junho 01, 2006

Efeito de Baldwin

[adaptado do livro Consciousness Explained, de Daniel Dennet]

Um cérebro plástico é capaz de se reorganizar, adaptando-se às alterações de um ambiente dinâmico. Este foi um novo mecanismo da evolução: o ajuste e a fixação pós-natal dos cérebros individuais. Os candidatos à selecção natural são agora as várias estruturas cerebrais que controlam e influenciam comportamentos e o processo de selecção é conseguido pela menor ou maior flexibilidade dos processos mecânicos geneticamente implantados no sistema nervoso. Esta capacidade, ela mesmo um produto da selecção natural, não só dá uma vantagem aos organismos que a possuem, comparado com outros cujo sistema nervoso está fixo, como se reflecte no processo de evolução genética, acelerando-o. Este é o fenómeno conhecido por efeito de Baldwin. Vejamos como funciona:

Seja uma população de uma dada espécie em que existe uma variação considerável de como os seus cérebros estão ligados (implicando, neste caso, uma variada gama de comportamentos) no momento do nascimento. Vamos pressupor que apenas uma das combinações possíveis permite obter uma vantagem evolutiva decisiva (cujo comportamento designamos de Bom Truque). Podemos representar isto na seguinte paisagem adaptativa (os dois eixos representam variações das duas variáveis genéticas consideradas relevantes neste exemplo; a altura dá-nos o grau de adaptação ao ambiente, ie, quanto mais alto melhor):
Como a figura mostra, há apenas uma forma óptima de fixar o cérebro. As outras, independentemente da distância genética, são semelhantes no grau de adaptação. Esta agulha no palheiro é virtualmente invísivel para a selecção natural. Mesmo um indíviduo que tenha a sorte de nascer com a combinação certa terá poucas probabilidades de passar esse conjunto certo de valores para as gerações futuras, excepto se houver alguma plasticidade entre os individuos desta população.

Suponhamos então que os organismos começam todos diferentes e, no decurso das suas vidas, modificam o seu comportamento 'navegando' na paisagem adaptativa graças à sua plasticidade. E devido às características do seu ambiente eles tenderão a orbitar perto do Bom Truque, dado que ele existe e, havendo possibilidade para tal, existe uma tendência para o aprender. Suponhamos que quem não aprende o Bom Truque tem uma grande desvantagem e que aqueles que, ao nascimento, começam longe do Bom Truque têm mais dificuldade em aprendê-lo (o esforço de aprendizagem é maior quanto maior for a distância a que se encontram). Ou seja, os individuos que nascem com os cérebros perto do Bom Truque têm mais possibilidades de sobreviver (e de se reproduzir) do que aqueles que nascem longe, mesmo não havendo no ambiente qualquer gradiente que favoreça essa distância (como se observa na figura anterior). Desta forma, na próxima geração há a tendência para que os cérebros da população estarem, ao nascimento, geneticamente fixados mais perto do Bom Truque (fazendo com que a aprendizagem das novas gerações seja progressivamente mais fácil). Este é o Efeito de Baldwin que, graças à plasticidade dos individuos que compõem a população, transforma a inicial paisagem adaptativa na seguinte:
Assim, uma população capaz de aprender explora fenotipicamente o espaço de possibilidades mais próximas, algo muito mais rápido e eficaz que a exploração cega de possibilidades que o mecanismo central da evolução (variação genética por mutação e recombinação sexual) promove.

[...] A transmissão cultural ao permitir que todos tenham acesso ao Bom Truque, maximiza e achata o cume da figura anterior tornando-o num planalto. Este planalto diminui a pressão sobre a população de fixar geneticamente esta redução de distância. Nas civilizações humanas onde ocorre uma enorme exploração de possibilidades e onde a comunicação e o ensino explicam, com eficiência exponencial, os diversos Bons Truques, esta pressão genética desaparece ou, pelo menos, é fortemente reduzida.

maio 30, 2006

Preços

Um cérebro grande, como um governo grande, pode não conseguir realizar coisas simples de forma simples - Donald Hebb (1958)

maio 29, 2006

Memórias, Padrões...

