janeiro 02, 2007

Correntes

"A ignorância é uma coisa vil, abjecta, indigna, servil, sujeita a inúmeras e violentíssimas paixões. Destes insuportáveis tiranos que são as paixões - e que ora nos governam alternadamente, ora em conjunto - te libertará a sabedoria, a única liberdade autêntica. Para chegar à sabedoria um só caminho e em linha recta; não há que errar; avança em passo firme e constante. Se queres que tudo te esteja sujeito, sujeita-te tu à razão; dirigirás muitos outros, se a ti dirigir a razão. Ela te dirá o que deves empreender, e de que maneira; assim não serás surpreendido pelos acontecimentos. Tu não podes apontar-me alguém que saiba de que modo começou a querer aquilo que quer. E porquê? Porque o comum das pessoas não é levada pela reflexão, mas arrastada por impulsos. A fortuna cai sobre nós não menos vezes que nós caímos sobre ela. A indignidade não está em «irmos», mas em «sermos levados», em perguntarmos, de súbito, surpreendidos no meio da um turbilhão de acontecimentos: "Mas como é que eu vim parar aqui?" Séneca, Cartas a Lucílio

dezembro 21, 2006

Refocagem

A palavra 'eu' é uma abreviatura para o nós que nos habita. 'Eu' é o resultado, a cada instante, da multidão que se congrega, degladia e se constrói numa pessoa e à invariante que sobressai dessa dialéctica chamamos personalidade. Eu (e tu) não somos o ponto final no qual orbitam as coisas, somos, apenas e tanto, a trajectória de um discurso.

dezembro 18, 2006

Babel

Não existiriam pessoas sem comunicação. Poderiam existir seres humanos, como existem bactérias ou algas azuis ou fungos gigantes. Claro, estas e outras decisões bioquímicas relevantes e mui estruturais foram tomadas há mais de mil milhões de anos por indivíduos que não se pareciam nada connosco (uns nossos avós, por assim dizer) mas que não sabiam o que andavam a fazer (também um pouco como os nossos avós). A comunicação permitiu o construir das culturas, a troca de saberes recolhidos, a sua inevitável acumulação. O Dr. Spleen pensa no custo (que sabe, por experiência, ser uma pergunta a colocar sempre) deste projecto comunicacional. Que o mundo é complexo é algo que, por muito óbvio que pareça, nunca é demais repetir. Que a comunicação está restrita à capacidade do canal utilizado já não é tão óbvio mas é igualmente crucial. Porque significa não ser possível transmitir ao outro todas as nuances, os cinzentos, as diferenças que o mundo imprime sobre o nosso entender. Daí a ambiguidade e o desencontro, o equívoco. E do equívoco, a um mero passo, a guerra, o genocídio, a indiferença.

dezembro 15, 2006

Cultura e Genética (parte IV)

Existem, claro, diferenças entre genes e memes. Os genes são transmitidos de pais para filhos. Os memes podem ser transmitidos horizontalmente, ou mesmo dos filhos para pais. Mas existe uma diferença ainda mais profunda sobre estes dois conceitos. Genes especificam estruturas ou comportamentos - i.e., fenótipos - durante o desenvolvimento. Na herança, o fenótipo morre e apenas o genótipo é transmitido. A transmissão dos memes é muito diferente. Um meme é um fenótipo, o análogo ao genótipo seria a estrutura neural no cérebro que especifica esse meme. Quando A conta a anedota a B o que é transmitido é o fenótipo (A não passa uma parte do seu cérebro a B). Daqui segue que a herança nos memes pode conter caracteres adquiridos: B ao receber a anedota pode criar uma variante ainda com mais piada, e transmiti-la a C já com as devidas alterações. Nesse sentido, a transmissão cultural é Lamarckiana. Por estas razões, não é possível usar a teoria da genética populacional aos memes.

