fevereiro 16, 2007

Delegação

Se considerarmos que a violência é uma limitação imposta (i.e., não de comum acordo) às liberdades do outro, é a violência sempre reprovável? Conceder o direito à violência é algo que parece uma contradição. Como conceder um direito que é, na sua essência, uma violação de direitos? Nem sequer existe o direito à auto-defesa, o que há é uma argumentação (a protecção da própria integridade) que justifica, eventualmente, o uso dessa violência. A ser um direito, cada individuo procuraria exercer essa violência no seu próprio interesse, e nessa parcialidade resultaria a acção do mais forte, a arbitrariedade de quem a pode executar em maior grau. Este raciocínio justifica que o «contrato social» entregue o monopólio da violência ao Estado. É o Estado que, legalmente, age sobre cada individuo, é ele que define regulamentos de coerção defendidos por instituições que se pretendem imparciais (de onde se depreende a importância da independência no julgamento e na acção), distantes de emotividades subjectivas (espelhados em regulamentos de conduta e ética normalmente mais rígidos que as leis comuns) e o menos arbitrárias possível (onde a preferência da rigidez contra a inovação protege-as de jurisprudências contraditórias). Entre estas instituições encontramos o Exército, as Polícias, a Justiça. A forma encontrada pela nossa sociedade para domesticar esse potencial de violência passou, assim, por entidades abstractas, colectivas, que exercem a violência justificando-se em argumentações lógicas ou factuais e suportadas em leis previamente conhecidas. É nestas condições, no geral, que consideramos aceitável o uso da violência e é deste modo que é exercida, em maior ou menor grau mas por consenso, sobre todos nós.

Nada disto, em princípio, exige democracia. Desde que as instituições sejam de facto independentes, imparciais e não arbitrárias, uma sociedade pode controlar a sua violência potencial e, assim, ser estável. Mas, deixadas sem controle, sem uma fiscalização e vigilância externas, sem a possibilidade de substituição cíclica, o abstracto destas instituições torna-se numa rede de interesses pessoais que, após se cristalizar, tende a perder as características que a justificam e, também, tende a extender o conceito de violência para abarcar, no seu monopólio, outras situações não justificáveis (como o proliferar de crimes sem vítimas, o erodir da liberdade de expressão, o impor de uma única matriz de crenças aceitável). Também isto pode ocorrer em democracia mas torna-se impossível uma cristalização permanente (excepto, talvez, nesta instância de Justiça).

fevereiro 15, 2007

Vida

fevereiro 14, 2007

Invariantes

[Segue um resumo desta página: www.snopes.com/quotes/goering.htm]

Sweating in his cell in the evening, Goering was defensive and deflated and not very happy over the turn the trial was taking. He said that he had no control over the actions or the defense of the others, and that he had never been anti-Semitic himself, had not believed these atrocities, and that several Jews had offered to testify in his behalf. If [Hans] Frank [Governor-General of occupied Poland] had known about atrocities in 1943, he should have come to him and he would have tried to do something about it. He might not have had enough power to change things in 1943, but if somebody had come to him in 1941 or 1942 he could have forced a showdown. (I still did not have the desire at this point to tell him what [SS General Otto] Ohlendorf had said to this: that Goering had been written off as an effective "moderating" influence, because of his drug addiction and corruption.) I pointed out that with his "temperamental utterances," such as preferring the killing of 200 Jews to the destruction of property, he had hardly set himself up as champion of minority rights. Goering protested that too much weight was being put on these temperamental utterances. Furthermore, he made it clear that he was not defending or glorifying Hitler.
Later in the conversation, Gilbert recorded Goering's observations that the common people can always be manipulated into supporting and fighting wars by their political leaders:
We got around to the subject of war again and I said that, contrary to his attitude, I did not think that the common people are very thankful for leaders who bring them war and destruction.

