março 27, 2006

Ctrl+Alt+Forget

Um tabuleiro entre os Kong. O bispo empurrado a substituir o cavalo branco. As horas passam. O Doutor Spleen, que na sua juventude atravessou os imensos territórios eslavos, deixou passar em silêncio oito jogadas decisivas e dois xeque-mates. Distraí-se a pensar na metonímia daquelas duas mãos como o seu exército de xadrez (e imagina-o branco). Já ao Inspector Rousseau vê-lo como uma torre negra a defender a inércia burocrática de um governo normal. A verdade é que antes de consolidar este pensamento, a sua mente labiríntica imaginou-o como a rainha branca e quase estremeceu com as possibilidades explicativas que isso provocaria. Quase. Porque o controle que Spleen detém sobre o seu próprio corpo só pode ser equiparado à obsessão que tem sobre o objectivo inconfessado da sua vida.

março 24, 2006

Passagem

Somos (quase) todos demasiado pequenos para os filtros da História.

março 21, 2006

Baptismo

Por muito real que sejam as causas e os efeitos, a história de como se ligam é um tecer de ilusões, crenças e modelos que, de tempo em tempo, alguém chama verdade.

março 20, 2006

Pontes

A expressão abstracta do segredo profissional, um pouco como o sagrado, é um construir de muros sem reflexo aparente. Os dogmas querem-se indiferentes aos ventos das coisas e são desenhados para produzir tantas ondas como um mar de cimento. Porém, quando a expressão da blasfémia é inadiável não são as convicções que resistem, por muito interiorizadas que tenham sido nessa dura iniciação que é o passado. Foi mais ou menos isto que pensou o psiquiatra, após perder oito dentes num único murro profissional, para se convencer que era mais prudente dizer o que sabia sobre um determinado cliente. Ao Doutor Spleen agradam as tensões da ortodoxia quando postas em causa pela nudez dos acontecimentos. Agradam-lhe também os padrões de marfim humano, cuspidos e agora expostos, no vermelho salpicado do chão daquele gimnodesportivo. E sobre isto agrada-lhe saber que, por muito separados que sejam dois conceitos, há sempre situações em que parecem desenhar, nas suas franjas, um padrão que os liga.

março 16, 2006

Reset

O objectivo de todas as utopias é, de forma mais ou menos ampla, eliminar as pessoas reais - John Carey

março 14, 2006

Gradiente

Como passam certos impulsos e não outros a normas sociais? Que corrente, que força atractiva é essa que as mantém até serem imperativos de lei ou mesmo parte de uma moral, de um dogma aceite? Que fluxo as modela, as une e que estrutura o nós que somos?

março 13, 2006

Transferência

Dabila acompanha, três passos atrás, a trajectória do Doutor Spleen. Nos becos escuros do pior bairro da cidade, são como um vento deixado de duas sombras. Vê-se miséria, lixo, uma violência mal contida, o fundo onde se concentram as vassouradas da civilização. Para a maioria, aquela travessia seria uma recordação de horror. Para Spleen é o passeio nocturno de um hábito semanal. Por onde passam, são olhos que se desviam, corpos que se afastam, um tremor que se adivinha. Pode ter-se medo da escuridão por lá haver espaço para esconder monstros, concordaria Dabila se fosse outra pessoa. E quando se é o monstro?

março 08, 2006

Correspondência

Salvador Dali - Nascimento do Novo Homem
Salvador Dali - Nascimento do Novo Homem

Uma chave é uma promessa de atalho. Mas, como qualquer promessa, ninguém sabe o mais que ela abre.

março 06, 2006

Normalidade Elástica

A monotonia, como os abismos ou o vácuo, é um conceito que se alimenta da ausência dos seus incompatíveis. Qualquer um dos Kong e mesmo Dabila, na sua estratégia conceptual de não pensar em nada, acham que um pouco de acção, de diversidade normal no dia-a-dia seria bem-vinda. Eu incluo o termo normal porque nenhum dos três é capaz de separar o recomeço dos assassinatos culinários, perpetrados pelo Doutor Spleen, da vivência diária em que se encontram. Uma coisa que eles não seriam capazes de deduzir (e, por isso, Spleen não fala no assunto apesar de lhes reconhecer a capacidade de entender) é que ao repetir um acto um número suficiente de vezes, por maior que lhe seja o desvio, essa diferença torna-se conciliável e entra, assim, na fronteira do monótono. Desta forma se explica que a novidade teórica da colmeia como substituto estético do cerebelo seja menos motivo de conversa que os sapatos novos da menina do bar.

março 03, 2006

Qual?

