março 29, 2007

O problema da auto-análise

Um dos principais nomes da Matemática do Século XX é, sem dúvida, Gödel. O seu nome ficará na história pelo teorema que lhe tem o nome, e que determina - através de uma demonstração complicadíssima - que qualquer sistema axiomático minimamente complexo não pode ser coerente (algo obrigatório) e completo (algo que se desejava). O génio de Turing, poucos anos depois, traduziu esta questão numa forma muito mais simples: o Halting Problem. Ambos os teoremas são equivalentes. Se para a Matemática, ou melhor dizendo, para a praxis da Matemática, o teorema de Gödel é um horizonte 'monstruoso' o qual raramente se entra em conta, o Halting Problem vai ao fundo da Ciência da Computação: ele revela num problema comum (não é possível determinar, em geral, se um programa com certos dados iniciais termina ou não a sua computação) as limitações intrínsecas dos computadores. Nesta conversa apresento um problema semelhante mais perto da metáfora memética: é teoricamente impossível a um antivírus saber, no geral, se ele próprio está infectado. Esta última questão - construindo agora uma ponte sempre arriscada e etérea entre computação e pensamento humano - lembra-me um problema aflitivo: como pode uma pessoa saber que está a enlouquecer? Como usar a própria mente para determinar incoerências? Que processo ou disciplina mental pode um cérebro desenvolver para detectar uma falha no processo cognitivo? A meu ver, em geral, este tipo de auto-análise está para além da capacidade cognitiva de qualquer pessoa isolada, indicando-nos, assim, um limite ao nosso próprio conhecimento, um nosso Halting Problem. [postado igualmente no WebQualia]

março 26, 2007

Esculturas

Diz-se que o Tempo é o grande escultor. Mas a escolher O grande escultor seria sempre a finitude dos recursos. São eles que moldam o que fazemos, a Economia, a Política, as Guerras e o Amor, a Ética. Tudo o resto se subjuga, até o Tempo.

março 22, 2007

De Soslaio


A recolher textos e fotos minhas num novo blog, Soslaio.

março 20, 2007

Redução

Há ideias que nos rasgam ao meio. Ou ditas, ou lidas ou nascidas em nós (as mais raras e intensas) são um padrão de luz concentrada a reduzir-nos ao silêncio do espanto, à humildade a princípio esmagadora desse conhecer, ao prazer de saber que agora sabemos! Como partilhar com o (nosso) mundo esta experiência? Se dito como repetir? Se lido como convencer alguém a domar centenas de páginas? ("não tenho tempo, conta aí num minuto") Se pensado como expressá-lo? Há a oralidade do discurso, há a literatura. Hoje em dia, neste presente estilhaçado, temos blogs, posts. ("num minuto? aqui vai...")

março 16, 2007

Equilibrio

Na questão dos deveres e direitos, onde termina o Estado e começa o indivíduo? Eu prefiro uma posição de máxima liberdade e máxima responsabilidade mas isso não significa liberdade ilimitada e responsabilidade ilimitada. Este posição tem argumentos éticos: a minha liberdade termina onde começa a do vizinho. Argumentos sociais: o exército, a diplomacia, a segurança e a justiça, por exemplo, têm de pertencer ao Estado que, deste modo, detém os monopólios da violência, da manutenção da legalidade e da representação internacional que seriam instáveis num cenário privatizado. Argumentos económicos: há esforços financeiros que têm melhor resultado ou, pelo menos, só são possíveis pelo esforço conjunto da sociedade, como obras estruturais sem possibilidade de retorno financeiro, grandes projectos científicos, um serviço mínimo de protecção social, educativa e de saúde. De resto, porque deve o Estado coibir a liberdade e as escolhas individuais? Porque deverá impor regulamentos morais, criar crimes sem vítimas, desenhar fronteiras arbitrárias? Submergir cada actividade profissional num palimpsesto burocrático de directivas e restrições? Porquê forçar-nos a tomar atitudes supostamente para o nosso próprio bem? Ensinar a todos a mesma coisa do mesmo modo, exigir às famílias a mesma educação formatada? A infantilização de uma sociedade resulta num maior sentimento de irresponsabilidade que pode, a longo prazo, destruir a dinâmica dessa sociedade e, assim, o próprio Estado que a representa. Uma maior confiança em cada individuo dá-nos, idealmente, uma maior capacidade de reseliência. É verdade que muitos poderão abusar do possível maior que lhes é disposto mas torna-se, também, mais difícil abusar de todos pela resistência que irão encontrar na multidão de milhões de adultos com espírito crítico. Se me permitem uma metáfora de contágio, um Estado centralizado dificulta o aparecer de infecções locais mas facilita perigosamente as epidemias.

