outubro 17, 2005

A sobrevivência da política (parte III)

Neste argumento, a moral é identificada como generosidade altruísta e a política como um ‘negócio sujo’ de interesses. Mas um projecto destes precisa justificar porque todas as gerações passadas falharam neste salto qualitativo na melhoria da condição humana. E é aqui que o argumento utiliza uma explicação ideológica. A Justiça é bloqueada (segundo eles) pelos interesses das elites dominantes que sempre controlaram o estado. Nas versões antigas, a separação era entre ricos e pobres, burguesia e proletariado, imperialistas e colonizados. Nas versões mais modernas, o foco é nas relações de opressão: brancos e negros, homens e mulheres… E isto, de facto, corresponde a uma das características da politica desde Sólon.

A característica é que a política tem sido o negócio dos poderosos: cidadãos, nobres, proprietários, patriarcas – os que detinham poder e status. Era essencial para a ideia de estado que este fosse gerido por uma associação de pessoas independentes com os seus próprios recursos. Os direitos destas elites foi sendo generalizado, ao longo dos Séculos, até definir os direitos universais que possuímos hoje. Era precisamente pelo estado ser gerido por independentes (i.e., ricos) que este não cairia numa ditadura. Com a capacidade de executar projectos próprios, é mais difícil alguém se subjugar a projectos de terceiros. É neste sentido que o conceito de política e despotismo são diametralmente opostos, no estado existem direitos individuais que permitem dispor e gerir a sua própria propriedade.

outubro 13, 2005

Ou exclusivo

Das duas uma: ou a individualização da tecnologia de guerra tem um limite ou começamos a despedir-nos deste canto da Galáxia.

outubro 11, 2005

Distância

O terrorismo não é uma guerra, é o efeito de um género de crime organizado. Só que ao contrário da típica organização criminosa que usa o poder para obter dinheiro, os terroristas usam dinheiro para obter poder. Ora, um criminoso é-o em relação a um quadro penal, a uma Lei; a diferença entre resistência e terrorismo, entre mudança e atavismo, entre um herói e um monstro pode ser mais ténue do que desejamos.

outubro 10, 2005

A sobrevivência da política (parte II)

A questão entre moralidade e política é especialmente interessante dado que esta última nasceu de certas condições históricas e pode morrer da mesma forma. Ou por ter surgido algo melhor, ou porque algo antigo e resistente voltou à superfície sobre uma nova forma. Mas se a actividade política morresse, a instituição do Estado seguiria com ela. Atacar uma é ameaçar a outra. Já foi referido o desafio ideológico que ataca o estado em nome de uma sociedade perfeitamente justa. A sociedade suporta um sistema de vida (enquanto o estado não) onde a acção política é substituída pelo julgamento moral, produzindo uma sociedade perfeita sem crime, inveja ou pobreza porque todos teriam sido sociabilizados. Como a perfeição fora alcançada, seria indiferente chamá-la o triunfo ou a extinção da moral.

Uma das suas versões é designada de moralismo político e uma forma de a apresentar é através do projecto de substituição do estado soberano pela ordem internacional emergente, ou internacionalismo. O primeiro problema onde o internacionalismo é uma resposta, é na guerra. Considerou-se, no passado, que as dinastias eram (um)a causa das guerras e as republicas a solução. Nesta nova versão, a guerra resulta de más instituições, as nações soberanas a causa das guerras e a crescente ordem internacional a solução. A teoria que as más instituições causam males sociais assume os humanos como criaturas plásticas que reflectem as instituições que as agregam. Isto deixa pouco espaço para a ‘natureza humana’ e tem como implicação que com melhores instituições (logo melhores pessoas) podemos resolver a questão da guerra e mesmo da justiça. Como consequência desta linha de raciocínio, os internacionalistas procuram a distribuição justa, por todas as pessoas do mundo, dos recursos e benefícios morais (os direitos humanos) disponíveis. Mas outra implicação é a substituição da política pela moral ao procurar abolir dois pilares centrais da política: o interesse individual e o estado-nação (visto aqui como uma organização de egoísmo colectivo designada, por vezes, de nacionalismo).

outubro 06, 2005

0

Não deve existir actividade mais funesta do que procurar respostas onde não há perguntas.