A Estatística é um compactar semântico unidireccional. Kong sénior, mesmo após o ruir de memória que se forma na passagem de quase dez anos, ainda se lembra desta frase do Doutor Spleen. São já, hoje, duas horas na leitura e recorte de anúncios de jornal e a sua mente à volta nessas palavras. Para o Doutor Spleen, a Estatística é o ramo mais estranho do conhecer humano. Qual a utilidade de um padrão? Ou de outra forma: é necessário ao Universo essa ordem que pressupomos? Como suster uma teoria (e com o sucesso irrefreável que lhe reconhece) nessa difusa rede de contingências, de quebras causais que a realidade fabrica e, mesmo assim, recolher certezas matemáticas nesse fervilhar de probabilidades? A Kong sénior estas impressões filosóficas e a obsessão que lhes deu origem não são em particular pertinentes apesar do ritual diário que ele, o seu irmão e Dabila são forçados a manter. Lembra-se, no início, do Doutor Spleen referir qualquer coisa sobre infecções, sobre o reflexo que delas se vislumbra no singular dos factos isolados. Mas dez anos são um trabalho de demolição eficiente. O construir do presente não se coaduna assim tanto com a conservação do passado.

maio 25, 2006

Criação

Num Universo morto, onde existam apenas estrelas, gravidade, vácuo, buracos negros, não existe significado. Não é o caso do nosso. Pelo menos, a Terra é uma enorme fonte de criação de sentido. De onde vem esse sentido? No princípio da vida, nos objectos químicos percursores das proteínas, do RNA, das proto-bactérias, antes de existir um ambiente suficiente complexo para albergar a possibilidade de vírus, não existia função. O mundo continha dentro de si gerações de robots orgânicos que manipulavam repetidamente o ambiente e dificilmente algo mais. Mas erravam (afinal, a consequência inevitável de fazer algo). Se fosse possível a escolha, um robot preferiria não errar pois o erro paga-se, quase sempre, com a destruição (nessa altura, com a desagregação química). Mas essa escolha não é possível e, assim, alguns desses erros abriram a possibilidade de novos objectos, de novos robots. O interagir desta variação com o mundo permitiu colher os 'benefícios' da evolução. Os milhares de milhões de iterações conduziram a uma elaboração progressiva da estrutura desses objectos (que resultaram, por exemplo e num estágio já muito avançado, ao surgir da célula). Alguns desses robots, que participavam cegamente nessa organização maior que os confinava, tornaram-se essenciais a determinadas tarefas do seu funcionamento, i.e., começaram a ganhar função e, em consequência, a ganhar sentido. Nestes erros uma porta para a vida, para a semântica das coisas e, muito muito depois, para nós.

maio 23, 2006

Sacrifício

Para sacrificar a correcção que seja ao humor.

maio 22, 2006

Opções

Existem problemas filosóficos intrinsecamente subjectivos. Quem se preocupa hoje em discutir se a realidade sensorial é real ou ilusória? Outra polémica um pouco pateta é a do livre arbítrio. Na opinião do Doutor Spleen, basta acreditar que se tem livre arbítrio para o problema desaparecer num banal puf metafísico. Um pouco como a dor de cabeça que lhe assola o crânio. Um médico no melhor hospital privado do país assegura-lhe que os exames (porque naqueles exames o cristalizar de uma tecnologia de biliões em investigação aplicada por milhares de talentos científicos) nada indicam de errado. A única explicação lógica, afirma, é não existência da dor de cabeça. A estupidez que provém da ignorância (ou da ingenuidade, que vai dar ao mesmo no que toca às consequências) não tem limites, pensa Kong Sénior enquanto anota a matrícula do Porsche do senhor doutor.

maio 19, 2006

Travessia

Somos padrões de informação em casulos orgânicos. O material que nos compõe, o mesmo que pavimenta a crosta arrefecida deste planeta, nada tem de especial; o sermos um padrão também não. A diferença é ser possível a estes rendilhados (de memória, raciocínio, genes, cultura) entenderem o que são.

