outubro 18, 2006

Premonição...


...da guerra civil (Salvador Dali)

A maioria das fotos europeias das décadas de 1910 e 1930 partilham, para mim, um peso opressivo. Não é o preto e branco (que talvez ajude) nem o ar tipicamente triste das caras que, imóveis e de frente à câmara, vemos fixadas. É por retratarem os períodos imediatamente anteriores às terríveis guerras que lhes seguiram, a um conjunto antagónico de fetos políticos que cresciam, imperceptíveis, perante as vidas normais dos retratados. Como a lembrar que o presente não nos leva, necessariamente, ao futuro que queremos.

outubro 16, 2006

Procura

Há semelhanças entre algumas possibilidades teóricas e certas impossibilidades práticas. Por exemplo, o Doutor Spleen admite a possibilidade à priori de existir alguém que suporte um nível ilimitado de dor, que mantenha a coerência moral perante qualquer inundar de contexto que acompanha certos momentos. Porém, dadas as restrições da bioquímica, da aprendizagem social e da influência esmagadora das pressões que, como cogumelos, habitam nos interstícios desse queijo suíço que é a cultura, seria, na prática, uma quimera pretender encontrar ou defrontar uma pessoa assim. Já Dabila não se preocupa com a força aplicada nos seus punhos perante uma tão clara instância do exemplo descrito (e que se cristaliza neste prolongar de tempo oferecido ao silêncio das palavras). Nada na sala húmida e relativamente escura se altera, nem quem devia falar nem quem o deveria fazer falar. Do lado do primeiro, Spleen procura, atento, algo que mostre ser esta a confirmação que até agora lhe escapara. No lado do segundo, a indiferença explica-se porque a ignorância sempre passou ao lado de argumentos subtis.

outubro 12, 2006

Balança

Para quem afirma ter a maioria sempre razão, como é que, em 10 milhões, 4999999 podem estar errados mas 5000001 não? Por outro lado, dificilmente dois votos justificam uma guerra civil. Uma patetice que salve vidas não pode ser uma grande patetice.

outubro 10, 2006

Governo de N

Em qualquer sistema burocrático, o transferir de responsabilidades é um assunto de rotina diária e se quisermos definir a burocracia nos termos da ciência política, i.e., como uma forma de governo - o governo dos secretariados em contraste com o governo dos homens, de um homem, de poucos homens ou de muitos homens - a burocracia, infelizmente, é o governo de nenhum homem e, por esta razão, talvez seja a menos humana e a mais cruel forma de governação - Hannah Arendt, Personal Responsibility over Dictatorship

outubro 07, 2006

Proveniência

Fora de nós, o vazio. Fora do silêncio, um ruído infinito. São passos de gente lá fora que impede o sono de chegar. Não. Não são os passos. É um mundo que se força ao Mundo e do qual não se admite fuga e nessa impotência a insónia. Quem seríamos sem os outros? Os actos são respostas à dinâmica que nos envolve e define, os gestos que nos classificam, o rosto nosso construído. O Dr. Spleen jaz uma vez mais no colchão húmido de um meio de dia. É um outro Verão que começa, os ritmos dos corpos que se mostram, um suor que atravessa a multidão no limiar do fétido. No lento das horas imagina o deserto. Um amarelo arenoso sem limites, sem barulho, sem o vento humano das cidades, culturas, civilizações. E no seio desse deserto apenas um corpo, seu, a caminhar sem direcção. Por quanto tempo duraria a satisfação de se saber sozinho? Quão presos estamos aos vícios que os estranhos tão bem alimentam?

outubro 03, 2006

Avanço

Que limites à miopia que tu és escolheste iluminar? A tragédia não é esse multiplicar de escuridão que nos rodeia. A tragédia é não avançar sobre nenhuma.

