julho 12, 2007

Galáxias e Computação Humana

A computação descentralizada é uma das consequências naturais na internet. Projectos como o SETI@Home e a procura de primos de Mersenne são dois exemplos que usam o tempo livre de milhões de computadores de voluntários num esforço massivo de computação. No entanto, há uma outra possibilidade de computação distribuída: a computação humana. Basicamente, a computação humana é a utilização do nosso próprio tempo livre para ajudar um determinado projecto.

Li, no Bad Astronomy, sobre um dos últimos projectos deste tipo: o Galaxy Zoo. O Galaxy Zoo é um esforço colectivo para classificar milhões de novas galáxias que os telescópios encontram a uma velocidade maior que os astronomos profissionais conseguem processar. O olho e a mente humana, mesmo de não astronomos, consegue ser melhor que os melhores programas de reconhecimento de padrões visuais. Quem quiser participar, basta entrar no website, inscrever-se, passar por um pequeno teste e começar a observação de galáxias provavelmente nunca antes vistas por seres humanos.

Deixo aqui três imagens que «descobri» após classificar umas cem galaxias:



julho 09, 2007

Limites III

[«] A segunda possibilidade de debater os limites superiores da cognição refere-se ao advento da Inteligência Artificial. Esta situação é considerada por muitos como impossível, mas pode mesmo assim ocorrer nas próximas décadas (e há mais hipóteses para além do Blade Runner de Dick/Scott ou do HAL de Clarke/Kubrick). Dificilmente haverá um momento que marque o nascimento das primeiras mentes artificiais. Haverá - se formos capazes de o fazer - uma gradação suave no aumento de capacidades algorítmicas (por exemplo, tão inteligente como uma mosca, um lagarto, um rato, um macaco...). Há argumentos que desconfiam das capacidades da computação formal. Há aqueles - como Roger Penrose - que estipulam à mente a existência necessária de fenómenos físicos não simuláveis (e que têm caído sobre a força de contra-argumentação convincente - mas nunca será cedo para se estar confiante no resultado de um qualquer processo dialético). Outros - creio que John Searle se incluiria neste grupo - que não aceitam que uma sequência bem definida de passos simbólicos possa resultar nas aparentes (e este aparente é meu) capacidades de intuição e imaginação humana que somos capazes de produzir com relativa facilidade. Para além da questão da aproximação que referi antes e à qual voltaremos brevemente, tento pensar neste problema da seguinte forma: o que me garante que o «Outro» é consciente, racional, enfim, uma pessoa (usando pessoa com o significado que os detractores da IA (p)referem, i.e., com um algo mais quase dualista que não se encontra nem simula)? Não será esse outro o resultado de um qualquer «algoritmo molhado», um dos evento s emergentes da interacção complexa entre biliões de neurónios e correntes eléctricas? Para todos os efeitos, também não tenho acesso nem conhecimento aos meus processos cognitivos. Quem garante que eu seja uma dessas pessoas? Não podemos esperar a compreensão dos actos cognitivos pela Ciência para nos considerarmos e agirmos e tomarmos juízos enquanto agentes morais, políticos, etc. Isto significa que, de certo modo, confiamos no comportamento complexo que exibimos diariamente para classificar como especial as nossas capacidades. Vêmo-nos como caixas pretas ou quase (se levarmos em conta os resultados conseguidos pela psicologia ou pela neurologia, só para dar dois exemplos). Porque pressupor um modelo mais rígido que este para analisar o comportamento de um programa?