Uma outra implicação da linguística é a noção da mente modular (cf. post anterior). Estudos sobre a linguagem e sua aquisição sugerem que a habilidade para falar não é um aspecto relacionado com a inteligência geral, mas sim uma competência específica. Como Noam Chomsky argumenta, nós temos um «orgão da linguagem». A evidência desta perspectiva levou à sugestão que o cérebro possui competências específicas para certos domínios. No jargão actual, diz-se que o cérebro é modular (conceito que tem sido reforçado em estudos neurológicos tanto em pessoas normais como em pacientes que perderam parcelas de massa cinzenta). [cont.]

dezembro 11, 2006

Expressão

Traduzir é adicionar distância. Não se resume ao tradutor essa ponte entre margens de dois livros numa identidade possível. Traduzir é reconhecer no gesto do outro a sua mensagem invisível, é reconhecer nessas palavras o mínimo comum que nos une. E traduzir encerra também a dificuldade entre o que queremos dizer e o que falamos, entre a pulsão não verbalizada da nossa mente e a rede de palavras que nos agarra às coisas. Este motivo, principalmente, faz que o Doutor Spleen fale pouco e prefira relegar a um elaborado sistema de regras e hábitos implícitos, a sequência de ordens que diariamente exige. Não porque lhe custe as perguntas mas dificilmente suporta a longínqua ligação das respostas dadas, reflexos de questões que não existem e nascidas na confusão de quem as formula. Por isso, quando algo distinto do normal é necessário mas não urgente, prefere que lhe adivinhem os motivos, entre tentativas e erros, na linguagem glaciar do seu corpo e no fechar abrupto da tesoura com que vai cortando o mundo.

dezembro 06, 2006

Diminishing Returns

Quando alguém promete acabar com uma dada característica social como o crime, o consumo de drogas, o insucesso escolar, a mortalidade ou o trabalho infantil, o suicídio, a escravatura... está simplesmente a ser demagógico (ou ignorante). Não é possível eliminar por completo qualquer fenómeno não trivial que surja naturalmente na dinâmica de uma sociedade humana. Pode-se procurar soluções para reduzir percentualmente (por exemplo, para metade) estes respectivos fenómenos. Mas quanto maior for a redução desejada, mais esforços e recursos terão de ser alocados, mais responsabilidade terá de ser assumida pelo estado e/ou aos cidadãos, outros problemas não terão atenção. É que há sempre uma fronteira para lá da qual o esforço exigido torna-se contraproducente, desencadeando efeitos secundários mais graves que os problemas que se procuram resolver. Pode parecer pessimista mas existem outras características que, num caso invertido, num totalitarismo, possuem a mesma dinâmica: a vontade de ser livre para escolher e expressar crenças e desejos, de formar comunidades, de ter filhos e amigos, amar.

dezembro 04, 2006

Foco

Não fora o mecanismo de empurrar em espasmos ritmados as bolas de comida digerida para os oito metros de intestino delgado (ritmo esse que Kong júnior imagina existir, porque não lhe parece ser contínua este – e qualquer outro – tipo de passagem) não conseguiria acreditar que a quantidade de bolonhesa ingerida pelo irmão pudesse ser guardada num estômago aproximadamente humano. Entretanto (teria de haver um entretanto, não gastaríamos um texto, mesmo que inútil, num tal árido conjunto de deglutições repetidas apesar de, no parenteses anterior, já se ter dado – e aproveitado – a oportunidade a uma reflexão), entretanto, dizíamos, pára, lá fora, na rua, a silhueta de uma mão no vidro do restaurante. Lê algo. Ou observa. Uma mulher nova parece, o rosto a não fazer justiça àquela mão primeva, envolta num vermelho vivo em vestido destacado no escuro da noite e os três se viram. Só o Doutor Spleen permanece imóvel se exceptuarmos a trajectória de impressora com que os seus olhos massajam as linhas paginadas de um qualquer livro.

dezembro 01, 2006

Cultura e Genética (parte III)

É claro que os seres humanos dependem da aprendizagem observacional, reforçada pelo ensino, que inclui instruções verbais. Se existem animais capazes de copiar os seus pais e avós porque não surgem avanços culturais continuados nas suas sociedades? Duas sociedades de chimpanzés podem ter hábitos distintos mas ambas não estão continuamente a adquirir novos hábitos. Uma resposta provável é que, nos humanos, a principal ferramenta por onde a cultura é transmitida é a linguagem.