outubro 04, 2005

Conveniência

O que separa as ciências de actividades como a religião ou a astrologia, não é umas dependerem de afirmações falsificáveis e outras não. Todas elas as usam mas apenas os adeptos das primeiras se esforçam por testá-las.

outubro 03, 2005

A sobrevivência da política (parte I)

(adaptado do livro Politics de Kenneth Minogue)

Machiavelli relata uma história de um Romano rico que por ter dado comida aos pobres numa época de fome, foi executado pelos seus pares. O argumento foi que ele estaria a preparar terreno para se tornar um tirano. Aqui se realça a tensão entre a moral e a política, mostrando que os Romanos davam mais importância à liberdade que ao bem-estar. A forma como julgamos as acções depende da nossa ideia de política. Parece certo que estes Romanos não se conseguiriam adaptar à visão política moderna onde esta é apenas ou uma indústria de serviços para se poder viver o melhor possível, ou um conjunto de medidas na direcção de uma sociedade inteiramente justa.

Os políticos modernos e os funcionários civis aumentam o seu poder dando comida aos pobres e necessitados, mas nós não os executamos por isso. Isto significa que não nos importamos com a liberdade? Não, mas o contraste com os Romanos levanta algumas questões pertinentes. Vamos focar a relação entre a moralidade e a política, i.e., a filantropia, a caridade e o altruísmo são moralmente admiráveis, mas qual a sua relevância política? [cont.]

setembro 30, 2005

Explicação

Magritte - Explanation, 1954

Há respostas que se forçam a certas perguntas. No entanto, esse impor de elasticidade mais cedo ou mais tarde se paga.

setembro 29, 2005

Surpresa

A surpresa nasce do preconceito. Sem nenhum nada nos surpreende, com demasiados tudo parece horrivelmente novo. Outro caso onde os extremos não se aconselham.

setembro 27, 2005

Manobra

Sem bases sólidas nem sequer nos serve errar.

setembro 26, 2005

Dúvida

[Crátilo e Sócrates conversam enquanto Platão preenche o seu bloco de notas. Chove um pouco mas ninguém repara.]

Sócrates: Então até outro dia, meu amigo. Quando voltares hás-de dar-me uma lição. Mas no presente, vai ao campo, como pretendes, e Hermógenes dir-te-á o caminho.
Crátilo: Muito bem, Sócrates; eu espero, porém, que continues a pensar nestes assuntos.

[Dito isto, Platão vendo a conversa terminada, guarda as suas anotações e sai. Crátilo porém, volta para trás sem que Platão o perceba]

Crátilo: O teu aluno é um bocado chato...
Sócrates: Pois... escrevinha tudo quando tem quem o oiça.
C: Sócrates, tenho uma última pergunta a fazer-te.
S: Não será a última, se os deuses o permitirem.
C: O teu método connosco é já conhecido. Quando afirmamos algo, perguntas quais os conceitos de base nos quais partimos para defender o que dissemos.
S: Sim.
C: Depois, de forma algo desesperante devo dizer, questionas a definição que nós damos a esses conceitos. E através do teu raciocínio e análise fazei-nos aceitar que a definição tem excepções ou falhas.
S: E até contradições.
C: Concedo que sim. Mas em muitos casos, como na percepção, sabemos identificar objectos e classificá-los de forma segura mesmo que não saibamos exactamente qual a definição que a justifica.
S: Continua...
C: Por exemplo, posso olhar para o barco que me levará pelo Egeu e dizer que não está vivo, apesar de não saber qual a fronteira entre os vivos e os não-vivos. Se levado ao extremo, o teu método diria que eu não posso dizer que o barco é algo inanimado enquanto não souber responder à pergunta muito mais complexa da vida. Não estarás a prejudicar o esforço filosófico com este teu método?
S: Amigo, dás um sentido às minhas perguntas mais forte do que lhe é devido. Não é isso que defendo, aliás isso é inconsistente com a minha procura da verdade. O que tendo transmitir é que não sabendo exactamente o que um conceito é, temos pelo menos dois problemas que não devemos nunca esquecer.
C: Quais são?
S: Primeiro, não podemos afirmar que um dado conceito universal tem esta ou aquela propriedade particular. Por exemplo, não sabendo o que é a Justiça, poderemos saber se ela é inata ao Homem? Terá ela um carácter divino? Pode uma lei violar a Ética?
C: E a segunda?
S: A segunda refere os casos que residem na fronteira entre o conceito e o não-conceito. Como avaliar a justeza da decisão sobre um assunto complexo, se não se entender com clareza o princípio que lhe preside?
C: Dá-me um exemplo.
S: Pode uma esposa ser obrigada a testemunhar contra o marido? Posso matar um feto por nascer? É covardia recuar um exército para melhorar a sua posição? Devo seguir a ordem de um general enlouquecido?
C: Mas terá tudo uma essência? Terá a Justiça, a noção de Vida ou a acção dos deuses uma essência que lhes define e delimita? Não poderemos agir sobre as coisas sem as descobrir? Ficaremos imobilizados na nossa decisão, se assim for?
S: Não serei eu a responder-te, não sei nada mais que nada. Repito-te: esta minha procura apenas ilumina certas perguntas muitas vezes suspensas nessa pretensão de sabedoria.
C: Expressas, enfim e apenas, um desejo de entendimento.
S: Exactamente, meu caro Crátilo.
C: Amigo, agradeço-te e fico em dívida: levo um pouco mais para pensar.
S: Atenção! É Platão que se aproxima.

