junho 27, 2006

Rotação

Por muito difícil ou entediante cada ano teu que passa, o que deixas? Que momentos guardas, quais os humores distintos que te atravessam e que esquecerás por descuido? Para que armazenar uma vida, única sempre mas que te parece a mesma dos outros? Mesmo perdendo todos nessa perda, a resposta, havendo-a, serás tu a dá-la.

junho 26, 2006

Perspectiva

A comunicação só é possível com contexto. O olhar discreto do Doutor Spleen faz Dabila segurar o braço do bufo inutilmente escondido no conhecido programa húngaro de protecção de testemunhas. Kong sénior retira o martelo da mala e inicia uma sequência crescente de impactos contra a mão do referido personagem. Poderíamos explicar o padrão usado nesta técnica, aprendida num curso de formação Americano (a ordem a esmagar os dedos, por exemplo, dizem não ser trivial). Poderíamos também descrever o que Spleen pretende deste episódio (que não é a busca de informação, pois, como já foi dito, Spleen não reconhece mérito à tortura continuada). Preferimos salientar que, por entre os gritos e os sons abafados do metal a beijar a carne, o Doutor Spleen pensa na ligação entre sentido e função. Para alguém em que este fosse o primeiro martelo, como adivinhar-lhe outro propósito? Neste departamento quem pesa mais: o desenho da criação ou o rascunho do momento?

junho 22, 2006

Dürer @ 1500

junho 20, 2006

Intersecção

O dicionário é o esforço desesperado de fixar o vento que são as palavras. Se fores ao teu e procurares 'amizade' vês-te nessa explicação? E 'azul'? Quando conversas com alguém tantas as diferenças entre os vossos mundos, quão ténue a ponte que vos liga.

junho 19, 2006

Desanta Trindade

Sendo a estupidez um factor tão constante, como é possível considerar que o desenvolver de inteligência é um inevitável da Evolução? A probabilidade de existir ursos panda cósmicos é a mesma de haver seres que saibam fazer uma raiz quadrada? Será igualmente provável a emergência de médicos, de advogados ou de agentes de seguros quando comparado com a emergência de trombas de elefante? Para Kong sénior (que detesta com alguma profundidade médicos, advogados e agentes de seguros) é igualmente perturbante a existência única da Terra como a possibilidade de haver milhares de milhões de planetas do género. Por outro lado, considera fascinante dar a actual carga de porrada ao agente de seguros formado em Direito que cometeu a estupidez de bater à porta do Doutor Spleen num Domingo ao meio-dia. Como qualquer ser humano normal, nesta nossa incessante procura de motivos de insatisfação, Kong sénior só lamenta não serem seguros de saúde.

junho 09, 2006

Convicções em Ankh

Os habitantes do planeta Ankh, por acasos evolutivos, possuem a capacidade mental de apreender de imediato as relações de um qualquer conjunto de amostras. Curiosamente ou talvez não, a ciência Ankhaniana tem revelado regularidades em todas as actividades naturais do planeta bem como nos dados recolhidos pela sua avançada astronomia. Os Ankhanianos crêem (esta é a palavra que melhor expressa a convicção civilizacional na segurança e no rigor da sua Ciência) que a forma ideal de enviar sinais ao Cosmos, para que outros mundos os detectem, é a emissão de uma mensagem totalmente aleatória. Uma mensagem destas não possui ambiguidade e encerra entropia máxima, coisa que nenhum fenómeno não consciente é capaz de emular. Deste modo, o seu programa de detecção de vida inteligente passa pela procura de um sinal com estas características. Qualquer padrão, por muito artificial que pareça (como a sequência de números primos enviada pela Terra e que chegou a Ankh mesmo à coisa de dois três minutos), não passa sequer pelos filtros computacionais do sistema, tão forte é o julgar desse óbvio que lhes veste.

junho 06, 2006

Ar Puro...


