setembro 15, 2006

Teatro

Conversar não é um testemunho passado entre duas ou mais pessoas. Não é a espera alternada com a fala, não é um pêndulo sem fricção. Conversar é um dançar de gestos, de sílabas, de instantes trocados. É um diálogo negociado, uma pauta marcada de sincronias auto-impostas. E nem todos são iguais: há os que são uma tempestade de convicções, de sentimentos que submergem quem os ouve; e há os que são vales, receptores que mudam, sem saber, segundo os ventos que são os outros. E entre quem vende e quem compra esse tecer de crenças há uma posse, um conquistar de espírito nem sempre percebido pelas partes. A poderosa mente analítica do Doutor Spleen é capaz de fragmentar um momento observado e entender-lhe o gradiente, a infecção que nasce de uma conversa dita normal. E sabe que entre o conquistador e o conquistado há, inconsciente, um conhecer tácito deste processo, uma ânsia animal para que essa troca se inicie. Por isso a sua inexpressão, o profundo gélido dos seus olhos, o deserto imóvel dos seus gestos. É mostrar ao outro a diferença, o aparente vazio de pessoa à sua frente, o reconhecer silencioso de um confronto monstruoso.

setembro 08, 2006

Narrativas

As suspeitas nunca terminam, apenas mudam de atenção, pensa o Doutor Spleen enquanto se observa cautelosamente no espelho rachado do que fora, horas antes, uma sala. No chão, uma muda de roupa num canto seco. Nas paredes, padrões riscados de sangue, a impressão final de uma mão (que agora se estende em seis partes desiguais pela vivenda de três andares nesta zona caríssima da cidade), uma mensagem sem significado a ser lida pela ânsia semântica incontida dos especialistas forenses. Ao corpo que resta, a sensação de liberdade que advém do facto consumado e irreversível da morte. Os outros cadáveres, dispostos com precisão geométrica pelas centenas de metros quadrados da habitação, prenunciam - esses sim - um intento de difícil mas não impossível revelação: há sempre que deixar uma possibilidade, um fio narrativo, um padrão honesto de continuidade. No ar fresco da madrugada, ainda sem o cheiro da podridão, uma calma incomum que se espalha, invisível, em redor. Um belo espectáculo para esse atraso sistemático que é a polícia.

setembro 06, 2006

Opções

Remediar em vez de prevenir. Seja sobre nós, seja na remoção sistemática da natureza do mundo, preferimos sempre errar e pedir desculpa depois do que não errar e pedir desculpa antes pelo sacrifício que daí deriva.

setembro 04, 2006

O Efeito de Estufa Ataca de Novo


Em Vénus, as nuvens, de ácido sulfúrico, são atravessadas por tempestades ciclónicas e produzem uma pressão equivalente à do Oceano a 1 Km de profundidade. As temperaturas chegam a atingir os 500º (o suficiente para derreter chumbo) numa superficie preenchida por enormes rios de lava. Vénus é um planeta quase igual à Terra (no tamanho, na densidade, na composição química), apenas um pouco mais próximo do Sol o que permitiu ao efeito de estufa fazer dele um inferno. Na imagem (sem nuvens) vislumbra-se a gigantesca Corona Artemis onde o nosso cérebro nos convida a um rosto.

setembro 01, 2006

A Carne

Os animais, dentro da sua população reprodutiva, são basicamente iguais. Existem pequenos traços, pequenas diferenças que permitem, a um olho progressivamente mais sensível, distinguir alguns de outros (os machos e as fêmeas, os animais dominantes, as famílias) mas comparando o que os assemelha do que os separa, percebe-se que a noção de espécie não se refere somente à estrutura do animal mas também ao seu comportamento. Com as pessoas o assunto complica (como complica em tudo o resto, aliás, mas não façamos disso uma vantagem indiscutível). Com as pessoas, note-se, não com os Homo Sapiens, estes vestígios históricos de uma evolução escondida por detrás da cortina mais ou menos opaca das culturas humanas. Uma população de animais geneticamente próximos é a projecção iterada sobre a normal de Gauss de um fantasma, um animal abstracto que contém a média das características que distinguem essa população. O Doutor Spleen reflecte neste ponto porque imagina como será o fantasma do Homem. A suspeita que lhe perpassa a mente é o reflexo dessa perda que ocorre na histeria e no pânico das massas.

