros, mais do que um hábito, é um motivo de satisfação quando se lhe depara uma inconsistência, um paradoxo, um, mesmo que pequeno, reflexo de infinito) e vê nelas a possibilidade de caminhos até aí escondidos e por percorrer. Não tanto (ou ainda) como o explorador que, a cada travessia, já só se revê nos mesmos passos repetidos, procurando nas caras novas apenas os vizinhos que deixou, mas sim como o cirurgião que, conhecendo a totalidade do comum ao corpo humano, se excitasse ao dissecar o resto putrefacto de uma qualquer mutação inédita.

outubro 04, 2007

Retirada Estratégica

É inútil argumentar com os que já passaram a fase de ouvir argumentos. O melhor que se pode fazer numa situação dessas é, não podendo evitá-la, manter a calma e limitar-se a não perder a discussão.

outubro 02, 2007

X is-a Y

[«] Suponha-se um início de trânsito. Travo e paro o carro por ter outros à minha frente a bloquear o percurso. Mas o condutor atrás de mim faz sinais de luzes e gesticula a reclamar da minha acção (descartemos outras possíveis interpretações). Devo supô-lo estúpido? Ou agir com mais cautela e dizer, porque nunca o vi na vida, que agiu estupidamente naquele instante? Quando adjectivamos alguém, ou algo, qual a segurança na afirmação que fazemos? Dizer que X é Y é dizer que X age sempre como um Y? Ou que, dada uma mais ou menos longa lista de observações, se X efectuou (quase) sempre actos que se encaixam em Y, então afirmamos ser X um Y? Seja Y a estupidez. É isto dizer que um sábio (admitindo a sageza o oposto da estupidez) nunca comete actos estúpidos? Pelo menos nos adjectivos que ligamos às pessoas (estupidez, honestidade, obsessão, emotividade...) a catalogação deriva sempre da experiência acumulada sobre os comportamentos do sujeito e não sobre o maior ou menor entendimento da forma como o sujeito funciona internamente, cognitivamente. O nosso passado partilhado consiste, nesta perspectiva, num relatório de acções e reacções contextualizadas que nos cataloga nessa gigantesca lista de traços neutros, vícios e virtudes à qual nos encaixamos para definir, aos outros, «o que somos». Só que não somos 100% Y nem 100% não-Y. Temos dias. E temos uma personalidade, um «eu» resistente a mudanças - um cocktail homeostático de emoções e argumentos, arriscando uma metáfora cibernética - que age em correlação ao ideal Y com que se filtra o olhar. Poderá esta narrativa ajudar(-nos) quando X for uma computação e Y o ser-se consciente?

setembro 28, 2007

C

"Logo que A observa algo que lhe parece errado, e pela qual X sofre, A fala com B e ambos propõem uma lei para remediar o mal e ajudar X. Esta lei determina sempre o que C deve fazer para ajudar X ou, no melhor caso, o que A, B e C devem fazer para ajudar X. O que eu quero é olhar para C. Eu chamo-o o «Homem Esquecido». Ele é aquele que ninguém se preocupa. Ele é a vítima do reformador, do especulador social e do filantropista [...]" William Graham Sumner, 1883.

setembro 27, 2007

Gradiente

O Mundo é de uma complexidade que nenhum modelo poderá capturar todos os detalhes. Compreendemos o suficiente para aproximar o que queremos ao que podemos e, por isso, tentamos o possível das nossas capacidades, não o possível das coisas. Mesmo os corpos que nos carregam são, na maioria, sinfonias de sinais impenetráveis às próprias mentes que lhes dão objectivo. O Dr. Spleen, ao longo dos anos que a sua experiência carrega, sabe quão de dança e combate é cada interacção com o Outro, cada acção levada a cabo, cada gesto começado. Ele antevê nesse bailado um oceano escondido de memórias, de genes e memes que travam e adoptam comportamentos, tendências, desejos. Um pulsar de impulsos, um refrear de instintos, uma guerra interminável entre o querer e o poder. E nesse intervalo entre o humano e o animal, nesse interstício que separa o potencial do actual, uma teia de vontades contrariadas, uma rede de causas frustradas e efeitos detidos. Cada olhar desviado, cada palavra por dizer são momentos perdidos e nesse saber um sempre fluir de suspeitas, que nunca terminam, que apenas mudam de atenção.

