outubro 08, 2007

Fronteira

A arte é o que fica entre uma leitura do mundo e a sua estupefacção. A arte também é o jogo do talento e do esforço, do horror de quem se olha ao espelho e vê o banal. É luta, um suor provocado, o pouco que permanece dessa espuma que é o passado. E, provavelmente, a arte não é nada disto. O Dr. Spleen, na metade sua que se reconhece artista, está habituado a estas contradições (na verdade, o Dr. Spleen, pela força do tédio decorrido dos dias quentes de Verão onde, por decisão pessoal, se encontra encerrado na rotina dos seus vícios caseiros, mais do que um hábito, é um motivo de satisfação quando se lhe depara uma inconsistência, um paradoxo, um, mesmo que pequeno, reflexo de infinito) e vê nelas a possibilidade de caminhos até aí escondidos e por percorrer. Não tanto (ou ainda) como o explorador que, a cada travessia, já só se revê nos mesmos passos repetidos, procurando nas caras novas apenas os vizinhos que deixou, mas sim como o cirurgião que, conhecendo a totalidade do comum ao corpo humano, se excitasse ao dissecar o resto putrefacto de uma qualquer mutação inédita.

outubro 04, 2007

Retirada Estratégica

É inútil argumentar com os que já passaram a fase de ouvir argumentos. O melhor que se pode fazer numa situação dessas é, não podendo evitá-la, manter a calma e limitar-se a não perder a discussão.

outubro 02, 2007

X is-a Y

[«] Suponha-se um início de trânsito. Travo e paro o carro por ter outros à minha frente a bloquear o percurso. Mas o condutor atrás de mim faz sinais de luzes e gesticula a reclamar da minha acção (descartemos outras possíveis interpretações). Devo supô-lo estúpido? Ou agir com mais cautela e dizer, porque nunca o vi na vida, que agiu estupidamente naquele instante? Quando adjectivamos alguém, ou algo, qual a segurança na afirmação que fazemos? Dizer que X é Y é dizer que X age sempre como um Y? Ou que, dada uma mais ou menos longa lista de observações, se X efectuou (quase) sempre actos que se encaixam em Y, então afirmamos ser X um Y? Seja Y a estupidez. É isto dizer que um sábio (admitindo a sageza o oposto da estupidez) nunca comete actos estúpidos? Pelo menos nos adjectivos que ligamos às pessoas (estupidez, honestidade, obsessão, emotividade...) a catalogação deriva sempre da experiência acumulada sobre os comportamentos do sujeito e não sobre o maior ou menor entendimento da forma como o sujeito funciona internamente, cognitivamente. O nosso passado partilhado consiste, nesta perspectiva, num relatório de acções e reacções contextualizadas que nos cataloga nessa gigantesca lista de traços neutros, vícios e virtudes à qual nos encaixamos para definir, aos outros, «o que somos». Só que não somos 100% Y nem 100% não-Y. Temos dias. E temos uma personalidade, um «eu» resistente a mudanças - um cocktail homeostático de emoções e argumentos, arriscando uma metáfora cibernética - que age em correlação ao ideal Y com que se filtra o olhar. Poderá esta narrativa ajudar(-nos) quando X for uma computação e Y o ser-se consciente?

setembro 28, 2007

C

"Logo que A observa algo que lhe parece errado, e pela qual X sofre, A fala com B e ambos propõem uma lei para remediar o mal e ajudar X. Esta lei determina sempre o que C deve fazer para ajudar X ou, no melhor caso, o que A, B e C devem fazer para ajudar X. O que eu quero é olhar para C. Eu chamo-o o «Homem Esquecido». Ele é aquele que ninguém se preocupa. Ele é a vítima do reformador, do especulador social e do filantropista [...]" William Graham Sumner, 1883.