julho 27, 2006

Três Anos de Ruminações


Três anos de reflexos, meus, aqui.

julho 25, 2006

Limites

Terá o cérebro do Homo Sapiens um estatuto semelhante à da máquina Universal de Turing? Para qualquer conceito 'compreensível', em teoria, será possível ser compreendido por um ser humano? Existirá um graal vedado no mundo das explicações ou, em todas as demandas finitas, há sempre um caminho, mais ou menos árduo, para uma solução que chamemos nossa?

julho 24, 2006

Pause & Play

As vidas não se perdem, evaporam-se. O singular átomo da morte cabe num intervalo de dois olhares. O cano da .45 apontado atrás do occipital do Doutor Spleen, seis balas atrás do cano e o silêncio de um profissional por detrás de tudo. Depois, célere, directo à memória dos momentos passados porque algo, entre a disposição circular das balas e o cilindro de metal que as direcciona, encravou. Um instante e as prioridades são refeitas, um microsegundo para o mundo se recompor, o punho que segura a arma quebrado no peso da sua inércia, o drama refeito e virado do avesso. E é o fim, ou um fim, já que em seguida tudo o que parara recomeça. O lento evoluir das ruas, as pessoas de volta às suas órbitas, o luar da noite nesse reflexo de luz, a caneta no chão apanhada e no negro do jornal, o mesmo problema de palavras cruzadas.

julho 21, 2006

Metáforas

Consideremos os seguintes dois pressupostos: (a) a consciência humana é posterior à plasticidade cerebral do animal Homo Sapiens; (b) a sequencialidade e a velocidade relativamente baixa da actividade mental consciente. Estes pontos vão na direcção do facto que o nosso cérebro não foi desenhado para o tipo de actividade que hoje em dia executa (digo facto porque a selecção natural, milhões de anos atrás, quando da evolução da massa craniana, não possuía qualquer propósito de fazer nascer culturas ou civilizações) e que existe, por isso, uma 'máquina virtual' mais ou menos sequencial a executar por cima do hardware extraordinariamente paralelo do cérebro. A nossa arquitectura neuronal, não sendo uma tabula rasa ao nascimento (existem variadíssimos mecanismos fixados no sistema nervoso central) é o meio que favorece o surgir de certos comportamentos em detrimento de outros (precisamente por não ser uma tabula rasa) e onde são codificadas as funcionalidades que adquirimos na interacção com o ambiente. É a adaptação pós-natal destas estruturas que deve ser referida para explicar o funcionamento cognitivo complexo de um ser humano (por exemplo, possuímos comportamentos inatos para reconhecer caras mas nenhum para escrever, actividade que temos muita dificuldade em aprender). Esta máquina virtual é, pelo esforço de aprendizagem e adequação cultural que nos torna pessoas, o meio que permite a reflexão individual, a possibilidade da linguagem e, assim, uma comunicação sofisticada com os outros. Em consequência, ela providencia um enorme e organizado processamento mental disponível para ser ocupado por multidões de ideias, conhecimentos e preconceitos diversos. São estes os memes de Richard Dawkins que, em certas configurações e resultantes dinâmicas, como as que obtemos durante o nosso longo período de aprendizagem, Daniel Dennet considera serem sinónimo de consciência e cuja mistura é única em cada um de nós. Ou, por outras palavras, cada um de nós é essa mistura.