outubro 02, 2006

Complementar

Nós não somos engraçados ou tristes, agressivos, inteligentes, sádicos, subtis, irónicos, perspicazes, x ou y, não no sentido que nos classifique. O mundo existe, é um arrastar irrefreável de realidade, de milhões de matizes semelhantes que se acumulam rápido até tudo se tornar diferente. É apenas um desejo, uma pequena mas certa soberba achar que o nosso eu não se afecta na dimensão do outro, do que está lá fora ao frio indiferente do que queremos. O Doutor Spleen (como já o afirmamos meses atrás) sabe-se uma soma de metades nem sempre concordantes, sabe que no contexto está impresso uma parte de nós, um parâmetro essencial a essa função de complexidade diabólica a que chamamos personalidade. E acredita, por saber isso, que mesmo que a responsabilidade não se transfira, não se explica um momento sem se saber onde e como se passou, quais os tecidos que prenderam esse presente ao frágil fio de memória que o substituiu. Por isso, entre o torturador e a sua vítima, entre a ânsia velada de ferir e o terror inevitável de sofrer, estão apenas as cordas, o metal das grilhetas que sustêm o cenário, a cadeira presa ao chão nesses dois não tão diferentes pontos de vista.

setembro 27, 2006

Ficções

Um modelo científico não é uma tentativa de verdade. É apenas outra injecção de semântica, um atribuir de sentido organizado pela razão sobre o oceano ilimitado e indiferente a que chamamos mundo.

setembro 26, 2006

One way ticket

O Doutor Spleen, com a convicção que se lhe reconhece, avança entre gavetas da biblioteca central. Um quadriculado de madeira e papel, o labirinto onde Kong Sénior e Dabila tentam seguir-lhe os passos rápidos, as guinadas imprevistas, os livros largados no chão como sinais de procura. E fazem-no em silêncio (e nesse espaço fechado em regras soltas de funcionalismo público um ódio cerrado no passado de Kong, um quase fim na repetição de dias onde, numa vida anterior, se deixara levar e que - talvez e falando agora aos nossos leitores - se volte a referir nestes nossos contactos ao mundo de outra forma fechado destas personagens). Em silêncio não por ser proibido ou moralmente discutível falar numa biblioteca, não por não terem nada a dizer mas porque reconhecem a Spleen o aprender que uma palavra solta num momento errado é um imprevísivel fechar de possíveis, uma viagem sem retorno ao compromisso do outro, um encerrar de mundo irreparável.

setembro 21, 2006

Criticalidade

No planeta Ankh foi dominada, há muito, a ciência de detectar e prevenir terramotos. Ao início, esta técnica permitia conter terramotos de grau 6 sendo agora capaz de deter sismos até 8.3 (usamos a escala de Richter por facilidade: para entender como os Ankhianos os classificam obrigar-nos-ia a uma pós-graduação em cores e tonalidades). Mas atenção, dizem certas vozes, cada vez que um tremor é detido, aumenta a tensão resultante na crosta Ankhiana. Seria melhor escolher criteriosamente quais se poderiam deter, mesmo que isso implicasse perdas de propriedade ou civilização. Só que a perspectiva de deixar incólume a destruição natural quando se pode evitá-la não costuma vingar no espírito bem intencionado das multidões votantes. Assim, desapareceram do planeta todos os terramotos menores à custa de sistemas de prevenção cada vez melhor organizados suportados em orçamentos progressivamente crescentes. Mas o desiquilíbrio, invisível, pulsante, aumenta: a dinâmica geológica da crosta acumula tensões tais que resultam, a ritmos anormalmente frequentes, em terramotos de grau 10, 10.5, 11. Estes, porém, não são vistos como facturas de uma política míope, mas apenas como uma face da providência que, por ora, nada há a fazer.

setembro 19, 2006

Nacionalidade

Qual a distância entre o que dizem ser errado e o que dentro de ti te revolta? Da lei escrita o que segues por seguir e da tua, o que te proíbem? Quão estrangeiro és no teu país?

setembro 18, 2006

-ismos

O dar-se primazia a preconceitos de estimação relegando o bem-estar de terceiros tem muitos e variados nomes. Como designar alguém que, idealmente, não o fizesse?

