novembro 17, 2006

Cultura e genética (parte II)

Certas espécies de ratos adquirem preferências por comidas a partir de outros ratos. Isto é um tipo de herança cultural: dois grupos de ratos alimentam-se de diferentes comidas e esta diferença é transmitida por aprendizagem. Este mecanismo designa-se por «melhoria local»: os adultos criam um ambiente onde facilitam a aprendizagem dos jovens. Isto contrasta com a «aprendizagem observacional», na qual um animal observa a acção de outro e o copia. A maioria dos animais parece incapaz de aprender por observação mas dificilmente se pode acreditar que toda a transmissão cultural no reino animal se baseia na melhoria local. Por exemplo, em certas zonas da Grécia, há águias que se alimentam de tartarugas. Como são incapazes de lhes quebrar a carapaça, apanham-nas e largam-nas muito acima para caírem sobre as rochas. Parece ridículo afirmar que apenas na Grécia as águias estão programadas geneticamente para fazer isto a tartarugas. Uma águia poderá aprender por melhoria local que há carne por debaixo da carapaça, mas apenas por observação local podem elas aprender a estratégia que lhes dá acesso a essa carne.

A distinção entre melhoria local e aprendizagem observacional é importante porque apenas pelo segundo mecanismo é possível ter alterações cumulativas na respectiva cultura. Por aprendizagem observacional pode-se aprender os velhos truques como também, acaso um individuo encontre um novo e melhor truque, este possa ser copiado pelos restantes. O efeito é uma continuidade na mudança, permitindo que vários possam usar um truque que, de outra forma, nunca teriam oportunidade ou tempo de o obter. [cont.]

novembro 15, 2006

Metamorfose em contra-mão

Na de Kafka, a metamorfose que Gregor Samsa não se deu conta era de corpo, da reacção exterior ao eu por lá preso. Mas quando agimos ou falamos, repetindo e sem pensar o coral do dia-a-dia, quando a resposta que damos não é filtrada pela diferença que nos faz, quanto de nós é ainda insecto? O que nos distingue de meras junções de músculos, esqueleto e sistema nervoso?

novembro 13, 2006

Dádiva

O Dr. Spleen acredita que a noção do mal é um conceito referenciável. Expliquemos. Para a maioria das pessoas (admite ele) a noção de moral resume-se ao cumprimento automático de uma série de preceitos - um regulamento, por assim dizer - onde a acção em questão é imoral ou moral se viola ou não as regras do 'jogo' no qual o sujeito e os outros (estejam eles de acordo ou nem por isso) interagem. Por exemplo, o adultério ou o incesto são imorais porque o regulamento judaico-cristão assim o afirma. Em relação a esta massa de gente, Spleen não vê nenhuma motivação para concordar com um regulamento específico, tenha ele passado na prova dos séculos, na sopa destilada das culturas ou apoiado com maior fervor ou razão numa apologética qualquer. Um acordo regimental é tão válido como outro, e Spleen não precisa de burocracias que lhe atafulhem o ego. Onde Spleen hesita, porém, é naqueles, poucos?, que observam ser a Ética um processo de descoberta, uma engenharia mental, um sangrar que reflecte nos outros os anseios individuais dos nossos medos e vice-versa. Porque de frente a um espelho não há nada de mais corajoso que dar a palavra à imagem que nos imita.

novembro 10, 2006

Cultura e genética (parte I)

[adaptado do livro The Origins of Life de John Maynard Smith e Eörs Szathmáry]