março 13, 2007

Dos outros

Dos grandes erros que não fizeste, quantos deles foram os outros ou o mundo que te impediram de os cometer?

março 05, 2007

Pessoa = Homo Sapiens + ?

A consciência. É este o reduto último que nos distingue dos restantes animais? Que nos distingue de tudo o resto? Estas duas perguntas não são exactamente iguais. Existem, pelo menos, duas possibilidades de responder sim à primeira questão e não à segunda. Ou o contacto eventual de uma civilização extraterrestre terá de nos obrigar a redefinir a nossa exclusividade ou o advento da consciência em sistemas informáticos.

Associamos «pessoa» aos seres humanos. Poderíamos também usar «pessoa» para definir alguém com consciência. Neste momento da História estas duas definições correspondem ao mesmo. Mas nem sempre foi assim. Há centenas de milhares de anos, chamaríamos ao animal Homo Sapiens, isolado de qualquer cultura, uma pessoa? Quanto ao futuro também não é garantido que esta igualdade se mantenha.

Poderá um programa de computador ser consciente? Este conceito não é facilmente aceite. O que é ser consciente? Podemos assumir a construção de softwares pensantes se não formos capazes de responder à pergunta anterior? Creio que saber as respostas destas perguntas não é um passo essencial para uma tal construção. Quanto interagimos com alguém assumimos implicitamente a sua consciência sem sabermos como tal processo funciona. Mais. Assumimos a nossa própria consciência como facto adquirido e, no entanto, somos incapazes de explicar quais são os detalhes da dinâmica do nosso cérebro, quais os passos específicos que nos define (seja sobre a memória ou o raciocínio, sobre os nossos próprios sentimentos, sobre esse empilhar de máscaras por onde se vislumbra uma personalidade).

Tentemos um exemplo. Seja um CD com o Requiem de Mozart. Esse CD não é a orquestra nem a obra musical por ela tocada. O CD é um sistema de memória que codifica uma aproximação dessa obra, uma aproximação de um momento específico, de uma míriade de nuances, desse instante em que um conjunto de pessoas, cada uma no seu universo familiar e cultural, se reuniu para interpretar uma obra musical. Possuindo um tradutor adequado (o nosso leitor de CDs), essa aproximação é convincente e somos capazes de usufruir a essência (o Requiem). Precisamos conhecer a vida pessoal daqueles músicos? A história de Mozart? O processo como se codifica um CD ou os detalhes técnicos da Física dos Lasers?

Se produzirmos um programa de computador com um elaborado processo de aprendizagem capaz de se aproximar do comportamento consciente e que satisfaça os critérios mais ou menos arbitrários que a nossa cultura determina, não será admissível classificar esse programa como consciente? Não necessitamos de saber os detalhes (que aliás poderão ser tão obscuros como a bioquímica do cérebro) para classificar uma sequência de padrões comportamentais como próprias de alguém consciente. Não sei se eu ou o próximo somos conscientes, até porque não detenho um critério objectivo que defina com exactidão essa hipotética fronteira. Parecemos conscientes e isso, para todos os efeitos, é suficiente.