setembro 27, 2007

Gradiente

O Mundo é de uma complexidade que nenhum modelo poderá capturar todos os detalhes. Compreendemos o suficiente para aproximar o que queremos ao que podemos e, por isso, tentamos o possível das nossas capacidades, não o possível das coisas. Mesmo os corpos que nos carregam são, na maioria, sinfonias de sinais impenetráveis às próprias mentes que lhes dão objectivo. O Dr. Spleen, ao longo dos anos que a sua experiência carrega, sabe quão de dança e combate é cada interacção com o Outro, cada acção levada a cabo, cada gesto começado. Ele antevê nesse bailado um oceano escondido de memórias, de genes e memes que travam e adoptam comportamentos, tendências, desejos. Um pulsar de impulsos, um refrear de instintos, uma guerra interminável entre o querer e o poder. E nesse intervalo entre o humano e o animal, nesse interstício que separa o potencial do actual, uma teia de vontades contrariadas, uma rede de causas frustradas e efeitos detidos. Cada olhar desviado, cada palavra por dizer são momentos perdidos e nesse saber um sempre fluir de suspeitas, que nunca terminam, que apenas mudam de atenção.

setembro 24, 2007

Avaliação

Se as pessoas são órbitas, mudando um pouco, raramente muito, em cada instante, qualquer exame a que as sujeitamos é sempre sobre alguém que, em breve, deixará de existir. A única esperança é que nelas fique um pouco da experiência que as motivou a chegar ali.

setembro 20, 2007

Irreparação

Certas doenças mentais não podem ser sanadas pela abordagem psicanalista porque correspondem a desequilíbrios bioquímicos do cérebro (como a esquizofrenia ou a bipolaridade). Um tratamento psiquiátrico que utiliza um conjunto elaborado de químicos é a resposta actual para este tipo de doença. Esta é uma medida menos agressiva que as lobotomias da metade do século XX mas que, em última análise, parte de um pressuposto semelhante: a destruição da pessoa actual. Na lobotomia haveria a quase impossibilidade de reconstrução de uma outra personalidade humana, algo que os tratamentos actuais previnem. Talvez no futuro a Medicina olhe para os métodos actuais como nós olhamos para os feitos passados. Mas, àparte dos caminhos que se abrem ou das opções que se fecham, a consequência do destruir de uma pessoa mantém-se. Pode-se argumentar que a pessoa anterior era demasiado disfuncional, incapaz de interagir no espectro de comportamentos cunhados de normais pela cultura vigente. Mas essa pessoa, assim desaparecida, provavelmente discordaria do raciocínio.

setembro 17, 2007

What-if stories

[«] Num outro post referi a forte possibilidade do nosso corpo ser estruturante na forma como pensamos. Porém, será ele indissociável da mente que «alberga»? Será possível, por exemplo, fazer download de uma mente humana para um computador? Vamos partir da hipótese (não muito relevante) que chegará um momento em que os recursos computacionais são suficientes para «executar uma mente». Não parece viável extrair a corrente electroquímica do cérebro e passá-la, incólume, a um formato digital. Terá de haver um processo de tradução, e este será um copy-paste, não um cut-paste. Não seria criado um clone (um clone é uma máquina genética duplicada sem a memória original) mas uma imagem mental nossa. Imagem esta que, ao contrário da imagem no espelho, começaria de imediato a divergir. Assim, a partir do instante seguinte, os dois «eus» tornar-se-iam progressivamente diferentes (as diferentes sensações da experiência individual combinadas com o efeito borboleta da teoria do caos fariam, imagino, milagres ao aumento desta distância). Se o original físico se mantivesse seria naturalmente difícil convencê-lo que era agora apenas o resto de um processo de transformação virtual (convicção essa cada mais certa quanto mais tempo decorresse). De igual modo poderia argumentar a cópia virtual sobre a eventual possibilidade de ser «apagada».

setembro 14, 2007

Aritmética

A distância entre a Ética e a Lei é proporcional ao arbitrário do poder pela segunda sustentado. O que define o déspota é o resultado desta subtracção multiplicado pelo número de pessoas que o aceita e suporta.