[Os dois despedem-se e Crátilo sai, rápido, pelas traseiras. Platão entra e discutem, os dois, o orçamento dos papiros e da tinta para escrita.]

setembro 23, 2005

Outro tipo de fé

Uma vez atingido o estatuto de paradigma, uma teoria científica é declarada inválida apenas se existir uma alternativa credível. Nenhum processo descrito pelo estudo histórico do desenvolvimento científico se assemelha ao estereótipo metodológico da falsificação por comparação directa com a natureza. Este comentário não significa que os cientistas não rejeitam teorias cientificas, ou que a experiência não seja essencial no processo que os leva a isso. Mas significa que o acto de julgar que leva os cientistas a rejeitar uma teoria previamente aceite é sempre mais que uma comparação dessa teoria com o mundo. A decisão de rejeitar um paradigma é simultaneamente uma decisão de aceitar outro, e o julgamento que leva a esta decisão envolve a comparação de ambos os paradigmas com a natureza bem como um com o outro. Thomas S. Khun - The Structure of Scientific Revolutions"
Este livro é um texto fundamental sobre o funcionamento da Ciência e daqueles que a fazem e, por vezes, a refazem. Aconselho a leitura (o texto é muito acessível e os argumentos são expostos de forma clara) principalmente para os que tendem a acreditar na Ciência como se de matéria de fé se tratasse.

setembro 22, 2005

Para quem gosta de poupar tempo:

Os caminhos mais curtos pagam-se.

setembro 21, 2005

Uma aventura no tradutor do Google

Como te aceitar de volta depois de largares o nosso mundo?
| Façamos uma tradução Português -> Inglês
How to accept you in return after releasing our world?
| Parece ok, mas será o releasing um significado apropriado nesta frase?
| Traduzamos de novo para o Português.
Como o aceitar no retorno após ter liberado nosso mundo?
| Uma passagem do ‘tu’ para o ‘você’, mas isso é falta de contexto que não
| poderia ser adivinhado. Nota-se um toque de brasileiro no ‘liberado’.
How accepting in the return after to have set free our world?
| A coisa piora, quem aceita o quê depois do mundo ter ficado livre?
Como aceitando no retorno em seguida ajustaram livre nosso mundo?
| O gerúndio infectou a frase portuguesa, há um estranho 'aceitando
| no retorno' e ainda um grupo misterioso que ajustaram livremente o mundo.
How accepting in the return after that they had adjusted exempts our world?
| O verbo complica-se e houve quem ajustasse excepções(?) do mundo
Como aceitando no retorno em seguida que tinham ajustado exempts nosso mundo?
| Os tais ajustes devem-se ter desajustado, e os dicionários já perderam
| uma palavra ao não traduzir 'exempts'
How accepting in the return after that that they had adjusted exempts our world?
| E após este passo, entramos num ciclo sem limite aparente:
Como aceitando no retorno em seguida que isso eles tinha ajustado exempts nosso mundo?
How accepting in the return after that that this they had adjusted exempts our world?
Como aceitando no retorno em seguida que esse isto eles tinha ajustado exempts nosso mundo?
How accepting in the return after that that this this they had adjusted exempts our world?
Como aceitando no retorno em seguida que esse este isto eles tinha ajustado exempts nosso mundo?
How accepting in the return after that that this this this they had adjusted exempts our world?
Como aceitando no retorno em seguida que esse este este isto eles tinha ajustado exempts nosso mundo?