(nota: as metáforas da moda - neste caso as computacionais - são, na sua maioria, um reflexo da cultura onde se expressam. Têm a vantagem de transmitir uma ideia minimizando a ambiguidade que sempre separa a mensagem de quem escreve e a interpretação de quem lê mas trazem consigo o risco de substituir a ideia pela imagem que carregam. É a vida.)

julho 19, 2006

Lotaria Cósmica

A vida é uma provocação ao impossível. A cada nascimento, no início dessa nova geração, aquele que surge é um grito de desafio, um possível feito carne, o resultado de baralhar milhares de genes e milhões de contingências.

julho 17, 2006

Contabilidade

O mundo, mesmo que já muito repetido, não deixou de ser complexo. Nele, e na interacção de ziliões de possibilidades, há uma infinidade de tons nos quais apostamos esta ou aquela opção. O Doutor Spleen, ao contrário de certos senhores da guerra que não perdoam uma primeira falha, sabe ser natural a ocorrência de erros no decorrer da sua actividade nocturna. Mesmo que ele próprio não se lembre de errar uma única vez (apesar de reconhecer que a auto-crítica com que floreamos o passado é - um pouco como a saudade - um eufemismo para memória selectiva) é preciso saber equilibrar na balança das perdas o ganho de experiência do agente que falha. Alguém que erra é alguém que evita esse erro no futuro. Assim, após nos deixarmos convencer pelo artificial de uma qualquer classificação, o que interessa é saber se o individuo em questão caiu no mesmo tipo de erro uma segunda vez. É que reiterar um defeito não é só o anúncio de um risco maior como é a sombra que acompanha a estupidez. E a estupidez não é coisa que se perdoe.

julho 13, 2006

Desproporcionalidade

A técnica primitiva "Olho por olho, dente por dente" não deixa todos cegos e desdentados. Ela afecta apenas uma infeliz parcela de quem se mete na desnecessária violência das coisas. Já "Dois olhos por olho, dois dentes por dente" é receita de cegueira e problemas dentários generalizados.

julho 12, 2006

Perdidos & Achados

A memória é o palco onde o teu passado perde os detalhes que já não te dizem nada. Nessa reconstrução, também, coisas que se unem, desejos e pequenos nadas que se juntam aos momentos mantidos, tornando esse passado não uma pedra que se gasta mas um rio nem sempre gelado que, assim e lento, recua.

julho 10, 2006

Naturezas

A alcateia dorme sob o tecto húmido do apartamento. A chuva anuncia-se lá fora e o Doutor Spleen, no seio da insónia, observa e lê com demora as obras dos Bacons; Roger e Francis, dois irmãos separados por quatro séculos de História. Pensa no erro e nas suas origens. Sabe que, para além do hábito a que nos submetemos neste passar de dias, do preconceito partilhado com que classificamos as coisas, a cedência acrítica à autoridade é uma das principais fontes de erro do mundo. É verdade que pressupor-se melhor não é um direito, que um individuo sem vontade é menos pessoa que um espírito autónomo, que a realidade não se conforma a receitas de ordens prévias. Mas como mudar a nossa própria natureza? Como ensinar um lobo a digerir relva?

julho 07, 2006

Standards

Para te chamarem normal quanta força nesse apertar de cinto?

julho 04, 2006

Deliriu fide


Há só que dizer Hiëronymus Bosch

julho 03, 2006

Precisão

A Ética é mais que pedras gravadas ou páginas escritas, que máximas sibiladas em ritual, que o suor da procura honesta que nos dite que fazer. Porque o universo é complexo, quase infinito, as consequências e as causas são multidões que o nevoeiro das relações esconde. Ética é o cálculo possível de uma situação, temperado pela inteligência, temperado pelas normas de uma cultura e polvilhado nos fantasmas carregados dos erros cumpridos. O Doutor Spleen reconhece que esse cálculo é o que nos separa dos restantes animais. Também reconhece que a capacidade de análise individual divide a Humanidade em diferentes campos. E no mesmo convivem santos e monstros, heróis e nemesis, anjos e demónios, porque para esventrar o conceito difuso de uma ética culturalmente partilhada é necessário ser matemático e cirurgião, um engenheiro de minas nessa lava de sentimentos arrefecida que molda a sociedade humana. O Doutor Spleen gostava, uma única vez que fosse, de explicar isso a uma das suas vítimas. Que não é o aleatório da escolha o importante na morte mas sim a demonstração desenhada no rasgar do corpo.