setembro 10, 2007

Convergências

[«] Os algoritmos são objectos matemáticos e, como uma esfera perfeita ou a raiz de 2, não têm necessariamente de possuir uma existência real. Mas a vida executa uma série de processos bem definidos que podem ser vistos como aproximações da ideia de algoritmo, começando pelo código genético e todo o processo celular até, pelo menos, ao comportamento padronizado dos insectos. Porém, ao contrário da secura do mundo digital, o nosso mundo é demasiado «molhado» para se coadunar à rigidez de programações formais. Por outro lado, há algoritmos que são meta-regras extremamente flexíveis porque baseados em parâmetros que variam com o tempo e com o ambiente, permitindo uma ampla gama de possibilidades funcionais (uma simulação do tempo atmosférico, por exemplo). Como não há almoços grátis, o preço a pagar é a dificuldade de ajustar os valores desses parâmetros, altamente inter-dependendes e todos, se o modelo for económico, relevantes. Faltam-nos as dezenas de milhões de anos de «testes» que a natureza dispôs. Os nossos algoritmos são produtos de engenharia, com uma justificação e uma existência planeada? Sem dúvida, mas no ramo designado por computação evolutiva o processo de ajuste é realizado sem ajuda humana e, nesse sentido, pode originar «algoritmos desconhecidos» com propriedades surpreendentes (i.e., que nos surpreendem). Teremos de colmatar a falta de tempo com o aumento de velocidade computacional para verificar onde esta travessia nos leva.

setembro 03, 2007

setembro 01, 2007

Perda

Podemos dizer que hoje tudo o que sabemos está errado? Estariam as civilizações antigas, do Crescente Fértil, da China, da Grécia, totalmente equivocadas? Será lícito pensar que dirão o mesmo de nós daqui a vinte séculos? Não creio. Por exemplo, a Matemática Egípcia e Babilónica não se invalidou com os anos. As perguntas da Filosofia Grega mantêm a sua pertinência. A Engenharia elabora ainda sobre as formas básicas das construções da Antiguidade. Diria antes que a utilidade de muitas respostas antigas caducou. Porque as pessoas, como as culturas, são trajectórias, o mundo social onde vivemos muda, altera-se. E com a mudança, muita da tradição e do conhecimento torna-se arcaico, incapaz de responder às exigências dos novos tempos. No ano 4000, muitas das ferramentas que usamos não perderão o tanto de verdade que ainda reservam, apenas deixarão de ser relevantes. Não olhamos com deslumbramento para uma estátua a pensar no pó que, um dia, o Futuro lhe reserva.

julho 21, 2007

Quatro anos de Ruminações

Via Hubble, duas galáxias a interagir sob a lei da gravidade, trocando, envolvendo nesse bailado cósmico centenas de milhões de estrelas. Um canto no Cosmos.

[este blog volta em Setembro]

julho 19, 2007

Inversos

Mais que a Religião em si, a noção de Fé é a inversa da noção de Ciência. Um cientista não tem, ou não deveria ter, fé numa dada teoria científica. Consoante o conjunto de evidências que existem em favor dessa teoria, um cientista confia na sua validade (por temporária que seja) e, por isso, trabalha com o modelo subjacente. A Fé, pelo contrário, é considerada tanto maior quanto mais ela for contra a evidência dos factos ou da lógica. Em sentido absoluto, toda a Fé é verdadeira, nenhuma Ciência o é.

