novembro 15, 2005

Opções

Quando deparamos com um problema difícil, a receita fácil é uma ilusão poderosa. A verdade também.

novembro 14, 2005

A sobrevivência da política (última parte)

A política, assim, está tão inexoravelmente ligada à nossa natureza, que qualquer transformação do estado afecta a religião, cultura ou a moral. Isto não deixa de ser verdade mesmo quando as alterações são demasiado lentas para repararmos nelas. As mudanças são mascaradas pela piedade moral da sociedade. Thomas Paine, por exemplo, considerava que os direitos humanos ofereciam uma direcção aos legisladores, mas não pensava que a sua geração tinha o direito de limitar os seus sucessores. Agora, o moralismo político tende a acreditar que a nossa tarefa é fundar uma sociedade justa de uma vez por todas.

Uma das características deste modo de pensar é bem representado pela caricatura do totalitarismo. Aí, os ditadores são conhecidos por elogiar as massas, declarando nelas a inspiração do progresso, enquanto na realidade elas representam pouco, sendo mesmo sujeitas a qualquer arbítrio. As democracias modernas apresentam um desenvolvimento paralelo. Os líderes são eleitos pelos cidadãos mas tratam-nos como se fossem estúpidos. Assim, surge o paradoxo que o eleitorado considerado tão obtuso pelos seus líderes tenha a autoridade de os eleger.

A asserção de trabalho do moralismo político é que todos são dependentes e estúpidos, sendo esta a decisão mais segura num mundo perfeito onde o erro não pode surgir. Numa sociedade perfeita, a moral e as maneiras são ferramentas frágeis porque as pessoas tendem a portar-se imoralmente. O próprio carácter dos cidadãos deve mudar, especialmente aqueles identificados como opressores. Os homens têm de deixar de ser machistas, os heterossexuais abandonar os seus privilégios, os brancos serem simpáticos com os negros, todos devemos ser menos obesos, menos suicidas, perder os vícios do álcool, do tabaco e das drogas. As leis menos opressivas que regem como os diversos grupos podem conviver em sociedade são substituídas por aquelas que manipulam as atitudes que esses mesmos grupos devem ter uns com os outros. Nesta nova forma, os seres humanos tornam-se uma matéria maleável de acordo com a tendência moral da época.

O eco do passado muitas vezes ilumina. Cui Bono? Quem beneficia?, perguntariam os Romanos. Num mundo igualitário todos são iguais (excepto, talvez, os gestores dessa igualdade). Num eventual futuro, haverá trabalho infinito para aqueles cujo negócio é determinar em progressivo detalhe as regras do jogo da vida, para adjudicar concórdias e conflitos, para ensinar os cidadãos quais os pensamentos que uma sociedade justa requer. Então a política terá morrido mas tudo será política.

(adaptado do livro Politics de Kenneth Minogue)

novembro 11, 2005

Trying

"I was trying so hard to be myself, I was turning into somebody else." - The The

novembro 10, 2005

Escolhas

Há uma distância variável entre o querer e o fazer. Neste espaço cabem tanto a bestialidade que a reduz a um quase nada, como as morais nos seus labirintos de desejos retidos. E ao escolher a ética e as leis que emanam desta distância, observamos quem as faça límpidas mesmo que com isso se vejam falhas, e quem as transforme num imaculado padrão lógico de regras por cumprir.

novembro 08, 2005

A sobrevivência da política (parte VI)

É difícil exagerar o alcance e significado desta transformação. Como foi atingido? A resposta geral é que o julgamento público não só catalogou o que é independente como egoísta, como focou o sofrimento dos pobres e dependentes como uma directiva moral dos nossos arranjos sociais. Até há pouco, os pobres não foram politicamente significantes. Mas no decorrer do século XIX, quando o sufrágio se generalizou, o cuidado social tornou-se tão relevante como antigamente a guerra o fora. Como os inimigos de outrora, os desfavorecidos tornaram-se politicamente interessantes porque constituíam uma razão para exercer poderes de governação e administração não aceites noutras situações. Eles tornaram-se tão interessantes que não se devia fazê-los desaparecer facilmente, e assim, há medida que as condições de vida aumentavam, as definições de pobreza foram-se actualizando para manter o seu número num nível adequado.