Desde há séculos e de muitas maneiras, em nome da dignidade humana, falou-se da morte de Deus e do fim do cristianismo. Desde alguns anos, confia-se no «retorno do religioso» e na «nostalgia do absoluto» para notar que a notícia da morte de Deus talvez fosse exagerada e para dizer que o fim da Idade Moderna chegou mais depressa do que o fim das religiões. Mas esse pode ser o caminho da apologética fácil. Não se eliminam séculos de crítica filosófica, de investigação científica, de vida cultural distanciada das Igrejas com declarações generosas, suspensão de alguns anátemas e bons propósitos para o futuro. Seria um engano.

Quando nos referimos a Deus [...] precisamos saber de que Deus falamos. Já Malebranche, um filósofo cristão do século XVII, dizia que «a palavra 'Deus' é equívoca, infinitamente mais do que se possa pensar. Há quem imagine que ama a Deus mas efectivamente ama apenas um imenso fantasma que ele próprio forjou.» [...] Em vez de gritar contra Marx, Nietzsche, Freud, Sartre, etc., importa indagar por que razões não se entenderam com o Deus que aparecia no rosto das Igrejas. Frei Bento Domingues Público 18 Set 2005.

março 01, 2006

Tentativa e Erro

O substrato que sustenta o mundo, o detalhe quase infinito do real, o constante do universo é-nos vedado por uma névoa de excepções e paradoxos que, no entanto, nos empurra para a frente. Por penoso que seja, resta-nos seguir a luz possível e ir curando o planeta dos caminhos que escolhemos.

fevereiro 27, 2006

Impossibilidade v.2.0

"Tudo pode acontecer menos o impossível" foram as palavras moldadas em verdade indiscutível que ouviram de Santos, o gerente do restaurante, enquanto lavava o chão com lixívia perfumada. Kong sénior, em pé e de volta da casa-de-banho, argumentou ser essa uma frase óbvia porque baseada numa definição. Essa diferença (i.e., entre obviedades e verdades), mais ou menos esbatida pela ignorância de cada um, era a diferença que ia do ponto de partida, dos axiomas que confiamos, até ao ideal da chegada (Kong sénior não acreditava na materialidade de uma só resposta definitiva mas aceitava, com alguma fogosidade, a pertinência das perguntas). O Doutor Spleen mantém-se metódico no corte da fotografia do Inspector Rousseau e indiferente à discussão stereo que o envolve. Para ele, impossível é como fazer uma máquina que, recebendo um ovo mexido, produza um ovo intacto. Impossível até se meter na máquina uma galinha.

fevereiro 23, 2006

Função e Ambiente

Qualquer estrutura funcional contém informação implícita sobre o ambiente onde essa função trabalha. As asas de uma gaivota encerram, de forma magnífica, os princípios da aerodinâmica e, por isso, um ser com estas asas está adaptado a um voo numa atmosfera com determinada densidade e viscosidade. Suponha-se que preservamos o corpo de uma gaivota, colocamo-la numa cápsula espacial (sem qualquer explicação adicional) sendo descoberta por ETs. Se estes fizerem a asserção fundamental que as asas são funcionais e que a sua função era voar (o que pode não ser tão óbvio como isso) eles usariam estas assumpções para retirar informação valiosa sobre o ambiente no qual estas asas foram desenhadas. À seguinte pergunta: como é que esta informação surgiu nas asas?, teríamos a resposta: pela interacção dos antepassados da gaivota com o ambiente – Daniel Dennet Darwin’s Dangerous Idea

fevereiro 21, 2006

Função e sentido

Não se pode atribuir significado a uma função sem observar a história e o contexto do seu fabrico. Por exemplo, pode ser um equívoco interpretar a dimensão da grande pirâmide sem conhecer as capacidades de construção da civilização Egípcia ou a volumetria das pedreiras usadas. Talvez as medidas exactas não tenham um sentido místico e sejam apenas a consequência das limitações daquela época.

fevereiro 20, 2006

Relações

O dia começa durante as escadas. Naqueles cinco andares quanto suor quantos degraus pisados? O Doutor Spleen não gosta de elevadores e não gosta de quem gosta de elevadores. Os seus ajudantes, incapazes de perceber suficiente matemática para definir uma operação transitiva, sabem por experiência ser ajuizado acompanhar aquele passo rápido que, em cada repetição, deixa um degrau por pisar (para ser exacto, os degraus ímpares se assumirmos o primeiro de cada lance como o degrau zero, por onde ele teima em começar). Degrau zero é, aliás, uma expressão usada por Spleen nos mais inesperados momentos e que designa, segundo Kong sénior, o menor elemento da cadeia que é preciso esmagar (não há consenso, porém, nesta interpretação). Kong sénior pensa muito neste assunto durante as repetidas insónias à luz brilhante do meio-dia (que as persianas quase seculares não conseguem deter) e cuja relevância temática é multiplicada pelos cento e quarenta quilos de músculo e gordura que carrega nestes fins de noite.

