fevereiro 16, 2006

Construção

Há, talvez, dois tipos de deveres. Uns que são reflexos de direitos (o dever de não matar é o direito à vida), outros apenas restrições sem aparente que os balance. Os primeiros são o espirito da Lei. Os segundos, tijolos de um eventual inquisitório.

fevereiro 14, 2006

Escolha

Não se pode evitar que a política se mova no seio de uma religião ortodoxa. Esta luta de poder permeia o treino, a educação e a disciplina da comunidade ortodoxa. Por causa desta pressão, os líderes da comunidade inevitavelmente terão de defrontar aquela questão derradeira: ou sucumbir ao completo oportunismo como preço para manter o poder, ou arriscar-se a um sacrifício pela sua ética. - Frank Herbert

fevereiro 13, 2006

Navegação

O Doutor Spleen nem sempre confia no sistema dedutivo/empírico do método científico. Apesar de admitir a sua força conceptual (e esta admissão é-nos constatável pelo estatuto especial de narrador, no qual estou, por acaso, investido, já que Spleen não discute epistemologia), ele acredita que o instinto e a sensibilidade proveniente dos insondáveis abismos da psique humana são ferramentas essenciais à obtenção do génio e das acções que o caracterizam. Dessa forma, o acto que conjuga a sua determinação com os impulsos dos seus desejos é, em parte, um improviso, um navegar imprevisto ao sabor dessa tempestade que são os factos. Tudo isto, mesmo que um pouco abstracto, é o que lhe atravessa agora a mente após usar o manípulo do contentor de lixo para suprimir os quatro agentes do Inspector Rousseau daquela elaborada armadilha.

fevereiro 10, 2006

Olhar

Para atribuir semântica necessito do referente, o objecto concreto ou abstracto que se torna imagem dos nossos olhares. Quando escrevo «árvore» concedo um significado originado num género de seres vivos que identificamos como tal. Mas não será a presunção de existência desse objecto parte da semântica dada? Para uma formiga ou um extraterrestre fará sentido esse objecto árvore por nós destacado?

fevereiro 07, 2006

v.v.

Magritte - Dois Mistérios, 1966
Magritte - Dois Mistérios, 1966

O mapa nunca será o território. Nem vice-versa.

fevereiro 06, 2006

Equilíbrio

O tempo é isso mesmo. Não mais nem menos. De resto há espaço, energia e (segundo dizem) informação. Kong Jr. lê os jornais à procura do anúncio que melhor se encaixe no padrão referido. Anda nisto há três dias e pela sua voz passaram algumas das possibilidades mais mirabolantes (aquelas que, segundo a sua limitada mas compulsiva mente, mais se aproximam). O Doutor Spleen ouve, corta as unhas e nele misturam-se dois sentimentos. Por um lado - e sem qualquer emoção primária à mistura - apetece-lhe estrangulá-lo com paciência e demorada preparação. Por outro, sorri pelo constatar diário que a realidade e o mundo que nela habita são fontes inesgotáveis de ideias e oportunidades. Este último tem (como o leitor poderia ter concluído sozinho mas vivemos num mundo de facilidade e não serei eu a mudá-lo) ganho sobre o primeiro.

fevereiro 02, 2006

Genética

Ler é uma aptidão adquirida de complexidade prodigiosa mas isto não é motivo para ser céptico sobre a possível existência de um gene da leitura. Tudo o necessário para estabelecer um gene da leitura é descobrir um gene da não-leitura, por exemplo um gene que induza uma lesão cerebral que cause uma dislexia específica. Uma pessoa com esta dislexia poderia ser normal e inteligente nos restantes aspectos excepto que não conseguiria ler. Claro, o gene apenas produz o seu efeito num ambiente que inclua uma educação normal. Na pré-história este defeito poderia não ter qualquer efeito detectável ou talvez resultasse num outro efeito (como a incapacidade de interpretar pegadas animais). No nosso ambiente civilizado seria chamado um gene da dislexia, dado ser a dislexia a sua consequência mais saliente. De igual forma, um gene que cause cegueira também impede a leitura mas não seria útil vê-lo como um gene da não-leitura porque não permitir ler não é o efeito fenotípico mais óbvio ou debilitante - «The Extended Phenotype», Richard Dawkins

fevereiro 01, 2006

Peso

O que precisamos para pensar é igualmente peso que carregamos. São milhões de livros, de teses medíocres ou geniais (ou nem por isso), um palimpsesto de séculos de civilização, tudo construção que nos protege mas também nevoeiro. Como sair deste novelo e inovar? Como ser original, ir contra o edifício que nos sustenta, e ter razão? Pois por cada Tróia descoberta há mil Atlântidas inventadas.