junho 27, 2006

Rotação

Por muito difícil ou entediante cada ano teu que passa, o que deixas? Que momentos guardas, quais os humores distintos que te atravessam e que esquecerás por descuido? Para que armazenar uma vida, única sempre mas que te parece a mesma dos outros? Mesmo perdendo todos nessa perda, a resposta, havendo-a, serás tu a dá-la.

junho 26, 2006

Perspectiva

A comunicação só é possível com contexto. O olhar discreto do Doutor Spleen faz Dabila segurar o braço do bufo inutilmente escondido no conhecido programa húngaro de protecção de testemunhas. Kong sénior retira o martelo da mala e inicia uma sequência crescente de impactos contra a mão do referido personagem. Poderíamos explicar o padrão usado nesta técnica, aprendida num curso de formação Americano (a ordem a esmagar os dedos, por exemplo, dizem não ser trivial). Poderíamos também descrever o que Spleen pretende deste episódio (que não é a busca de informação, pois, como já foi dito, Spleen não reconhece mérito à tortura continuada). Preferimos salientar que, por entre os gritos e os sons abafados do metal a beijar a carne, o Doutor Spleen pensa na ligação entre sentido e função. Para alguém em que este fosse o primeiro martelo, como adivinhar-lhe outro propósito? Neste departamento quem pesa mais: o desenho da criação ou o rascunho do momento?

junho 22, 2006

Dürer @ 1500

junho 20, 2006

Intersecção

O dicionário é o esforço desesperado de fixar o vento que são as palavras. Se fores ao teu e procurares 'amizade' vês-te nessa explicação? E 'azul'? Quando conversas com alguém tantas as diferenças entre os vossos mundos, quão ténue a ponte que vos liga.

junho 19, 2006

Desanta Trindade

Sendo a estupidez um factor tão constante, como é possível considerar que o desenvolver de inteligência é um inevitável da Evolução? A probabilidade de existir ursos panda cósmicos é a mesma de haver seres que saibam fazer uma raiz quadrada? Será igualmente provável a emergência de médicos, de advogados ou de agentes de seguros quando comparado com a emergência de trombas de elefante? Para Kong sénior (que detesta com alguma profundidade médicos, advogados e agentes de seguros) é igualmente perturbante a existência única da Terra como a possibilidade de haver milhares de milhões de planetas do género. Por outro lado, considera fascinante dar a actual carga de porrada ao agente de seguros formado em Direito que cometeu a estupidez de bater à porta do Doutor Spleen num Domingo ao meio-dia. Como qualquer ser humano normal, nesta nossa incessante procura de motivos de insatisfação, Kong sénior só lamenta não serem seguros de saúde.

junho 09, 2006

Convicções em Ankh

Os habitantes do planeta Ankh, por acasos evolutivos, possuem a capacidade mental de apreender de imediato as relações de um qualquer conjunto de amostras. Curiosamente ou talvez não, a ciência Ankhaniana tem revelado regularidades em todas as actividades naturais do planeta bem como nos dados recolhidos pela sua avançada astronomia. Os Ankhanianos crêem (esta é a palavra que melhor expressa a convicção civilizacional na segurança e no rigor da sua Ciência) que a forma ideal de enviar sinais ao Cosmos, para que outros mundos os detectem, é a emissão de uma mensagem totalmente aleatória. Uma mensagem destas não possui ambiguidade e encerra entropia máxima, coisa que nenhum fenómeno não consciente é capaz de emular. Deste modo, o seu programa de detecção de vida inteligente passa pela procura de um sinal com estas características. Qualquer padrão, por muito artificial que pareça (como a sequência de números primos enviada pela Terra e que chegou a Ankh mesmo à coisa de dois três minutos), não passa sequer pelos filtros computacionais do sistema, tão forte é o julgar desse óbvio que lhes veste.

junho 06, 2006

Ar Puro...