maio 16, 2006

Segredo


Que máscara tua não verga à plateia que te defronta?

maio 15, 2006

Relatividade

Kong júnior trava o carro, desliga o motor de 215 cavalos e o mundo lá fora pára de andar para trás. Cada uma das quatro portas a rodar e todos no pátio anteriormente vazio. Kong sénior abre a mala do carro e retira, elevando-o como um garrafão de água (ou dois, talvez), um homem que já não é mais que um débito irreparável. O Doutor Spleen retira o alicate polonês do bolso e, através dos gritos mudos pelo pano molhado na boca, inicia um processo de remodelação física da dívida encarnada. São duas da manhã mas o tempo passa com diferentes nuances psicológicas a cada um dos cinco personagens: os irmãos Kong inquietam-se com o nível de óleo do BMW, passado já mais de dez mil quilómetros da suposta revisão e Dabila sente-se, enquanto na revista interpreta a carta de Tarot do seu signo, um pouco enjoado pela feijoada do jantar.

maio 12, 2006

Estabilidade

Imaginemos uma sociedade onde existam só pessoas que não saibam mentir. Esta sociedade não é estável no sentido comportamental. Se fosse 'infectada' por um mentiroso, este teria tantas vantagens que tenderia a disseminar o seu comportamento ao resto da sociedade. Até que ponto se extenderia essa infecção? Depende dos valores exactos: (a) de quanto se ganha pela cooperação entre dois indivíduos honestos, (b) do proveito que um mentiroso ganha explorando um honesto, (c) e do custo associado à falta de cooperação quando dois mentirosos interagem. Este género de questão é estudado pela Teoria dos Jogos, nomeadamente pelo conhecido Dilema do Prisioneiro Iterado. Uma população mista de honestos e mentirosos pode convergir para uma percentagem que garanta que invasões futuras de indivíduos com estratégias distintas e exploratórias não sejam lucrativas (designada por estratégia evolutiva estável).

Admitir que uma sociedade totalmente honesta é instável pode ser, para alguns, uma má notícia. Porém, não devemos esquecer a implicação simétrica deste facto: uma população de mentirosos também é instável. Ela pode ser também invadida, não por um só honesto (que seria rapidamente explorado), mas por um grupo de indivíduos honestos que, por cooperação mútua, são capazes de prosperar num ambiente de traição constante. Este raciocínio leva-nos (com alguma liberdade matemática) a outro evento relacionado: um regime totalitário, pela exigência artificial de uniformidade, é igualmente instável. Existe sempre a tendência, em qualquer grupo e de forma mais ou menos velada, de manter abertas outras opções que as dominantes. Uma cultura intolerante, da mesma forma que uma profundamente tolerante, é muito permeável à dissuasão. A pressão social de um Estado totalitário sobre os seus elementos, com o objectivo de manter coesa a ideologia dominante, é, ao mesmo tempo, causa e consequência desse desejo de homogeneidade. E quanto mais energia for gasta para manter uma população isenta de diferenças, mais fácil se tornará a conversão dos seus elementos a outras possibilidades. A notícia que esse esforço seja, mesmo que a longo prazo, inútil é uma verdadeira boa notícia.

maio 10, 2006

Cinzentos

Ser honesto ou falso não são os únicos resultados desse diálogo de máscaras que são as pessoas.

maio 08, 2006

Resoluções Adiadas

Os sonhos são no Homem o ruído que nos aceita qualquer pergunta. Mais. São também a história que atravessa essas perguntas nascidas elas de receios, ânsias ou impulsos retidos pelo difícil do mundo. O Doutor Spleen, de costas para o colchão suíço, observa, com demora e no tecto, os pontilhados aleatórios pelo acumular de humidade. A casa no silêncio de fim de manhã demora a acolher essa viagem onírica de todos os seus dias. O resto dorme, horas passadas, indiferentes às lâminas de luz que cruzam o escuro do quarto (na verdade, também Kong Sénior está acordado e, apesar de manter os olhos fechados, a imaginação percorre uma fantasia pictórica, obscura e demasiado complexa para caber neste parêntesis - é a virtude e o dilema do narrador, pretender saber mais que as suas personagens e, no entanto, dar-lhes a vez possível para as linhas que tem). O Doutor Spleen, entre os padrões que adivinha na humidade, reconhece haver poucas fronteiras menos estimulantes que essa demora arrastada a que se resolveu, um dia, chamar insónia.