É comum referir a herança cultural como a característica distintiva dos seres humanos, i.e., os indivíduos numa sociedade adquirem as suas crenças e comportamentos, o seu conhecimento e as suas aptidões, através da aprendizagem com as gerações anteriores. Existe, claro, muita verdade nesta ideia, particularmente quando se refere as diferenças individuais ou entre duas sociedades. Diferenças entre as opiniões de duas pessoas não são causadas por diferenças genéticas. A diferença entre Londres agora e Londres no ano 1098 ou entre Londres e Pequim actuais tem motivos culturais e não genéticos. Tendo dito isto, porém, há algumas reservas a fazer. Primeiro, existe alguma herança cultural entre animais, um facto relevante quando se discute a origem da sociedade humana. Segundo, a habilidade dos humanos para aprender, e de construir sociedades baseadas na transmissão cultural, é genética: as sociedade humanas são diferentes das sociedades dos chimpanzés porque humanos e chimpanzés diferem geneticamente. Terceiro, as pessoas aprendem certas coisas mais facilmente que outras: a mente humana não é uma tábua rasa onde a experiência pode definir e escrever sem restrições. [cont.]

novembro 07, 2006

Particularidades

Dizer «os fins não justificam os meios» é uma generalização simpática mas não significa «os fins nunca justificam os meios». Se assim não fosse, como se lutaria, por exemplo, contra o arbítrio de uma lei errada?

novembro 06, 2006

Estética

A estética é um balde que não se enche. O acumular de modas, hábitos e prazeres não esgota o possível do amanhã; facilmente se volta a algo já esquecido e outrora apreciado que renegar, para sempre, um qualquer gosto e, independente do labirinto de escolhas e desistências, há sempre o vislumbre de um caminho. Por exemplo, na culinária o paladar é o fim no qual outros sentidos, o olfacto e a visão são o meio e, no entanto, há sempre algo proibido nessa travessia. Entre a comida que se expõe e a que se digere existe um esconder consciente do processo de transformação: o converter da disposição fotográfica dos alimentos à energia que nos anima, não é geralmente apreciado. Não há fotografias à metade de uma refeição (o horror de um zigurate de arroz destroçado por meteoros em forma de garfo ou um pastel de bacalhau arrasado em dentadas, mesmo que brancas, de alguém) nem do bolbo que formamos entre misturas de saliva e ritmos de maxilar, engolidos em espasmos silenciosos até ao mar de ácidos que nos habita. Quanto ao apreciar estético do Doutor Spleen sobre o reestruturar de uma pessoa, ocorre o mesmo. Facilmente se observa alguém no seu normal, nestes correres de dias que passam. Uns, poucos, observam também os resultados que ele obtém, corpos como o que o Inspector Rousseau irá encontrar, pela manhã, num armazém insuspeito de fitas adesivas. Já a órbita que leva de um normal ao outro é o que Spleen repudia a mostrar a terceiros.

novembro 03, 2006

Esforços

De acordo com a nossa tradição, toda a maldade humana é explicada ou por cegueira e ignorância ou por fraqueza, a inclinação de cedermos à tentação. Nós - segue o argumento - não somos capazes de agir bem naturalmente nem de agir mal deliberadamente. Somos tentados para fazer o mal e é necessário um esforço para fazer o bem. Tão enraizado está esta noção - não através dos ensinamentos de Jesus da Nazaré mas segundo as doutrinas da filosofia moral cristã - que as pessoas normalmente associam o bem com algo que não gostam e o mal como algo que os tenta. [...] É, creio, um facto simples ser igualmente comum sermos tentados a fazer o bem e ser preciso um esforço para fazer o mal. Machiavelli soube isto muito bem dizendo n'O Príncipe que os governantes tinham de ser ensinados a "como não serem bons" e, por isto, não significa que tinham de aprender a ser maléficos mas simplesmente a evitar ambas as inclinações e agir de acordo com motivações políticas - distintas das morais e religiosas - e criminais. Para Machiavelli o padrão com o qual se julga não é o 'eu' mas o mundo - o padrão é exclusivamente político - e é isto que faz com que ele seja tão importante para a filosofia moral. Ele estava mais interessado em Florença do que salvar a alma. Para ele aquelas pessoas mais interessadas na salvação da respectiva alma deveriam ficar fora da política. Hannah Arendt, Some Questions of Moral Philosophy

outubro 31, 2006

Delta

Nunca nos demos bem com distâncias. Fossem elas medidas em quilómetros ou em diferenças diversas no olhar o outro.