janeiro 30, 2006

Temperança

Spleen gosta de jardins. Queimados. Por isso, de tempos a tempos (até porque possui a perfeita noção que uma necessidade ou prazer reiterado e alimentado sem restrições consome o produto mais depressa que a capacidade em repô-lo), pede a Dabila para incendiar com precisão geométrica um desses parques de cidade. Esta tarefa é mais complicada do que parece, pois um jardim é uma intersecção de caminhos não inflamáveis por entre um conjunto de árvores mais ou menos dispersas. Para além disso, não é fácil encontrar um hotel de cinco estrelas com, pelo menos, um décimo andar e uma boa vista para o espectáculo que ele a ele mesmo proporciona. Não há jantares grátis, mas sempre se podem fazer com estilo.

janeiro 26, 2006

Arrasto

O comportamento das massas é o diluir de muitos indivíduos numa sopa de reacções infantis. O sentimento pensado, o pesar das opções, o controlar da pulsão substituídos pela euforia espontânea, pelo querer do desejo imediato, pela frustração que leva à violência. Só que uma multidão não é uma criança. Na criança esse excesso é o necessário no ajuste dela ao mundo. Na multidão - seja para ajustar ou não o mundo - cada anseio satisfeito facilmente se transforma num arrastar de vidas por saldar.

janeiro 24, 2006

Custo


Que parte és na imagem dos outros? Que diferença fazes na multidão? O que sobra após arrancar a mistura de mundo que nos compôs?

janeiro 23, 2006

Transição

Das partes intactas exposto um padrão geométrico. Dos fluidos saídos um mapa desenhado, um final imagem abstracta de um princípio. A emergência é um conceito atractor da atenção de diversas áreas do conhecimento. Será possível obter mais que a soma das partes a partir da interacção dessas mesmas partes? Será o fluxo interno de um sistema responsável por propriedades relevantes e não triviais? Ou será apenas mais um assunto que, depois do superficial das coisas novas, cairá em desuso por incapacidade de criar ferramentas úteis? O Doutor Spleen, apesar de não possuir motivados interesses por estas questões, entende (tanto metafísica como empiricamente) que o desagregar de um homem é um acto unidireccional na produção de um «não-homem», por muito cirúrgico que seja o algoritmo usado.

janeiro 19, 2006

Arete

Arete é o conceito mais importante da ética antiga. É traduzido por virtude mas também por excelência. É um substantivo abstracto que relaciona a propriedade de tudo o que é bom no seu contexto: a coragem como virtude do guerreiro, a excelência do fabrico de uma espada, a virtude intelectual do sábio. Ao tentar explicar este conceito para os dias de hoje deparamo-nos não só com um problema de tradução mas de diferenças conceptuais entre a antiga Grécia e o Ocidente moderno sobre como agrupar características distintas. Há palavras que não se dão bem com sinónimos, há culturas que nem por isso se entendem e há passados que podem sempre mudar.

janeiro 17, 2006

Conformidade

Quando desviamos as fronteiras do normal e do inaceitável, muitos que viviam nessa difusa região entre ambos (os desvios socialmente tolerados) são obrigados a mudar não tanto o comportamento mas a expressão desse comportamento. Raramente o aumento das máscaras que temos de usar é bom sinal de alguma coisa. E quanto mais se diminui a nação da normalidade - quer por devoção, por ignorância, por culpa - mais se acumula um peso que a todos nos torna mais distantes.

janeiro 16, 2006

Consequências

Os quatro, calados, no restaurante. São três da manhã e encontram-se cercados de mesas a aturar cadeiras invertidas. No balcão, uma mão numa toalha molhada e outra num copo de vinho várias vezes enchido, o gerente espera em silêncio pelo fim daquela angustia semanal. Spleen não gosta de barulho enquanto janta (almoça?) (o Doutor Spleen não gosta de muita coisa, é certo, e este facto deixa-nos com a esperança de conseguir descrever aqui, no decorrer dos meses, o conteúdo selecto dessa lista). Dabila cometeu o desacerto de encomendar arroz de marisco não descascado. Agora vê-se de alicate na mão e a pensar se arrisca o número de decibéis para forçar a carapaça de um crustáceo. Kong sénior (que engole, eficaz, duas doses de bolonhesa) pensa no efeito dominó das pequenas decisões.