julho 04, 2007

Limites II

[«] Quanto ao limite superior. Há, pelo menos, duas situações futuras, ambas hipotéticas, onde esta questão terá eventualmente de ser levantada. Uma é o contacto ou recepção de sinais de uma civilização extraterrestre. Como defender a unicidade do pensar no Homo Sapiens? Poderíamos, e como argumento de recurso, defender a especificidade do nosso pensar. Mas não seria isso a frágil defesa de um antropocentrismo latente? Podemos defender a especificidade do pensar ocidental, europeu, português, lisboeta ou benfiquista. Cada mistura que somos vê, objectivamente, o mundo de forma diferente. Mais, cada um de nós é uma órbita que muda ao longo dos anos, havendo, se tanto, uma ténue invariante a que nos acostumamos chamar de 'eu' (uma comparação talvez apropriada ocorre com o corpo, onde a percentagem de células que tínhamos no momento do nascimento e que ainda mantemos é zero por cento, ou quase). Mas essa diferença não se compara com o que partilhamos no que toca à cognição em si. Podem a maioria das diferenças sobreviver a uma análise que separe o necessário do contingente no acto de pensar? E encontrando esse conjunto em comum (como? boa pergunta), ele não seria sinónimo da nossa espécie. Existe uma diferença entre ser Homo Sapiens e ser uma pessoa. Ser uma pessoa não necessita, à priori, de um corpo humano (como não necessitava, antes, de se ser homem, cidadão da pólis, branco, cristão ou literato) e este especismo latente, se hoje ainda não é urgente para a maioria, teria de ser abordado num destes hipotéticos futuros. Falaremos a seguir da segunda possibilidade.

julho 02, 2007

Contrato

Como o corpo admite o domínio da mente? O corpo é uma legião de processos paralelos, simbioticamente ligados numa eficiência a roçar o milagre. A mente é um soluçar sequencial originário do discurso de várias máscaras contraditórias e que controla o enorme paralelismo neuronal de um cérebro humano. Como foi possível, no início, esta ocupação? Agora, imersos os corpos neste caldo de ideias, normas e hábitos, esta mistura de racionalidade e superstição, nesta tirania das pessoas, o animal aqui dentro, asfixiado numa elaborada burocracia de restrições, projectado num ápice evolutivo das savanas para a matriz, é apenas um mal necessário, um eco de um compromisso que ainda e só é útil por manifesta falta de melhor opção.

junho 28, 2007

Limitação

A ética é, como muitas outras actividades, um exercício sobre recursos limitados.

junho 25, 2007

Mindware

[«] "É a mente um programa?" Um programa, no sentido formal (que é uma chatice técnica mas que tenho de usar) é uma notação que especifica um algoritmo. Quando um programa é executado, ele produz uma computação (i.e., uma sequência de estados) que, caso termine e esteja correcto, calcula o valor da função associada ao algoritmo em questão. Logo, a pergunta inicial seria traduzida no seguinte jargão científico: "É a mente a computação resultante da execução de um programa?". Não sei. Ninguém sabe. Entramos no domínio da crença e dos desejos e não sei como sair de lá. Mas há uma pergunta vizinha, muito mais operacional e muito mais fácil de responder: "Será possível que exista um algoritmo que, quando executado, aproxime a sua computação ao comportamento de uma mente humana?". A resposta é sim (por muito tosco e limitado que seja este sim, ele já existe hoje em dia). A próxima pergunta poderia ser: "Essa aproximação pode ser tal que seja aceite, pela cultura vigente, como sinónimo de pessoa?". Esta pergunta tem, se houver capacidade de chegarmos ao ponto em que ela se torne pertinente (e hoje em dia, obviamente, não é), de encontrar respostas mais no domínio do social, legal e político que no do matemático e científico.

junho 21, 2007

Soma nula

O presidente da produtora pornográfica estava a ser espancado por Dabila e Kong júnior numa peculiar sala espelhada (Kong sénior encontrava-se no exame de Filosofia de acesso à Universidade, não para entrar num curso, mas para sentir nos outros - a sugestão do Dr. Spleen - o contraste entre a tensão fluída das respostas e a calma frígida das perguntas). O reflexos, os reflexos desses reflexos e a iteração permanente dos espelhos, multiplicavam ao limite do infinito a referida cena. A isto responde Spleen com um pensamento sobre a pertinência da moral num Universo infinito. Qualquer evento, com probabilidade maior que zero de ocorrer, num Espaço-Tempo não finito, é certo que aconteça. Assim, todas as combinações do planeta Terra são admissíveis e terão ocorrido, ocorrem ou irão ocorrer vezes sem conta. Mais que um Eterno Retorno, são todos os Mundos Possíveis a conviver juntos na mesma realidade. Se tudo existe de que serve uma acção moral? Boa ou má nunca impedirá globalmente o seu contrário. A soma de positivos e negativos (mesmo assumindo uma contabilidade comum que nos partilhe) será nula e qualquer evento por nós reproduzido contribuirá apenas um infinitésimo num somatório infinito, um testemunho à nossa acção não tomada, incapaz de alterar o rumo dessa tal balança que desejamos acreditar.