maio 05, 2006

Um Equilibrio Flutuante (última parte)

E volta a ansiedade: «Quando é que acaba este processo? Não estaremos na direcção de uma sociedade 100% medicada em que ninguém é responsável e todos são vítimas de um evento passado (genético ou ambiental)?». Não, não estamos. Porque existem forças – não metafísicas mas sociais e políticas – que se opõem a essa tendência. E são do mesmo tipo que impede que, por exemplo, a idade mínima de condução não seja trinta anos: as pessoas querem ser responsabilizadas! Os benefícios esperados que derivam de ser um cidadão por inteiro numa sociedade livre são tais que existe uma forte atracção para se ser incluído. A possibilidade da culpa, da punição e da humilhação pública são preços que aceitamos de bom grado somente para podermos voltar ao jogo depois de termos sido apanhados numa transgressão. E se formos um cidadão respeitado a melhor estratégia para manter a desculpabilização afastada é proteger e realçar o valor do próprio jogo. É a erosão dos benefícios do jogo (não o avanço científico) que podem ameaçar o equilíbrio social (como o slogan soviético a adivinhar o colapso: «eles fingem que nos pagam, nós fingimos trabalhar»).

[adaptado do Freedom Evolves de Daniel Dennet, Penguin Books, 2003]

maio 03, 2006

Paisagem

Na palavra expressa esconde-se uma paisagem raramente pensada. No filigrana de cada frase, na estrutura da sua gramática, o reflexo de um real observado em séculos de civilização. E cada vez que as usamos, de cada vez que elas nos socorrem, esses átomos de língua tecem a rede onde todos nos baloiçamos, pairando acima desse mundo medido assim à nossa imagem.

maio 02, 2006

Sistemas Formais

Gustav Mahler retira-se da aula de piano de Julius Epstein directamente para a avenida (e é toda uma Viena, nesse luxuoso esplendor de capital de império, que o acolhe) nesse frio de tarde onde o sol se fecha atrás das ruas, a pensar como a escala musical, um sistema tão simples, discreto e formal, lhe abre as portas à criação de mundos à sua medida e da dimensão do seu génio (que aos poucos, com a educação que recebe, depreende que tem). Exactamente 140 anos depois, no centro de outra capital europeia, sobre um frio exactamente igual (e apesar da noção de calor ser uma definição termodinâmica que, à partida, não determina uma causalidade com a dinâmica complexa dos pensamentos humanos, não deixa de ser um factor comum que esta narrativa decidiu tomar em conta, para permitir ao leitor um caminho possível, mesmo que improvável, de explicação), o Doutor Spleen considera o mesmo sobre o método igualmente simples, discreto e formal da culinária.

abril 28, 2006

Um Equilibrio Flutuante (parte IV)

Este mecanismo de equilíbrio também é relevante nas discussões da responsabilidade em geral. À medida que aprendemos mais sobre determinado sistema, encontramos argumentos para passar certos indivíduos para o outro lado da fronteira (de responsável para inocente ou, mais raramente, vice-versa). É esta ideia que cria a aparência que a fronteira está constantemente a recuar; mas é necessário observar melhor este fenómeno. É possível que façamos revisões estruturais nas nossas políticas de quem prender ou de quem tratar (a homossexualidade já não é motivo de prisão e é cada vez menos vista como doença) sem alterar, por exemplo, as nossas convicções de fundo. Por outro lado, não mudamos os nossos conceitos de culpado e inocente se descobrimos um inocente encarcerado; colocamo-lo em liberdade mas não mudamos o critério que usámos antes. É precisamente por não mudarmos o critério que o reconhecemos como inocente. Do mesmo modo, pela força da evidência, podemos inocentar uma categoria de indivíduos sem qualquer mudança ou erosão no nosso conceito de responsabilidade moral. Com isto, poder-se-ia supor que existe menos responsabilidade na sociedade do que suposto inicialmente. [cont.]