O processo histórico tem, felizmente, assistido a progressivas generalizações da noção de pessoa e cidadão (os escravos não o eram, os bárbaros, os negros, os judeus, as mulheres e as crianças). Num eventual futuro haverá espaço para expandir ainda mais esta definição.

março 02, 2007

Alice e o mesmo lado do espelho

Onde não há opções, há decisões. Foi nisto que pensou Dª Alice ao percorrer o encurvado corredor de um lado ao outro duas vezes para confirmar a existência de apenas uma porta. A verdade é que não se lembrava de como ali chegara, imersa naquele branco imaculado próprio da narrativa de uma prosa. Tudo limpo e no entanto... No entanto, um cheiro infecto em todas as paredes, um fedor sem gradiente ao longo do chão de madeira antiga e envernizada. Dª Alice era reconhecida, pela vizinhança do bairro social onde vivia, como um expoente regional da lógica indutiva, uma defensora da generalização com bom-senso, um bastião do melhor e mais antigo da ciência Galilaica (daí se justifica aos leitores, mais atentos..., a exploração daquele contíguo espaço apesar da violência olfactiva atrás descrita). Por fim, e já com receio da situação em que algum ente a colocou, aproximou-se do fecho dessa única porta e girou a maçaneta lustrada no esplendor dos seus dourados. Estava fechada. Quando a decisão a que somos forçados não muda nada, eis o início de uma grande chatice.

fevereiro 26, 2007

Jurisprudências

A magia é a ponte que liga o deserto da superstição, a névoa da religião e o oceano da ciência. É o admitir de uma rede de causas e efeitos, o reconhecer de uma hierarquia de poderes de influência aos quais é necessário saber os humores, os quereres e pulsões, os vícios e fobias. E neste jogo de simpatias e antipatias, de reflexos simbólicos, de imagens e originais que se transmutam, age-se sobre a natureza, sobre as leis que a regem e subjugam. Nesse sentido tudo é tecnologia, tudo é acto de querer compreender para mudar, de convergir o caos e a ordem ao vento dos nossos desejos. O Dr. Spleen admite, porém, que a eficácia é um argumento forte. De que serve deitar sal na mesa para repelir o azar, de repetir a ladainha de uma qualquer loa a um qualquer ente supremo, se nada de eficiente daí resulta? Como preferir o poder incerto de um mau olhado à garantia comercial de uma arma? Como optar pelo amuleto linguístico de uma reza ao diabo quando se possui uma gestão que contrata homens, mortais e idiotas, é certo, mas reais e obedientes? No entanto, Spleen reconhece que a leveza de alma que o leva a segurar certos objectos (o seu bisturi, aquela tesoura) em ocasiões que a lógica e a retórica não poderiam justificar, são do domínio por escavar e ainda animal dos nossos sentidos.

fevereiro 23, 2007

Gravação

Cada instante, cada palavra dita, cada gesto feito são ecos, talvez espelhos, do contexto que os engloba. Por cada que se grava - na memória, numa fita, nessa página antes branca - guarda-se algo mais desse tudo que vemos, dia a dia, passar.

fevereiro 22, 2007

Mensageiro

No riso uma semente de esquecimento. O humor é um ácido universal na sua capacidade de dissolver até a ideologia mais regimentada. Nas suas faces, da ironia, da farsa, da sátira, um universo de alternativas que eclipsam o original que as motivou. O Dr. Spleen não tem qualquer preferência por maltratar palhaços apesar do terror que aquelas máscaras, na sua frontalidade disponível, lhe marcaram a infância. Os dois que agora e aqui se encontram estão deitados num início de sangue, obrigados a esfregar, no chão, as tintas coloridas das suas caras. Enquanto Dabila e Kong júnior se atarefam com seriedade protocolar no concluir da sua missão, Kong sénior ri-se no suposto ridículo que observa. Como se o humor que pretende emanar um profissional do humor não lhe pertencesse, como se a máscara que não esconde fosse apenas o catalizador do contexto que, num acaso ou intenção, os empurra ou esmaga.