fevereiro 16, 2006

Construção

Há, talvez, dois tipos de deveres. Uns que são reflexos de direitos (o dever de não matar é o direito à vida), outros apenas restrições sem aparente que os balance. Os primeiros são o espirito da Lei. Os segundos, tijolos de um eventual inquisitório.

fevereiro 14, 2006

Escolha

Não se pode evitar que a política se mova no seio de uma religião ortodoxa. Esta luta de poder permeia o treino, a educação e a disciplina da comunidade ortodoxa. Por causa desta pressão, os líderes da comunidade inevitavelmente terão de defrontar aquela questão derradeira: ou sucumbir ao completo oportunismo como preço para manter o poder, ou arriscar-se a um sacrifício pela sua ética. - Frank Herbert

fevereiro 13, 2006

Navegação

O Doutor Spleen nem sempre confia no sistema dedutivo/empírico do método científico. Apesar de admitir a sua força conceptual (e esta admissão é-nos constatável pelo estatuto especial de narrador, no qual estou, por acaso, investido, já que Spleen não discute epistemologia), ele acredita que o instinto e a sensibilidade proveniente dos insondáveis abismos da psique humana são ferramentas essenciais à obtenção do génio e das acções que o caracterizam. Dessa forma, o acto que conjuga a sua determinação com os impulsos dos seus desejos é, em parte, um improviso, um navegar imprevisto ao sabor dessa tempestade que são os factos. Tudo isto, mesmo que um pouco abstracto, é o que lhe atravessa agora a mente após usar o manípulo do contentor de lixo para suprimir os quatro agentes do Inspector Rousseau daquela elaborada armadilha.

fevereiro 10, 2006

Olhar

Para atribuir semântica necessito do referente, o objecto concreto ou abstracto que se torna imagem dos nossos olhares. Quando escrevo «árvore» concedo um significado originado num género de seres vivos que identificamos como tal. Mas não será a presunção de existência desse objecto parte da semântica dada? Para uma formiga ou um extraterrestre fará sentido esse objecto árvore por nós destacado?

fevereiro 07, 2006

v.v.

Magritte - Dois Mistérios, 1966
Magritte - Dois Mistérios, 1966

O mapa nunca será o território. Nem vice-versa.

fevereiro 06, 2006

Equilíbrio

O tempo é isso mesmo. Não mais nem menos. De resto há espaço, energia e (segundo dizem) informação. Kong Jr. lê os jornais à procura do anúncio que melhor se encaixe no padrão referido. Anda nisto há três dias e pela sua voz passaram algumas das possibilidades mais mirabolantes (aquelas que, segundo a sua limitada mas compulsiva mente, mais se aproximam). O Doutor Spleen ouve, corta as unhas e nele misturam-se dois sentimentos. Por um lado - e sem qualquer emoção primária à mistura - apetece-lhe estrangulá-lo com paciência e demorada preparação. Por outro, sorri pelo constatar diário que a realidade e o mundo que nela habita são fontes inesgotáveis de ideias e oportunidades. Este último tem (como o leitor poderia ter concluído sozinho mas vivemos num mundo de facilidade e não serei eu a mudá-lo) ganho sobre o primeiro.

fevereiro 02, 2006

Genética

Ler é uma aptidão adquirida de complexidade prodigiosa mas isto não é motivo para ser céptico sobre a possível existência de um gene da leitura. Tudo o necessário para estabelecer um gene da leitura é descobrir um gene da não-leitura, por exemplo um gene que induza uma lesão cerebral que cause uma dislexia específica. Uma pessoa com esta dislexia poderia ser normal e inteligente nos restantes aspectos excepto que não conseguiria ler. Claro, o gene apenas produz o seu efeito num ambiente que inclua uma educação normal. Na pré-história este defeito poderia não ter qualquer efeito detectável ou talvez resultasse num outro efeito (como a incapacidade de interpretar pegadas animais). No nosso ambiente civilizado seria chamado um gene da dislexia, dado ser a dislexia a sua consequência mais saliente. De igual forma, um gene que cause cegueira também impede a leitura mas não seria útil vê-lo como um gene da não-leitura porque não permitir ler não é o efeito fenotípico mais óbvio ou debilitante - «The Extended Phenotype», Richard Dawkins

fevereiro 01, 2006

Peso

O que precisamos para pensar é igualmente peso que carregamos. São milhões de livros, de teses medíocres ou geniais (ou nem por isso), um palimpsesto de séculos de civilização, tudo construção que nos protege mas também nevoeiro. Como sair deste novelo e inovar? Como ser original, ir contra o edifício que nos sustenta, e ter razão? Pois por cada Tróia descoberta há mil Atlântidas inventadas.