setembro 15, 2006

Teatro

Conversar não é um testemunho passado entre duas ou mais pessoas. Não é a espera alternada com a fala, não é um pêndulo sem fricção. Conversar é um dançar de gestos, de sílabas, de instantes trocados. É um diálogo negociado, uma pauta marcada de sincronias auto-impostas. E nem todos são iguais: há os que são uma tempestade de convicções, de sentimentos que submergem quem os ouve; e há os que são vales, receptores que mudam, sem saber, segundo os ventos que são os outros. E entre quem vende e quem compra esse tecer de crenças há uma posse, um conquistar de espírito nem sempre percebido pelas partes. A poderosa mente analítica do Doutor Spleen é capaz de fragmentar um momento observado e entender-lhe o gradiente, a infecção que nasce de uma conversa dita normal. E sabe que entre o conquistador e o conquistado há, inconsciente, um conhecer tácito deste processo, uma ânsia animal para que essa troca se inicie. Por isso a sua inexpressão, o profundo gélido dos seus olhos, o deserto imóvel dos seus gestos. É mostrar ao outro a diferença, o aparente vazio de pessoa à sua frente, o reconhecer silencioso de um confronto monstruoso.

setembro 08, 2006

Narrativas

As suspeitas nunca terminam, apenas mudam de atenção, pensa o Doutor Spleen enquanto se observa cautelosamente no espelho rachado do que fora, horas antes, uma sala. No chão, uma muda de roupa num canto seco. Nas paredes, padrões riscados de sangue, a impressão final de uma mão (que agora se estende em seis partes desiguais pela vivenda de três andares nesta zona caríssima da cidade), uma mensagem sem significado a ser lida pela ânsia semântica incontida dos especialistas forenses. Ao corpo que resta, a sensação de liberdade que advém do facto consumado e irreversível da morte. Os outros cadáveres, dispostos com precisão geométrica pelas centenas de metros quadrados da habitação, prenunciam - esses sim - um intento de difícil mas não impossível revelação: há sempre que deixar uma possibilidade, um fio narrativo, um padrão honesto de continuidade. No ar fresco da madrugada, ainda sem o cheiro da podridão, uma calma incomum que se espalha, invisível, em redor. Um belo espectáculo para esse atraso sistemático que é a polícia.

setembro 06, 2006

Opções

Remediar em vez de prevenir. Seja sobre nós, seja na remoção sistemática da natureza do mundo, preferimos sempre errar e pedir desculpa depois do que não errar e pedir desculpa antes pelo sacrifício que daí deriva.

setembro 04, 2006

O Efeito de Estufa Ataca de Novo


Em Vénus, as nuvens, de ácido sulfúrico, são atravessadas por tempestades ciclónicas e produzem uma pressão equivalente à do Oceano a 1 Km de profundidade. As temperaturas chegam a atingir os 500º (o suficiente para derreter chumbo) numa superficie preenchida por enormes rios de lava. Vénus é um planeta quase igual à Terra (no tamanho, na densidade, na composição química), apenas um pouco mais próximo do Sol o que permitiu ao efeito de estufa fazer dele um inferno. Na imagem (sem nuvens) vislumbra-se a gigantesca Corona Artemis onde o nosso cérebro nos convida a um rosto.

setembro 01, 2006

A Carne

Os animais, dentro da sua população reprodutiva, são basicamente iguais. Existem pequenos traços, pequenas diferenças que permitem, a um olho progressivamente mais sensível, distinguir alguns de outros (os machos e as fêmeas, os animais dominantes, as famílias) mas comparando o que os assemelha do que os separa, percebe-se que a noção de espécie não se refere somente à estrutura do animal mas também ao seu comportamento. Com as pessoas o assunto complica (como complica em tudo o resto, aliás, mas não façamos disso uma vantagem indiscutível). Com as pessoas, note-se, não com os Homo Sapiens, estes vestígios históricos de uma evolução escondida por detrás da cortina mais ou menos opaca das culturas humanas. Uma população de animais geneticamente próximos é a projecção iterada sobre a normal de Gauss de um fantasma, um animal abstracto que contém a média das características que distinguem essa população. O Doutor Spleen reflecte neste ponto porque imagina como será o fantasma do Homem. A suspeita que lhe perpassa a mente é o reflexo dessa perda que ocorre na histeria e no pânico das massas.