Foi desta forma que o estado do século XX descobriu a dependência, que anteriormente não tinha ocupado mais que uma pequena porção da esfera da moralidade. Uma virtude moral, a caridade, na sua forma politizada, expandiu-se para abranger a esfera política. Isto foi um desenvolvimento importante por diversas razões. Uma delas é que a dependência revela a direcção do pensamento religioso. Na essência do cristianismo, todos somos criaturas dependentes de deus. Agora, a nossa dependência é com a sociedade. Em termos marxistas, o indivíduo burguês (aquele que sofre da ilusão de ter subido por si só) corresponde, em termos cristãos, ao pecado do orgulho: ele coloca-se em vez de deus (ou da sociedade) no centro do universo. O ideal é todos contribuirmos altruisticamente para a sociedade, dela recebendo saúde, educação e outros serviços distribuídos por igual a todos os cidadãos.

novembro 03, 2005

Mapear

A burocracia é a vontade de transformar necessidades em procedimentos. Tem (talvez) o desejo nobre de servir na simplicidade que promete. Mas esse simplificar estimula o homogéneo que nos mistura. Forçar isso é pior do que nos ver como números ou fichas normalizadas, é querer reduzir-nos ao suficiente para a promessa ser cumprida.

novembro 02, 2005

A sobrevivência da política (parte V)

Como tudo na vida, a política é sobre escolhas difíceis. A forma mais agradável de as resolver é evitando-as e um abracadabra semântico ajuda nestes casos. Um novo significado de política tem emergido para resolver este dilema. A essência deste novo sentido é considerar que a política cobre todos os pequenos detalhes da nossa vida (tornando-se indistinguível da discussão sobre os valores [sLx:o exemplo da legislação da administração Bush relativa ao caso de Terri Schiavo é um bom exemplo]).

Para marcar bem este contraste, qual é o sentido usual da política? É a actividade de lidar com os negócios de uma associação civil - o estado - que providencia a estrutura básica onde os indivíduos podem produzir e consumir, associar-se uns com os outros e exprimir-se livremente. A política é definida pelos seus limites e estes limites são (ou devem ser) o mínimo necessário para a civilização funcionar.

Neste novo sentido de política, porém, não há limites. Onde as pessoas cortam os pulsos, as crianças são agredidas ou onde as lésbicas não são aceites, deve existir uma acção política que altere as atitudes para que, no fim, a harmonia prevaleça. A política desta forma torna-se (numa fórmula famosa da ciência política) "a atribuição impositiva de valores". Por outras palavras, um dos objectivos da sociedade é dizer-nos o que admirar e condenar.

outubro 27, 2005

Fronteira

Um problema é um especificar (ainda) sem solução. Uma preocupação a atracção incómoda de um pensamento. Não devemos confundir uns pelos outros, dos primeiros temos que cheguem.

outubro 25, 2005

The Birds

(c)Jeffery Stahlman

Ingrácia remexe o grão nos ingredientes secretos (daqui não consigo ver quais) que tantos prémios lhe valeram. As suas galinhas, patos, pombos, gansos e hamsters (estes uma singularidade, um ponto de rebeldia perante o escândalo ortodoxo das vizinhas) são o orgulho de uma velhice possível. Levanta-se a custo, põe o chapéu, segura o balde e sai. Ao entrar no galinheiro, naquele mundo mantido, o barulho, o caos de uma multidão de penas na chegada da grande irmã, no braço a detestável comida de sempre e por entre a porta o azul e o céu de Novembro. Mas (e Ingrácia não repara) também aqueles pontos negros, aqueles olhos de pássaro nela.

outubro 24, 2005

A sobrevivência da política (parte IV)

O moralismo político, porém, interpreta a independência individual não como uma garantia de liberdade mas como uma barreira para moralizar o mundo. Indivíduos independentes que gerem a sua riqueza são vistos como agentes egoístas e como causa de desigualdades e pobreza. Um mundo socialmente justo requer a distribuição racional dos bens produzidos pela sociedade moderna. Mas Estados com a autoridade espartilhada pela lei são mecanismos imperfeitos para resolver essa imensa tarefa de redistribuição. Porém, a entidade designada ‘o Estado’ pode tornar-se uma ferramenta eficaz se mudar de carácter. E de facto, este carácter muda de cada vez que o poder centralizado age sobre a riqueza gerada pela economia.