junho 19, 2007

Saturno

[via Arte da Fuga, via NASA]

Saturno no seu esplendor gelado com os anéis perpendiculares à sonda Cassini. Observa-se, entre os anéis, uma lua pastora que provoca, em parte, a estrutura actual dos anéis.

junho 18, 2007

Distância

É o argumentar uma negociação? Diz-se que num bom negócio ambas as partes ganham com isso. Mas regatear um argumento? Como se concede, em geral, uma parte do que acreditamos para aproximar distâncias? Como se garante, no fim, que ainda se fala e se defende a mesma coisa?

junho 14, 2007

Narrativas

[«] Não ficaria muito surpreendido que um computador, como os que conhecemos hoje em dia, fosse incapaz de executar um programa equivalente a uma mente humana (apesar de não ver como se possa demonstrar uma afirmação destas). Até agora a comunidade científica da IA tem falhado nesse objectivo: os passos dados parecem ser demasiado pequenos há demasiado tempo. Explicar a mente com uma teoria não construtiva, para este efeito, também de pouco serve: as narrativas usadas não fornecem meios para replicar o que se tenta explicar. Que Dennet refira a consciência como uma dinâmica organizada sobre a sequencialização tardia de um cérebro muito antigo e massivamente paralelo, tem um cunho de razoabilidade (falarei mais disto nos posts seguintes) mas dificilmente serve de base na criação de um «computador pensante». Muitas outras metáforas da literatura sofrem do mesmo problema. O ponto que quero deixar (por enquanto) no ar é que talvez não haja necessidade dessa equivalência para termos uma ferramenta a que, largando razoavelmente alguns preconceitos, não possamos chamar de consciente.

junho 11, 2007

Submissão temporária

Quando entramos no âmago de um qualquer assunto, é comum termos de procurar o tipo de regras que o definem. Existem-nas descritivas, i.e., que explicam como as coisas são, há-as normativas, que procuram estabelecer como as coisas devem ser. Nesse momento de decisão, demasiadas vezes, entra o humano que nos carrega, um orgulho nunca subtil de impor vontades externas ao interno das coisas, como um sinal informando a nossa irreversível chegada. É díficil pretender explicar apenas. Como justificar esse esforço, como observar os recursos gastos na demanda de respostas se estas não nos derem novos meios, não para obter mais perguntas (apesar desta desculpa satisfazer essa contabilidade moral que é a consciência) mas para afirmar um domínio sobre as restantes causas do mundo? Só que há momentos que não se legislam, acções que não se formatam em normas, órbitas que não se decretam. O Dr. Spleen compreende que de tempos em tempos o melhor a fazer é não fazer nada excepto baixar a cabeça para deixar passar o antigo e indomável Oceano que é tudo o resto.

junho 07, 2007

Limites I

[«] Na distinção cérebro-mente há um assunto relevante associado aos limites. Tanto no limite inferior (qual o mínimo necessário para ser-se capaz de pensar) como no superior (haverá algo para além de nós?) encontram-se questões pertinentes.