julho 27, 2006

Três Anos de Ruminações


Três anos de reflexos, meus, aqui.

julho 25, 2006

Limites

Terá o cérebro do Homo Sapiens um estatuto semelhante à da máquina Universal de Turing? Para qualquer conceito 'compreensível', em teoria, será possível ser compreendido por um ser humano? Existirá um graal vedado no mundo das explicações ou, em todas as demandas finitas, há sempre um caminho, mais ou menos árduo, para uma solução que chamemos nossa?

julho 24, 2006

Pause & Play

As vidas não se perdem, evaporam-se. O singular átomo da morte cabe num intervalo de dois olhares. O cano da .45 apontado atrás do occipital do Doutor Spleen, seis balas atrás do cano e o silêncio de um profissional por detrás de tudo. Depois, célere, directo à memória dos momentos passados porque algo, entre a disposição circular das balas e o cilindro de metal que as direcciona, encravou. Um instante e as prioridades são refeitas, um microsegundo para o mundo se recompor, o punho que segura a arma quebrado no peso da sua inércia, o drama refeito e virado do avesso. E é o fim, ou um fim, já que em seguida tudo o que parara recomeça. O lento evoluir das ruas, as pessoas de volta às suas órbitas, o luar da noite nesse reflexo de luz, a caneta no chão apanhada e no negro do jornal, o mesmo problema de palavras cruzadas.

julho 21, 2006

Metáforas

Consideremos os seguintes dois pressupostos: (a) a consciência humana é posterior à plasticidade cerebral do animal Homo Sapiens; (b) a sequencialidade e a velocidade relativamente baixa da actividade mental consciente. Estes pontos vão na direcção do facto que o nosso cérebro não foi desenhado para o tipo de actividade que hoje em dia executa (digo facto porque a selecção natural, milhões de anos atrás, quando da evolução da massa craniana, não possuía qualquer propósito de fazer nascer culturas ou civilizações) e que existe, por isso, uma 'máquina virtual' mais ou menos sequencial a executar por cima do hardware extraordinariamente paralelo do cérebro. A nossa arquitectura neuronal, não sendo uma tabula rasa ao nascimento (existem variadíssimos mecanismos fixados no sistema nervoso central) é o meio que favorece o surgir de certos comportamentos em detrimento de outros (precisamente por não ser uma tabula rasa) e onde são codificadas as funcionalidades que adquirimos na interacção com o ambiente. É a adaptação pós-natal destas estruturas que deve ser referida para explicar o funcionamento cognitivo complexo de um ser humano (por exemplo, possuímos comportamentos inatos para reconhecer caras mas nenhum para escrever, actividade que temos muita dificuldade em aprender). Esta máquina virtual é, pelo esforço de aprendizagem e adequação cultural que nos torna pessoas, o meio que permite a reflexão individual, a possibilidade da linguagem e, assim, uma comunicação sofisticada com os outros. Em consequência, ela providencia um enorme e organizado processamento mental disponível para ser ocupado por multidões de ideias, conhecimentos e preconceitos diversos. São estes os memes de Richard Dawkins que, em certas configurações e resultantes dinâmicas, como as que obtemos durante o nosso longo período de aprendizagem, Daniel Dennet considera serem sinónimo de consciência e cuja mistura é única em cada um de nós. Ou, por outras palavras, cada um de nós é essa mistura.

(nota: as metáforas da moda - neste caso as computacionais - são, na sua maioria, um reflexo da cultura onde se expressam. Têm a vantagem de transmitir uma ideia minimizando a ambiguidade que sempre separa a mensagem de quem escreve e a interpretação de quem lê mas trazem consigo o risco de substituir a ideia pela imagem que carregam. É a vida.)

julho 19, 2006

Lotaria Cósmica

A vida é uma provocação ao impossível. A cada nascimento, no início dessa nova geração, aquele que surge é um grito de desafio, um possível feito carne, o resultado de baralhar milhares de genes e milhões de contingências.