A política moderna, assim, está a gerar um dilema formidável. A moralização da condição humana só é possível se conseguirmos associar ao mundo um conceito de justiça social. Mas, ao que parece, só podemos ultrapassar as injustiças do passado através de uma forma social – o despotismo – que a civilização ocidental considera incompatível com a sua liberdade e os seus costumes. A promessa é Justiça, o preço a liberdade.

outubro 20, 2005

Se os espelhos fossem janelas, para que lado abririam?

Magritte - Lunette Approche, 1963

A urgência da resposta nem sempre é útil à ânsia da pergunta.

outubro 18, 2005

Divisória

O que me impede de sofrer a tua dor? Onde estão as comportas que a detêm? Qual o custo de as abrir, sabendo nós dos mil outros ao nosso lado? Que arquipélago é este e qual o mar que o limita?

outubro 17, 2005

A sobrevivência da política (parte III)

Neste argumento, a moral é identificada como generosidade altruísta e a política como um ‘negócio sujo’ de interesses. Mas um projecto destes precisa justificar porque todas as gerações passadas falharam neste salto qualitativo na melhoria da condição humana. E é aqui que o argumento utiliza uma explicação ideológica. A Justiça é bloqueada (segundo eles) pelos interesses das elites dominantes que sempre controlaram o estado. Nas versões antigas, a separação era entre ricos e pobres, burguesia e proletariado, imperialistas e colonizados. Nas versões mais modernas, o foco é nas relações de opressão: brancos e negros, homens e mulheres… E isto, de facto, corresponde a uma das características da politica desde Sólon.

A característica é que a política tem sido o negócio dos poderosos: cidadãos, nobres, proprietários, patriarcas – os que detinham poder e status. Era essencial para a ideia de estado que este fosse gerido por uma associação de pessoas independentes com os seus próprios recursos. Os direitos destas elites foi sendo generalizado, ao longo dos Séculos, até definir os direitos universais que possuímos hoje. Era precisamente pelo estado ser gerido por independentes (i.e., ricos) que este não cairia numa ditadura. Com a capacidade de executar projectos próprios, é mais difícil alguém se subjugar a projectos de terceiros. É neste sentido que o conceito de política e despotismo são diametralmente opostos, no estado existem direitos individuais que permitem dispor e gerir a sua própria propriedade.

outubro 13, 2005

Ou exclusivo

Das duas uma: ou a individualização da tecnologia de guerra tem um limite ou começamos a despedir-nos deste canto da Galáxia.

outubro 11, 2005

Distância

O terrorismo não é uma guerra, é o efeito de um género de crime organizado. Só que ao contrário da típica organização criminosa que usa o poder para obter dinheiro, os terroristas usam dinheiro para obter poder. Ora, um criminoso é-o em relação a um quadro penal, a uma Lei; a diferença entre resistência e terrorismo, entre mudança e atavismo, entre um herói e um monstro pode ser mais ténue do que desejamos.

outubro 10, 2005

A sobrevivência da política (parte II)

A questão entre moralidade e política é especialmente interessante dado que esta última nasceu de certas condições históricas e pode morrer da mesma forma. Ou por ter surgido algo melhor, ou porque algo antigo e resistente voltou à superfície sobre uma nova forma. Mas se a actividade política morresse, a instituição do Estado seguiria com ela. Atacar uma é ameaçar a outra. Já foi referido o desafio ideológico que ataca o estado em nome de uma sociedade perfeitamente justa. A sociedade suporta um sistema de vida (enquanto o estado não) onde a acção política é substituída pelo julgamento moral, produzindo uma sociedade perfeita sem crime, inveja ou pobreza porque todos teriam sido sociabilizados. Como a perfeição fora alcançada, seria indiferente chamá-la o triunfo ou a extinção da moral.