outubro 30, 2006

Personas e Pessoas

No planeta Ankh, os seres conscientes possuem uma característica muito especial: apenas se consideram pessoas quando interagem num diálogo com outro Ankhiano. Esta forma de agir tem implicações profundas nas dinâmicas culturais. Um Ankhiano sozinho não existe enquanto agente activo mas apenas se vê (e é visto) como um passivo social em potência. A solidão, a distância à casta é uma sentença de anulação, e a sua possibilidade uma ameaça constante que paira sobre todos. Um Ankhiano sozinho não pensa, não planeia nem aprende, apenas é capaz de reagir somaticamente ao seu ambiente e de executar tarefas repetitivas oriundas de uma qualquer experiência passada. Apesar disso, reconhece diferentes níveis de intimidade, o que implica a existência de uma hierarquia de personalidades partilhadas (entre amigos, amantes, familiares, desconhecidos), ou seja, dois Ankhianos, consoante a categoria onde se inserem mutuamente, estabelecem uma persona, uma máscara que lhes dá a unicidade de uma pessoa naquele instante do espaço-tempo, naquele intervalo onde se preenchem sentidos e se afastam abismos. O facto de três ou mais Ankhianos se poderem juntar, resulta numa complexa estrutura linguística para distinguir as combinações possíveis que daí advêm. Por isso, os Ankhianos a partir de um (pequeno) número de participantes usam um único termo para designar tal rede de comunicação que, aproximando à tradução possível da distância que nos separa, significaria algo como 'ruído', 'diluição' mas também 'desespero'. Um Ankhiano não tem medo de mentir porque, mesmo sabendo instintivamente que a mentira contamina o outro e que tal perda restringirá, mais cedo ou mais tarde, a possibilidade e a qualidade de futuras uniões, o facto de não enfabular quando separado confere ao mentiroso a reconfortante visão de um horizonte desimpedido.

outubro 24, 2006

Opção

Qual a diferença entre omissão e acto? Porque não agir quando se deve é melhor, nesta sociedade, que agir quando não se deve?

outubro 23, 2006

Meios, Fins, Recomeços

O estudo teórico pode garantir alguma conquista ao saber com ésse maiúsculo mas não substitui a experiência acumulada no cruzar dos anos. Por exemplo, o domínio da culinária está no virtuosismo da receita e não num conjunto abstracto de fundamentos teóricos. A receita é um exprimir de interacção, uma sinfonia de empatias empiricamente ganhas sobre uma história de erros e cujas propriedades são mais importantes que o explicar ou um entender da sua existência. Também uma desagregação - como Spleen a chama num dos seus raros eufemismos - não requer conceitos avançados de anatomia, apenas a consciência dessa ordem obedecida de um corpo, dessa dinâmica pulsante a que chamamos vida. Não se aprende bioquímica para fazer uma caldeirada.

outubro 20, 2006

Equilíbrio

Os hábitos podem prevenir a loucura mas em excesso previnem a pessoa.

outubro 18, 2006

Premonição...


...da guerra civil (Salvador Dali)

A maioria das fotos europeias das décadas de 1910 e 1930 partilham, para mim, um peso opressivo. Não é o preto e branco (que talvez ajude) nem o ar tipicamente triste das caras que, imóveis e de frente à câmara, vemos fixadas. É por retratarem os períodos imediatamente anteriores às terríveis guerras que lhes seguiram, a um conjunto antagónico de fetos políticos que cresciam, imperceptíveis, perante as vidas normais dos retratados. Como a lembrar que o presente não nos leva, necessariamente, ao futuro que queremos.