Tanto o sistema genético como o sistema linguístico são capazes de transmitir um conjunto indefinido de mensagens construídas como sequências lineares baseadas num pequeno número de unidades diferentes. Na genética, a sequência das quatro bases (ACGT) especifica um grande número de proteínas que, por sua vez, especifica um número indefinido de morfologias. Na linguagem, a sequência de 30 ou 40 fonemas especifica muitíssimas palavras cujo arranjo (segundo uma dada gramática) permite elaborar um indefinido número de significados.

Richard Dawkins acentuou esta analogia ao introduzir o conceito de meme, uma unidade de herança cultural semelhante ao gene. Um meme, argumenta ele, é um replicador. Uma dada anedota, por exemplo, ao passar de A para B, forma uma representação no cérebro de B que pode ser visto como uma replicação da anedota original. Existe espaço para selecção: uma boa anedota replica-se mais facilmente que uma má. Claro que o sucesso da replicação depende da natureza da mente humana bem como do meio cultural onde ela existe. Mas o mesmo pode ser dito sobre os genes: o seu incremento depende do ambiente e do conjunto de outros genes que estão presentes. [cont.]

novembro 28, 2006

Conexão

Na travessia não muito repetida daquele corredor, os piores temores do mundo porque inevitáveis. Em cada porta aberta uma espera misturada com éter e urina, um padrão reciclado em cada um daqueles rostos. Na sexta à direita, a mãe, talvez o último elo ao passado (o resto deixado em escritas de carta e amarelos de fotografia numa qualquer gaveta). A alcateia não sabe deste seu destino. Uma qualquer réstia de humanidade é sempre um ponto fraco a explorar e o Doutor Spleen, no que toca à parte que ainda possui e ao que os outros chamam de humano, gere-a com a parcimónia anual de um contabilista. Ali, o silêncio, mesmo misturado com o fedor agarrado às paredes, tem um valor preciso que lhe agrada. À sua frente, nem a dois metros e sozinhos, na profundidade da decadência de Parkinson, ela desconhece quem a visita. Um abismo que separa os dois sofás. Quando nos falha a ponte com o mundo, onde ficamos?

novembro 23, 2006

Nascimento

Se alguém calculasse as probabilidades de cada um de nós estar aqui, no mundo, elas seriam, em qualquer escala, quase zero. Mas nesse quase cabemos todos.

novembro 21, 2006

Nevoeiro

O Doutor Spleen sabe que entre um corte de bisturi há dois mundos que se separam, dois resultados presos num fio de presente. Que entre os ilimitados parâmetros de um instante, apenas um conjunto deles, reduzido mas não vazio, o tornam único. Não se aprecia um corpo através de uma análise espectral das suas componentes ou da interacção química das células que o compõem. Não se entende uma obra de arte por esta obedecer aos ditames da quântica das partículas nem um romance pelo estilo ou dimensão da fonte usada na impressão e uma música é mais que as frequências obtidas na decomposição de Fourier. Todos estes exemplos dizem que o gosto é também um escolher de abstracção, um progressivo retirar de detalhes demasiado finos para obter o grosso modo que nos agrada. Nem sempre é fácil saber quando se pára. E esta decisão, esta difícil fronteira pode ficar aquém para um dos seus dois lados. Ou nos perdemos numa ânsia de precisão sobre o que interessa (ou seja, numa perda, porque nada é perfeito) ou deixamos passar o único desse momento (e tudo se dilui nesse nevoeiro que era o mundo antes das pessoas).

novembro 17, 2006

Cultura e genética (parte II)