janeiro 30, 2006

Temperança

Spleen gosta de jardins. Queimados. Por isso, de tempos a tempos (até porque possui a perfeita noção que uma necessidade ou prazer reiterado e alimentado sem restrições consome o produto mais depressa que a capacidade em repô-lo), pede a Dabila para incendiar com precisão geométrica um desses parques de cidade. Esta tarefa é mais complicada do que parece, pois um jardim é uma intersecção de caminhos não inflamáveis por entre um conjunto de árvores mais ou menos dispersas. Para além disso, não é fácil encontrar um hotel de cinco estrelas com, pelo menos, um décimo andar e uma boa vista para o espectáculo que ele a ele mesmo proporciona. Não há jantares grátis, mas sempre se podem fazer com estilo.

janeiro 26, 2006

Arrasto

O comportamento das massas é o diluir de muitos indivíduos numa sopa de reacções infantis. O sentimento pensado, o pesar das opções, o controlar da pulsão substituídos pela euforia espontânea, pelo querer do desejo imediato, pela frustração que leva à violência. Só que uma multidão não é uma criança. Na criança esse excesso é o necessário no ajuste dela ao mundo. Na multidão - seja para ajustar ou não o mundo - cada anseio satisfeito facilmente se transforma num arrastar de vidas por saldar.

janeiro 24, 2006

Custo


Que parte és na imagem dos outros? Que diferença fazes na multidão? O que sobra após arrancar a mistura de mundo que nos compôs?

janeiro 23, 2006

Transição

Das partes intactas exposto um padrão geométrico. Dos fluidos saídos um mapa desenhado, um final imagem abstracta de um princípio. A emergência é um conceito atractor da atenção de diversas áreas do conhecimento. Será possível obter mais que a soma das partes a partir da interacção dessas mesmas partes? Será o fluxo interno de um sistema responsável por propriedades relevantes e não triviais? Ou será apenas mais um assunto que, depois do superficial das coisas novas, cairá em desuso por incapacidade de criar ferramentas úteis? O Doutor Spleen, apesar de não possuir motivados interesses por estas questões, entende (tanto metafísica como empiricamente) que o desagregar de um homem é um acto unidireccional na produção de um «não-homem», por muito cirúrgico que seja o algoritmo usado.

janeiro 19, 2006

Arete

Arete é o conceito mais importante da ética antiga. É traduzido por virtude mas também por excelência. É um substantivo abstracto que relaciona a propriedade de tudo o que é bom no seu contexto: a coragem como virtude do guerreiro, a excelência do fabrico de uma espada, a virtude intelectual do sábio. Ao tentar explicar este conceito para os dias de hoje deparamo-nos não só com um problema de tradução mas de diferenças conceptuais entre a antiga Grécia e o Ocidente moderno sobre como agrupar características distintas. Há palavras que não se dão bem com sinónimos, há culturas que nem por isso se entendem e há passados que podem sempre mudar.

janeiro 17, 2006

Conformidade

Quando desviamos as fronteiras do normal e do inaceitável, muitos que viviam nessa difusa região entre ambos (os desvios socialmente tolerados) são obrigados a mudar não tanto o comportamento mas a expressão desse comportamento. Raramente o aumento das máscaras que temos de usar é bom sinal de alguma coisa. E quanto mais se diminui a nação da normalidade - quer por devoção, por ignorância, por culpa - mais se acumula um peso que a todos nos torna mais distantes.

janeiro 16, 2006

Consequências

Os quatro, calados, no restaurante. São três da manhã e encontram-se cercados de mesas a aturar cadeiras invertidas. No balcão, uma mão numa toalha molhada e outra num copo de vinho várias vezes enchido, o gerente espera em silêncio pelo fim daquela angustia semanal. Spleen não gosta de barulho enquanto janta (almoça?) (o Doutor Spleen não gosta de muita coisa, é certo, e este facto deixa-nos com a esperança de conseguir descrever aqui, no decorrer dos meses, o conteúdo selecto dessa lista). Dabila cometeu o desacerto de encomendar arroz de marisco não descascado. Agora vê-se de alicate na mão e a pensar se arrisca o número de decibéis para forçar a carapaça de um crustáceo. Kong sénior (que engole, eficaz, duas doses de bolonhesa) pensa no efeito dominó das pequenas decisões.