julho 17, 2007

Uma Experiência Computacional

[«] No decorrer da minha investigação (sem qualquer componente biológica ou neurológica mas apenas computacional) encontrei uma forma de executar computação simbólica sobre um certo modelo de redes neuronais artificiais. Ou seja, a partir de um algoritmo especificado tradicionalmente numa linguagem de programação, existe uma rede neuronal capaz de executar, dado os argumentos iniciais, a computação correspondente. Houve aqui a necessidade de lidar - e resolver - um dilema: a maioria dos algoritmos são descritos num formato sequencial (faz A, depois faz B, se C é verdade volta a A...) enquanto uma rede neuronal é uma estrutura massivamente paralela (todos os neurónios executam ao mesmo tempo). Como conciliar estes dois paradigmas tão díspares? Para resolver esta questão estabeleci módulos relativamente autónomos, capazes de comunicar por canais bem definidos e cuja execução era controlada por um mecanismo de sincronização. Ou seja, os módulos restringiam o potencial do modelo da rede para que exibissem a propriedade de poder executar algoritmos simbólicos (i.e., onde o fluxo da informação e a memória usada possuem uma atribuição semântica bem definida). Assim, sobre o substrato neuronal cuja flexibilidade computacional é imensa, passou a ser executado uma máquina virtual, mais restrita, mas com a vantagem de poder executar tarefas bem definidas, sequenciais ou com um paralelismo controlado, e especificadas por terceiros. Dito isto, confesso a minha vontade de reflectir esta experiência nos problemas aqui referidos sobre a distinção cérebro-mente. Esta abordagem do trabalho não foi influenciada pelo modelo modular que actualmente atribuímos ao cérebro. Mas, do ponto de vista da engenharia, é uma solução natural que surge múltiplas vezes: dividir para controlar, comunicar por relativamente poucos canais e manter o «módulo» o mais opaco possível aos outros módulos. Como o resto, esta é uma abordagem a um modelo que talvez imite a solução encontrada pela Evolução para este ramo específico da vida na Terra. Como alguns cientistas cognitivos dizem: Reverse engineering the brain to engineer the mind.

julho 12, 2007

Galáxias e Computação Humana

A computação descentralizada é uma das consequências naturais na internet. Projectos como o SETI@Home e a procura de primos de Mersenne são dois exemplos que usam o tempo livre de milhões de computadores de voluntários num esforço massivo de computação. No entanto, há uma outra possibilidade de computação distribuída: a computação humana. Basicamente, a computação humana é a utilização do nosso próprio tempo livre para ajudar um determinado projecto.

Li, no Bad Astronomy, sobre um dos últimos projectos deste tipo: o Galaxy Zoo. O Galaxy Zoo é um esforço colectivo para classificar milhões de novas galáxias que os telescópios encontram a uma velocidade maior que os astronomos profissionais conseguem processar. O olho e a mente humana, mesmo de não astronomos, consegue ser melhor que os melhores programas de reconhecimento de padrões visuais. Quem quiser participar, basta entrar no website, inscrever-se, passar por um pequeno teste e começar a observação de galáxias provavelmente nunca antes vistas por seres humanos.

Deixo aqui três imagens que «descobri» após classificar umas cem galaxias:



julho 09, 2007

Limites III

[«] A segunda possibilidade de debater os limites superiores da cognição refere-se ao advento da Inteligência Artificial. Esta situação é considerada por muitos como impossível, mas pode mesmo assim ocorrer nas próximas décadas (e há mais hipóteses para além do Blade Runner de Dick/Scott ou do HAL de Clarke/Kubrick). Dificilmente haverá um momento que marque o nascimento das primeiras mentes artificiais. Haverá - se formos capazes de o fazer - uma gradação suave no aumento de capacidades algorítmicas (por exemplo, tão inteligente como uma mosca, um lagarto, um rato, um macaco...). Há argumentos que desconfiam das capacidades da computação formal. Há aqueles - como Roger Penrose - que estipulam à mente a existência necessária de fenómenos físicos não simuláveis (e que têm caído sobre a força de contra-argumentação convincente - mas nunca será cedo para se estar confiante no resultado de um qualquer processo dialético). Outros - creio que John Searle se incluiria neste grupo - que não aceitam que uma sequência bem definida de passos simbólicos possa resultar nas aparentes (e este aparente é meu) capacidades de intuição e imaginação humana que somos capazes de produzir com relativa facilidade. Para além da questão da aproximação que referi antes e à qual voltaremos brevemente, tento pensar neste problema da seguinte forma: o que me garante que o «Outro» é consciente, racional, enfim, uma pessoa (usando pessoa com o significado que os detractores da IA (p)referem, i.e., com um algo mais quase dualista que não se encontra nem simula)? Não será esse outro o resultado de um qualquer «algoritmo molhado», um dos evento s emergentes da interacção complexa entre biliões de neurónios e correntes eléctricas? Para todos os efeitos, também não tenho acesso nem conhecimento aos meus processos cognitivos. Quem garante que eu seja uma dessas pessoas? Não podemos esperar a compreensão dos actos cognitivos pela Ciência para nos considerarmos e agirmos e tomarmos juízos enquanto agentes morais, políticos, etc. Isto significa que, de certo modo, confiamos no comportamento complexo que exibimos diariamente para classificar como especial as nossas capacidades. Vêmo-nos como caixas pretas ou quase (se levarmos em conta os resultados conseguidos pela psicologia ou pela neurologia, só para dar dois exemplos). Porque pressupor um modelo mais rígido que este para analisar o comportamento de um programa?