Certas espécies de ratos adquirem preferências por comidas a partir de outros ratos. Isto é um tipo de herança cultural: dois grupos de ratos alimentam-se de diferentes comidas e esta diferença é transmitida por aprendizagem. Este mecanismo designa-se por «melhoria local»: os adultos criam um ambiente onde facilitam a aprendizagem dos jovens. Isto contrasta com a «aprendizagem observacional», na qual um animal observa a acção de outro e o copia. A maioria dos animais parece incapaz de aprender por observação mas dificilmente se pode acreditar que toda a transmissão cultural no reino animal se baseia na melhoria local. Por exemplo, em certas zonas da Grécia, há águias que se alimentam de tartarugas. Como são incapazes de lhes quebrar a carapaça, apanham-nas e largam-nas muito acima para caírem sobre as rochas. Parece ridículo afirmar que apenas na Grécia as águias estão programadas geneticamente para fazer isto a tartarugas. Uma águia poderá aprender por melhoria local que há carne por debaixo da carapaça, mas apenas por observação local podem elas aprender a estratégia que lhes dá acesso a essa carne.

A distinção entre melhoria local e aprendizagem observacional é importante porque apenas pelo segundo mecanismo é possível ter alterações cumulativas na respectiva cultura. Por aprendizagem observacional pode-se aprender os velhos truques como também, acaso um individuo encontre um novo e melhor truque, este possa ser copiado pelos restantes. O efeito é uma continuidade na mudança, permitindo que vários possam usar um truque que, de outra forma, nunca teriam oportunidade ou tempo de o obter. [cont.]

novembro 15, 2006

Metamorfose em contra-mão

Na de Kafka, a metamorfose que Gregor Samsa não se deu conta era de corpo, da reacção exterior ao eu por lá preso. Mas quando agimos ou falamos, repetindo e sem pensar o coral do dia-a-dia, quando a resposta que damos não é filtrada pela diferença que nos faz, quanto de nós é ainda insecto? O que nos distingue de meras junções de músculos, esqueleto e sistema nervoso?

novembro 13, 2006

Dádiva

O Dr. Spleen acredita que a noção do mal é um conceito referenciável. Expliquemos. Para a maioria das pessoas (admite ele) a noção de moral resume-se ao cumprimento automático de uma série de preceitos - um regulamento, por assim dizer - onde a acção em questão é imoral ou moral se viola ou não as regras do 'jogo' no qual o sujeito e os outros (estejam eles de acordo ou nem por isso) interagem. Por exemplo, o adultério ou o incesto são imorais porque o regulamento judaico-cristão assim o afirma. Em relação a esta massa de gente, Spleen não vê nenhuma motivação para concordar com um regulamento específico, tenha ele passado na prova dos séculos, na sopa destilada das culturas ou apoiado com maior fervor ou razão numa apologética qualquer. Um acordo regimental é tão válido como outro, e Spleen não precisa de burocracias que lhe atafulhem o ego. Onde Spleen hesita, porém, é naqueles, poucos?, que observam ser a Ética um processo de descoberta, uma engenharia mental, um sangrar que reflecte nos outros os anseios individuais dos nossos medos e vice-versa. Porque de frente a um espelho não há nada de mais corajoso que dar a palavra à imagem que nos imita.

novembro 10, 2006

Cultura e genética (parte I)

[adaptado do livro The Origins of Life de John Maynard Smith e Eörs Szathmáry]

É comum referir a herança cultural como a característica distintiva dos seres humanos, i.e., os indivíduos numa sociedade adquirem as suas crenças e comportamentos, o seu conhecimento e as suas aptidões, através da aprendizagem com as gerações anteriores. Existe, claro, muita verdade nesta ideia, particularmente quando se refere as diferenças individuais ou entre duas sociedades. Diferenças entre as opiniões de duas pessoas não são causadas por diferenças genéticas. A diferença entre Londres agora e Londres no ano 1098 ou entre Londres e Pequim actuais tem motivos culturais e não genéticos. Tendo dito isto, porém, há algumas reservas a fazer. Primeiro, existe alguma herança cultural entre animais, um facto relevante quando se discute a origem da sociedade humana. Segundo, a habilidade dos humanos para aprender, e de construir sociedades baseadas na transmissão cultural, é genética: as sociedade humanas são diferentes das sociedades dos chimpanzés porque humanos e chimpanzés diferem geneticamente. Terceiro, as pessoas aprendem certas coisas mais facilmente que outras: a mente humana não é uma tábua rasa onde a experiência pode definir e escrever sem restrições. [cont.]