...mas nem por isso calmo.

junho 05, 2006

Termodinâmica

Conversar retira da concentração o que dá ao prazer, era o graffiti escrito a tinta vermelha (porém em péssima caligrafia) naquele beco da cidade. Talvez não seja o que King Sénior considera durante a sequência de pontapés que desfere, com cuidado e mudez, ao fígado de um cliente mau pagador. É evidente que se lhe fosse possível escolher (e no dilema da escolha haveria muito que falar, muitos livros a escrever, muitas teses a defender entre mesas de pessoas sentadas), o receptor da energia cinética daquelas botas militares gostaria de salientar a justeza de tal curta frase de autor incógnito. O Doutor Spleen (que lhe passou um olhar rápido e, por insondável motivo, a registou) compreenderia essa ânsia pois admite que a transferência de energia, seja ela física, química ou conceptual, produz sempre um calor que é preço que não agrada a todos.

junho 01, 2006

Efeito de Baldwin

[adaptado do livro Consciousness Explained, de Daniel Dennet]

Um cérebro plástico é capaz de se reorganizar, adaptando-se às alterações de um ambiente dinâmico. Este foi um novo mecanismo da evolução: o ajuste e a fixação pós-natal dos cérebros individuais. Os candidatos à selecção natural são agora as várias estruturas cerebrais que controlam e influenciam comportamentos e o processo de selecção é conseguido pela menor ou maior flexibilidade dos processos mecânicos geneticamente implantados no sistema nervoso. Esta capacidade, ela mesmo um produto da selecção natural, não só dá uma vantagem aos organismos que a possuem, comparado com outros cujo sistema nervoso está fixo, como se reflecte no processo de evolução genética, acelerando-o. Este é o fenómeno conhecido por efeito de Baldwin. Vejamos como funciona:

Seja uma população de uma dada espécie em que existe uma variação considerável de como os seus cérebros estão ligados (implicando, neste caso, uma variada gama de comportamentos) no momento do nascimento. Vamos pressupor que apenas uma das combinações possíveis permite obter uma vantagem evolutiva decisiva (cujo comportamento designamos de Bom Truque). Podemos representar isto na seguinte paisagem adaptativa (os dois eixos representam variações das duas variáveis genéticas consideradas relevantes neste exemplo; a altura dá-nos o grau de adaptação ao ambiente, ie, quanto mais alto melhor):
Como a figura mostra, há apenas uma forma óptima de fixar o cérebro. As outras, independentemente da distância genética, são semelhantes no grau de adaptação. Esta agulha no palheiro é virtualmente invísivel para a selecção natural. Mesmo um indíviduo que tenha a sorte de nascer com a combinação certa terá poucas probabilidades de passar esse conjunto certo de valores para as gerações futuras, excepto se houver alguma plasticidade entre os individuos desta população.

Suponhamos então que os organismos começam todos diferentes e, no decurso das suas vidas, modificam o seu comportamento 'navegando' na paisagem adaptativa graças à sua plasticidade. E devido às características do seu ambiente eles tenderão a orbitar perto do Bom Truque, dado que ele existe e, havendo possibilidade para tal, existe uma tendência para o aprender. Suponhamos que quem não aprende o Bom Truque tem uma grande desvantagem e que aqueles que, ao nascimento, começam longe do Bom Truque têm mais dificuldade em aprendê-lo (o esforço de aprendizagem é maior quanto maior for a distância a que se encontram). Ou seja, os individuos que nascem com os cérebros perto do Bom Truque têm mais possibilidades de sobreviver (e de se reproduzir) do que aqueles que nascem longe, mesmo não havendo no ambiente qualquer gradiente que favoreça essa distância (como se observa na figura anterior). Desta forma, na próxima geração há a tendência para que os cérebros da população estarem, ao nascimento, geneticamente fixados mais perto do Bom Truque (fazendo com que a aprendizagem das novas gerações seja progressivamente mais fácil). Este é o Efeito de Baldwin que, graças à plasticidade dos individuos que compõem a população, transforma a inicial paisagem adaptativa na seguinte:
Assim, uma população capaz de aprender explora fenotipicamente o espaço de possibilidades mais próximas, algo muito mais rápido e eficaz que a exploração cega de possibilidades que o mecanismo central da evolução (variação genética por mutação e recombinação sexual) promove.

[...] A transmissão cultural ao permitir que todos tenham acesso ao Bom Truque, maximiza e achata o cume da figura anterior tornando-o num planalto. Este planalto diminui a pressão sobre a população de fixar geneticamente esta redução de distância. Nas civilizações humanas onde ocorre uma enorme exploração de possibilidades e onde a comunicação e o ensino explicam, com eficiência exponencial, os diversos Bons Truques, esta pressão genética desaparece ou, pelo menos, é fortemente reduzida.

maio 30, 2006

Preços

Um cérebro grande, como um governo grande, pode não conseguir realizar coisas simples de forma simples - Donald Hebb (1958)

maio 29, 2006

Memórias, Padrões...