E suponho que continuaria assim ad infinitum...

setembro 20, 2005

Explicação

Magritte - Listening Room

Que mundo responde à explicação que escolhes? Nessa preferência, quais as respostas ganhas e quais as perdidas? Que perguntas sobrevivem ao sucesso que abraças?

setembro 19, 2005

Troca

É comum considerar as religiões do Livro (e o reflexo nele de um deus único) como o culminar evolutivo da religiosidade. Mas o que acontece quando ao saber escrito nesse livro - e fervorosamente conservado pelo que se chama de ortodoxia - não é permitida mais que uma interpretação? Enquanto se pode congelar um argumento, não é possível fazê-lo com o mundo. Este evolui, a natureza necessita de novas explicações, pensamos de forma diversa em cada século que passa. Se o Livro se torna pedra gravada, a diferença entre o literal que se lê e o literal que se vive torna-se progressivamente maior. Enquanto uma religião sustentada num padrão de ritos e textos contraditórios mais facilmente se adapta à realidade (à impossibilidade de um argumento único aceitam-se melhor vários), o livro sagrado procura, pela força da sua comunidade, deter o mundo. Alguns dirão que a interpretação é sempre necessária; que uma diferença de olhar muda o significado da leitura; que na existência de contradições entre o escrito e o vivido se deve procurar o abuso sem restrições (no Livro se for preciso). Mas a ortodoxia, que recebe o poder deste cessar de mundo, não costuma ouvir mais do que aquilo que lhe interessa.

setembro 15, 2005

Restrições

A observação e a experiência podem e devem restringir dramaticamente o espaço de crenças científicas admissíveis, caso contrário não haveria ciência. Mas, só por si, não determinam uma crença específica. Um aparente elemento arbitrário, composto de acidentes pessoais e históricos, é sempre um ingrediente formativo das crenças expostas por uma dada comunidade científica num dado momento. Thomas S. Khun, The Structure of Scientific Revolutions

setembro 13, 2005

Contexto

Lealdade não implica obediência absoluta, significa coerência ao momento em que se jurou ser leal.

setembro 12, 2005

Chaves

A chave nasce da necessidade de limitar. Ou a liberdade dos outros para proteger a nossa, ou a nossa para proteger a dos outros. Entre a privacidade e o cativeiro residem as restantes, como a porta fechada de quem é só, o encerrar de algo esquecido, o olhar que não se adivinha.

setembro 09, 2005

Criacionismo

Na Antiguidade, Empédocles defendeu ser a matéria constituída por quatro elementos (terra/água/ar/fogo) juntos e separados por duas forças opostas (amor/conflito). O equilíbrio único destes elementos determinava a natureza de cada objecto, como seria de esperar. O interessante é que o filósofo defendia que a formação/desagregação, o resultado da interacção entre o amor e o conflito, era fundamentalmente um produto do acaso. Ora se um objecto mais apto que outro se definir pela sua resistência à dissolução, não é difícil imaginar aqui um rudimento de selecção natural. Por outro lado, Empédocles retira significado ao Universo (se a mudança que precede a criação/destruição é uma acção acidental, qual o papel dos deuses?). Aristóteles percebeu isto e, apesar de concordar com o princípio, corrigiu o seu antecessor dizendo que o processo não era um resultado de um destino acéfalo mas sim de um desenho propositado. Com esta alteração pretendia corrigir a impiedade da teoria e repor a divindade no seu papel principal.

Vinte e três séculos depois, Darwin elaborou esta ideia (não sei se alguma vez leu sobre Empédocles ou, lendo, se fez algum paralelo significativo), dando-lhe um cunho científico e iniciando uma revolução de mentalidades com poucos paralelos na História. Hoje em dia, 150 anos depois, personalidades do Criacionismo admitem a existência de evolução mas recusam a componente aleatória subjacente ao processo de selecção natural. Dizem que estes mecanismos (como a mutação genética) são resultado da intervenção divina (leia-se, de um desenho inteligente). Ring a Bell?