setembro 24, 2007

Avaliação

Se as pessoas são órbitas, mudando um pouco, raramente muito, em cada instante, qualquer exame a que as sujeitamos é sempre sobre alguém que, em breve, deixará de existir. A única esperança é que nelas fique um pouco da experiência que as motivou a chegar ali.

setembro 20, 2007

Irreparação

Certas doenças mentais não podem ser sanadas pela abordagem psicanalista porque correspondem a desequilíbrios bioquímicos do cérebro (como a esquizofrenia ou a bipolaridade). Um tratamento psiquiátrico que utiliza um conjunto elaborado de químicos é a resposta actual para este tipo de doença. Esta é uma medida menos agressiva que as lobotomias da metade do século XX mas que, em última análise, parte de um pressuposto semelhante: a destruição da pessoa actual. Na lobotomia haveria a quase impossibilidade de reconstrução de uma outra personalidade humana, algo que os tratamentos actuais previnem. Talvez no futuro a Medicina olhe para os métodos actuais como nós olhamos para os feitos passados. Mas, àparte dos caminhos que se abrem ou das opções que se fecham, a consequência do destruir de uma pessoa mantém-se. Pode-se argumentar que a pessoa anterior era demasiado disfuncional, incapaz de interagir no espectro de comportamentos cunhados de normais pela cultura vigente. Mas essa pessoa, assim desaparecida, provavelmente discordaria do raciocínio.

setembro 17, 2007

What-if stories

[«] Num outro post referi a forte possibilidade do nosso corpo ser estruturante na forma como pensamos. Porém, será ele indissociável da mente que «alberga»? Será possível, por exemplo, fazer download de uma mente humana para um computador? Vamos partir da hipótese (não muito relevante) que chegará um momento em que os recursos computacionais são suficientes para «executar uma mente». Não parece viável extrair a corrente electroquímica do cérebro e passá-la, incólume, a um formato digital. Terá de haver um processo de tradução, e este será um copy-paste, não um cut-paste. Não seria criado um clone (um clone é uma máquina genética duplicada sem a memória original) mas uma imagem mental nossa. Imagem esta que, ao contrário da imagem no espelho, começaria de imediato a divergir. Assim, a partir do instante seguinte, os dois «eus» tornar-se-iam progressivamente diferentes (as diferentes sensações da experiência individual combinadas com o efeito borboleta da teoria do caos fariam, imagino, milagres ao aumento desta distância). Se o original físico se mantivesse seria naturalmente difícil convencê-lo que era agora apenas o resto de um processo de transformação virtual (convicção essa cada mais certa quanto mais tempo decorresse). De igual modo poderia argumentar a cópia virtual sobre a eventual possibilidade de ser «apagada».

setembro 14, 2007

Aritmética

A distância entre a Ética e a Lei é proporcional ao arbitrário do poder pela segunda sustentado. O que define o déspota é o resultado desta subtracção multiplicado pelo número de pessoas que o aceita e suporta.

setembro 10, 2007

Convergências

[«] Os algoritmos são objectos matemáticos e, como uma esfera perfeita ou a raiz de 2, não têm necessariamente de possuir uma existência real. Mas a vida executa uma série de processos bem definidos que podem ser vistos como aproximações da ideia de algoritmo, começando pelo código genético e todo o processo celular até, pelo menos, ao comportamento padronizado dos insectos. Porém, ao contrário da secura do mundo digital, o nosso mundo é demasiado «molhado» para se coadunar à rigidez de programações formais. Por outro lado, há algoritmos que são meta-regras extremamente flexíveis porque baseados em parâmetros que variam com o tempo e com o ambiente, permitindo uma ampla gama de possibilidades funcionais (uma simulação do tempo atmosférico, por exemplo). Como não há almoços grátis, o preço a pagar é a dificuldade de ajustar os valores desses parâmetros, altamente inter-dependendes e todos, se o modelo for económico, relevantes. Faltam-nos as dezenas de milhões de anos de «testes» que a natureza dispôs. Os nossos algoritmos são produtos de engenharia, com uma justificação e uma existência planeada? Sem dúvida, mas no ramo designado por computação evolutiva o processo de ajuste é realizado sem ajuda humana e, nesse sentido, pode originar «algoritmos desconhecidos» com propriedades surpreendentes (i.e., que nos surpreendem). Teremos de colmatar a falta de tempo com o aumento de velocidade computacional para verificar onde esta travessia nos leva.