A Estatística é um compactar semântico unidireccional. Kong sénior, mesmo após o ruir de memória que se forma na passagem de quase dez anos, ainda se lembra desta frase do Doutor Spleen. São já, hoje, duas horas na leitura e recorte de anúncios de jornal e a sua mente à volta nessas palavras. Para o Doutor Spleen, a Estatística é o ramo mais estranho do conhecer humano. Qual a utilidade de um padrão? Ou de outra forma: é necessário ao Universo essa ordem que pressupomos? Como suster uma teoria (e com o sucesso irrefreável que lhe reconhece) nessa difusa rede de contingências, de quebras causais que a realidade fabrica e, mesmo assim, recolher certezas matemáticas nesse fervilhar de probabilidades? A Kong sénior estas impressões filosóficas e a obsessão que lhes deu origem não são em particular pertinentes apesar do ritual diário que ele, o seu irmão e Dabila são forçados a manter. Lembra-se, no início, do Doutor Spleen referir qualquer coisa sobre infecções, sobre o reflexo que delas se vislumbra no singular dos factos isolados. Mas dez anos são um trabalho de demolição eficiente. O construir do presente não se coaduna assim tanto com a conservação do passado.

maio 25, 2006

Criação

Num Universo morto, onde existam apenas estrelas, gravidade, vácuo, buracos negros, não existe significado. Não é o caso do nosso. Pelo menos, a Terra é uma enorme fonte de criação de sentido. De onde vem esse sentido? No princípio da vida, nos objectos químicos percursores das proteínas, do RNA, das proto-bactérias, antes de existir um ambiente suficiente complexo para albergar a possibilidade de vírus, não existia função. O mundo continha dentro de si gerações de robots orgânicos que manipulavam repetidamente o ambiente e dificilmente algo mais. Mas erravam (afinal, a consequência inevitável de fazer algo). Se fosse possível a escolha, um robot preferiria não errar pois o erro paga-se, quase sempre, com a destruição (nessa altura, com a desagregação química). Mas essa escolha não é possível e, assim, alguns desses erros abriram a possibilidade de novos objectos, de novos robots. O interagir desta variação com o mundo permitiu colher os 'benefícios' da evolução. Os milhares de milhões de iterações conduziram a uma elaboração progressiva da estrutura desses objectos (que resultaram, por exemplo e num estágio já muito avançado, ao surgir da célula). Alguns desses robots, que participavam cegamente nessa organização maior que os confinava, tornaram-se essenciais a determinadas tarefas do seu funcionamento, i.e., começaram a ganhar função e, em consequência, a ganhar sentido. Nestes erros uma porta para a vida, para a semântica das coisas e, muito muito depois, para nós.

maio 23, 2006

Sacrifício

Para sacrificar a correcção que seja ao humor.

maio 22, 2006

Opções

Existem problemas filosóficos intrinsecamente subjectivos. Quem se preocupa hoje em discutir se a realidade sensorial é real ou ilusória? Outra polémica um pouco pateta é a do livre arbítrio. Na opinião do Doutor Spleen, basta acreditar que se tem livre arbítrio para o problema desaparecer num banal puf metafísico. Um pouco como a dor de cabeça que lhe assola o crânio. Um médico no melhor hospital privado do país assegura-lhe que os exames (porque naqueles exames o cristalizar de uma tecnologia de biliões em investigação aplicada por milhares de talentos científicos) nada indicam de errado. A única explicação lógica, afirma, é não existência da dor de cabeça. A estupidez que provém da ignorância (ou da ingenuidade, que vai dar ao mesmo no que toca às consequências) não tem limites, pensa Kong Sénior enquanto anota a matrícula do Porsche do senhor doutor.

maio 19, 2006

Travessia

Somos padrões de informação em casulos orgânicos. O material que nos compõe, o mesmo que pavimenta a crosta arrefecida deste planeta, nada tem de especial; o sermos um padrão também não. A diferença é ser possível a estes rendilhados (de memória, raciocínio, genes, cultura) entenderem o que são.

maio 16, 2006

Segredo


Que máscara tua não verga à plateia que te defronta?

