setembro 12, 2005

Chaves

A chave nasce da necessidade de limitar. Ou a liberdade dos outros para proteger a nossa, ou a nossa para proteger a dos outros. Entre a privacidade e o cativeiro residem as restantes, como a porta fechada de quem é só, o encerrar de algo esquecido, o olhar que não se adivinha.

setembro 09, 2005

Criacionismo

Na Antiguidade, Empédocles defendeu ser a matéria constituída por quatro elementos (terra/água/ar/fogo) juntos e separados por duas forças opostas (amor/conflito). O equilíbrio único destes elementos determinava a natureza de cada objecto, como seria de esperar. O interessante é que o filósofo defendia que a formação/desagregação, o resultado da interacção entre o amor e o conflito, era fundamentalmente um produto do acaso. Ora se um objecto mais apto que outro se definir pela sua resistência à dissolução, não é difícil imaginar aqui um rudimento de selecção natural. Por outro lado, Empédocles retira significado ao Universo (se a mudança que precede a criação/destruição é uma acção acidental, qual o papel dos deuses?). Aristóteles percebeu isto e, apesar de concordar com o princípio, corrigiu o seu antecessor dizendo que o processo não era um resultado de um destino acéfalo mas sim de um desenho propositado. Com esta alteração pretendia corrigir a impiedade da teoria e repor a divindade no seu papel principal.

Vinte e três séculos depois, Darwin elaborou esta ideia (não sei se alguma vez leu sobre Empédocles ou, lendo, se fez algum paralelo significativo), dando-lhe um cunho científico e iniciando uma revolução de mentalidades com poucos paralelos na História. Hoje em dia, 150 anos depois, personalidades do Criacionismo admitem a existência de evolução mas recusam a componente aleatória subjacente ao processo de selecção natural. Dizem que estes mecanismos (como a mutação genética) são resultado da intervenção divina (leia-se, de um desenho inteligente). Ring a Bell?

Ps: A versão inicial do Criacionismo (a terra tinha pouco mais de seis milénios e os dados que invalidavam esta ideia – como os fósseis – eram apenas provas de fé plantadas por Deus) era patética. Esta nova interpretação, ao substituir cirurgicamente a selecção natural pelo desenho inteligente é coerente, apesar de não existir qualquer dado empírico nesse sentido (a fé não se alimenta de informação científica). Este é um adversário muito mais resistente e perigoso.

Este post e o anterior são contributos ao trabalho do pessoal do Diário Ateísta.

setembro 08, 2005

Taxa

A fé é inversamente proporcional à esperança.

setembro 05, 2005

Alguns pontos sobre evolução

Não está provada a Teoria da Evolução. Como qualquer teoria científica, a forma como ela relaciona certos factos manter-se-á até ser refutada (em sua defesa, tem o desenvolvimento e o suporte empírico de 150 anos de trabalho de muitos milhares de cientistas).

Todas as espécies que existem estão relacionadas. Porém, todos os antepassados do Homo Sapiens estão extintos (irmãos e primos são da mesma família, mesmo após a morte dos pais e avós).

Os organismos não evoluem. As populações sim. A evolução refere-se às mudanças nas populações ao longo do tempo.

Os genes são unidades de hereditariedade. Contêm informação necessária (nem sempre suficiente) ao desenvolvimento das características próprias de um organismo. A evolução é possível pelo facto desta informação poder variar no momento da reprodução (pela mistura genética dos pais, por uma falha no processo de cópia). O sexo é apenas um mecanismo possível de reprodução. O papel fulcral do sexo é a mistura.

Quando uma nova característica genética permite ao organismo uma melhor adaptação ao ambiente onde se insere, a taxa de sobrevivência e reprodução do indivíduo aumenta (por exemplo, porque é mais forte, mais rápido ou mais cooperante). Através da reprodução, esta adaptação tende a espalhar-se pela população a que pertence. Quando uma adaptação é prejudicial, esta tende a diminuir na população. Este processo de mudança ao longo do tempo chama-se selecção natural.

Modificações não genéticas ocorridas durante a vida de um organismo não são geneticamente transmitidas à população. Por outras palavras, os traços adquiridos não fazem parte da evolução.