julho 04, 2007

Limites II

[«] Quanto ao limite superior. Há, pelo menos, duas situações futuras, ambas hipotéticas, onde esta questão terá eventualmente de ser levantada. Uma é o contacto ou recepção de sinais de uma civilização extraterrestre. Como defender a unicidade do pensar no Homo Sapiens? Poderíamos, e como argumento de recurso, defender a especificidade do nosso pensar. Mas não seria isso a frágil defesa de um antropocentrismo latente? Podemos defender a especificidade do pensar ocidental, europeu, português, lisboeta ou benfiquista. Cada mistura que somos vê, objectivamente, o mundo de forma diferente. Mais, cada um de nós é uma órbita que muda ao longo dos anos, havendo, se tanto, uma ténue invariante a que nos acostumamos chamar de 'eu' (uma comparação talvez apropriada ocorre com o corpo, onde a percentagem de células que tínhamos no momento do nascimento e que ainda mantemos é zero por cento, ou quase). Mas essa diferença não se compara com o que partilhamos no que toca à cognição em si. Podem a maioria das diferenças sobreviver a uma análise que separe o necessário do contingente no acto de pensar? E encontrando esse conjunto em comum (como? boa pergunta), ele não seria sinónimo da nossa espécie. Existe uma diferença entre ser Homo Sapiens e ser uma pessoa. Ser uma pessoa não necessita, à priori, de um corpo humano (como não necessitava, antes, de se ser homem, cidadão da pólis, branco, cristão ou literato) e este especismo latente, se hoje ainda não é urgente para a maioria, teria de ser abordado num destes hipotéticos futuros. Falaremos a seguir da segunda possibilidade.

julho 02, 2007

Contrato

Como o corpo admite o domínio da mente? O corpo é uma legião de processos paralelos, simbioticamente ligados numa eficiência a roçar o milagre. A mente é um soluçar sequencial originário do discurso de várias máscaras contraditórias e que controla o enorme paralelismo neuronal de um cérebro humano. Como foi possível, no início, esta ocupação? Agora, imersos os corpos neste caldo de ideias, normas e hábitos, esta mistura de racionalidade e superstição, nesta tirania das pessoas, o animal aqui dentro, asfixiado numa elaborada burocracia de restrições, projectado num ápice evolutivo das savanas para a matriz, é apenas um mal necessário, um eco de um compromisso que ainda e só é útil por manifesta falta de melhor opção.

junho 28, 2007

Limitação

A ética é, como muitas outras actividades, um exercício sobre recursos limitados.

junho 25, 2007

Mindware

[«] "É a mente um programa?" Um programa, no sentido formal (que é uma chatice técnica mas que tenho de usar) é uma notação que especifica um algoritmo. Quando um programa é executado, ele produz uma computação (i.e., uma sequência de estados) que, caso termine e esteja correcto, calcula o valor da função associada ao algoritmo em questão. Logo, a pergunta inicial seria traduzida no seguinte jargão científico: "É a mente a computação resultante da execução de um programa?". Não sei. Ninguém sabe. Entramos no domínio da crença e dos desejos e não sei como sair de lá. Mas há uma pergunta vizinha, muito mais operacional e muito mais fácil de responder: "Será possível que exista um algoritmo que, quando executado, aproxime a sua computação ao comportamento de uma mente humana?". A resposta é sim (por muito tosco e limitado que seja este sim, ele já existe hoje em dia). A próxima pergunta poderia ser: "Essa aproximação pode ser tal que seja aceite, pela cultura vigente, como sinónimo de pessoa?". Esta pergunta tem, se houver capacidade de chegarmos ao ponto em que ela se torne pertinente (e hoje em dia, obviamente, não é), de encontrar respostas mais no domínio do social, legal e político que no do matemático e científico.