abril 26, 2006

Pontos de Vista


Uma das delícias de Hiëronymus Bosch

abril 24, 2006

Engodo

Outro corpo no gelado do chão. Outro assassino morto com a sua própria arma. Não é a tentativa falhada que irrita o Doutor Spleen: tentar é parte da natureza do Homem e falhar é o acto inevitável que conduz à criação das coisas. Não é igualmente a simplicidade dessa tentativa que produz a irritação: não deixa de ser admirável o possível que se abre no optimismo de um modelo elementar e que, no entanto, nos leva longe mesmo que esse longe seja a distância dos nossos pequenos passos. Nem sequer é a vontade de insistir no erro, nesse tentar logrado que nos rouba os anos a pavimentar o caminho: a paisagem que desenhamos do mundo não é um vento que se atravessa mas antes uma cidade que é preciso, com dor e chegada a hora, demolir. O que verdadeiramente irrita o Doutor Spleen é essa arqueologia do engano, esse desenterrar de ideias mortas que leva outros a revisitar o arquivo de erros que é a História.

abril 20, 2006

Um Equilibrio Flutuante (parte III)

Por exemplo, o que é necessário para um criminoso ser 100% culpado? Ninguém é perfeito e, aliás, ser-se 100% culpado de alguma coisa é um conceito potencialmente contraditório. Como separar entre os que sofrem de patologias irrefreáveis (ele não sabia, ele não consegue controlar-se) e aqueles que fazem acções criminosas no seu 'perfeito juízo'? Se colocarmos o limiar demasiado alto, todos escapam do castigo; se demasiado baixo, corremos o risco de criar bodes expiatórios. Num contexto geral, como desenhar uma linha de fronteira e como evitar que ela recue sobre as pressões da ciência? Imaginemos um teste de aptidão que meça a flexibilidade mental, o conhecimento geral, a compreensão social e o controlo dos impulsos que são, discutivelmente, os requerimentos mínimos para um agente moral. Este teste quantifica o ideal implícito à nossa tácita compreensão de responsabilidade. Esta política é clara, conhecida e parece funcionar bem em aplicações simples, como o teste de condução: é preciso ter 18 anos (ou 16 ou 21...) e ser admitido numa prova de aptidão. A partir daí obtém-se a liberdade de guiar nas estradas e têm-se uma responsabilidade igual a qualquer condutor. Este processo pode ser ajustado com o tempo quando aprendemos mais sobre segurança rodoviária: restrições à alcoolémia, períodos de aprendizagem, excepções para certas deficiências e outras circunstâncias que melhoram o custo-benefício de maximizar a segurança dos cidadãos e a liberdade dos condutores. [cont.]

abril 18, 2006

Construção

Nascemos homo sapiens sapiens. A vida é um esforço (ou devia ser) para que cada um possa morrer já pessoa.

abril 17, 2006

Incompletude

Mesmo que os detalhes sejam tão opacos como uma parede de betão armado, é bem sabido que a Física determina, com fabulosa aproximação, a trajectória de milhares de corpos celestes nessa dança cósmica que se chama Sistema Solar. É também de conhecimento relativamente público que a teoria quântica estabelece, com enorme rigor, as normas e comportamentos das partículas sub-atómicas. O que talvez não seja tão conhecido é a incapacidade total da mesma Física em criar modelos que determinem se o lançar de uma moeda, como aquela que agora se encontra no ar em via ascendente, cairá na cara ou na coroa da mesma. Dabila nunca conseguiu perceber (nem decorar) qual das faces é a cara de uma moeda de euro, obrigando-o a adivinhar o desfecho de uma aposta pela expressão do parceiro de jogo. O problema presente é que o semblante granítico do Doutor Spleen não lhe permite antever qual dos métodos (o garrote ou a bala na nuca) terá de aplicar à vítima sobre o silêncio esperado que sempre se segue a estas tomadas de decisão.