fevereiro 16, 2007

Delegação

Se considerarmos que a violência é uma limitação imposta (i.e., não de comum acordo) às liberdades do outro, é a violência sempre reprovável? Conceder o direito à violência é algo que parece uma contradição. Como conceder um direito que é, na sua essência, uma violação de direitos? Nem sequer existe o direito à auto-defesa, o que há é uma argumentação (a protecção da própria integridade) que justifica, eventualmente, o uso dessa violência. A ser um direito, cada individuo procuraria exercer essa violência no seu próprio interesse, e nessa parcialidade resultaria a acção do mais forte, a arbitrariedade de quem a pode executar em maior grau. Este raciocínio justifica que o «contrato social» entregue o monopólio da violência ao Estado. É o Estado que, legalmente, age sobre cada individuo, é ele que define regulamentos de coerção defendidos por instituições que se pretendem imparciais (de onde se depreende a importância da independência no julgamento e na acção), distantes de emotividades subjectivas (espelhados em regulamentos de conduta e ética normalmente mais rígidos que as leis comuns) e o menos arbitrárias possível (onde a preferência da rigidez contra a inovação protege-as de jurisprudências contraditórias). Entre estas instituições encontramos o Exército, as Polícias, a Justiça. A forma encontrada pela nossa sociedade para domesticar esse potencial de violência passou, assim, por entidades abstractas, colectivas, que exercem a violência justificando-se em argumentações lógicas ou factuais e suportadas em leis previamente conhecidas. É nestas condições, no geral, que consideramos aceitável o uso da violência e é deste modo que é exercida, em maior ou menor grau mas por consenso, sobre todos nós.

Nada disto, em princípio, exige democracia. Desde que as instituições sejam de facto independentes, imparciais e não arbitrárias, uma sociedade pode controlar a sua violência potencial e, assim, ser estável. Mas, deixadas sem controle, sem uma fiscalização e vigilância externas, sem a possibilidade de substituição cíclica, o abstracto destas instituições torna-se numa rede de interesses pessoais que, após se cristalizar, tende a perder as características que a justificam e, também, tende a extender o conceito de violência para abarcar, no seu monopólio, outras situações não justificáveis (como o proliferar de crimes sem vítimas, o erodir da liberdade de expressão, o impor de uma única matriz de crenças aceitável). Também isto pode ocorrer em democracia mas torna-se impossível uma cristalização permanente (excepto, talvez, nesta instância de Justiça).

fevereiro 15, 2007

Vida

fevereiro 14, 2007

Invariantes

[Segue um resumo desta página: www.snopes.com/quotes/goering.htm]

Sweating in his cell in the evening, Goering was defensive and deflated and not very happy over the turn the trial was taking. He said that he had no control over the actions or the defense of the others, and that he had never been anti-Semitic himself, had not believed these atrocities, and that several Jews had offered to testify in his behalf. If [Hans] Frank [Governor-General of occupied Poland] had known about atrocities in 1943, he should have come to him and he would have tried to do something about it. He might not have had enough power to change things in 1943, but if somebody had come to him in 1941 or 1942 he could have forced a showdown. (I still did not have the desire at this point to tell him what [SS General Otto] Ohlendorf had said to this: that Goering had been written off as an effective "moderating" influence, because of his drug addiction and corruption.) I pointed out that with his "temperamental utterances," such as preferring the killing of 200 Jews to the destruction of property, he had hardly set himself up as champion of minority rights. Goering protested that too much weight was being put on these temperamental utterances. Furthermore, he made it clear that he was not defending or glorifying Hitler.
Later in the conversation, Gilbert recorded Goering's observations that the common people can always be manipulated into supporting and fighting wars by their political leaders:
We got around to the subject of war again and I said that, contrary to his attitude, I did not think that the common people are very thankful for leaders who bring them war and destruction.

"Why, of course, the people don't want war," Goering shrugged. "Why would some poor slob on a farm want to risk his life in a war when the best that he can get out of it is to come back to his farm in one piece. Naturally, the common people don't want war; neither in Russia nor in England nor in America, nor for that matter in Germany. That is understood. But, after all, it is the leaders of the country who determine the policy and it is always a simple matter to drag the people along, whether it is a democracy or a fascist dictatorship or a Parliament or a Communist dictatorship."