junho 21, 2007

Soma nula

O presidente da produtora pornográfica estava a ser espancado por Dabila e Kong júnior numa peculiar sala espelhada (Kong sénior encontrava-se no exame de Filosofia de acesso à Universidade, não para entrar num curso, mas para sentir nos outros - a sugestão do Dr. Spleen - o contraste entre a tensão fluída das respostas e a calma frígida das perguntas). O reflexos, os reflexos desses reflexos e a iteração permanente dos espelhos, multiplicavam ao limite do infinito a referida cena. A isto responde Spleen com um pensamento sobre a pertinência da moral num Universo infinito. Qualquer evento, com probabilidade maior que zero de ocorrer, num Espaço-Tempo não finito, é certo que aconteça. Assim, todas as combinações do planeta Terra são admissíveis e terão ocorrido, ocorrem ou irão ocorrer vezes sem conta. Mais que um Eterno Retorno, são todos os Mundos Possíveis a conviver juntos na mesma realidade. Se tudo existe de que serve uma acção moral? Boa ou má nunca impedirá globalmente o seu contrário. A soma de positivos e negativos (mesmo assumindo uma contabilidade comum que nos partilhe) será nula e qualquer evento por nós reproduzido contribuirá apenas um infinitésimo num somatório infinito, um testemunho à nossa acção não tomada, incapaz de alterar o rumo dessa tal balança que desejamos acreditar.

junho 19, 2007

Saturno

[via Arte da Fuga, via NASA]

Saturno no seu esplendor gelado com os anéis perpendiculares à sonda Cassini. Observa-se, entre os anéis, uma lua pastora que provoca, em parte, a estrutura actual dos anéis.

junho 18, 2007

Distância

É o argumentar uma negociação? Diz-se que num bom negócio ambas as partes ganham com isso. Mas regatear um argumento? Como se concede, em geral, uma parte do que acreditamos para aproximar distâncias? Como se garante, no fim, que ainda se fala e se defende a mesma coisa?

junho 14, 2007

Narrativas

[«] Não ficaria muito surpreendido que um computador, como os que conhecemos hoje em dia, fosse incapaz de executar um programa equivalente a uma mente humana (apesar de não ver como se possa demonstrar uma afirmação destas). Até agora a comunidade científica da IA tem falhado nesse objectivo: os passos dados parecem ser demasiado pequenos há demasiado tempo. Explicar a mente com uma teoria não construtiva, para este efeito, também de pouco serve: as narrativas usadas não fornecem meios para replicar o que se tenta explicar. Que Dennet refira a consciência como uma dinâmica organizada sobre a sequencialização tardia de um cérebro muito antigo e massivamente paralelo, tem um cunho de razoabilidade (falarei mais disto nos posts seguintes) mas dificilmente serve de base na criação de um «computador pensante». Muitas outras metáforas da literatura sofrem do mesmo problema. O ponto que quero deixar (por enquanto) no ar é que talvez não haja necessidade dessa equivalência para termos uma ferramenta a que, largando razoavelmente alguns preconceitos, não possamos chamar de consciente.