maio 15, 2006

Relatividade

Kong júnior trava o carro, desliga o motor de 215 cavalos e o mundo lá fora pára de andar para trás. Cada uma das quatro portas a rodar e todos no pátio anteriormente vazio. Kong sénior abre a mala do carro e retira, elevando-o como um garrafão de água (ou dois, talvez), um homem que já não é mais que um débito irreparável. O Doutor Spleen retira o alicate polonês do bolso e, através dos gritos mudos pelo pano molhado na boca, inicia um processo de remodelação física da dívida encarnada. São duas da manhã mas o tempo passa com diferentes nuances psicológicas a cada um dos cinco personagens: os irmãos Kong inquietam-se com o nível de óleo do BMW, passado já mais de dez mil quilómetros da suposta revisão e Dabila sente-se, enquanto na revista interpreta a carta de Tarot do seu signo, um pouco enjoado pela feijoada do jantar.

maio 12, 2006

Estabilidade

Imaginemos uma sociedade onde existam só pessoas que não saibam mentir. Esta sociedade não é estável no sentido comportamental. Se fosse 'infectada' por um mentiroso, este teria tantas vantagens que tenderia a disseminar o seu comportamento ao resto da sociedade. Até que ponto se extenderia essa infecção? Depende dos valores exactos: (a) de quanto se ganha pela cooperação entre dois indivíduos honestos, (b) do proveito que um mentiroso ganha explorando um honesto, (c) e do custo associado à falta de cooperação quando dois mentirosos interagem. Este género de questão é estudado pela Teoria dos Jogos, nomeadamente pelo conhecido Dilema do Prisioneiro Iterado. Uma população mista de honestos e mentirosos pode convergir para uma percentagem que garanta que invasões futuras de indivíduos com estratégias distintas e exploratórias não sejam lucrativas (designada por estratégia evolutiva estável).

Admitir que uma sociedade totalmente honesta é instável pode ser, para alguns, uma má notícia. Porém, não devemos esquecer a implicação simétrica deste facto: uma população de mentirosos também é instável. Ela pode ser também invadida, não por um só honesto (que seria rapidamente explorado), mas por um grupo de indivíduos honestos que, por cooperação mútua, são capazes de prosperar num ambiente de traição constante. Este raciocínio leva-nos (com alguma liberdade matemática) a outro evento relacionado: um regime totalitário, pela exigência artificial de uniformidade, é igualmente instável. Existe sempre a tendência, em qualquer grupo e de forma mais ou menos velada, de manter abertas outras opções que as dominantes. Uma cultura intolerante, da mesma forma que uma profundamente tolerante, é muito permeável à dissuasão. A pressão social de um Estado totalitário sobre os seus elementos, com o objectivo de manter coesa a ideologia dominante, é, ao mesmo tempo, causa e consequência desse desejo de homogeneidade. E quanto mais energia for gasta para manter uma população isenta de diferenças, mais fácil se tornará a conversão dos seus elementos a outras possibilidades. A notícia que esse esforço seja, mesmo que a longo prazo, inútil é uma verdadeira boa notícia.

maio 10, 2006

Cinzentos

Ser honesto ou falso não são os únicos resultados desse diálogo de máscaras que são as pessoas.

maio 08, 2006

Resoluções Adiadas

Os sonhos são no Homem o ruído que nos aceita qualquer pergunta. Mais. São também a história que atravessa essas perguntas nascidas elas de receios, ânsias ou impulsos retidos pelo difícil do mundo. O Doutor Spleen, de costas para o colchão suíço, observa, com demora e no tecto, os pontilhados aleatórios pelo acumular de humidade. A casa no silêncio de fim de manhã demora a acolher essa viagem onírica de todos os seus dias. O resto dorme, horas passadas, indiferentes às lâminas de luz que cruzam o escuro do quarto (na verdade, também Kong Sénior está acordado e, apesar de manter os olhos fechados, a imaginação percorre uma fantasia pictórica, obscura e demasiado complexa para caber neste parêntesis - é a virtude e o dilema do narrador, pretender saber mais que as suas personagens e, no entanto, dar-lhes a vez possível para as linhas que tem). O Doutor Spleen, entre os padrões que adivinha na humidade, reconhece haver poucas fronteiras menos estimulantes que essa demora arrastada a que se resolveu, um dia, chamar insónia.

maio 05, 2006

Um Equilibrio Flutuante (última parte)