"There is one difference," I pointed out. "In a democracy the people have some say in the matter through their elected representatives, and in the United States only Congress can declare wars."

"Oh, that is all well and good, but, voice or no voice, the people can always be brought to the bidding of the leaders. That is easy. All you have to do is tell them they are being attacked and denounce the pacifists for lack of patriotism and exposing the country to danger. It works the same way in any country."

fevereiro 12, 2007

Diluir

Não deve haver animal social que não mude consoante o número que o rodeia. Um cão sozinho é muito diferente que numa matilha. Uma pessoa também. Na multidão somos parte da mistura, o individual ponderado dilui-se no colectivo que raramente considera. Num líquido não se distinguem partes, tudo é um pouco de gota e lágrima.

fevereiro 09, 2007

Duas medidas

Os preconceitos são, pelo menos, de dois tipos: os que construímos e os que nos são dados. Os nossos derivam da experiência pessoal e, em geral quando não contaminados por outros preconceitos, possuem correlação positiva com a realidade. Sem eles não poderiamos viver num mundo repleto de eventos perigosos mesmo que filtrados pela capa protectora e uniformizante da sociedade. Os outros preconceitos, porém, não lhes controlamos o desenvolvimento. São derivados por um processo histórico e social tortuoso, velam por interesses que os originaram e que, hoje em dia, podem já nem fazer sentido. Estes preconceitos, também pelo seu percurso comunitário e geracional, tendem a generalizar mais do que faríamos sozinhos, e nessa generalização - que rasga como inútil a experiência pessoal dos seus seguidores - existe contida uma simplificação da realidade, não uma correspondência útil mas um restringir da nossa capacidade de avaliar casos particulares. Isto tem duas consequências igualmente nefastas. Primeiro, cada preconceito deste tipo tem como preço tornar, cada um, um pouco menos pessoa: alguém que cegamente segue um regulamento moral que lhe tolda o espírito crítico paga um preço muito elevado. Segundo, nisto resulta que julgamos pessoas, eventos ou locais por olhos que não os nossos. Agimos com convicções que vão, por vezes, contra o nosso próprio bom senso. Construímos muralhas onde não há guerras, substituímos pontes por fossos, um possível de amizade por uma certeza de desprezo. Além disso, mesmo que fosse um facto que um grupo ou um conjunto era melhor, maior ou mais atraente que outro, nunca poderemos julgar e agir sobre cada pessoa como se fosse a personificação de uma estatística. É um facto inegável que as médias não são instâncias.

fevereiro 07, 2007

Facturas

Há quem acredite que, não podendo ser um bom exemplo, tem a obrigação de ser um terrivel aviso. [1]

fevereiro 05, 2007

Memória


Como legenda desta foto: 16 Abril. Estes trabalhadores escravos da Rússia, Polónia e Holanda internados no campo de concentração de Buchenwald pesavam, em média, 80 Kg, onze meses antes de entrarem no campo. Na altura da foto pesavam cerca de 35 Kg. Muitos morreram de fome mesmo depois das tropas americanas da 80ª divisão terem controlado a área. [Consulte o arquivo destas e de outras fotos até agora classificadas (link via Kontratempos])