Uma das suas versões é designada de moralismo político e uma forma de a apresentar é através do projecto de substituição do estado soberano pela ordem internacional emergente, ou internacionalismo. O primeiro problema onde o internacionalismo é uma resposta, é na guerra. Considerou-se, no passado, que as dinastias eram (um)a causa das guerras e as republicas a solução. Nesta nova versão, a guerra resulta de más instituições, as nações soberanas a causa das guerras e a crescente ordem internacional a solução. A teoria que as más instituições causam males sociais assume os humanos como criaturas plásticas que reflectem as instituições que as agregam. Isto deixa pouco espaço para a ‘natureza humana’ e tem como implicação que com melhores instituições (logo melhores pessoas) podemos resolver a questão da guerra e mesmo da justiça. Como consequência desta linha de raciocínio, os internacionalistas procuram a distribuição justa, por todas as pessoas do mundo, dos recursos e benefícios morais (os direitos humanos) disponíveis. Mas outra implicação é a substituição da política pela moral ao procurar abolir dois pilares centrais da política: o interesse individual e o estado-nação (visto aqui como uma organização de egoísmo colectivo designada, por vezes, de nacionalismo).

outubro 06, 2005

0

Não deve existir actividade mais funesta do que procurar respostas onde não há perguntas.

outubro 04, 2005

Conveniência

O que separa as ciências de actividades como a religião ou a astrologia, não é umas dependerem de afirmações falsificáveis e outras não. Todas elas as usam mas apenas os adeptos das primeiras se esforçam por testá-las.

outubro 03, 2005

A sobrevivência da política (parte I)

(adaptado do livro Politics de Kenneth Minogue)

Machiavelli relata uma história de um Romano rico que por ter dado comida aos pobres numa época de fome, foi executado pelos seus pares. O argumento foi que ele estaria a preparar terreno para se tornar um tirano. Aqui se realça a tensão entre a moral e a política, mostrando que os Romanos davam mais importância à liberdade que ao bem-estar. A forma como julgamos as acções depende da nossa ideia de política. Parece certo que estes Romanos não se conseguiriam adaptar à visão política moderna onde esta é apenas ou uma indústria de serviços para se poder viver o melhor possível, ou um conjunto de medidas na direcção de uma sociedade inteiramente justa.

Os políticos modernos e os funcionários civis aumentam o seu poder dando comida aos pobres e necessitados, mas nós não os executamos por isso. Isto significa que não nos importamos com a liberdade? Não, mas o contraste com os Romanos levanta algumas questões pertinentes. Vamos focar a relação entre a moralidade e a política, i.e., a filantropia, a caridade e o altruísmo são moralmente admiráveis, mas qual a sua relevância política? [cont.]

setembro 30, 2005

Explicação

Magritte - Explanation, 1954

Há respostas que se forçam a certas perguntas. No entanto, esse impor de elasticidade mais cedo ou mais tarde se paga.

setembro 29, 2005

Surpresa

A surpresa nasce do preconceito. Sem nenhum nada nos surpreende, com demasiados tudo parece horrivelmente novo. Outro caso onde os extremos não se aconselham.

setembro 27, 2005

Manobra

Sem bases sólidas nem sequer nos serve errar.

setembro 26, 2005

Dúvida

[Crátilo e Sócrates conversam enquanto Platão preenche o seu bloco de notas. Chove um pouco mas ninguém repara.]

Sócrates: Então até outro dia, meu amigo. Quando voltares hás-de dar-me uma lição. Mas no presente, vai ao campo, como pretendes, e Hermógenes dir-te-á o caminho.
Crátilo: Muito bem, Sócrates; eu espero, porém, que continues a pensar nestes assuntos.