novembro 07, 2006

Particularidades

Dizer «os fins não justificam os meios» é uma generalização simpática mas não significa «os fins nunca justificam os meios». Se assim não fosse, como se lutaria, por exemplo, contra o arbítrio de uma lei errada?

novembro 06, 2006

Estética

A estética é um balde que não se enche. O acumular de modas, hábitos e prazeres não esgota o possível do amanhã; facilmente se volta a algo já esquecido e outrora apreciado que renegar, para sempre, um qualquer gosto e, independente do labirinto de escolhas e desistências, há sempre o vislumbre de um caminho. Por exemplo, na culinária o paladar é o fim no qual outros sentidos, o olfacto e a visão são o meio e, no entanto, há sempre algo proibido nessa travessia. Entre a comida que se expõe e a que se digere existe um esconder consciente do processo de transformação: o converter da disposição fotográfica dos alimentos à energia que nos anima, não é geralmente apreciado. Não há fotografias à metade de uma refeição (o horror de um zigurate de arroz destroçado por meteoros em forma de garfo ou um pastel de bacalhau arrasado em dentadas, mesmo que brancas, de alguém) nem do bolbo que formamos entre misturas de saliva e ritmos de maxilar, engolidos em espasmos silenciosos até ao mar de ácidos que nos habita. Quanto ao apreciar estético do Doutor Spleen sobre o reestruturar de uma pessoa, ocorre o mesmo. Facilmente se observa alguém no seu normal, nestes correres de dias que passam. Uns, poucos, observam também os resultados que ele obtém, corpos como o que o Inspector Rousseau irá encontrar, pela manhã, num armazém insuspeito de fitas adesivas. Já a órbita que leva de um normal ao outro é o que Spleen repudia a mostrar a terceiros.

novembro 03, 2006

Esforços

De acordo com a nossa tradição, toda a maldade humana é explicada ou por cegueira e ignorância ou por fraqueza, a inclinação de cedermos à tentação. Nós - segue o argumento - não somos capazes de agir bem naturalmente nem de agir mal deliberadamente. Somos tentados para fazer o mal e é necessário um esforço para fazer o bem. Tão enraizado está esta noção - não através dos ensinamentos de Jesus da Nazaré mas segundo as doutrinas da filosofia moral cristã - que as pessoas normalmente associam o bem com algo que não gostam e o mal como algo que os tenta. [...] É, creio, um facto simples ser igualmente comum sermos tentados a fazer o bem e ser preciso um esforço para fazer o mal. Machiavelli soube isto muito bem dizendo n'O Príncipe que os governantes tinham de ser ensinados a "como não serem bons" e, por isto, não significa que tinham de aprender a ser maléficos mas simplesmente a evitar ambas as inclinações e agir de acordo com motivações políticas - distintas das morais e religiosas - e criminais. Para Machiavelli o padrão com o qual se julga não é o 'eu' mas o mundo - o padrão é exclusivamente político - e é isto que faz com que ele seja tão importante para a filosofia moral. Ele estava mais interessado em Florença do que salvar a alma. Para ele aquelas pessoas mais interessadas na salvação da respectiva alma deveriam ficar fora da política. Hannah Arendt, Some Questions of Moral Philosophy

outubro 31, 2006

Delta

Nunca nos demos bem com distâncias. Fossem elas medidas em quilómetros ou em diferenças diversas no olhar o outro.