"Why, of course, the people don't want war," Goering shrugged. "Why would some poor slob on a farm want to risk his life in a war when the best that he can get out of it is to come back to his farm in one piece. Naturally, the common people don't want war; neither in Russia nor in England nor in America, nor for that matter in Germany. That is understood. But, after all, it is the leaders of the country who determine the policy and it is always a simple matter to drag the people along, whether it is a democracy or a fascist dictatorship or a Parliament or a Communist dictatorship."

"There is one difference," I pointed out. "In a democracy the people have some say in the matter through their elected representatives, and in the United States only Congress can declare wars."

"Oh, that is all well and good, but, voice or no voice, the people can always be brought to the bidding of the leaders. That is easy. All you have to do is tell them they are being attacked and denounce the pacifists for lack of patriotism and exposing the country to danger. It works the same way in any country."

fevereiro 12, 2007

Diluir

Não deve haver animal social que não mude consoante o número que o rodeia. Um cão sozinho é muito diferente que numa matilha. Uma pessoa também. Na multidão somos parte da mistura, o individual ponderado dilui-se no colectivo que raramente considera. Num líquido não se distinguem partes, tudo é um pouco de gota e lágrima.

fevereiro 09, 2007

Duas medidas

Os preconceitos são, pelo menos, de dois tipos: os que construímos e os que nos são dados. Os nossos derivam da experiência pessoal e, em geral quando não contaminados por outros preconceitos, possuem correlação positiva com a realidade. Sem eles não poderiamos viver num mundo repleto de eventos perigosos mesmo que filtrados pela capa protectora e uniformizante da sociedade. Os outros preconceitos, porém, não lhes controlamos o desenvolvimento. São derivados por um processo histórico e social tortuoso, velam por interesses que os originaram e que, hoje em dia, podem já nem fazer sentido. Estes preconceitos, também pelo seu percurso comunitário e geracional, tendem a generalizar mais do que faríamos sozinhos, e nessa generalização - que rasga como inútil a experiência pessoal dos seus seguidores - existe contida uma simplificação da realidade, não uma correspondência útil mas um restringir da nossa capacidade de avaliar casos particulares. Isto tem duas consequências igualmente nefastas. Primeiro, cada preconceito deste tipo tem como preço tornar, cada um, um pouco menos pessoa: alguém que cegamente segue um regulamento moral que lhe tolda o espírito crítico paga um preço muito elevado. Segundo, nisto resulta que julgamos pessoas, eventos ou locais por olhos que não os nossos. Agimos com convicções que vão, por vezes, contra o nosso próprio bom senso. Construímos muralhas onde não há guerras, substituímos pontes por fossos, um possível de amizade por uma certeza de desprezo. Além disso, mesmo que fosse um facto que um grupo ou um conjunto era melhor, maior ou mais atraente que outro, nunca poderemos julgar e agir sobre cada pessoa como se fosse a personificação de uma estatística. É um facto inegável que as médias não são instâncias.

fevereiro 07, 2007

Facturas

Há quem acredite que, não podendo ser um bom exemplo, tem a obrigação de ser um terrivel aviso. [1]

fevereiro 05, 2007

Memória


Como legenda desta foto: 16 Abril. Estes trabalhadores escravos da Rússia, Polónia e Holanda internados no campo de concentração de Buchenwald pesavam, em média, 80 Kg, onze meses antes de entrarem no campo. Na altura da foto pesavam cerca de 35 Kg. Muitos morreram de fome mesmo depois das tropas americanas da 80ª divisão terem controlado a área. [Consulte o arquivo destas e de outras fotos até agora classificadas (link via Kontratempos])