fevereiro 02, 2007

Nada é sagrado, nada é de graça

Cada um de nós constrói ou empresta um código ético para poder viver. Devido ao nosso caracter social, é também necessário respeitar uma lei comum, originada historicamente num suposto grande consenso entre os cidadãos obrigados a cumpri-la. Será bom sinal que a nossa ética e a lei da polis sejam aproximadas, caso contrário, podemos, por exemplo, ser considerados sociopatas pelos outros ou a sociedade ser um totalitarismo baseado numa burocracia arbitrária. Excluindo os impulsos e os mecanismos automáticos derivados da experiência que representam a maior parte das acções da nossa vivência, quando tomamos uma decisão reflectida ela é suposta ser de acordo com a ética pessoal e com a lei vigente. Quando violamos a primeira, estamos a por-nos em xeque, a mentir a nós próprios, a «carregar uma má consciência»; quando violamos a segunda, cometemos um crime e ficamos sujeitos à restrição de direitos expressa na lei. Pode acontecer que as duas estejam em conflito e ficarmos, assim, confrontados com uma escolha. Devemos escolher a nossa ética, os nossos valores, ou a lei, os valores da comunidade? Pode ser que a matriz de valores que seguimos esteja errada, ultrapassada pela dinâmica da sociedade, e estarmos presos a preconceitos arcaicos que perderam a relevância ou a utilidade que inicialmente os motivaram. Pode ser que a lei esteja errada, e já não represente nem um consenso nem proteja os direitos e a liberdade dos seus cidadãos. A decisão é pessoal mas a responsabilidade das nossas acções tem consequências. Ou optamos defender o que acreditamos, na rectidão profunda das nossas certezas, e arriscamos o crime e respectivo castigo por injusto que seja. Ou optamos por mudar, por esquecer as crenças que nos guiaram até à encruzilhada, defendendo a vontade comum da sociedade que nos exigiu participação. Mas também aqui arriscamos um crime e castigo futuro, caso tenhamos errado por falta de análise, convicção ou coragem. Nada é sagrado, nada é de graça.

fevereiro 01, 2007

Restos

Um passo em frente no saber é perder, ou relativizar, os preconceitos da nossa cultura que normalmente restringem o pensamento. Sobra o receio de, levando o projecto ao seu objectivo ideal, não sobrar nada em nós para continuar.

janeiro 29, 2007

Equivalências

Um qualquer ente precisa de estabelecer fronteiras, de desenhar (consciente ou não) o mapa a indicar por onde seguir. Mas antes de arrumar o universo em três partes, ou seja, entre o que é bom, o que é mau e o que é neutro, tem de se separar do ruído do mundo, escapar da sopa uniforme a que tendemos, e ganhar forma, interesse ou função. Só então o outro é possível, só então os detalhes do contexto se tornam necessários proibidos ou indiferentes. O Doutor Spleen acha o mesmo da moral. Porém, considera, com alguma tristeza conceptual pelo constatar das suas certezas, que a necessidade de classificar as coisas deveria sempre ser motivo de uma consequência - como na sobrevivência da vida ou de um povo - e não uma causa por si mesmo construída. Uma exigência não é um desejo e, com maior ou menor relutância dos visados, o quente de um corpo vivo que se rasga é, por vezes, igual ao calor da fogueira que se alimenta.

janeiro 26, 2007

Balança

Temos direito a ter direitos. Que por entre a história, a filosofia, a política se encontre da ética o reflexo possível à nossa época. Mas como resolver a tensão entre direitos e liberdade? A liberdade é um direito consequência da limitação do outro. Também temos o dever de ter deveres. Houve um conjunto de direitos que submetemos à organização de um Estado ao longo de um processo histórico nada linear, previsível ou convergente. Este conjunto depende do desenrolar do mundo e de um momento para o outro pode expandir-se até nos vermos escravos de uma nova Roma (viver em democracia e vigiar sempre cada vez soam mais como sinónimos). Mas este conjunto não pode reduzir-se a nada sob pena de perdermos essa metade partilhada, gravada na cultura que nos educa. Eliminar os nossos deveres é eliminar a responsabilidade perante o outro, é perder a liberdade, a metade que nos distingue.