Na parte inferior há dados experimentais importantes que indicam uma admirável versatibilidade em parte do restante reino animal. Os primatas, e talvez os cetáceos bem como outros mamíferos, possuem a noção do individuo, têm memória de curto e médio prazo, estabelecem entre si hierarquias sociais relativamente elaboradas, são capazes de planeamento e reconhecem como diferentes o presente e o futuro, aprendem conceitos abstractos, coexistem em culturas próprias que mantêm informação a qual obriga a uma fase de integração pós-natal ( i.e., coabitam com informação comportamental não impressa geneticamente). O admitir deste conhecimento (porque não nos basta saber, é preciso entranhar esta informação) pode-nos levar até a juízos éticos sobre a nossa responsabilidade perante estes inesperados indivíduos. O limite inferior, não sendo uma linha divisória objectiva - estas fronteiras serão sempre difusas, reflexos flutuantes das definições da moda - aponta para uma gradação quantitativa do processo cognitivo. Não consigo aceitar facilmente uma qualquer diferença de qualidade no cérebro do Homem, excepto, talvez, se isso se referir à mudança de fase que ocorreu pela disponibilidade (e perdoem-me a metáfora) de poder computacional no nosso cérebro e que nos permitiu aproveitar e aperfeiçoar, entre outras coisas, a extraordinária ferramenta que é a linguagem humana.

junho 05, 2007

Complicações

Considerar que um sistema é o melhor por falta de alternativas (Democracia, o Estado, ...) é suficiente para que haja um dever moral em o defender?

junho 04, 2007

Paciência

A distância da realidade da nossa compreensão da realidade vai diminuindo com os séculos. Dizem. Dizem também que essa compreensão descrita por modelos aprovados em controle de qualidade - falsificáveis, matematizáveis - são o cerne e alma da Ciência. No entanto este também é um modelo com a sua separação quilométrica da realidade. A tradição, a autoridade e preconceito de peritos e academias, o viscoso da ciência normal, evitam muitos vezes melhores visões cujo defeito é chegarem cedo demais. Isto seria algo que o cientista, detentor de variados prémios e bolsas sobre a abstracção da dor que agora subjaz (subjaz é uma palavra que ao Dr. Spleen lhe agrada e eu, como narrador relativamente isento destes textos, não encontro motivo para não utilizar), imóvel, em pânico, no chão gelado e estéril do laboratório, concordaria. Apesar de anos em defesa do carácter virtual da propagação da dor, da demonstração (que lhe valeu até o entusiasmo erótico de uma sua, na altura, nova assistente eslava, mas enfim divago) que a dor é apenas um conjunto cifrado de informação eléctrica passível de múltiplas interpretações dentro da multidão neuronal de cada cérebro, vê-se agora confrontado com o facto da sua mão já se encontrar na caixa do correio e não conseguir traduzir o que o seu corpo lhe informa com eficiência numa, outra, mensagem mais serena.

junho 01, 2007

Separação

Para deixar claro a distinção entre meio e código, escrevia em Morse nos chats e enviava PDFs por telégrafo.

maio 28, 2007

Uma ou várias amostras?

[«] É possível argumentar que o conceito de mente inclui atributos que não somos capazes de reconhecer noutros animais (e também nas máquinas, poderíamos incluir). No entanto, talvez a maioria dos argumentos, das propriedades que poderíamos listar como diferenciadores, têm sucumbindo após estudos sobre comportamentos de outras espécies. Bastou esgravatar a complexidade das relações de animais comunitários (e aqui quando falo de animais, penso em mamíferos, talvez algumas espécies de aves, não em insectos, peixes, artrópodes, etc. que pouco mais são que robots orgânicos) e das suas capacidades cognitivas em experiências controladas. O Homo Sapiens faz parte de um contínuo na dinâmica evolutiva deste planeta e, por isso, o estudo comparativo da cognição animal pode dar-nos apontadores para verificar ou validar essas diferenças que, de certo, possuímos. A linguagem, ou o elaborado órgão da linguagem que se situa no nosso cérebro e que nos permitiu «inventar» esta extraordinária capacidade comunicativa, parece ser um deles. Mas talvez não hajam assim tantos mais.

Quanto à nossa mente humana reconheço que dificilmente se poderá separar - de forma incólume - da herança histórica do corpo humano. Por um lado porque talvez ela seja apenas a consequência da nossa interacção com o mundo ou, talvez, porque se encontra irremediavelmente unida à forma como esse mesmo corpo funciona. Mas a (eventual) «função mental», a plasticidade conceptual que nos define, as características essenciais que nos fazem sentir únicos, poderão ser replicadas noutros meios, em maior ou menor grau, com maior ou menor eficiência ou estranheza (e este oceano de possibilidades alimentará a ficção científica durante décadas antes de se tornar obsoleto ou normal).

maio 23, 2007

Fronteira, uma vez mais...