fevereiro 02, 2007

Nada é sagrado, nada é de graça

Cada um de nós constrói ou empresta um código ético para poder viver. Devido ao nosso caracter social, é também necessário respeitar uma lei comum, originada historicamente num suposto grande consenso entre os cidadãos obrigados a cumpri-la. Será bom sinal que a nossa ética e a lei da polis sejam aproximadas, caso contrário, podemos, por exemplo, ser considerados sociopatas pelos outros ou a sociedade ser um totalitarismo baseado numa burocracia arbitrária. Excluindo os impulsos e os mecanismos automáticos derivados da experiência que representam a maior parte das acções da nossa vivência, quando tomamos uma decisão reflectida ela é suposta ser de acordo com a ética pessoal e com a lei vigente. Quando violamos a primeira, estamos a por-nos em xeque, a mentir a nós próprios, a «carregar uma má consciência»; quando violamos a segunda, cometemos um crime e ficamos sujeitos à restrição de direitos expressa na lei. Pode acontecer que as duas estejam em conflito e ficarmos, assim, confrontados com uma escolha. Devemos escolher a nossa ética, os nossos valores, ou a lei, os valores da comunidade? Pode ser que a matriz de valores que seguimos esteja errada, ultrapassada pela dinâmica da sociedade, e estarmos presos a preconceitos arcaicos que perderam a relevância ou a utilidade que inicialmente os motivaram. Pode ser que a lei esteja errada, e já não represente nem um consenso nem proteja os direitos e a liberdade dos seus cidadãos. A decisão é pessoal mas a responsabilidade das nossas acções tem consequências. Ou optamos defender o que acreditamos, na rectidão profunda das nossas certezas, e arriscamos o crime e respectivo castigo por injusto que seja. Ou optamos por mudar, por esquecer as crenças que nos guiaram até à encruzilhada, defendendo a vontade comum da sociedade que nos exigiu participação. Mas também aqui arriscamos um crime e castigo futuro, caso tenhamos errado por falta de análise, convicção ou coragem. Nada é sagrado, nada é de graça.

fevereiro 01, 2007

Restos

Um passo em frente no saber é perder, ou relativizar, os preconceitos da nossa cultura que normalmente restringem o pensamento. Sobra o receio de, levando o projecto ao seu objectivo ideal, não sobrar nada em nós para continuar.

janeiro 29, 2007

Equivalências

Um qualquer ente precisa de estabelecer fronteiras, de desenhar (consciente ou não) o mapa a indicar por onde seguir. Mas antes de arrumar o universo em três partes, ou seja, entre o que é bom, o que é mau e o que é neutro, tem de se separar do ruído do mundo, escapar da sopa uniforme a que tendemos, e ganhar forma, interesse ou função. Só então o outro é possível, só então os detalhes do contexto se tornam necessários proibidos ou indiferentes. O Doutor Spleen acha o mesmo da moral. Porém, considera, com alguma tristeza conceptual pelo constatar das suas certezas, que a necessidade de classificar as coisas deveria sempre ser motivo de uma consequência - como na sobrevivência da vida ou de um povo - e não uma causa por si mesmo construída. Uma exigência não é um desejo e, com maior ou menor relutância dos visados, o quente de um corpo vivo que se rasga é, por vezes, igual ao calor da fogueira que se alimenta.

janeiro 26, 2007

Balança

Temos direito a ter direitos. Que por entre a história, a filosofia, a política se encontre da ética o reflexo possível à nossa época. Mas como resolver a tensão entre direitos e liberdade? A liberdade é um direito consequência da limitação do outro. Também temos o dever de ter deveres. Houve um conjunto de direitos que submetemos à organização de um Estado ao longo de um processo histórico nada linear, previsível ou convergente. Este conjunto depende do desenrolar do mundo e de um momento para o outro pode expandir-se até nos vermos escravos de uma nova Roma (viver em democracia e vigiar sempre cada vez soam mais como sinónimos). Mas este conjunto não pode reduzir-se a nada sob pena de perdermos essa metade partilhada, gravada na cultura que nos educa. Eliminar os nossos deveres é eliminar a responsabilidade perante o outro, é perder a liberdade, a metade que nos distingue.