outubro 30, 2006

Personas e Pessoas

No planeta Ankh, os seres conscientes possuem uma característica muito especial: apenas se consideram pessoas quando interagem num diálogo com outro Ankhiano. Esta forma de agir tem implicações profundas nas dinâmicas culturais. Um Ankhiano sozinho não existe enquanto agente activo mas apenas se vê (e é visto) como um passivo social em potência. A solidão, a distância à casta é uma sentença de anulação, e a sua possibilidade uma ameaça constante que paira sobre todos. Um Ankhiano sozinho não pensa, não planeia nem aprende, apenas é capaz de reagir somaticamente ao seu ambiente e de executar tarefas repetitivas oriundas de uma qualquer experiência passada. Apesar disso, reconhece diferentes níveis de intimidade, o que implica a existência de uma hierarquia de personalidades partilhadas (entre amigos, amantes, familiares, desconhecidos), ou seja, dois Ankhianos, consoante a categoria onde se inserem mutuamente, estabelecem uma persona, uma máscara que lhes dá a unicidade de uma pessoa naquele instante do espaço-tempo, naquele intervalo onde se preenchem sentidos e se afastam abismos. O facto de três ou mais Ankhianos se poderem juntar, resulta numa complexa estrutura linguística para distinguir as combinações possíveis que daí advêm. Por isso, os Ankhianos a partir de um (pequeno) número de participantes usam um único termo para designar tal rede de comunicação que, aproximando à tradução possível da distância que nos separa, significaria algo como 'ruído', 'diluição' mas também 'desespero'. Um Ankhiano não tem medo de mentir porque, mesmo sabendo instintivamente que a mentira contamina o outro e que tal perda restringirá, mais cedo ou mais tarde, a possibilidade e a qualidade de futuras uniões, o facto de não enfabular quando separado confere ao mentiroso a reconfortante visão de um horizonte desimpedido.

outubro 24, 2006

Opção

Qual a diferença entre omissão e acto? Porque não agir quando se deve é melhor, nesta sociedade, que agir quando não se deve?

outubro 23, 2006

Meios, Fins, Recomeços

O estudo teórico pode garantir alguma conquista ao saber com ésse maiúsculo mas não substitui a experiência acumulada no cruzar dos anos. Por exemplo, o domínio da culinária está no virtuosismo da receita e não num conjunto abstracto de fundamentos teóricos. A receita é um exprimir de interacção, uma sinfonia de empatias empiricamente ganhas sobre uma história de erros e cujas propriedades são mais importantes que o explicar ou um entender da sua existência. Também uma desagregação - como Spleen a chama num dos seus raros eufemismos - não requer conceitos avançados de anatomia, apenas a consciência dessa ordem obedecida de um corpo, dessa dinâmica pulsante a que chamamos vida. Não se aprende bioquímica para fazer uma caldeirada.

outubro 20, 2006

Equilíbrio

Os hábitos podem prevenir a loucura mas em excesso previnem a pessoa.

outubro 18, 2006

Premonição...


...da guerra civil (Salvador Dali)

A maioria das fotos europeias das décadas de 1910 e 1930 partilham, para mim, um peso opressivo. Não é o preto e branco (que talvez ajude) nem o ar tipicamente triste das caras que, imóveis e de frente à câmara, vemos fixadas. É por retratarem os períodos imediatamente anteriores às terríveis guerras que lhes seguiram, a um conjunto antagónico de fetos políticos que cresciam, imperceptíveis, perante as vidas normais dos retratados. Como a lembrar que o presente não nos leva, necessariamente, ao futuro que queremos.