abril 13, 2006

Um Equilibrio Flutuante (parte II)

À medida que aprendemos mais e mais sobre como decidem as pessoas, as asserções subjacentes às nossas instituições de honra e culpa, de castigo e tratamento, de educação e saúde, terão de se ajustar aos factos já que instituições e práticas baseadas em falsidades óbvias são demasiado fracas para se confiar (poucas pessoas estarão dispostas em comprometer os seus futuros num mito frágil onde elas próprias são capazes de encontrar as falhas). As nossas atitudes nestes assuntos têm gradualmente mudado ao longo dos séculos: hoje desculpabilizamos e menosprezamos casos que os nossos antepassados teriam lidado de forma muito mais dura. Estamos a progredir ou a tornar-nos moles? Para os receosos, isto soa a erosão social; para os confiantes é um sinal de um entendimento crescente. Porém, existe uma perspectiva mais neutral deste processo. Para um evolucionista assemelha-se a um equilíbrio flutuante, nunca quieto por muito tempo, um resultado relativamente estável de uma série de inovações e contra-inovações, ajustamentos e meta-ajustamentos, uma corrida às armas que gera, pelo menos, um tipo de progresso: um auto-conhecimento, uma sofisticação crescente sobre quem e o que somos, sobre o que podemos e não podemos fazer. E sobre este auto-conhecimento modelamos e remodelamos as nossas conclusões sobre o que devemos fazer.[cont.]

abril 11, 2006

Comparações

A Lei criminal está para a vingança como o casamento para o impulso sexual (já não sei quem o disse mas não discordo).

abril 10, 2006

Percursos

O real é complexo. Esta afirmação teria a concordância de todos os presentes na sala incluindo o policia corrupto que, para além das dívidas ao jogo, do sustento da intrincada rede de amantes homossexuais e do terror absoluto ao olhar do Doutor Spleen, não costuma pensar muito nestas coisas. Aliás, o real é tão complexo que, por muito trabalho que nele se ponha, serão sempre as perguntas o resultado natural de uma investigação sistemática. Por um lado, esta imensidão do mistério é um convite ao religioso que, sem cuidado, reduz-se ao regresso infantil da necessidade de um Pai/Mãe. Por outro, o não findar das perguntas garante um oceano de oportunidades para cientistas, filósofos e até artistas do divinatório (que entre os padrões do real lá cosem relações improváveis ao saciar dessa sede que são as pessoas). O polícia, não sendo pensador metódico nem astrólogo e que agora sai no silêncio culpado dos traidores, sabe que as oportunidades estarão sempre à nossa frente desde que saibamos que olhos não usar.

abril 07, 2006

Um Equilibrio Flutuante (parte I)

[adaptado do Freedom Evolves de Daniel Dennet, Penguin Books, 2003]

Não existe maior fonte de ansiedade em relação ao livre arbítrio que a imagem da Ciência a absorver todos os nossos actos, bons ou maus, na sopa ácida da explicação causal, retirando-os progressivamente da alma até que nada reste para louvar ou culpar, para honrar, respeitar ou amar. Ou assim parece para muitos. E desta forma eles tentam levantar barreiras, doutrinas absolutistas desenhadas para afastar a ameaça destas ideias. Esta, porém, é uma estratégia condenada, uma relíquia do milénio passado. Graças ao progressivo entendimento da natureza, aprendemos que essas barreiras apenas atrasam a catástrofe e, muitas vezes, até a pioram. Se vivemos numa praia, é bom estar preparado para mudar quando a praia se deslocar, algo que as praias fazem devagar mas seguramente. Os quebra-mares podem 'salvar' a costa mas destroem algumas das características que faziam essa mesma costa um lugar tão agradável para se viver. Uma melhor solução passaria por estudar a situação e chegar a um acordo sobre quão perto do mar pode uma casa ser construída. Mas os tempos mudam, as políticas mudam, e aquilo que fazia sentido durante décadas ou séculos pode se tornar obsoleto e ter de ser revisto. É comum dizer-se que devemos trabalhar com a natureza não contra. Isto, porém, é retórica de moderação; todo o artefacto humano altera alguma propriedade da natureza. O truque é entender o suficiente dos padrões naturais de forma a interferir com eles para conseguirmos os resultados pretendidos. [cont.]