O processo de variação genética é aleatório mas a evolução não. Isto porque a selecção natural está relacionada com o ambiente onde a população se insere. Os organismos não ficam melhores ao longo do tempo, adaptam-se melhor ao ambiente onde estão inseridos. Referência [1]

setembro 02, 2005

Transferência

Já não se procura nos deuses uma forma de domínio sobre a natureza. A tecnologia e o suporte da ciência escoram a civilização. Já não se procura nos deuses a expressão de uma lei divina que nos ordene. A lei civil, legislada e mutável, é uma ferramenta mais apropriada e humana. Já não se procura nos deuses histórias para ferver a imaginação gasta no espremer dos dias. A invenção da literatura e de tudo o resto dão-nos mundos mais complexos e revigorantes que as sagas antigas. Talvez reste aos deuses o segredo nunca desvendado do sentido da vida. Mas o que sabem os seus funcionários (padres, imãs, rabis, xamãs) desse ininteligível? Porque devemos nós, adultos, transferir-lhes o esforço, a responsabilidade e a obrigação de construir esse sentido da vida, já que o fazemos sempre na obra que deixamos? Porque escolher uma moral já pronta em vez de uma ética conquistada? Por ser mais fácil?

setembro 01, 2005

Vantagem

Na luta entre fanáticos e moderados, os primeiros têm a vantagem de um irrestringir na força e na vontade que, por definição, os segundos não possuem. Mas, para além do maior número de moderados, estes têm uma grande vantagem: os fanáticos também lutam uns contra os outros.

julho 21, 2005

Exteriorização

Quando o tirano me ameaça e convoca, eu respondo, ‘quem é esse que intimas?‘. Se ele diz, ‘colocar-te-ei em grilhetas’, eu respondo, ‘é a minha mão e os meus pés que ameaças’. Se ele diz, ‘decapito-te’, eu digo, ‘é o meu pescoço que ameaças’… Então ele não te ameaça de forma alguma? Não, desde que eu considere que nada disso sou eu. Mas se eu me deixar levar por estas intimidações então sim, ele ameaça-me. O que sobra para eu ter medo? Um homem que domine as coisas em meu poder? Não existe tal homem. Um homem que domine o que não está em meu poder? Porque me preocuparia eu com ele? [Discursos, Epictetus]

Uma citação de um filósofo estóico latino, um ex-escravo admirado pelo imperador Marco Aurélio. O que somos? Continuo a ser eu sem um braço, uma perna, a voz. Se nos retirassem a maioria do corpo e continuássemos a viver, nada de essencial em nós mesmos se perderia. Mudaríamos, claro, com a falta de mobilidade, de expressão, dos sentidos mas mudança é um processo a que nos submetemos desde a nascença. Algo em nós, talvez uma invariante psicológica mantém esta identidade que imaginamos reflectida no espelho quando fechamos os olhos. A identidade, a ânsia do eu pode ser uma ilusão, um fluido social, mas é suficientemente concreto para carregar, por exemplo, a responsabilidade ou este querer da consciência. Porém, qual a redução a que nos podemos impor? Que dimensão pode ter este ponto do qual retiramos esse resto exposto como objecto manifestado?

julho 20, 2005

Ponto

Entre as infinitas fronteiras do misticismo e a aridez do cepticismo absoluto, onde nos devemos sentar para beneficiar dos melhores horizontes?

julho 18, 2005

Livre Arbítrio (2/2)

É comum pensar que o ambiente é mais ‘amigável’ por ser mais facilmente manipulado. Depende. Em termos profiláticos, adaptar o ambiente para melhorar certas condições pode ser mais fácil que a terapia génica (i.e., corrigir deficiências no ADN) mas as próximas décadas de avanço tecnológico terão a palavra. Porém não se pode modificar o ambiente do que se passou (não podemos ter pais novos ou mudar o país onde nascemos) da mesma forma que não se pode, hoje, alterar a nossa herança genética.