[Dito isto, Platão vendo a conversa terminada, guarda as suas anotações e sai. Crátilo porém, volta para trás sem que Platão o perceba]

Crátilo: O teu aluno é um bocado chato...
Sócrates: Pois... escrevinha tudo quando tem quem o oiça.
C: Sócrates, tenho uma última pergunta a fazer-te.
S: Não será a última, se os deuses o permitirem.
C: O teu método connosco é já conhecido. Quando afirmamos algo, perguntas quais os conceitos de base nos quais partimos para defender o que dissemos.
S: Sim.
C: Depois, de forma algo desesperante devo dizer, questionas a definição que nós damos a esses conceitos. E através do teu raciocínio e análise fazei-nos aceitar que a definição tem excepções ou falhas.
S: E até contradições.
C: Concedo que sim. Mas em muitos casos, como na percepção, sabemos identificar objectos e classificá-los de forma segura mesmo que não saibamos exactamente qual a definição que a justifica.
S: Continua...
C: Por exemplo, posso olhar para o barco que me levará pelo Egeu e dizer que não está vivo, apesar de não saber qual a fronteira entre os vivos e os não-vivos. Se levado ao extremo, o teu método diria que eu não posso dizer que o barco é algo inanimado enquanto não souber responder à pergunta muito mais complexa da vida. Não estarás a prejudicar o esforço filosófico com este teu método?
S: Amigo, dás um sentido às minhas perguntas mais forte do que lhe é devido. Não é isso que defendo, aliás isso é inconsistente com a minha procura da verdade. O que tendo transmitir é que não sabendo exactamente o que um conceito é, temos pelo menos dois problemas que não devemos nunca esquecer.
C: Quais são?
S: Primeiro, não podemos afirmar que um dado conceito universal tem esta ou aquela propriedade particular. Por exemplo, não sabendo o que é a Justiça, poderemos saber se ela é inata ao Homem? Terá ela um carácter divino? Pode uma lei violar a Ética?
C: E a segunda?
S: A segunda refere os casos que residem na fronteira entre o conceito e o não-conceito. Como avaliar a justeza da decisão sobre um assunto complexo, se não se entender com clareza o princípio que lhe preside?
C: Dá-me um exemplo.
S: Pode uma esposa ser obrigada a testemunhar contra o marido? Posso matar um feto por nascer? É covardia recuar um exército para melhorar a sua posição? Devo seguir a ordem de um general enlouquecido?
C: Mas terá tudo uma essência? Terá a Justiça, a noção de Vida ou a acção dos deuses uma essência que lhes define e delimita? Não poderemos agir sobre as coisas sem as descobrir? Ficaremos imobilizados na nossa decisão, se assim for?
S: Não serei eu a responder-te, não sei nada mais que nada. Repito-te: esta minha procura apenas ilumina certas perguntas muitas vezes suspensas nessa pretensão de sabedoria.
C: Expressas, enfim e apenas, um desejo de entendimento.
S: Exactamente, meu caro Crátilo.
C: Amigo, agradeço-te e fico em dívida: levo um pouco mais para pensar.
S: Atenção! É Platão que se aproxima.

[Os dois despedem-se e Crátilo sai, rápido, pelas traseiras. Platão entra e discutem, os dois, o orçamento dos papiros e da tinta para escrita.]

setembro 23, 2005

Outro tipo de fé

Uma vez atingido o estatuto de paradigma, uma teoria científica é declarada inválida apenas se existir uma alternativa credível. Nenhum processo descrito pelo estudo histórico do desenvolvimento científico se assemelha ao estereótipo metodológico da falsificação por comparação directa com a natureza. Este comentário não significa que os cientistas não rejeitam teorias cientificas, ou que a experiência não seja essencial no processo que os leva a isso. Mas significa que o acto de julgar que leva os cientistas a rejeitar uma teoria previamente aceite é sempre mais que uma comparação dessa teoria com o mundo. A decisão de rejeitar um paradigma é simultaneamente uma decisão de aceitar outro, e o julgamento que leva a esta decisão envolve a comparação de ambos os paradigmas com a natureza bem como um com o outro. Thomas S. Khun - The Structure of Scientific Revolutions"
Este livro é um texto fundamental sobre o funcionamento da Ciência e daqueles que a fazem e, por vezes, a refazem. Aconselho a leitura (o texto é muito acessível e os argumentos são expostos de forma clara) principalmente para os que tendem a acreditar na Ciência como se de matéria de fé se tratasse.