outubro 16, 2006

Procura

Há semelhanças entre algumas possibilidades teóricas e certas impossibilidades práticas. Por exemplo, o Doutor Spleen admite a possibilidade à priori de existir alguém que suporte um nível ilimitado de dor, que mantenha a coerência moral perante qualquer inundar de contexto que acompanha certos momentos. Porém, dadas as restrições da bioquímica, da aprendizagem social e da influência esmagadora das pressões que, como cogumelos, habitam nos interstícios desse queijo suíço que é a cultura, seria, na prática, uma quimera pretender encontrar ou defrontar uma pessoa assim. Já Dabila não se preocupa com a força aplicada nos seus punhos perante uma tão clara instância do exemplo descrito (e que se cristaliza neste prolongar de tempo oferecido ao silêncio das palavras). Nada na sala húmida e relativamente escura se altera, nem quem devia falar nem quem o deveria fazer falar. Do lado do primeiro, Spleen procura, atento, algo que mostre ser esta a confirmação que até agora lhe escapara. No lado do segundo, a indiferença explica-se porque a ignorância sempre passou ao lado de argumentos subtis.

outubro 12, 2006

Balança

Para quem afirma ter a maioria sempre razão, como é que, em 10 milhões, 4999999 podem estar errados mas 5000001 não? Por outro lado, dificilmente dois votos justificam uma guerra civil. Uma patetice que salve vidas não pode ser uma grande patetice.

outubro 10, 2006

Governo de N

Em qualquer sistema burocrático, o transferir de responsabilidades é um assunto de rotina diária e se quisermos definir a burocracia nos termos da ciência política, i.e., como uma forma de governo - o governo dos secretariados em contraste com o governo dos homens, de um homem, de poucos homens ou de muitos homens - a burocracia, infelizmente, é o governo de nenhum homem e, por esta razão, talvez seja a menos humana e a mais cruel forma de governação - Hannah Arendt, Personal Responsibility over Dictatorship

outubro 07, 2006

Proveniência

Fora de nós, o vazio. Fora do silêncio, um ruído infinito. São passos de gente lá fora que impede o sono de chegar. Não. Não são os passos. É um mundo que se força ao Mundo e do qual não se admite fuga e nessa impotência a insónia. Quem seríamos sem os outros? Os actos são respostas à dinâmica que nos envolve e define, os gestos que nos classificam, o rosto nosso construído. O Dr. Spleen jaz uma vez mais no colchão húmido de um meio de dia. É um outro Verão que começa, os ritmos dos corpos que se mostram, um suor que atravessa a multidão no limiar do fétido. No lento das horas imagina o deserto. Um amarelo arenoso sem limites, sem barulho, sem o vento humano das cidades, culturas, civilizações. E no seio desse deserto apenas um corpo, seu, a caminhar sem direcção. Por quanto tempo duraria a satisfação de se saber sozinho? Quão presos estamos aos vícios que os estranhos tão bem alimentam?

outubro 03, 2006

Avanço

Que limites à miopia que tu és escolheste iluminar? A tragédia não é esse multiplicar de escuridão que nos rodeia. A tragédia é não avançar sobre nenhuma.

outubro 02, 2006

Complementar

Nós não somos engraçados ou tristes, agressivos, inteligentes, sádicos, subtis, irónicos, perspicazes, x ou y, não no sentido que nos classifique. O mundo existe, é um arrastar irrefreável de realidade, de milhões de matizes semelhantes que se acumulam rápido até tudo se tornar diferente. É apenas um desejo, uma pequena mas certa soberba achar que o nosso eu não se afecta na dimensão do outro, do que está lá fora ao frio indiferente do que queremos. O Doutor Spleen (como já o afirmamos meses atrás) sabe-se uma soma de metades nem sempre concordantes, sabe que no contexto está impresso uma parte de nós, um parâmetro essencial a essa função de complexidade diabólica a que chamamos personalidade. E acredita, por saber isso, que mesmo que a responsabilidade não se transfira, não se explica um momento sem se saber onde e como se passou, quais os tecidos que prenderam esse presente ao frágil fio de memória que o substituiu. Por isso, entre o torturador e a sua vítima, entre a ânsia velada de ferir e o terror inevitável de sofrer, estão apenas as cordas, o metal das grilhetas que sustêm o cenário, a cadeira presa ao chão nesses dois não tão diferentes pontos de vista.