outubro 16, 2006

Procura

Há semelhanças entre algumas possibilidades teóricas e certas impossibilidades práticas. Por exemplo, o Doutor Spleen admite a possibilidade à priori de existir alguém que suporte um nível ilimitado de dor, que mantenha a coerência moral perante qualquer inundar de contexto que acompanha certos momentos. Porém, dadas as restrições da bioquímica, da aprendizagem social e da influência esmagadora das pressões que, como cogumelos, habitam nos interstícios desse queijo suíço que é a cultura, seria, na prática, uma quimera pretender encontrar ou defrontar uma pessoa assim. Já Dabila não se preocupa com a força aplicada nos seus punhos perante uma tão clara instância do exemplo descrito (e que se cristaliza neste prolongar de tempo oferecido ao silêncio das palavras). Nada na sala húmida e relativamente escura se altera, nem quem devia falar nem quem o deveria fazer falar. Do lado do primeiro, Spleen procura, atento, algo que mostre ser esta a confirmação que até agora lhe escapara. No lado do segundo, a indiferença explica-se porque a ignorância sempre passou ao lado de argumentos subtis.

outubro 12, 2006

Balança

Para quem afirma ter a maioria sempre razão, como é que, em 10 milhões, 4999999 podem estar errados mas 5000001 não? Por outro lado, dificilmente dois votos justificam uma guerra civil. Uma patetice que salve vidas não pode ser uma grande patetice.

outubro 10, 2006

Governo de N

Em qualquer sistema burocrático, o transferir de responsabilidades é um assunto de rotina diária e se quisermos definir a burocracia nos termos da ciência política, i.e., como uma forma de governo - o governo dos secretariados em contraste com o governo dos homens, de um homem, de poucos homens ou de muitos homens - a burocracia, infelizmente, é o governo de nenhum homem e, por esta razão, talvez seja a menos humana e a mais cruel forma de governação - Hannah Arendt, Personal Responsibility over Dictatorship

outubro 07, 2006

Proveniência

Fora de nós, o vazio. Fora do silêncio, um ruído infinito. São passos de gente lá fora que impede o sono de chegar. Não. Não são os passos. É um mundo que se força ao Mundo e do qual não se admite fuga e nessa impotência a insónia. Quem seríamos sem os outros? Os actos são respostas à dinâmica que nos envolve e define, os gestos que nos classificam, o rosto nosso construído. O Dr. Spleen jaz uma vez mais no colchão húmido de um meio de dia. É um outro Verão que começa, os ritmos dos corpos que se mostram, um suor que atravessa a multidão no limiar do fétido. No lento das horas imagina o deserto. Um amarelo arenoso sem limites, sem barulho, sem o vento humano das cidades, culturas, civilizações. E no seio desse deserto apenas um corpo, seu, a caminhar sem direcção. Por quanto tempo duraria a satisfação de se saber sozinho? Quão presos estamos aos vícios que os estranhos tão bem alimentam?

outubro 03, 2006

Avanço

Que limites à miopia que tu és escolheste iluminar? A tragédia não é esse multiplicar de escuridão que nos rodeia. A tragédia é não avançar sobre nenhuma.

outubro 02, 2006

Complementar

Nós não somos engraçados ou tristes, agressivos, inteligentes, sádicos, subtis, irónicos, perspicazes, x ou y, não no sentido que nos classifique. O mundo existe, é um arrastar irrefreável de realidade, de milhões de matizes semelhantes que se acumulam rápido até tudo se tornar diferente. É apenas um desejo, uma pequena mas certa soberba achar que o nosso eu não se afecta na dimensão do outro, do que está lá fora ao frio indiferente do que queremos. O Doutor Spleen (como já o afirmamos meses atrás) sabe-se uma soma de metades nem sempre concordantes, sabe que no contexto está impresso uma parte de nós, um parâmetro essencial a essa função de complexidade diabólica a que chamamos personalidade. E acredita, por saber isso, que mesmo que a responsabilidade não se transfira, não se explica um momento sem se saber onde e como se passou, quais os tecidos que prenderam esse presente ao frágil fio de memória que o substituiu. Por isso, entre o torturador e a sua vítima, entre a ânsia velada de ferir e o terror inevitável de sofrer, estão apenas as cordas, o metal das grilhetas que sustêm o cenário, a cadeira presa ao chão nesses dois não tão diferentes pontos de vista.