janeiro 22, 2007

Confronto

O Doutor Spleen e o televisor. Entre estes dois titãs um recear projectado. O objecto em si, tão parecido com um abat-jour, é o arauto de uma terraplanagem de ideias capaz de corar uma bomba atómica. Atravessando a uniformidade electromagnética do espaço, na frequência dada de um canal, passa a rota invisível de pequenos circos de ondas transmutadas, por frenéticos feixes de electrões, na sopa de cores e ruído que se designa canal de televisão. Os efeitos, tanto do espectador directo como no contágio posterior destes com as restantes formas de vida, espalham-se insidiosamente pelo que sobra. Ouvem-se risos. Muitos risos a polvilhar emissões de vinte e quatro horas de estupidez reinante, mudando o ambiente para que outros estúpidos melhor se adaptem e assim espalhem os seus dejectos autorais no ecossistema plástico das ideias humanas. Mas todo o mecanismo, segundo Spleen, parece desprovido da estupidez que emite e é nisso, nesse intuir subtil de uma tendência quase invisível, que o receio, raro nele, se expõe.

janeiro 19, 2007

Propriedade

Onde residem esses segredos cujo decifrar nos enche de ânsia? Entre a crua e violenta apatia lá fora e o turbilhão incessante cá dentro há, exposto, um querer atribuir coberto no verniz da linguagem. É este refazer de mundo que chamamos nosso, onde, só então, podemos cavar buracos e neles tapar mistérios.

janeiro 17, 2007

Brisa

Da cordilheira de objectos, crenças e hábitos que acumulas o que segue contigo no caixão? E do resto, o que fica?

janeiro 16, 2007

Transacção

O Dr. Spleen reflecte sobre essa dinâmica da balança a que se designa Estado. Os direitos e deveres negociados entre indivíduos e sociedade não passam de um lado para o outro sem fricção. Este calor produzido e exposto às pessoas, como o do Sol, mostra-se nas mais diferentes frequências e tonalidades. E entre todos os nomes dessa legião habitam sempre aqueles que se mantêm no equivoco da negociação. No fabrico do castelo incompleto a que se designa lei, advogados, juízes e as suas cortes. No seu outro lado, no desafio à fronteira que é o crime, mafiosos, corruptos. Na procura de respostas, sociólogos, economistas, políticos. Mas nem tudo se esgota nesta fricção. Indiferente ao modo como a cegueira dos cidadãos lida e é lidada pela miopia da sociedade, indiferente ao complexo jogo entre liberdades e responsabilidades, numa terra de ninguém, há quem procure apenas, nessa sinfonia de conflitos que nos rodeia, uma melodia, uma imagem, uma ideia ou padrão escondido, um grito.

janeiro 12, 2007

Cultura e Genética (última parte)

A inteligência social é uma característica comum aos primatas. O antropologista Robin Dunbar argumenta que esta é a principal razão pelo aumento da massa cerebral: existe uma forte correlação entre o tamanho do cérebro e a dimensão dos grupos sociais entre cada espécie. A inteligência tecnológica existe também noutros primatas (os chimpanzés usam ferramentas no seu ambiente natural) mesmo que a capacidade de construir ferramentas seja muito rudimentar (mesmo em cativeiro). Os Austrolopitecus usavam ferramentas mas não existem evidências de uma capacidade deliberada de construção. Já o Homo Erectus mostra uma grande evolução, com a manufactura de machados simétricos (indicando que o construtor tinha já uma imagem mental do objecto pretendido). Mas em tudo isto existe um enorme conservadorismo: um crescimento limitado tecnológico aliado a uma falta de capacidade de inovar. Mesmo nos humanos modernos existe evidência que mostra um grau de separação entre a inteligência social e a técnica. Por exemplo, os autistas são deficientes em entender o comportamento de outros humanos mas melhores que a média na compreensão de ferramentas e objectos inanimados.

Finalmente, existe uma óbvia selecção que favorece um melhor conhecimento do ambiente. Mas foi isto obtido através do aumento geral da inteligência ou a partir do desenvolvimento de um módulo mental específico? Em favor desta segunda opção, pode-se argumentar que todas as sociedades humanas partilham certas ideias do mundo natural. Primeiro, todos os seres vivos pertencem a um, e a um só, «tipo natural». Um animal é um cão ou um gato e por aí fora, necessita pertencer a uma espécie (não a zero nem a duas) e não muda de espécie. Segundo, partilhamos a ideia que os tipos naturais podem ser classificados hierarquicamente. Por exemplo, um cão e um leão são 'comedores de carne' (e não 'comedores de folhas'), mamíferos (não são repteis ou peixes) e animais (não são plantas). Estas atitudes humanas generalizadas podem reflectir uma predisposição inata. Em alternativa, elas podem ser universalmente aceites por serem praticamente verdade e seriam aprendidas pelas várias sociedades humanas devido representarem conhecimento importante. Um segundo argumento em favor de um módulo mental específico é a facilidade com que as crianças adquirem estas crenças.