As influências do ambiente e da herança genética têm a sua quota de influência (que varia ao sabor dos avanços e recuos civilizacionais). Mas não há mais nada? Mesmo num contexto onde o ambiente é controlado e a componente cultural não existe (e.g., experiências com bactérias ou insectos), a genética não determina totalmente as características dos indivíduos. Dois clones do mesmo organismo têm corpos distintos. Uma razão (haverá outras) é a componente não-linear do processo embrionário, ou seja, a existência de fenómenos caóticos que, para todos os efeitos, têm carácter aleatório (mesmo sendo o sistema totalmente determinista). Há sempre espaço para a “sorte” na discussão entre o ambiente e a genética. Esta facto tem uma implicação importante: determinismo não implica inevitabilidade. Mas nesta luta de decidir o futuro entre ambiente, genética e acaso, haverá espaço para mais alguma coisa? Qual a margem de manobra reservada a nós próprios? Refs [Gould 78, Dennet 04]

julho 15, 2005

Livre Arbítrio (1/2)

O determinismo genético defende serem os genes responsáveis pelas características dos indivíduos. Diz-nos que a herança genética imprime traços inevitáveis sendo, no máximo, orientados pelo ambiente, pela cultura e por vontade própria. Levada ao extremo (tudo são traços inevitáveis) ninguém acredita nesta interpretação: eu tenho miopia genética mas uso óculos, não para orientar mas para anular este traço; se tenho uma deficiência genética alimentar, posso eliminar a deficiência com uma dieta própria… O extremo oposto (“o ambiente cultural imprime traços inevitáveis sendo, no máximo, orientados pela genética e por vontade própria”) é igualmente falso: a sociedade pode apoiar a gravidez masculina mas isso não ajuda muito aos homens terem filhos (a ser verdade possibilitaria efeitos muito funestos: seria possível arquitectar formigueiros humanos após algumas gerações de engenharia social). Existem traços genéticos que, actualmente, não se podem modificar. Por exemplo, é inevitável envelhecermos (por muito cuidado que tenhamos, por muito pacífica que seja a civilização) e este facto é geneticamente determinado. [cont.]

julho 13, 2005

Singularidades

Dificilmente o termo "nenhuma verdade" se encaixa melhor noutro contexto que na pretensão de política.

julho 11, 2005

Auto-retrato

O que dentro de nós nos compõe? A que distância, lá fora, está o mundo? Os medos coleccionam e classificam-nos. Quantos temos pavor da dor?, pânico da solidão?, do ridículo? Como pintar o quadro destas fobias, sair dele e observar as linhas finas de um rosto, nosso, desvendado? Como, se nunca passarmos os receios que restringem (educam) o possível do social que nos fez gente?

julho 08, 2005

não saibam nada

O homem não se alimenta de verdade, o homem alimenta-se de respostas. Jovens das gerações futuras ouçam bem o que eu vos digo: não saibam nada; tenham resposta para tudo. Deus nasceu dessa preferência! Deus e a estatística! - Daniel Pennac (descoberta por robur)

julho 06, 2005

Merecimento

O leilão é uma eucaristia de preços discutidos.

julho 04, 2005

Nós

Na última feira do livro, na Antígona, comprei um livro pela contracapa ("A obra que inspirou 1984"). Chama-se "NÓS" e foi escrito pelo russo Evgueni Zamiatine em 1920. É uma das primeiras distopias escritas no século XX. Distopia é uma palavra cara para "utopia que deu para o torto" (como se alguma utopia o pudesse evitar) e precede as obras mais conhecidas de Orwell, Huxley e Bradbury. Como nestas, a sociedade descrita defende-se numa argumentação quase impossível de refutar dentro do quadro mental a que recusa os cidadãos de sair. Em "NÓS" é a distinção entre liberdade e felicidade, identificando a primeira com o peso das opções, a responsabilidade do erro, o possivel do crime; enquanto a felicidade é o produto gelado da racionalidade cega a uma Verdade. Deixo-vos com um excerto/aperitivo:

"Nós seguimos em frente, como um só corpo com milhões de cabeças, e dentro de cada um de nós reinava a suave alegria que constitui, provavelmente, a vida das moléculas, dos átomos, dos fagócitos. No mundo antigo, os cristãos compreendiam bem o que isso era: a modéstia é uma virtude, o orgulho é um vício; compreendiam também que Nós vem de Deus, ao passo que Eu vem do Diabo.