E volta a ansiedade: «Quando é que acaba este processo? Não estaremos na direcção de uma sociedade 100% medicada em que ninguém é responsável e todos são vítimas de um evento passado (genético ou ambiental)?». Não, não estamos. Porque existem forças – não metafísicas mas sociais e políticas – que se opõem a essa tendência. E são do mesmo tipo que impede que, por exemplo, a idade mínima de condução não seja trinta anos: as pessoas querem ser responsabilizadas! Os benefícios esperados que derivam de ser um cidadão por inteiro numa sociedade livre são tais que existe uma forte atracção para se ser incluído. A possibilidade da culpa, da punição e da humilhação pública são preços que aceitamos de bom grado somente para podermos voltar ao jogo depois de termos sido apanhados numa transgressão. E se formos um cidadão respeitado a melhor estratégia para manter a desculpabilização afastada é proteger e realçar o valor do próprio jogo. É a erosão dos benefícios do jogo (não o avanço científico) que podem ameaçar o equilíbrio social (como o slogan soviético a adivinhar o colapso: «eles fingem que nos pagam, nós fingimos trabalhar»).

[adaptado do Freedom Evolves de Daniel Dennet, Penguin Books, 2003]

maio 03, 2006

Paisagem

Na palavra expressa esconde-se uma paisagem raramente pensada. No filigrana de cada frase, na estrutura da sua gramática, o reflexo de um real observado em séculos de civilização. E cada vez que as usamos, de cada vez que elas nos socorrem, esses átomos de língua tecem a rede onde todos nos baloiçamos, pairando acima desse mundo medido assim à nossa imagem.

maio 02, 2006

Sistemas Formais

Gustav Mahler retira-se da aula de piano de Julius Epstein directamente para a avenida (e é toda uma Viena, nesse luxuoso esplendor de capital de império, que o acolhe) nesse frio de tarde onde o sol se fecha atrás das ruas, a pensar como a escala musical, um sistema tão simples, discreto e formal, lhe abre as portas à criação de mundos à sua medida e da dimensão do seu génio (que aos poucos, com a educação que recebe, depreende que tem). Exactamente 140 anos depois, no centro de outra capital europeia, sobre um frio exactamente igual (e apesar da noção de calor ser uma definição termodinâmica que, à partida, não determina uma causalidade com a dinâmica complexa dos pensamentos humanos, não deixa de ser um factor comum que esta narrativa decidiu tomar em conta, para permitir ao leitor um caminho possível, mesmo que improvável, de explicação), o Doutor Spleen considera o mesmo sobre o método igualmente simples, discreto e formal da culinária.

abril 28, 2006

Um Equilibrio Flutuante (parte IV)

Este mecanismo de equilíbrio também é relevante nas discussões da responsabilidade em geral. À medida que aprendemos mais sobre determinado sistema, encontramos argumentos para passar certos indivíduos para o outro lado da fronteira (de responsável para inocente ou, mais raramente, vice-versa). É esta ideia que cria a aparência que a fronteira está constantemente a recuar; mas é necessário observar melhor este fenómeno. É possível que façamos revisões estruturais nas nossas políticas de quem prender ou de quem tratar (a homossexualidade já não é motivo de prisão e é cada vez menos vista como doença) sem alterar, por exemplo, as nossas convicções de fundo. Por outro lado, não mudamos os nossos conceitos de culpado e inocente se descobrimos um inocente encarcerado; colocamo-lo em liberdade mas não mudamos o critério que usámos antes. É precisamente por não mudarmos o critério que o reconhecemos como inocente. Do mesmo modo, pela força da evidência, podemos inocentar uma categoria de indivíduos sem qualquer mudança ou erosão no nosso conceito de responsabilidade moral. Com isto, poder-se-ia supor que existe menos responsabilidade na sociedade do que suposto inicialmente. [cont.]

abril 26, 2006

Pontos de Vista


Uma das delícias de Hiëronymus Bosch

abril 24, 2006

Engodo

Outro corpo no gelado do chão. Outro assassino morto com a sua própria arma. Não é a tentativa falhada que irrita o Doutor Spleen: tentar é parte da natureza do Homem e falhar é o acto inevitável que conduz à criação das coisas. Não é igualmente a simplicidade dessa tentativa que produz a irritação: não deixa de ser admirável o possível que se abre no optimismo de um modelo elementar e que, no entanto, nos leva longe mesmo que esse longe seja a distância dos nossos pequenos passos. Nem sequer é a vontade de insistir no erro, nesse tentar logrado que nos rouba os anos a pavimentar o caminho: a paisagem que desenhamos do mundo não é um vento que se atravessa mas antes uma cidade que é preciso, com dor e chegada a hora, demolir. O que verdadeiramente irrita o Doutor Spleen é essa arqueologia do engano, esse desenterrar de ideias mortas que leva outros a revisitar o arquivo de erros que é a História.