janeiro 11, 2006

TVI dixit

Calvin and Hobbes (c) Bill Waterson
(c) Bill Waterson

janeiro 10, 2006

Cores

A eterna luta relatada nas mitologias não é entre o Bem e o Mal, é entre heresias e fanatismos, entre o desejo de diversificar e o desejo de uniformizar. Uma batalha nem sempre silenciosa de infecções opostas: a diversidade e a homogeneidade, a anarquia e a tirania, máquinas brancas e negras alimentadas a cinzentos.

janeiro 09, 2006

Exactidão

O Doutor Spleen não só gosta de súplicas desesperadas como detesta sentimentos de esperança crédulos. Uma vítima apenas atinge a plenitude do seu papel se perceber a irreversibilidade da sua posição. De que vale a preparação cénica do contexto, a sequência de eventos que militarmente prepara, se a vítima insiste em argumentar a um qualquer arrependimento da sua parte, à suplica por um sentimento de piedade? Esta insistência irracional na ideia de salvação, esta crença não suportada na redenção de última hora do transgressor retira-lhe algum do prazer deste processo. Por isso, Spleen detesta optimistas e pessimistas (que não possuem diferenças essenciais no que toca a distorcer as coisas) e procura, com afinco e por vezes com exagerado esforço, um verdadeiro realista.

janeiro 05, 2006

Divisória

É na fronteira que reside o fascínio. Não é a consumação mas a sua expectativa, não é a chegada mas o não saber do caminho, não a certeza da vitória mas a mútua hipótese da derrota. O momento exangue após o acto é o anseio que nos avança, tudo o resto, passado, futuro, só regiões que o definem.

janeiro 03, 2006

Aritmética e Reflexos

Spleen olha-se ao espelho. Cada vez que nele pára mais que o infinitésimo banal para aparar a barba ou retocar qualquer desvio de aparência, vê-se como um homem metade eremita, metade conquistador e metade negligente (na aritmética da personalidade, qualquer soma finita de metades dá sempre mais ou menos um). Spleen sabe que no espelho, com suficiente esforço ou abandono, se encontram demasiadas máscaras a não ser que uma espessa camada de ignorância ou imbecilidade (as subtis matizes de diferenças entre estes dois conceitos quase - por algumas vezes, quando a metade eremita estava mais forte - fizeram-no iniciar uma carreira de romancista russo) impeça qualquer possibilidade de limpar a maquilhagem de um rosto. Isso apenas revela que o espelho é o canivete suíço dos problemas mentais.

dezembro 28, 2005

3

As especiarias das Índias, o ouro do Brasil, os financiamentos da União Europeia. Se definirmos oportunidade como enormes e acríticos jorros de dinheiro, quantos países por desenvolver tiveram três oportunidades na sua História?

dezembro 27, 2005

Princípios

Kong sénior repete, com alguma competência ritmica, o contacto do taco de baseball na cabeça do agente federal inflitrado. Talvez a metodologia não seja a mais elegante, decente, nem sequer a mais higiénica (os salpicos de sangue entranham-se por todo o lado, uma característica bem conhecida deste género de líquidos, e uma empregada custa uma fortuna). Spleen poderia tê-lo interrogado mais, poderia ter começado por lhe cortar partes não essenciais, forçado um conjunto de técnicas de pressão psicológica mais ou menos estudadas em países duvidosos ou ter cumprindo algumas das ameaças (pobremente) proferidas por Dabila. Porém, após um periodo justo de interrogatório e perante a recusa liminar de respostas, não quis continuar. Acima de tudo, o Doutor Spleen não atribui qualquer mérito à tortura.

dezembro 22, 2005

Reset

Demasiadas vezes quando leio um jornal, quando oiço um noticiário assisto não à discussão de conceitos ou ideias mas de particulares e instâncias. Não se discute Justiça, discute-se o processo judicial do momento; não se fala de Política mas da acusação de A a B; não se comenta estratégias de investimento mas dos gastos de C em D; o Ensino é uma escola, um aluno, um professor na televisão; a Sociedade um ou outro que grita mais alto; o Futuro o que achamos hoje. Uma notícia pode apresentar um facto ou um número mas sem contexto para que serve? E neste ciclo de eventos isolados que nos alimenta a atenção, o mundo torna-se o que vemos, reiniciando todas as semanas à segunda-feira. Este particular é (já? ainda?) matéria suficiente para nos encher de espanto e indignação. O que o define e estrutura é somente discurso dos que falam sozinhos.