Voltando ao argumento, o aumento do cérebro humano nos últimos cem mil anos foi associado com um aumento das três inteligências: social, técnica e de história natural. Porém, elas eram relativamente independentes. Milthen sugere com o advento da linguagem, incluindo a gramática, evoluiu também neste período. Apesar de ser difícil sugerir uma data mais precisa, a explosão cultural dos últimos 50.000 anos, que levou a um acumular progressivo de conhecimento, pode ter coincidido com o terminar da separação destes três módulos, acção na qual a linguagem terá tido um papel fundamental. Com a linguagem é possível estabelecer e comunicar aos outros analogias entre os três processos mentais (usamos a mesma gramática para falar de conceitos relativos dessas três áreas). Se este argumento estiver certo, devemos à linguagem o ter-nos libertado do conservadorismo que durou um milhão de anos durante o Paleolítico Inferior e colocar-nos no caminho da evolução cultural que se seguiu.

[adaptado do livro The Origins of Life de John Maynard Smith e Eörs Szathmáry]

janeiro 11, 2007

Caminhos

Numa frase o fluxo das palavras forma um enredo de sentidos porque em cada palavra, em cada ligar, uma rede de influências, um conjunto de janelas a iluminar-se mutuamente por onde as frases que a vizinham ajudam a entender. Neste labirinto de ambiguidades quão ingrato o papel de tradutor, quanto desafio no do leitor, que caminho atravessado nesse do escritor.

janeiro 08, 2007

Pós

O desinteresse é o buraco negro que convive no centro dessa galáxia que nos faz. Uma exímia organização molecular, um monumento da Evolução, custeada na morte de triliões de seres até à contradição mais ou menos ilimitada que é o Homo Sapiens. E depois, no seio uma despreocupação, uma falta de foco que lenta nos desbarata. O Dr. Spleen desliga o Wresting num certeiro carregar de botão vermelho e a alcateia observa-o (não muito admirada porque a experiência tem este caracter nivelador: adapta o concreto do mundo de dentro ao aparente do mundo de fora) em silêncio. O único ruído é o ajustar estático do televisor a desligar-se, aproximando-se desse estado informe de objecto inanimado, tão inofensivo como uma pedra logo depois do apedrejamento.

janeiro 05, 2007

Cultura e Genética (parte V)

Porque demorou tanto aos nossos ascendentes iniciar o processo cultural? O registo fóssil mostra a existência de ferramentas limitadas com um milhão e quatrocentos mil anos. O aumento cerebral acelerou nos últimos 300.000 anos, os modernos Homo Sapiens surgiram há 100.000 anos mas só desde há 50.000 anos se verifica uma evolução cultural contínua. O que explica estas diferenças temporais? E quando se originou a linguagem?

O arqueologista britânico Steven Mithen no seu livro A pré-história da mente de 1966 tenta uma resposta. A essência do seu argumento é a seguinte: A mente humana é realmente modular como sugerido por estudos de competência linguística. Durante a maior parte da evolução humana, estes módulos aumentaram de eficiência mas mantiveram-se, em larga medida, separados uns dos outros. A linguagem surgiu inicialmente como função social de comunicação mas providenciou um meio no qual essas barreiras podiam ser derrubadas. A explosão de criatividade dos últimos 50.000 anos resultaram do eliminar dessas barreiras. Mithen supõe a existência de três módulos mentais cujo objectivo seriam lidar com a inteligência social, a inteligência técnica e a história natural (i.e., o conhecimento do ambiente, dos seus perigos e virtudes). [cont.]