setembro 22, 2005

Para quem gosta de poupar tempo:

Os caminhos mais curtos pagam-se.

setembro 21, 2005

Uma aventura no tradutor do Google

Como te aceitar de volta depois de largares o nosso mundo?
| Façamos uma tradução Português -> Inglês
How to accept you in return after releasing our world?
| Parece ok, mas será o releasing um significado apropriado nesta frase?
| Traduzamos de novo para o Português.
Como o aceitar no retorno após ter liberado nosso mundo?
| Uma passagem do ‘tu’ para o ‘você’, mas isso é falta de contexto que não
| poderia ser adivinhado. Nota-se um toque de brasileiro no ‘liberado’.
How accepting in the return after to have set free our world?
| A coisa piora, quem aceita o quê depois do mundo ter ficado livre?
Como aceitando no retorno em seguida ajustaram livre nosso mundo?
| O gerúndio infectou a frase portuguesa, há um estranho 'aceitando
| no retorno' e ainda um grupo misterioso que ajustaram livremente o mundo.
How accepting in the return after that they had adjusted exempts our world?
| O verbo complica-se e houve quem ajustasse excepções(?) do mundo
Como aceitando no retorno em seguida que tinham ajustado exempts nosso mundo?
| Os tais ajustes devem-se ter desajustado, e os dicionários já perderam
| uma palavra ao não traduzir 'exempts'
How accepting in the return after that that they had adjusted exempts our world?
| E após este passo, entramos num ciclo sem limite aparente:
Como aceitando no retorno em seguida que isso eles tinha ajustado exempts nosso mundo?
How accepting in the return after that that this they had adjusted exempts our world?
Como aceitando no retorno em seguida que esse isto eles tinha ajustado exempts nosso mundo?
How accepting in the return after that that this this they had adjusted exempts our world?
Como aceitando no retorno em seguida que esse este isto eles tinha ajustado exempts nosso mundo?
How accepting in the return after that that this this this they had adjusted exempts our world?
Como aceitando no retorno em seguida que esse este este isto eles tinha ajustado exempts nosso mundo?


E suponho que continuaria assim ad infinitum...

setembro 20, 2005

Explicação

Magritte - Listening Room

Que mundo responde à explicação que escolhes? Nessa preferência, quais as respostas ganhas e quais as perdidas? Que perguntas sobrevivem ao sucesso que abraças?

setembro 19, 2005

Troca

É comum considerar as religiões do Livro (e o reflexo nele de um deus único) como o culminar evolutivo da religiosidade. Mas o que acontece quando ao saber escrito nesse livro - e fervorosamente conservado pelo que se chama de ortodoxia - não é permitida mais que uma interpretação? Enquanto se pode congelar um argumento, não é possível fazê-lo com o mundo. Este evolui, a natureza necessita de novas explicações, pensamos de forma diversa em cada século que passa. Se o Livro se torna pedra gravada, a diferença entre o literal que se lê e o literal que se vive torna-se progressivamente maior. Enquanto uma religião sustentada num padrão de ritos e textos contraditórios mais facilmente se adapta à realidade (à impossibilidade de um argumento único aceitam-se melhor vários), o livro sagrado procura, pela força da sua comunidade, deter o mundo. Alguns dirão que a interpretação é sempre necessária; que uma diferença de olhar muda o significado da leitura; que na existência de contradições entre o escrito e o vivido se deve procurar o abuso sem restrições (no Livro se for preciso). Mas a ortodoxia, que recebe o poder deste cessar de mundo, não costuma ouvir mais do que aquilo que lhe interessa.

setembro 15, 2005

Restrições

A observação e a experiência podem e devem restringir dramaticamente o espaço de crenças científicas admissíveis, caso contrário não haveria ciência. Mas, só por si, não determinam uma crença específica. Um aparente elemento arbitrário, composto de acidentes pessoais e históricos, é sempre um ingrediente formativo das crenças expostas por uma dada comunidade científica num dado momento. Thomas S. Khun, The Structure of Scientific Revolutions

setembro 13, 2005

Contexto

Lealdade não implica obediência absoluta, significa coerência ao momento em que se jurou ser leal.