Ps: A versão inicial do Criacionismo (a terra tinha pouco mais de seis milénios e os dados que invalidavam esta ideia – como os fósseis – eram apenas provas de fé plantadas por Deus) era patética. Esta nova interpretação, ao substituir cirurgicamente a selecção natural pelo desenho inteligente é coerente, apesar de não existir qualquer dado empírico nesse sentido (a fé não se alimenta de informação científica). Este é um adversário muito mais resistente e perigoso.

Este post e o anterior são contributos ao trabalho do pessoal do Diário Ateísta.

setembro 08, 2005

Taxa

A fé é inversamente proporcional à esperança.

setembro 05, 2005

Alguns pontos sobre evolução

Não está provada a Teoria da Evolução. Como qualquer teoria científica, a forma como ela relaciona certos factos manter-se-á até ser refutada (em sua defesa, tem o desenvolvimento e o suporte empírico de 150 anos de trabalho de muitos milhares de cientistas).

Todas as espécies que existem estão relacionadas. Porém, todos os antepassados do Homo Sapiens estão extintos (irmãos e primos são da mesma família, mesmo após a morte dos pais e avós).

Os organismos não evoluem. As populações sim. A evolução refere-se às mudanças nas populações ao longo do tempo.

Os genes são unidades de hereditariedade. Contêm informação necessária (nem sempre suficiente) ao desenvolvimento das características próprias de um organismo. A evolução é possível pelo facto desta informação poder variar no momento da reprodução (pela mistura genética dos pais, por uma falha no processo de cópia). O sexo é apenas um mecanismo possível de reprodução. O papel fulcral do sexo é a mistura.

Quando uma nova característica genética permite ao organismo uma melhor adaptação ao ambiente onde se insere, a taxa de sobrevivência e reprodução do indivíduo aumenta (por exemplo, porque é mais forte, mais rápido ou mais cooperante). Através da reprodução, esta adaptação tende a espalhar-se pela população a que pertence. Quando uma adaptação é prejudicial, esta tende a diminuir na população. Este processo de mudança ao longo do tempo chama-se selecção natural.

Modificações não genéticas ocorridas durante a vida de um organismo não são geneticamente transmitidas à população. Por outras palavras, os traços adquiridos não fazem parte da evolução.

O processo de variação genética é aleatório mas a evolução não. Isto porque a selecção natural está relacionada com o ambiente onde a população se insere. Os organismos não ficam melhores ao longo do tempo, adaptam-se melhor ao ambiente onde estão inseridos. Referência [1]

setembro 02, 2005

Transferência

Já não se procura nos deuses uma forma de domínio sobre a natureza. A tecnologia e o suporte da ciência escoram a civilização. Já não se procura nos deuses a expressão de uma lei divina que nos ordene. A lei civil, legislada e mutável, é uma ferramenta mais apropriada e humana. Já não se procura nos deuses histórias para ferver a imaginação gasta no espremer dos dias. A invenção da literatura e de tudo o resto dão-nos mundos mais complexos e revigorantes que as sagas antigas. Talvez reste aos deuses o segredo nunca desvendado do sentido da vida. Mas o que sabem os seus funcionários (padres, imãs, rabis, xamãs) desse ininteligível? Porque devemos nós, adultos, transferir-lhes o esforço, a responsabilidade e a obrigação de construir esse sentido da vida, já que o fazemos sempre na obra que deixamos? Porque escolher uma moral já pronta em vez de uma ética conquistada? Por ser mais fácil?

setembro 01, 2005

Vantagem

Na luta entre fanáticos e moderados, os primeiros têm a vantagem de um irrestringir na força e na vontade que, por definição, os segundos não possuem. Mas, para além do maior número de moderados, estes têm uma grande vantagem: os fanáticos também lutam uns contra os outros.

julho 21, 2005

Exteriorização

Quando o tirano me ameaça e convoca, eu respondo, ‘quem é esse que intimas?‘. Se ele diz, ‘colocar-te-ei em grilhetas’, eu respondo, ‘é a minha mão e os meus pés que ameaças’. Se ele diz, ‘decapito-te’, eu digo, ‘é o meu pescoço que ameaças’… Então ele não te ameaça de forma alguma? Não, desde que eu considere que nada disso sou eu. Mas se eu me deixar levar por estas intimidações então sim, ele ameaça-me. O que sobra para eu ter medo? Um homem que domine as coisas em meu poder? Não existe tal homem. Um homem que domine o que não está em meu poder? Porque me preocuparia eu com ele? [Discursos, Epictetus]