...mas nem por isso calmo.

junho 05, 2006

Termodinâmica

Conversar retira da concentração o que dá ao prazer, era o graffiti escrito a tinta vermelha (porém em péssima caligrafia) naquele beco da cidade. Talvez não seja o que King Sénior considera durante a sequência de pontapés que desfere, com cuidado e mudez, ao fígado de um cliente mau pagador. É evidente que se lhe fosse possível escolher (e no dilema da escolha haveria muito que falar, muitos livros a escrever, muitas teses a defender entre mesas de pessoas sentadas), o receptor da energia cinética daquelas botas militares gostaria de salientar a justeza de tal curta frase de autor incógnito. O Doutor Spleen (que lhe passou um olhar rápido e, por insondável motivo, a registou) compreenderia essa ânsia pois admite que a transferência de energia, seja ela física, química ou conceptual, produz sempre um calor que é preço que não agrada a todos.

junho 01, 2006

Efeito de Baldwin

[adaptado do livro Consciousness Explained, de Daniel Dennet]

Um cérebro plástico é capaz de se reorganizar, adaptando-se às alterações de um ambiente dinâmico. Este foi um novo mecanismo da evolução: o ajuste e a fixação pós-natal dos cérebros individuais. Os candidatos à selecção natural são agora as várias estruturas cerebrais que controlam e influenciam comportamentos e o processo de selecção é conseguido pela menor ou maior flexibilidade dos processos mecânicos geneticamente implantados no sistema nervoso. Esta capacidade, ela mesmo um produto da selecção natural, não só dá uma vantagem aos organismos que a possuem, comparado com outros cujo sistema nervoso está fixo, como se reflecte no processo de evolução genética, acelerando-o. Este é o fenómeno conhecido por efeito de Baldwin. Vejamos como funciona:

Seja uma população de uma dada espécie em que existe uma variação considerável de como os seus cérebros estão ligados (implicando, neste caso, uma variada gama de comportamentos) no momento do nascimento. Vamos pressupor que apenas uma das combinações possíveis permite obter uma vantagem evolutiva decisiva (cujo comportamento designamos de Bom Truque). Podemos representar isto na seguinte paisagem adaptativa (os dois eixos representam variações das duas variáveis genéticas consideradas relevantes neste exemplo; a altura dá-nos o grau de adaptação ao ambiente, ie, quanto mais alto melhor):
Como a figura mostra, há apenas uma forma óptima de fixar o cérebro. As outras, independentemente da distância genética, são semelhantes no grau de adaptação. Esta agulha no palheiro é virtualmente invísivel para a selecção natural. Mesmo um indíviduo que tenha a sorte de nascer com a combinação certa terá poucas probabilidades de passar esse conjunto certo de valores para as gerações futuras, excepto se houver alguma plasticidade entre os individuos desta população.

Suponhamos então que os organismos começam todos diferentes e, no decurso das suas vidas, modificam o seu comportamento 'navegando' na paisagem adaptativa graças à sua plasticidade. E devido às características do seu ambiente eles tenderão a orbitar perto do Bom Truque, dado que ele existe e, havendo possibilidade para tal, existe uma tendência para o aprender. Suponhamos que quem não aprende o Bom Truque tem uma grande desvantagem e que aqueles que, ao nascimento, começam longe do Bom Truque têm mais dificuldade em aprendê-lo (o esforço de aprendizagem é maior quanto maior for a distância a que se encontram). Ou seja, os individuos que nascem com os cérebros perto do Bom Truque têm mais possibilidades de sobreviver (e de se reproduzir) do que aqueles que nascem longe, mesmo não havendo no ambiente qualquer gradiente que favoreça essa distância (como se observa na figura anterior). Desta forma, na próxima geração há a tendência para que os cérebros da população estarem, ao nascimento, geneticamente fixados mais perto do Bom Truque (fazendo com que a aprendizagem das novas gerações seja progressivamente mais fácil). Este é o Efeito de Baldwin que, graças à plasticidade dos individuos que compõem a população, transforma a inicial paisagem adaptativa na seguinte:
Assim, uma população capaz de aprender explora fenotipicamente o espaço de possibilidades mais próximas, algo muito mais rápido e eficaz que a exploração cega de possibilidades que o mecanismo central da evolução (variação genética por mutação e recombinação sexual) promove.