julho 17, 2006

Contabilidade

O mundo, mesmo que já muito repetido, não deixou de ser complexo. Nele, e na interacção de ziliões de possibilidades, há uma infinidade de tons nos quais apostamos esta ou aquela opção. O Doutor Spleen, ao contrário de certos senhores da guerra que não perdoam uma primeira falha, sabe ser natural a ocorrência de erros no decorrer da sua actividade nocturna. Mesmo que ele próprio não se lembre de errar uma única vez (apesar de reconhecer que a auto-crítica com que floreamos o passado é - um pouco como a saudade - um eufemismo para memória selectiva) é preciso saber equilibrar na balança das perdas o ganho de experiência do agente que falha. Alguém que erra é alguém que evita esse erro no futuro. Assim, após nos deixarmos convencer pelo artificial de uma qualquer classificação, o que interessa é saber se o individuo em questão caiu no mesmo tipo de erro uma segunda vez. É que reiterar um defeito não é só o anúncio de um risco maior como é a sombra que acompanha a estupidez. E a estupidez não é coisa que se perdoe.

julho 13, 2006

Desproporcionalidade

A técnica primitiva "Olho por olho, dente por dente" não deixa todos cegos e desdentados. Ela afecta apenas uma infeliz parcela de quem se mete na desnecessária violência das coisas. Já "Dois olhos por olho, dois dentes por dente" é receita de cegueira e problemas dentários generalizados.

julho 12, 2006

Perdidos & Achados

A memória é o palco onde o teu passado perde os detalhes que já não te dizem nada. Nessa reconstrução, também, coisas que se unem, desejos e pequenos nadas que se juntam aos momentos mantidos, tornando esse passado não uma pedra que se gasta mas um rio nem sempre gelado que, assim e lento, recua.

julho 10, 2006

Naturezas

A alcateia dorme sob o tecto húmido do apartamento. A chuva anuncia-se lá fora e o Doutor Spleen, no seio da insónia, observa e lê com demora as obras dos Bacons; Roger e Francis, dois irmãos separados por quatro séculos de História. Pensa no erro e nas suas origens. Sabe que, para além do hábito a que nos submetemos neste passar de dias, do preconceito partilhado com que classificamos as coisas, a cedência acrítica à autoridade é uma das principais fontes de erro do mundo. É verdade que pressupor-se melhor não é um direito, que um individuo sem vontade é menos pessoa que um espírito autónomo, que a realidade não se conforma a receitas de ordens prévias. Mas como mudar a nossa própria natureza? Como ensinar um lobo a digerir relva?

julho 07, 2006

Standards

Para te chamarem normal quanta força nesse apertar de cinto?

julho 04, 2006

Deliriu fide


Há só que dizer Hiëronymus Bosch

julho 03, 2006

Precisão

A Ética é mais que pedras gravadas ou páginas escritas, que máximas sibiladas em ritual, que o suor da procura honesta que nos dite que fazer. Porque o universo é complexo, quase infinito, as consequências e as causas são multidões que o nevoeiro das relações esconde. Ética é o cálculo possível de uma situação, temperado pela inteligência, temperado pelas normas de uma cultura e polvilhado nos fantasmas carregados dos erros cumpridos. O Doutor Spleen reconhece que esse cálculo é o que nos separa dos restantes animais. Também reconhece que a capacidade de análise individual divide a Humanidade em diferentes campos. E no mesmo convivem santos e monstros, heróis e nemesis, anjos e demónios, porque para esventrar o conceito difuso de uma ética culturalmente partilhada é necessário ser matemático e cirurgião, um engenheiro de minas nessa lava de sentimentos arrefecida que molda a sociedade humana. O Doutor Spleen gostava, uma única vez que fosse, de explicar isso a uma das suas vítimas. Que não é o aleatório da escolha o importante na morte mas sim a demonstração desenhada no rasgar do corpo.

junho 27, 2006

Rotação

Por muito difícil ou entediante cada ano teu que passa, o que deixas? Que momentos guardas, quais os humores distintos que te atravessam e que esquecerás por descuido? Para que armazenar uma vida, única sempre mas que te parece a mesma dos outros? Mesmo perdendo todos nessa perda, a resposta, havendo-a, serás tu a dá-la.