dezembro 21, 2005

Montes de hobbies

Se o ateísmo é uma religião, então não coleccionar selos é um hobby. (de alguém chamado 'snex')

dezembro 19, 2005

Gradiente de Medo

Escuridão, os morcegos em trajectórias difusas a atravessar a noite. Uma luz amarela febril a iluminá-los, a janela fechada. O Doutor Spleen anota com vigor contabilístico a forma, a cor, a textura do saque – e por um momento pára nessa palavra áspera – as observações que o acto lhe provocou e o toque único que à carne foi dado. Depois, fecha o livro e entrega-o ao ajudante (este sai da sala, numa reverência ritual bastante complicada de explicar agora). Ele senta-se à espera das notícias, que a imagem de baixa definição do Inspector Rousseau surja na curiosidade mórbida da televisão. Enquanto isso, retira em silêncio a carteira e dela a foto dele. Do bolso, num movimento treinado, afasta (e só com uma mão) a protecção do bisturi cirúrgico e corta da foto um quadrado de quatro mm2 de área. Esta medida exacta foi comprovada várias vezes por Dabila e pelos irmãos Kong que, de lupa e régua, foram incapazes de encontrar um mínimo desvio nas largas amostras daquele puzzle em construção. E cada corte torna aqueles três mais apreensivos. É que a perfeição, principalmente quando iterada, torna-se assustadora.

dezembro 16, 2005

Claustrofobia

Racionalizando a dimensão do Universo, faz-me menos confusão a nossa ínfima pequenez do que o deserto que nos cerca. Como acreditar num sentido fora de nós, no desenho inteligente de um qualquer deus, quando um infinito estéril nos sufoca com silêncio e indiferença?

dezembro 15, 2005

Mistura

O crer e o pensar nunca se deram bem.

dezembro 13, 2005

Máscara

Desaprendem os homens certas coisas e fazem bem, contanto que, desaprendendo uma coisa, aprendam outra. Longe o vácuo no coração humano. Fazem-se certas demolições, e bom é que se façam, mas com a condição de serem seguidas de novas construções.

Entretanto, estudemos as coisas que já não existem. É necessário conhecê-las, ainda que não seja para as evitar. As contracções do passado tomam nomes falsos e gostam de chamar-se o futuro. Esta alma do outro mundo, o passado, é atreito a falsificar o seu passaporte. Precatemo-nos contra o laço, desconfiemos dele. O passado tem um rosto, que é a superstição, e uma máscara, que é a hipocrisia. Denunciemos-lhe o rosto e arranquemos-lhe a máscara. - Victor Hugo, Os Miseráveis

dezembro 12, 2005

Maquilhagem

Mesmo sem segundas intenções dos seus agentes, a sociedade procura livrar-nos de um mundo de opções. As convenções e as leis que daí derivam dão-nos receitas que reduzem o possível ao legal, que transformam decisões em procedimentos. A ânsia de transferir para outros a resolução dos problemas é uma característica demasiado nossa. Quanto mais forte for a norma, menos há que decidir: as complicações individuais transferem-se para o caldo informe das dificuldades gerais. Há um limite até ao qual isto é benéfico: o mundo, mesmo só o nosso mundo, é demasiado complexo para que tenhamos, todas as manhãs, de negociar o quotidiano. Para lá desse limite, quando o desejo de formatação invade a liberdade e a responsabilidade individual, começa o esforço de uniformidade, o processo de canibalismo que, de tempos em tempos, a sociedade propõe sob a maquilhagem de algum mundo novo.

dezembro 06, 2005

Leis

(c) Robert Thompson
Prendo-o por violar as leis da Física (c)Robert Thompson

Uma piada que vive no jogo linguístico da proximidade entre leis sociais e leis físicas. Mas qual a diferença entre elas? As primeiras são convenções, limitações do possível. As segundas só por hábito se chamam leis, elas são o próprio possível. Violar uma lei física (da qual teremos sempre e apenas uma aproximação) é o mesmo que descobrir uma falha na operação da soma, encontrar um dígito 'errado' no número PI ou inventar um computador que calcule a resposta de qualquer problema.