abril 20, 2006

Um Equilibrio Flutuante (parte III)

Por exemplo, o que é necessário para um criminoso ser 100% culpado? Ninguém é perfeito e, aliás, ser-se 100% culpado de alguma coisa é um conceito potencialmente contraditório. Como separar entre os que sofrem de patologias irrefreáveis (ele não sabia, ele não consegue controlar-se) e aqueles que fazem acções criminosas no seu 'perfeito juízo'? Se colocarmos o limiar demasiado alto, todos escapam do castigo; se demasiado baixo, corremos o risco de criar bodes expiatórios. Num contexto geral, como desenhar uma linha de fronteira e como evitar que ela recue sobre as pressões da ciência? Imaginemos um teste de aptidão que meça a flexibilidade mental, o conhecimento geral, a compreensão social e o controlo dos impulsos que são, discutivelmente, os requerimentos mínimos para um agente moral. Este teste quantifica o ideal implícito à nossa tácita compreensão de responsabilidade. Esta política é clara, conhecida e parece funcionar bem em aplicações simples, como o teste de condução: é preciso ter 18 anos (ou 16 ou 21...) e ser admitido numa prova de aptidão. A partir daí obtém-se a liberdade de guiar nas estradas e têm-se uma responsabilidade igual a qualquer condutor. Este processo pode ser ajustado com o tempo quando aprendemos mais sobre segurança rodoviária: restrições à alcoolémia, períodos de aprendizagem, excepções para certas deficiências e outras circunstâncias que melhoram o custo-benefício de maximizar a segurança dos cidadãos e a liberdade dos condutores. [cont.]

abril 18, 2006

Construção

Nascemos homo sapiens sapiens. A vida é um esforço (ou devia ser) para que cada um possa morrer já pessoa.

abril 17, 2006

Incompletude

Mesmo que os detalhes sejam tão opacos como uma parede de betão armado, é bem sabido que a Física determina, com fabulosa aproximação, a trajectória de milhares de corpos celestes nessa dança cósmica que se chama Sistema Solar. É também de conhecimento relativamente público que a teoria quântica estabelece, com enorme rigor, as normas e comportamentos das partículas sub-atómicas. O que talvez não seja tão conhecido é a incapacidade total da mesma Física em criar modelos que determinem se o lançar de uma moeda, como aquela que agora se encontra no ar em via ascendente, cairá na cara ou na coroa da mesma. Dabila nunca conseguiu perceber (nem decorar) qual das faces é a cara de uma moeda de euro, obrigando-o a adivinhar o desfecho de uma aposta pela expressão do parceiro de jogo. O problema presente é que o semblante granítico do Doutor Spleen não lhe permite antever qual dos métodos (o garrote ou a bala na nuca) terá de aplicar à vítima sobre o silêncio esperado que sempre se segue a estas tomadas de decisão.

abril 13, 2006

Um Equilibrio Flutuante (parte II)

À medida que aprendemos mais e mais sobre como decidem as pessoas, as asserções subjacentes às nossas instituições de honra e culpa, de castigo e tratamento, de educação e saúde, terão de se ajustar aos factos já que instituições e práticas baseadas em falsidades óbvias são demasiado fracas para se confiar (poucas pessoas estarão dispostas em comprometer os seus futuros num mito frágil onde elas próprias são capazes de encontrar as falhas). As nossas atitudes nestes assuntos têm gradualmente mudado ao longo dos séculos: hoje desculpabilizamos e menosprezamos casos que os nossos antepassados teriam lidado de forma muito mais dura. Estamos a progredir ou a tornar-nos moles? Para os receosos, isto soa a erosão social; para os confiantes é um sinal de um entendimento crescente. Porém, existe uma perspectiva mais neutral deste processo. Para um evolucionista assemelha-se a um equilíbrio flutuante, nunca quieto por muito tempo, um resultado relativamente estável de uma série de inovações e contra-inovações, ajustamentos e meta-ajustamentos, uma corrida às armas que gera, pelo menos, um tipo de progresso: um auto-conhecimento, uma sofisticação crescente sobre quem e o que somos, sobre o que podemos e não podemos fazer. E sobre este auto-conhecimento modelamos e remodelamos as nossas conclusões sobre o que devemos fazer.[cont.]