É fácil encontrar diferenças porque tudo é diferente. Promoveram-se, por exemplo, guerras religiosas na distinção subtil de dois quaisquer conceitos sagrados e que, agora e ao longe, são nada. O que já não é fácil é assimilar uma diferença essencial, que delimite uma fronteira argumentável entre X e não-X, entre dentro e fora, entre nós e eles. Seja porque a essência de algo é ininteligível, um conceito escorregadio que escapa ao arbitrário das classificações humanas; seja porque não somos imparciais, estamos sempre a observar de um ponto de vista que raramente se coaduna com outras perspectivas. O Dr. Spleen reconhece (e aceita) esse contaminar da análise pela trajectória e pelo contexto que nos constrói. É inútil acreditar que a separação que consideramos nossa seja um reflexo fiel da realidade, que a ética que usamos seja a construção rigorosa da Justiça ideal. Por isso, assumindo essa sua limitação, sabe que é inútil transferir-se, olhar lá fora pelos olhos dos outros. A ilusão que sobra é a mudança, ou nossa ou desse estrangeiro que nos vizinha e a que se chama mundo. E qualquer que ela seja, vê-se a si mesmo heterogénea, numa ridícula tentativa de tornar distinta essa mistura irremediável que somos todos.

maio 21, 2007

Esforço

[«] A meu ver, a questão, ou distinção, mente-cérebro não é um pseudo-problema. Defendo que é limitativo monopolizar o conceito de saber pensar ao ser humano. Se partíssemos desse pressuposto então, provavelmente, não existiria questão. Parece evidente que o corpo que «encerra» a mente (seja por ser indissociável fisicamente ou por sê-lo culturalmente) é estruturante na forma como se processa o pensar. Tanto pelos tipos de sentidos que possuímos - que nos filtram a informação possível sobre o exterior - como pela capacidade cognitiva potencial do nosso sistema nervoso central. Por exemplo, um cão e um Homo Neanderthalensis terão forçosamente de pensar de forma diferente. Mas quais os pontos de contacto? Será mesmo impossível comunicar com um leão, por exemplo? Com primatas são relatadas experiências no uso da linguagem de surdos-mudos de uma sofisticação desarmante. A comunicação inter-espécies existe e continuamos a não saber quão longe podem estar as planícies genéticas/culturais para que uma comunicação elaborada ocorra. Mas isto não é de admirar: o nosso esforço neste sentido não tem sido muito.

maio 17, 2007

Nada

Como é possível não querer ler? Passar pela vida e, podendo, escrever nada?

maio 14, 2007

Argumentação

A persistência e a estupidez são, por vezes, indistinguíveis nos efeitos que provocam. O manter de uma posição apesar das diferenças entre o antes e o agora, o acreditar numa razão que se torna obsoleta, mesmo que lentamente, é o corolário dessa falta de vontade ou capacidade para mudar, de adaptar e reconhecer a validade terminada de um plano já sem sentido. Poder-se-ia discutir os contrários do raciocínio e da fé, do cepticismo e da crença, dos cinzentos que cobrem a distância entre tais contrastes. Uma coisa que o Dr. Spleen aprendeu na sua interacção com os anos é que dificilmente uma vítima está disposta a discutir estes assuntos e admitir a eventualidade do seu engano, dando, assim, a reconhecer validade aos actos do carrasco. Quando se é imune a argumentos e à forma como se enlaçam, quando não se permite que estes se exponham e conquistem terreno previamente ocupado por preconceitos ou até pelo simples desejo de sobrevivência, quando essa persistência ou estupidez se confundem com a intensidade do momento, tudo o resto é inútil. Não se lhe depara uma conversa, uma tentativa, apenas a conclusão lógica de um assunto já encerrado.