janeiro 22, 2007

Confronto

O Doutor Spleen e o televisor. Entre estes dois titãs um recear projectado. O objecto em si, tão parecido com um abat-jour, é o arauto de uma terraplanagem de ideias capaz de corar uma bomba atómica. Atravessando a uniformidade electromagnética do espaço, na frequência dada de um canal, passa a rota invisível de pequenos circos de ondas transmutadas, por frenéticos feixes de electrões, na sopa de cores e ruído que se designa canal de televisão. Os efeitos, tanto do espectador directo como no contágio posterior destes com as restantes formas de vida, espalham-se insidiosamente pelo que sobra. Ouvem-se risos. Muitos risos a polvilhar emissões de vinte e quatro horas de estupidez reinante, mudando o ambiente para que outros estúpidos melhor se adaptem e assim espalhem os seus dejectos autorais no ecossistema plástico das ideias humanas. Mas todo o mecanismo, segundo Spleen, parece desprovido da estupidez que emite e é nisso, nesse intuir subtil de uma tendência quase invisível, que o receio, raro nele, se expõe.

janeiro 19, 2007

Propriedade

Onde residem esses segredos cujo decifrar nos enche de ânsia? Entre a crua e violenta apatia lá fora e o turbilhão incessante cá dentro há, exposto, um querer atribuir coberto no verniz da linguagem. É este refazer de mundo que chamamos nosso, onde, só então, podemos cavar buracos e neles tapar mistérios.

janeiro 17, 2007

Brisa

Da cordilheira de objectos, crenças e hábitos que acumulas o que segue contigo no caixão? E do resto, o que fica?

janeiro 16, 2007

Transacção

O Dr. Spleen reflecte sobre essa dinâmica da balança a que se designa Estado. Os direitos e deveres negociados entre indivíduos e sociedade não passam de um lado para o outro sem fricção. Este calor produzido e exposto às pessoas, como o do Sol, mostra-se nas mais diferentes frequências e tonalidades. E entre todos os nomes dessa legião habitam sempre aqueles que se mantêm no equivoco da negociação. No fabrico do castelo incompleto a que se designa lei, advogados, juízes e as suas cortes. No seu outro lado, no desafio à fronteira que é o crime, mafiosos, corruptos. Na procura de respostas, sociólogos, economistas, políticos. Mas nem tudo se esgota nesta fricção. Indiferente ao modo como a cegueira dos cidadãos lida e é lidada pela miopia da sociedade, indiferente ao complexo jogo entre liberdades e responsabilidades, numa terra de ninguém, há quem procure apenas, nessa sinfonia de conflitos que nos rodeia, uma melodia, uma imagem, uma ideia ou padrão escondido, um grito.

janeiro 12, 2007

Cultura e Genética (última parte)

A inteligência social é uma característica comum aos primatas. O antropologista Robin Dunbar argumenta que esta é a principal razão pelo aumento da massa cerebral: existe uma forte correlação entre o tamanho do cérebro e a dimensão dos grupos sociais entre cada espécie. A inteligência tecnológica existe também noutros primatas (os chimpanzés usam ferramentas no seu ambiente natural) mesmo que a capacidade de construir ferramentas seja muito rudimentar (mesmo em cativeiro). Os Austrolopitecus usavam ferramentas mas não existem evidências de uma capacidade deliberada de construção. Já o Homo Erectus mostra uma grande evolução, com a manufactura de machados simétricos (indicando que o construtor tinha já uma imagem mental do objecto pretendido). Mas em tudo isto existe um enorme conservadorismo: um crescimento limitado tecnológico aliado a uma falta de capacidade de inovar. Mesmo nos humanos modernos existe evidência que mostra um grau de separação entre a inteligência social e a técnica. Por exemplo, os autistas são deficientes em entender o comportamento de outros humanos mas melhores que a média na compreensão de ferramentas e objectos inanimados.