junho 11, 2007

Submissão temporária

Quando entramos no âmago de um qualquer assunto, é comum termos de procurar o tipo de regras que o definem. Existem-nas descritivas, i.e., que explicam como as coisas são, há-as normativas, que procuram estabelecer como as coisas devem ser. Nesse momento de decisão, demasiadas vezes, entra o humano que nos carrega, um orgulho nunca subtil de impor vontades externas ao interno das coisas, como um sinal informando a nossa irreversível chegada. É díficil pretender explicar apenas. Como justificar esse esforço, como observar os recursos gastos na demanda de respostas se estas não nos derem novos meios, não para obter mais perguntas (apesar desta desculpa satisfazer essa contabilidade moral que é a consciência) mas para afirmar um domínio sobre as restantes causas do mundo? Só que há momentos que não se legislam, acções que não se formatam em normas, órbitas que não se decretam. O Dr. Spleen compreende que de tempos em tempos o melhor a fazer é não fazer nada excepto baixar a cabeça para deixar passar o antigo e indomável Oceano que é tudo o resto.

junho 07, 2007

Limites I

[«] Na distinção cérebro-mente há um assunto relevante associado aos limites. Tanto no limite inferior (qual o mínimo necessário para ser-se capaz de pensar) como no superior (haverá algo para além de nós?) encontram-se questões pertinentes.

Na parte inferior há dados experimentais importantes que indicam uma admirável versatibilidade em parte do restante reino animal. Os primatas, e talvez os cetáceos bem como outros mamíferos, possuem a noção do individuo, têm memória de curto e médio prazo, estabelecem entre si hierarquias sociais relativamente elaboradas, são capazes de planeamento e reconhecem como diferentes o presente e o futuro, aprendem conceitos abstractos, coexistem em culturas próprias que mantêm informação a qual obriga a uma fase de integração pós-natal ( i.e., coabitam com informação comportamental não impressa geneticamente). O admitir deste conhecimento (porque não nos basta saber, é preciso entranhar esta informação) pode-nos levar até a juízos éticos sobre a nossa responsabilidade perante estes inesperados indivíduos. O limite inferior, não sendo uma linha divisória objectiva - estas fronteiras serão sempre difusas, reflexos flutuantes das definições da moda - aponta para uma gradação quantitativa do processo cognitivo. Não consigo aceitar facilmente uma qualquer diferença de qualidade no cérebro do Homem, excepto, talvez, se isso se referir à mudança de fase que ocorreu pela disponibilidade (e perdoem-me a metáfora) de poder computacional no nosso cérebro e que nos permitiu aproveitar e aperfeiçoar, entre outras coisas, a extraordinária ferramenta que é a linguagem humana.

junho 05, 2007

Complicações

Considerar que um sistema é o melhor por falta de alternativas (Democracia, o Estado, ...) é suficiente para que haja um dever moral em o defender?

junho 04, 2007

Paciência

A distância da realidade da nossa compreensão da realidade vai diminuindo com os séculos. Dizem. Dizem também que essa compreensão descrita por modelos aprovados em controle de qualidade - falsificáveis, matematizáveis - são o cerne e alma da Ciência. No entanto este também é um modelo com a sua separação quilométrica da realidade. A tradição, a autoridade e preconceito de peritos e academias, o viscoso da ciência normal, evitam muitos vezes melhores visões cujo defeito é chegarem cedo demais. Isto seria algo que o cientista, detentor de variados prémios e bolsas sobre a abstracção da dor que agora subjaz (subjaz é uma palavra que ao Dr. Spleen lhe agrada e eu, como narrador relativamente isento destes textos, não encontro motivo para não utilizar), imóvel, em pânico, no chão gelado e estéril do laboratório, concordaria. Apesar de anos em defesa do carácter virtual da propagação da dor, da demonstração (que lhe valeu até o entusiasmo erótico de uma sua, na altura, nova assistente eslava, mas enfim divago) que a dor é apenas um conjunto cifrado de informação eléctrica passível de múltiplas interpretações dentro da multidão neuronal de cada cérebro, vê-se agora confrontado com o facto da sua mão já se encontrar na caixa do correio e não conseguir traduzir o que o seu corpo lhe informa com eficiência numa, outra, mensagem mais serena.

junho 01, 2007

Separação

Para deixar claro a distinção entre meio e código, escrevia em Morse nos chats e enviava PDFs por telégrafo.