abril 04, 2006

As duas cidades

Na busca de um uniforme que nos limite, as histórias antigas vestiram de castigo o episódio de Babel. Para desmotivar o Homem a construir um acesso aos céus, Deus multiplicou as línguas impedindo a comunicação entre as pessoas e bloqueando, assim, a ambição humana. Mas bloquear é atrasar apenas. O dito castigo, ocorrido nessa cidade dos homens chamada Babilónia, foi uma benção de diversidade, um abrir de visões do mundo que ajudou, muito tempo depois, a abrir portas que talvez nunca sequer fossem imaginadas se vivêssemos numa qualquer cidade de Deus.

abril 03, 2006

Redução

Uma foto não é só um retrato de um instante perdido. Não é somente um possível, uma visão de um lugar cumprido. É também um constatar de duas distâncias, uma temporal que nunca se recupera e uma de espaço entre o olhar e o conjunto que se retrata. O Doutor Spleen permite-se ao prazer autêntico das boas fotografias. Por vezes, meras reproduções de astronomia (que mesmo as falsas cores ou o contraste exagerado não alteram em nada a diferença entre a imagem e a verdadeira dimensão do real), por vezes paisagens moralmente neutras de mar ou terra, por vezes ângulos e partes de corpos estruturados nessa ajuda da iluminação profissional. Nestes últimos, o Doutor Spleen sabe que a separação entre a pessoa que se expõe e o expositor que nele existe é transponível sob o custo de um limitado esforço. Algumas vezes a atravessou para tocar esse mesmo corpo tornando-o, no processo, objecto de outros gostos. Algumas vezes mas poucas. Porque uma distância sempre reduzida deixa de ser distância.

março 31, 2006

Origens

Nem os homens são de Marte nem as mulheres são de Vénus. Somos todos de África - Stephen Pinker

março 30, 2006

Drª Pinto

Essa dificuldade conceptual de encontrar frases novas não é das piores coisas que pode acontecer. Eu, por exemplo, está-me sempre a cair a tecla para escrever manhã submersa, começar livros com 'chama-me ishmael', usar bengalas tipo é assim, de facto, pronto(s), inserir estrategicamente mira ali os lírios do campo e afirmações outras em segunda mão (e é um esforço do caraças parar estes apetites imediatos de sucesso garantido, mas sem suor faz-se pouco). São tantos os livros novos que de certeza que não há frases suficientes e diferentes para todos. A senhora, pelo menos e de vez em quando, lá vai usando as que se lembrou em anos passados, tempo suficiente de intervalo neste mundo em aceleração. De qualquer forma, o mercado que a sustenta nem se interessa por isso (apesar de desconfiar que reparam no efeito pois um público é um público e diz a estatística - ou podia dizer - que há sempre alguém mais esperto que nós a ler). Esta história nossa dos posts é quase o mesmo. Poderia ir buscar outros meus de 2004 e repeti-los agora que os meus sete leitores não davam por nada (eu tento não os insultar, logo do que poderiam eles lembrar-se?). Repetir até pode ser saudável, a gente engana-se na transcrição e regurgita-se uma coisa melhor (é assim que a Evolução funciona). Mas daí a invocar tribunais, providências e intenções de censura? Não se faz... Censura, no máximo, a nossa a nós próprios e em doses curtas de bom gosto. É que o resto facilmente se transforma em mau cheiro que depois não se despega.

março 28, 2006

Ilusionismo

A publicidade é a imagem de um querer, um desejo de mundo num instante. Nos segundos que decorre a ilusão, a realidade é o incómodo a que teremos de voltar. Sendo a política a gestão da coisa pública, se a propaganda é publicidade política como pretender verdade nas promessas que a compõem?