Finalmente, existe uma óbvia selecção que favorece um melhor conhecimento do ambiente. Mas foi isto obtido através do aumento geral da inteligência ou a partir do desenvolvimento de um módulo mental específico? Em favor desta segunda opção, pode-se argumentar que todas as sociedades humanas partilham certas ideias do mundo natural. Primeiro, todos os seres vivos pertencem a um, e a um só, «tipo natural». Um animal é um cão ou um gato e por aí fora, necessita pertencer a uma espécie (não a zero nem a duas) e não muda de espécie. Segundo, partilhamos a ideia que os tipos naturais podem ser classificados hierarquicamente. Por exemplo, um cão e um leão são 'comedores de carne' (e não 'comedores de folhas'), mamíferos (não são repteis ou peixes) e animais (não são plantas). Estas atitudes humanas generalizadas podem reflectir uma predisposição inata. Em alternativa, elas podem ser universalmente aceites por serem praticamente verdade e seriam aprendidas pelas várias sociedades humanas devido representarem conhecimento importante. Um segundo argumento em favor de um módulo mental específico é a facilidade com que as crianças adquirem estas crenças.

Voltando ao argumento, o aumento do cérebro humano nos últimos cem mil anos foi associado com um aumento das três inteligências: social, técnica e de história natural. Porém, elas eram relativamente independentes. Milthen sugere com o advento da linguagem, incluindo a gramática, evoluiu também neste período. Apesar de ser difícil sugerir uma data mais precisa, a explosão cultural dos últimos 50.000 anos, que levou a um acumular progressivo de conhecimento, pode ter coincidido com o terminar da separação destes três módulos, acção na qual a linguagem terá tido um papel fundamental. Com a linguagem é possível estabelecer e comunicar aos outros analogias entre os três processos mentais (usamos a mesma gramática para falar de conceitos relativos dessas três áreas). Se este argumento estiver certo, devemos à linguagem o ter-nos libertado do conservadorismo que durou um milhão de anos durante o Paleolítico Inferior e colocar-nos no caminho da evolução cultural que se seguiu.

[adaptado do livro The Origins of Life de John Maynard Smith e Eörs Szathmáry]

janeiro 11, 2007

Caminhos

Numa frase o fluxo das palavras forma um enredo de sentidos porque em cada palavra, em cada ligar, uma rede de influências, um conjunto de janelas a iluminar-se mutuamente por onde as frases que a vizinham ajudam a entender. Neste labirinto de ambiguidades quão ingrato o papel de tradutor, quanto desafio no do leitor, que caminho atravessado nesse do escritor.

janeiro 08, 2007

Pós

O desinteresse é o buraco negro que convive no centro dessa galáxia que nos faz. Uma exímia organização molecular, um monumento da Evolução, custeada na morte de triliões de seres até à contradição mais ou menos ilimitada que é o Homo Sapiens. E depois, no seio uma despreocupação, uma falta de foco que lenta nos desbarata. O Dr. Spleen desliga o Wresting num certeiro carregar de botão vermelho e a alcateia observa-o (não muito admirada porque a experiência tem este caracter nivelador: adapta o concreto do mundo de dentro ao aparente do mundo de fora) em silêncio. O único ruído é o ajustar estático do televisor a desligar-se, aproximando-se desse estado informe de objecto inanimado, tão inofensivo como uma pedra logo depois do apedrejamento.

janeiro 05, 2007

Cultura e Genética (parte V)

Porque demorou tanto aos nossos ascendentes iniciar o processo cultural? O registo fóssil mostra a existência de ferramentas limitadas com um milhão e quatrocentos mil anos. O aumento cerebral acelerou nos últimos 300.000 anos, os modernos Homo Sapiens surgiram há 100.000 anos mas só desde há 50.000 anos se verifica uma evolução cultural contínua. O que explica estas diferenças temporais? E quando se originou a linguagem?