Uma citação de um filósofo estóico latino, um ex-escravo admirado pelo imperador Marco Aurélio. O que somos? Continuo a ser eu sem um braço, uma perna, a voz. Se nos retirassem a maioria do corpo e continuássemos a viver, nada de essencial em nós mesmos se perderia. Mudaríamos, claro, com a falta de mobilidade, de expressão, dos sentidos mas mudança é um processo a que nos submetemos desde a nascença. Algo em nós, talvez uma invariante psicológica mantém esta identidade que imaginamos reflectida no espelho quando fechamos os olhos. A identidade, a ânsia do eu pode ser uma ilusão, um fluido social, mas é suficientemente concreto para carregar, por exemplo, a responsabilidade ou este querer da consciência. Porém, qual a redução a que nos podemos impor? Que dimensão pode ter este ponto do qual retiramos esse resto exposto como objecto manifestado?

julho 20, 2005

Ponto

Entre as infinitas fronteiras do misticismo e a aridez do cepticismo absoluto, onde nos devemos sentar para beneficiar dos melhores horizontes?

julho 18, 2005

Livre Arbítrio (2/2)

É comum pensar que o ambiente é mais ‘amigável’ por ser mais facilmente manipulado. Depende. Em termos profiláticos, adaptar o ambiente para melhorar certas condições pode ser mais fácil que a terapia génica (i.e., corrigir deficiências no ADN) mas as próximas décadas de avanço tecnológico terão a palavra. Porém não se pode modificar o ambiente do que se passou (não podemos ter pais novos ou mudar o país onde nascemos) da mesma forma que não se pode, hoje, alterar a nossa herança genética.

As influências do ambiente e da herança genética têm a sua quota de influência (que varia ao sabor dos avanços e recuos civilizacionais). Mas não há mais nada? Mesmo num contexto onde o ambiente é controlado e a componente cultural não existe (e.g., experiências com bactérias ou insectos), a genética não determina totalmente as características dos indivíduos. Dois clones do mesmo organismo têm corpos distintos. Uma razão (haverá outras) é a componente não-linear do processo embrionário, ou seja, a existência de fenómenos caóticos que, para todos os efeitos, têm carácter aleatório (mesmo sendo o sistema totalmente determinista). Há sempre espaço para a “sorte” na discussão entre o ambiente e a genética. Esta facto tem uma implicação importante: determinismo não implica inevitabilidade. Mas nesta luta de decidir o futuro entre ambiente, genética e acaso, haverá espaço para mais alguma coisa? Qual a margem de manobra reservada a nós próprios? Refs [Gould 78, Dennet 04]

julho 15, 2005

Livre Arbítrio (1/2)

O determinismo genético defende serem os genes responsáveis pelas características dos indivíduos. Diz-nos que a herança genética imprime traços inevitáveis sendo, no máximo, orientados pelo ambiente, pela cultura e por vontade própria. Levada ao extremo (tudo são traços inevitáveis) ninguém acredita nesta interpretação: eu tenho miopia genética mas uso óculos, não para orientar mas para anular este traço; se tenho uma deficiência genética alimentar, posso eliminar a deficiência com uma dieta própria… O extremo oposto (“o ambiente cultural imprime traços inevitáveis sendo, no máximo, orientados pela genética e por vontade própria”) é igualmente falso: a sociedade pode apoiar a gravidez masculina mas isso não ajuda muito aos homens terem filhos (a ser verdade possibilitaria efeitos muito funestos: seria possível arquitectar formigueiros humanos após algumas gerações de engenharia social). Existem traços genéticos que, actualmente, não se podem modificar. Por exemplo, é inevitável envelhecermos (por muito cuidado que tenhamos, por muito pacífica que seja a civilização) e este facto é geneticamente determinado. [cont.]

julho 13, 2005

Singularidades

Dificilmente o termo "nenhuma verdade" se encaixa melhor noutro contexto que na pretensão de política.

julho 11, 2005

Auto-retrato

O que dentro de nós nos compõe? A que distância, lá fora, está o mundo? Os medos coleccionam e classificam-nos. Quantos temos pavor da dor?, pânico da solidão?, do ridículo? Como pintar o quadro destas fobias, sair dele e observar as linhas finas de um rosto, nosso, desvendado? Como, se nunca passarmos os receios que restringem (educam) o possível do social que nos fez gente?