setembro 27, 2006

Ficções

Um modelo científico não é uma tentativa de verdade. É apenas outra injecção de semântica, um atribuir de sentido organizado pela razão sobre o oceano ilimitado e indiferente a que chamamos mundo.

setembro 26, 2006

One way ticket

O Doutor Spleen, com a convicção que se lhe reconhece, avança entre gavetas da biblioteca central. Um quadriculado de madeira e papel, o labirinto onde Kong Sénior e Dabila tentam seguir-lhe os passos rápidos, as guinadas imprevistas, os livros largados no chão como sinais de procura. E fazem-no em silêncio (e nesse espaço fechado em regras soltas de funcionalismo público um ódio cerrado no passado de Kong, um quase fim na repetição de dias onde, numa vida anterior, se deixara levar e que - talvez e falando agora aos nossos leitores - se volte a referir nestes nossos contactos ao mundo de outra forma fechado destas personagens). Em silêncio não por ser proibido ou moralmente discutível falar numa biblioteca, não por não terem nada a dizer mas porque reconhecem a Spleen o aprender que uma palavra solta num momento errado é um imprevísivel fechar de possíveis, uma viagem sem retorno ao compromisso do outro, um encerrar de mundo irreparável.

setembro 21, 2006

Criticalidade

No planeta Ankh foi dominada, há muito, a ciência de detectar e prevenir terramotos. Ao início, esta técnica permitia conter terramotos de grau 6 sendo agora capaz de deter sismos até 8.3 (usamos a escala de Richter por facilidade: para entender como os Ankhianos os classificam obrigar-nos-ia a uma pós-graduação em cores e tonalidades). Mas atenção, dizem certas vozes, cada vez que um tremor é detido, aumenta a tensão resultante na crosta Ankhiana. Seria melhor escolher criteriosamente quais se poderiam deter, mesmo que isso implicasse perdas de propriedade ou civilização. Só que a perspectiva de deixar incólume a destruição natural quando se pode evitá-la não costuma vingar no espírito bem intencionado das multidões votantes. Assim, desapareceram do planeta todos os terramotos menores à custa de sistemas de prevenção cada vez melhor organizados suportados em orçamentos progressivamente crescentes. Mas o desiquilíbrio, invisível, pulsante, aumenta: a dinâmica geológica da crosta acumula tensões tais que resultam, a ritmos anormalmente frequentes, em terramotos de grau 10, 10.5, 11. Estes, porém, não são vistos como facturas de uma política míope, mas apenas como uma face da providência que, por ora, nada há a fazer.

setembro 19, 2006

Nacionalidade

Qual a distância entre o que dizem ser errado e o que dentro de ti te revolta? Da lei escrita o que segues por seguir e da tua, o que te proíbem? Quão estrangeiro és no teu país?

setembro 18, 2006

-ismos

O dar-se primazia a preconceitos de estimação relegando o bem-estar de terceiros tem muitos e variados nomes. Como designar alguém que, idealmente, não o fizesse?