O arqueologista britânico Steven Mithen no seu livro A pré-história da mente de 1966 tenta uma resposta. A essência do seu argumento é a seguinte: A mente humana é realmente modular como sugerido por estudos de competência linguística. Durante a maior parte da evolução humana, estes módulos aumentaram de eficiência mas mantiveram-se, em larga medida, separados uns dos outros. A linguagem surgiu inicialmente como função social de comunicação mas providenciou um meio no qual essas barreiras podiam ser derrubadas. A explosão de criatividade dos últimos 50.000 anos resultaram do eliminar dessas barreiras. Mithen supõe a existência de três módulos mentais cujo objectivo seriam lidar com a inteligência social, a inteligência técnica e a história natural (i.e., o conhecimento do ambiente, dos seus perigos e virtudes). [cont.]

janeiro 02, 2007

Correntes

"A ignorância é uma coisa vil, abjecta, indigna, servil, sujeita a inúmeras e violentíssimas paixões. Destes insuportáveis tiranos que são as paixões - e que ora nos governam alternadamente, ora em conjunto - te libertará a sabedoria, a única liberdade autêntica. Para chegar à sabedoria um só caminho e em linha recta; não há que errar; avança em passo firme e constante. Se queres que tudo te esteja sujeito, sujeita-te tu à razão; dirigirás muitos outros, se a ti dirigir a razão. Ela te dirá o que deves empreender, e de que maneira; assim não serás surpreendido pelos acontecimentos. Tu não podes apontar-me alguém que saiba de que modo começou a querer aquilo que quer. E porquê? Porque o comum das pessoas não é levada pela reflexão, mas arrastada por impulsos. A fortuna cai sobre nós não menos vezes que nós caímos sobre ela. A indignidade não está em «irmos», mas em «sermos levados», em perguntarmos, de súbito, surpreendidos no meio da um turbilhão de acontecimentos: "Mas como é que eu vim parar aqui?" Séneca, Cartas a Lucílio

dezembro 21, 2006

Refocagem

A palavra 'eu' é uma abreviatura para o nós que nos habita. 'Eu' é o resultado, a cada instante, da multidão que se congrega, degladia e se constrói numa pessoa e à invariante que sobressai dessa dialéctica chamamos personalidade. Eu (e tu) não somos o ponto final no qual orbitam as coisas, somos, apenas e tanto, a trajectória de um discurso.

dezembro 18, 2006

Babel

Não existiriam pessoas sem comunicação. Poderiam existir seres humanos, como existem bactérias ou algas azuis ou fungos gigantes. Claro, estas e outras decisões bioquímicas relevantes e mui estruturais foram tomadas há mais de mil milhões de anos por indivíduos que não se pareciam nada connosco (uns nossos avós, por assim dizer) mas que não sabiam o que andavam a fazer (também um pouco como os nossos avós). A comunicação permitiu o construir das culturas, a troca de saberes recolhidos, a sua inevitável acumulação. O Dr. Spleen pensa no custo (que sabe, por experiência, ser uma pergunta a colocar sempre) deste projecto comunicacional. Que o mundo é complexo é algo que, por muito óbvio que pareça, nunca é demais repetir. Que a comunicação está restrita à capacidade do canal utilizado já não é tão óbvio mas é igualmente crucial. Porque significa não ser possível transmitir ao outro todas as nuances, os cinzentos, as diferenças que o mundo imprime sobre o nosso entender. Daí a ambiguidade e o desencontro, o equívoco. E do equívoco, a um mero passo, a guerra, o genocídio, a indiferença.

dezembro 15, 2006

Cultura e Genética (parte IV)

Existem, claro, diferenças entre genes e memes. Os genes são transmitidos de pais para filhos. Os memes podem ser transmitidos horizontalmente, ou mesmo dos filhos para pais. Mas existe uma diferença ainda mais profunda sobre estes dois conceitos. Genes especificam estruturas ou comportamentos - i.e., fenótipos - durante o desenvolvimento. Na herança, o fenótipo morre e apenas o genótipo é transmitido. A transmissão dos memes é muito diferente. Um meme é um fenótipo, o análogo ao genótipo seria a estrutura neural no cérebro que especifica esse meme. Quando A conta a anedota a B o que é transmitido é o fenótipo (A não passa uma parte do seu cérebro a B). Daqui segue que a herança nos memes pode conter caracteres adquiridos: B ao receber a anedota pode criar uma variante ainda com mais piada, e transmiti-la a C já com as devidas alterações. Nesse sentido, a transmissão cultural é Lamarckiana. Por estas razões, não é possível usar a teoria da genética populacional aos memes.