maio 11, 2007

Distinção

Uma questão fulcral na odisseia da cognição é entender as diferenças entre o conceito físico que a sustenta - o cérebro - e a parte «virtual» onde se insere - a mente. Esta distinção, sem ser devidamente explorada, pode levar-nos às estradas mais ou menos estéreis típicas do aprofundar de um equivoco. Não tenho sequer a certeza que haja apenas duas respostas possíveis à pergunta «é possível pensar sem um cérebro?» porque essencialmente associamos ao acto de «pensar» demasiadas características humanas. A pergunta poderá estar contaminada por uma associação antropocêntrica que nos impeça uma resposta verdadeiramente útil e não apenas uma confirmação deste nosso, duvidoso, estatuto especial. Porém, ao reformular a pergunta num seu equivalente (para a maioria das pessoas, pelo menos) «é possível pensar sem um cérebro de Homo Sapiens?», tenho a forte convicção que a resposta é negativa. Mas que implicações estariam contidas num «sim» ou num «não» à primeira pergunta?

[este é o primeiro de um conjunto de textos sobre cognição publicados por mim no WebQualia, aqui revistos e adaptados]

maio 09, 2007

Desenho

Qualquer definir de fronteira é arbitrário. Por isso, cada vez que criamos uma é preciso questionar a bondade ou a justeza dessa nova linha desenhada. E desconfiar, principalmente, daqueles que nela se revêem.

maio 04, 2007

Transferência

No programa diário de uma pessoa normal não se transpiram grandes pensares. Os eventos repetem-se, são ligados em dominós de causa-efeito por conexões fortalecidas dia-a-dia até ao ponto da pessoa que os percorre ser substituído por uma mecânica de gestos, diálogos e reacções apenas iteradas. Assim, a navegar pela cidade à hora de ponta encontram-se mares robotizados de carne e massa cinzenta desactivada. Este negar é a expressão abstracta de uma morte temporária, um coma que se aprofunda nos anos, que se torna maleável no repetir e progressivo estender do que é normal (porque a experiência é um alimento e um ópio, ela substitui-se à demora angustiante desta nossa fome na procura de respostas). O Dr. Spleen atravessa a rua com Dabila e os irmãos Kong, nos seus flancos, olhando eles em redor como a protegerem-no de um eventual ataque motorizado. Sente o suor e a tensão nas suas mãos, mãos que procuram trajectórias discretas mas sempre perto das respectivas armas. Nesta tensão, nesta ânsia fatal do instante seguinte, na busca constante da diferença, Spleen sente que são eles as únicas pessoas na vastidão limitada daquela praça.

abril 16, 2007

Verniz

Existe uma tensão entre os sons que o mundo emite. Entre constâncias e cacofonias, entre a ordem e o aleatório, um verniz de sinfonia, de vida e organização reveste a sociedade nos seus equilíbrios auto-sustentados. O silêncio não é ausência, é apenas o retornar de uma ordem estéril sobre o complexo, de uma pausa sobre aquilo que avança (ou recua), um ponto fixo que não atrai. Encostado à mesa das jóias, as duas mãos suspensas na madeira antiga e cercadas por pérolas soltas de um anterior fio, o Dr. Spleen observa o espelho imaculadamente limpo pela criada que agora se estende imóvel pela cozinha. Os proprietários da vivenda, esses, encontram-se presos no porão. Um deles, o homem, parece agora acordar pelos gemidos e inícios de socorro que começam lá de baixo. Mas a distância transforma mensagens em nadas e na mente de Spleen apenas o silêncio filtrado do seu rosto pronto, se pudesse, a colocar uma questão, porque que tipo de respostas poderia um reflexo dar?

abril 12, 2007

Regras

Sem jogar no tabuleiro dos direitos e deveres, o dizer apenas que a cedência em qualquer ponto no nosso comportamento actual pode levar a uma catástrofe e, por isso, deve ser evitada é um argumento que serviria também a um monarca absolutista sobre a democracia, um censor sobre a liberdade de expressão ou a um senhor da guerra sobre a próxima intenção de paz.