setembro 15, 2006

Teatro

Conversar não é um testemunho passado entre duas ou mais pessoas. Não é a espera alternada com a fala, não é um pêndulo sem fricção. Conversar é um dançar de gestos, de sílabas, de instantes trocados. É um diálogo negociado, uma pauta marcada de sincronias auto-impostas. E nem todos são iguais: há os que são uma tempestade de convicções, de sentimentos que submergem quem os ouve; e há os que são vales, receptores que mudam, sem saber, segundo os ventos que são os outros. E entre quem vende e quem compra esse tecer de crenças há uma posse, um conquistar de espírito nem sempre percebido pelas partes. A poderosa mente analítica do Doutor Spleen é capaz de fragmentar um momento observado e entender-lhe o gradiente, a infecção que nasce de uma conversa dita normal. E sabe que entre o conquistador e o conquistado há, inconsciente, um conhecer tácito deste processo, uma ânsia animal para que essa troca se inicie. Por isso a sua inexpressão, o profundo gélido dos seus olhos, o deserto imóvel dos seus gestos. É mostrar ao outro a diferença, o aparente vazio de pessoa à sua frente, o reconhecer silencioso de um confronto monstruoso.

setembro 08, 2006

Narrativas

As suspeitas nunca terminam, apenas mudam de atenção, pensa o Doutor Spleen enquanto se observa cautelosamente no espelho rachado do que fora, horas antes, uma sala. No chão, uma muda de roupa num canto seco. Nas paredes, padrões riscados de sangue, a impressão final de uma mão (que agora se estende em seis partes desiguais pela vivenda de três andares nesta zona caríssima da cidade), uma mensagem sem significado a ser lida pela ânsia semântica incontida dos especialistas forenses. Ao corpo que resta, a sensação de liberdade que advém do facto consumado e irreversível da morte. Os outros cadáveres, dispostos com precisão geométrica pelas centenas de metros quadrados da habitação, prenunciam - esses sim - um intento de difícil mas não impossível revelação: há sempre que deixar uma possibilidade, um fio narrativo, um padrão honesto de continuidade. No ar fresco da madrugada, ainda sem o cheiro da podridão, uma calma incomum que se espalha, invisível, em redor. Um belo espectáculo para esse atraso sistemático que é a polícia.

setembro 06, 2006

Opções

Remediar em vez de prevenir. Seja sobre nós, seja na remoção sistemática da natureza do mundo, preferimos sempre errar e pedir desculpa depois do que não errar e pedir desculpa antes pelo sacrifício que daí deriva.

setembro 04, 2006

O Efeito de Estufa Ataca de Novo


Em Vénus, as nuvens, de ácido sulfúrico, são atravessadas por tempestades ciclónicas e produzem uma pressão equivalente à do Oceano a 1 Km de profundidade. As temperaturas chegam a atingir os 500º (o suficiente para derreter chumbo) numa superficie preenchida por enormes rios de lava. Vénus é um planeta quase igual à Terra (no tamanho, na densidade, na composição química), apenas um pouco mais próximo do Sol o que permitiu ao efeito de estufa fazer dele um inferno. Na imagem (sem nuvens) vislumbra-se a gigantesca Corona Artemis onde o nosso cérebro nos convida a um rosto.

setembro 01, 2006

A Carne

Os animais, dentro da sua população reprodutiva, são basicamente iguais. Existem pequenos traços, pequenas diferenças que permitem, a um olho progressivamente mais sensível, distinguir alguns de outros (os machos e as fêmeas, os animais dominantes, as famílias) mas comparando o que os assemelha do que os separa, percebe-se que a noção de espécie não se refere somente à estrutura do animal mas também ao seu comportamento. Com as pessoas o assunto complica (como complica em tudo o resto, aliás, mas não façamos disso uma vantagem indiscutível). Com as pessoas, note-se, não com os Homo Sapiens, estes vestígios históricos de uma evolução escondida por detrás da cortina mais ou menos opaca das culturas humanas. Uma população de animais geneticamente próximos é a projecção iterada sobre a normal de Gauss de um fantasma, um animal abstracto que contém a média das características que distinguem essa população. O Doutor Spleen reflecte neste ponto porque imagina como será o fantasma do Homem. A suspeita que lhe perpassa a mente é o reflexo dessa perda que ocorre na histeria e no pânico das massas.

julho 27, 2006

Três Anos de Ruminações


Três anos de reflexos, meus, aqui.