Uma outra implicação da linguística é a noção da mente modular (cf. post anterior). Estudos sobre a linguagem e sua aquisição sugerem que a habilidade para falar não é um aspecto relacionado com a inteligência geral, mas sim uma competência específica. Como Noam Chomsky argumenta, nós temos um «orgão da linguagem». A evidência desta perspectiva levou à sugestão que o cérebro possui competências específicas para certos domínios. No jargão actual, diz-se que o cérebro é modular (conceito que tem sido reforçado em estudos neurológicos tanto em pessoas normais como em pacientes que perderam parcelas de massa cinzenta). [cont.]

dezembro 11, 2006

Expressão

Traduzir é adicionar distância. Não se resume ao tradutor essa ponte entre margens de dois livros numa identidade possível. Traduzir é reconhecer no gesto do outro a sua mensagem invisível, é reconhecer nessas palavras o mínimo comum que nos une. E traduzir encerra também a dificuldade entre o que queremos dizer e o que falamos, entre a pulsão não verbalizada da nossa mente e a rede de palavras que nos agarra às coisas. Este motivo, principalmente, faz que o Doutor Spleen fale pouco e prefira relegar a um elaborado sistema de regras e hábitos implícitos, a sequência de ordens que diariamente exige. Não porque lhe custe as perguntas mas dificilmente suporta a longínqua ligação das respostas dadas, reflexos de questões que não existem e nascidas na confusão de quem as formula. Por isso, quando algo distinto do normal é necessário mas não urgente, prefere que lhe adivinhem os motivos, entre tentativas e erros, na linguagem glaciar do seu corpo e no fechar abrupto da tesoura com que vai cortando o mundo.

dezembro 06, 2006

Diminishing Returns

Quando alguém promete acabar com uma dada característica social como o crime, o consumo de drogas, o insucesso escolar, a mortalidade ou o trabalho infantil, o suicídio, a escravatura... está simplesmente a ser demagógico (ou ignorante). Não é possível eliminar por completo qualquer fenómeno não trivial que surja naturalmente na dinâmica de uma sociedade humana. Pode-se procurar soluções para reduzir percentualmente (por exemplo, para metade) estes respectivos fenómenos. Mas quanto maior for a redução desejada, mais esforços e recursos terão de ser alocados, mais responsabilidade terá de ser assumida pelo estado e/ou aos cidadãos, outros problemas não terão atenção. É que há sempre uma fronteira para lá da qual o esforço exigido torna-se contraproducente, desencadeando efeitos secundários mais graves que os problemas que se procuram resolver. Pode parecer pessimista mas existem outras características que, num caso invertido, num totalitarismo, possuem a mesma dinâmica: a vontade de ser livre para escolher e expressar crenças e desejos, de formar comunidades, de ter filhos e amigos, amar.

dezembro 04, 2006

Foco

Não fora o mecanismo de empurrar em espasmos ritmados as bolas de comida digerida para os oito metros de intestino delgado (ritmo esse que Kong júnior imagina existir, porque não lhe parece ser contínua este – e qualquer outro – tipo de passagem) não conseguiria acreditar que a quantidade de bolonhesa ingerida pelo irmão pudesse ser guardada num estômago aproximadamente humano. Entretanto (teria de haver um entretanto, não gastaríamos um texto, mesmo que inútil, num tal árido conjunto de deglutições repetidas apesar de, no parenteses anterior, já se ter dado – e aproveitado – a oportunidade a uma reflexão), entretanto, dizíamos, pára, lá fora, na rua, a silhueta de uma mão no vidro do restaurante. Lê algo. Ou observa. Uma mulher nova parece, o rosto a não fazer justiça àquela mão primeva, envolta num vermelho vivo em vestido destacado no escuro da noite e os três se viram. Só o Doutor Spleen permanece imóvel se exceptuarmos a trajectória de impressora com que os seus olhos massajam as linhas paginadas de um qualquer livro.

dezembro 01, 2006

Cultura e Genética (parte III)

É claro que os seres humanos dependem da aprendizagem observacional, reforçada pelo ensino, que inclui instruções verbais. Se existem animais capazes de copiar os seus pais e avós porque não surgem avanços culturais continuados nas suas sociedades? Duas sociedades de chimpanzés podem ter hábitos distintos mas ambas não estão continuamente a adquirir novos hábitos. Uma resposta provável é que, nos humanos, a principal ferramenta por onde a cultura é transmitida é a linguagem.