[...] A transmissão cultural ao permitir que todos tenham acesso ao Bom Truque, maximiza e achata o cume da figura anterior tornando-o num planalto. Este planalto diminui a pressão sobre a população de fixar geneticamente esta redução de distância. Nas civilizações humanas onde ocorre uma enorme exploração de possibilidades e onde a comunicação e o ensino explicam, com eficiência exponencial, os diversos Bons Truques, esta pressão genética desaparece ou, pelo menos, é fortemente reduzida.

maio 30, 2006

Preços

Um cérebro grande, como um governo grande, pode não conseguir realizar coisas simples de forma simples - Donald Hebb (1958)

maio 29, 2006

Memórias, Padrões...

A Estatística é um compactar semântico unidireccional. Kong sénior, mesmo após o ruir de memória que se forma na passagem de quase dez anos, ainda se lembra desta frase do Doutor Spleen. São já, hoje, duas horas na leitura e recorte de anúncios de jornal e a sua mente à volta nessas palavras. Para o Doutor Spleen, a Estatística é o ramo mais estranho do conhecer humano. Qual a utilidade de um padrão? Ou de outra forma: é necessário ao Universo essa ordem que pressupomos? Como suster uma teoria (e com o sucesso irrefreável que lhe reconhece) nessa difusa rede de contingências, de quebras causais que a realidade fabrica e, mesmo assim, recolher certezas matemáticas nesse fervilhar de probabilidades? A Kong sénior estas impressões filosóficas e a obsessão que lhes deu origem não são em particular pertinentes apesar do ritual diário que ele, o seu irmão e Dabila são forçados a manter. Lembra-se, no início, do Doutor Spleen referir qualquer coisa sobre infecções, sobre o reflexo que delas se vislumbra no singular dos factos isolados. Mas dez anos são um trabalho de demolição eficiente. O construir do presente não se coaduna assim tanto com a conservação do passado.

maio 25, 2006

Criação

Num Universo morto, onde existam apenas estrelas, gravidade, vácuo, buracos negros, não existe significado. Não é o caso do nosso. Pelo menos, a Terra é uma enorme fonte de criação de sentido. De onde vem esse sentido? No princípio da vida, nos objectos químicos percursores das proteínas, do RNA, das proto-bactérias, antes de existir um ambiente suficiente complexo para albergar a possibilidade de vírus, não existia função. O mundo continha dentro de si gerações de robots orgânicos que manipulavam repetidamente o ambiente e dificilmente algo mais. Mas erravam (afinal, a consequência inevitável de fazer algo). Se fosse possível a escolha, um robot preferiria não errar pois o erro paga-se, quase sempre, com a destruição (nessa altura, com a desagregação química). Mas essa escolha não é possível e, assim, alguns desses erros abriram a possibilidade de novos objectos, de novos robots. O interagir desta variação com o mundo permitiu colher os 'benefícios' da evolução. Os milhares de milhões de iterações conduziram a uma elaboração progressiva da estrutura desses objectos (que resultaram, por exemplo e num estágio já muito avançado, ao surgir da célula). Alguns desses robots, que participavam cegamente nessa organização maior que os confinava, tornaram-se essenciais a determinadas tarefas do seu funcionamento, i.e., começaram a ganhar função e, em consequência, a ganhar sentido. Nestes erros uma porta para a vida, para a semântica das coisas e, muito muito depois, para nós.

maio 23, 2006

Sacrifício

Para sacrificar a correcção que seja ao humor.