abril 09, 2007

Pessoas

Somos fogueiras alimentando gente.

abril 05, 2007

Sugestão de leitura

There's time to spare. This is one of the things I wasn't prepare for - the amount of unfilled time, the long parentheses of nothing. Time as white sound. If only I could embroider. Weave, knit, something to do with my hands. I want a cigarette. I remember walking in art galleries, through the nineteen century: the obsession they had with harems. Dozens of paintings of harems, fat women lolling on divans, turbans on their heads or velvet caps, being fanned with peacock tails, a eunuch in the background standing guard. Studies of sedentary flesh, painted by men who'd never been there. These pictures were supposed to be erotic, and I thought they were, at the time, but I see now what they were really about. They were paintings about suspended animation; about waiting, about objects not in use. They were paintings about boredom.

But maybe boredom is erotic, when women do it, for men. Margaret Atwood, The Handmaid's Tale

abril 02, 2007

Desenho

A vitória é nada se a derrota for nada. Como atingir algo quando o esforço, o sacrifício ou a perda não existem como oposição e preço? Não é só o sangue fervente do desafio que faz desfrutar uma conquista mas também saber que em alternativa se oporia um imenso descalabro ou um vazio. Como dizer ser preciso fazer algo se, caso falhe, tudo ficar na mesma? Para o Dr. Spleen os planos de actuação perfeitos não são jogadas sem possibilidade de derrota, são apenas estratégias limpas da falha própria de quem as desenha. Há sempre um outro, o adversário que pode - porque o mundo é complexo, largo, de um rol de ilimitadas possibilidades e regras por descobrir - encontrar um caminho melhor, que o vença sem a mácula do erro fácil e humilhante. Por outro lado, nada que o motiva é aleatório, há sempre uma linha a atingir, um objectivo, que lento, se modela. O Dr. Spleen sabe que ser-se irrelevante é pior que ser-se vencido e é nessa certeza que as escolhas que comete aos outros são, em larga medida, um constante lutar contra essa força natural que comete tudo à sopa morna e informe do futuro longínquo, que apesar de inevitável é adiável nas nossas mãos.

março 29, 2007

O problema da auto-análise

Um dos principais nomes da Matemática do Século XX é, sem dúvida, Gödel. O seu nome ficará na história pelo teorema que lhe tem o nome, e que determina - através de uma demonstração complicadíssima - que qualquer sistema axiomático minimamente complexo não pode ser coerente (algo obrigatório) e completo (algo que se desejava). O génio de Turing, poucos anos depois, traduziu esta questão numa forma muito mais simples: o Halting Problem. Ambos os teoremas são equivalentes. Se para a Matemática, ou melhor dizendo, para a praxis da Matemática, o teorema de Gödel é um horizonte 'monstruoso' o qual raramente se entra em conta, o Halting Problem vai ao fundo da Ciência da Computação: ele revela num problema comum (não é possível determinar, em geral, se um programa com certos dados iniciais termina ou não a sua computação) as limitações intrínsecas dos computadores. Nesta conversa apresento um problema semelhante mais perto da metáfora memética: é teoricamente impossível a um antivírus saber, no geral, se ele próprio está infectado. Esta última questão - construindo agora uma ponte sempre arriscada e etérea entre computação e pensamento humano - lembra-me um problema aflitivo: como pode uma pessoa saber que está a enlouquecer? Como usar a própria mente para determinar incoerências? Que processo ou disciplina mental pode um cérebro desenvolver para detectar uma falha no processo cognitivo? A meu ver, em geral, este tipo de auto-análise está para além da capacidade cognitiva de qualquer pessoa isolada, indicando-nos, assim, um limite ao nosso próprio conhecimento, um nosso Halting Problem. [postado igualmente no WebQualia]

março 26, 2007

Esculturas

Diz-se que o Tempo é o grande escultor. Mas a escolher O grande escultor seria sempre a finitude dos recursos. São eles que moldam o que fazemos, a Economia, a Política, as Guerras e o Amor, a Ética. Tudo o resto se subjuga, até o Tempo.