Tanto o sistema genético como o sistema linguístico são capazes de transmitir um conjunto indefinido de mensagens construídas como sequências lineares baseadas num pequeno número de unidades diferentes. Na genética, a sequência das quatro bases (ACGT) especifica um grande número de proteínas que, por sua vez, especifica um número indefinido de morfologias. Na linguagem, a sequência de 30 ou 40 fonemas especifica muitíssimas palavras cujo arranjo (segundo uma dada gramática) permite elaborar um indefinido número de significados.

Richard Dawkins acentuou esta analogia ao introduzir o conceito de meme, uma unidade de herança cultural semelhante ao gene. Um meme, argumenta ele, é um replicador. Uma dada anedota, por exemplo, ao passar de A para B, forma uma representação no cérebro de B que pode ser visto como uma replicação da anedota original. Existe espaço para selecção: uma boa anedota replica-se mais facilmente que uma má. Claro que o sucesso da replicação depende da natureza da mente humana bem como do meio cultural onde ela existe. Mas o mesmo pode ser dito sobre os genes: o seu incremento depende do ambiente e do conjunto de outros genes que estão presentes. [cont.]

novembro 28, 2006

Conexão

Na travessia não muito repetida daquele corredor, os piores temores do mundo porque inevitáveis. Em cada porta aberta uma espera misturada com éter e urina, um padrão reciclado em cada um daqueles rostos. Na sexta à direita, a mãe, talvez o último elo ao passado (o resto deixado em escritas de carta e amarelos de fotografia numa qualquer gaveta). A alcateia não sabe deste seu destino. Uma qualquer réstia de humanidade é sempre um ponto fraco a explorar e o Doutor Spleen, no que toca à parte que ainda possui e ao que os outros chamam de humano, gere-a com a parcimónia anual de um contabilista. Ali, o silêncio, mesmo misturado com o fedor agarrado às paredes, tem um valor preciso que lhe agrada. À sua frente, nem a dois metros e sozinhos, na profundidade da decadência de Parkinson, ela desconhece quem a visita. Um abismo que separa os dois sofás. Quando nos falha a ponte com o mundo, onde ficamos?

novembro 23, 2006

Nascimento

Se alguém calculasse as probabilidades de cada um de nós estar aqui, no mundo, elas seriam, em qualquer escala, quase zero. Mas nesse quase cabemos todos.

novembro 21, 2006

Nevoeiro

O Doutor Spleen sabe que entre um corte de bisturi há dois mundos que se separam, dois resultados presos num fio de presente. Que entre os ilimitados parâmetros de um instante, apenas um conjunto deles, reduzido mas não vazio, o tornam único. Não se aprecia um corpo através de uma análise espectral das suas componentes ou da interacção química das células que o compõem. Não se entende uma obra de arte por esta obedecer aos ditames da quântica das partículas nem um romance pelo estilo ou dimensão da fonte usada na impressão e uma música é mais que as frequências obtidas na decomposição de Fourier. Todos estes exemplos dizem que o gosto é também um escolher de abstracção, um progressivo retirar de detalhes demasiado finos para obter o grosso modo que nos agrada. Nem sempre é fácil saber quando se pára. E esta decisão, esta difícil fronteira pode ficar aquém para um dos seus dois lados. Ou nos perdemos numa ânsia de precisão sobre o que interessa (ou seja, numa perda, porque nada é perfeito) ou deixamos passar o único desse momento (e tudo se dilui nesse nevoeiro que era o mundo antes das pessoas).