Lá ia eu, caminhando ao passo como todos, mas, apesar de tudo, isolado deles. Tremia ainda no seguimento das perturbações recentes, tal como treme a ponte sobre a qual passou um comboio daqueles de antigamente. Tinha consciência de mim mesmo. Ora o conhecimento de si, o reconhecimento da própria individualidade só o têm o olho onde acaba de cair um cisco, o dedo esfolado, o dente dorido. Quando sãos, o olho, o dedo, o dedo não têm existência alguma. Não prova isto claramente que a consciência de si é de facto uma doença?"

junho 30, 2005

Bengalas

As bengalas linguísticas são uma constante (quase?) impossível de eliminar da expressão vocal. O que é uma bengala? Não tenho uma definição exacta mas arrisco dizer que são as expressões repetidas sem qualquer utilidade a não ser suportar-nos o discurso. Exemplos? Dizer 'não é' no fim ou nas pausas de cada frase; polvilhar o que se diz com '' ou 'ok'. É curioso o fenómeno temporal e social das bengalas: o '' era comum nos anos 70 pela esquerda. Lembro-me nos anos 80 que o 'fogo' era vulgar ser dito pelos adolescentes. Ouvi muito, nos anos 90, as expressões "quer dizer" e "a questão é" (ainda se usam).

É provável que hoje a componente social seja menos relevante e que as bengalas demorem menos a 'infectar' parte significativa da população pela capacidade de transmissão da TV. Não faço colecção de bengalas nem ligo muito, excepto em casos extremos (eu por vezes, uso a bengala 'é um facto' como resposta padrão ou no fim de certas frases), mas não consigo deixar de notar a quantidade de pessoas a usar o 'é assim:'. Esta bengala apoderou-se de jovens a velhos de forma indiscriminada (pelo menos em Lisboa e arredores). Um assunto interessante (mesmo que inútil) conhecer as origens, o fluxo e o ciclo de vida das bengalas linguísticas.

Ps: Se é mau apoiar-se em demasiadas bengalas enquanto se fala, é ainda pior fazê-lo na escrita. É difícil evitá-las todas mas uma revisão cuidada do texto elimina muitas.

junho 29, 2005

Deflação

Com o decorrer do progresso, o mundo tornou-se menor. É agora mais fácil entender as ilusões dos outros, mais difícil manter as nossas.

junho 27, 2005

O Impacto Ambiental de um Texto (parte 2 de 2)

O princípio é familiar. O engenheiro que desenha um produto potencialmente perigoso é responsável pelas suas más aplicações, e fará (ou deveria fazer) todos os possíveis para que estas não ocorram. Dizer a verdade o melhor que podermos é o nosso primeiro dever mas só isso não chega. Um académico que pense ser a verdade a única defesa, provavelmente não pensou suficientemente sobre as potenciais consequências do seu trabalho. Por vezes, a possibilidade de má interpretação da verdade que se pretende dizer é tão grande que a melhor atitude é ficar calado.

Uma estudante de Daniel Dennet desenvolveu um exemplo que retira esta discussão da terra da fantasia da filosofia para a realidade. Ela trabalha na pesquisa da SIDA e percebe os perigos que envolvem esta actividade:

Digamos que descubro que o HIV pode ser erradicado de um individuo infectado sobre circunstâncias ideais (total cooperação do doente, total ausência de efeitos inibitórios das drogas usadas, total ausência de contaminação de outras linhas de vírus, etc.) com quatro anos de regime terapêutico. Eu posso estar errada. Posso ter calculado algo mal, ter lido de forma errada alguns dados, ter julgado mal os doentes da experiência ou ter feito uma estimativa muito optimista. E posso errar em publicar estes resultados, mesmo que sejam verdade, devido ao seu impacto ambiental: os mass media podem descrever mal a história, podem descrever mal o processo do tratamento. E alguma dessa culpa é minha. Especialmente se eu usar a palavra "erradicar", que no contexto dos vírus significa a eliminação total do planeta, enquanto pretendia referir apenas uma das estirpes do vírus. Por exemplo, uma complacência irracional poderia espalhar-se ("A cura da SIDA já existe logo não me preciso preocupar mais"). As taxas de incidência de grupos de risco voltariam a aumentar. E pior: a globalização do tratamento poderia aumentar a resistência desse vírus porque muitos não levariam o tratamento até ao fim.

No pior cenário, podemos ter uma cura para a SIDA e sermos incapazes de encontrar um meio adequado para a anunciar de forma responsável. Não adianta queixarmo-nos da complacência das pessoas em geral, de nada serve culpar os doentes de não cumprir o tratamento. Estes são efeitos esperados e naturais (mesmo que lamentáveis) da publicação que algo deste género produziria. É necessário explorar todos os meios práticos para prevenir os abusos que uma descoberta pode produzir, implementar estratégias de segurança que os evitem. No pior caso possível, pode chegar-se à conclusão que os efeitos de uma descoberta são incontroláveis. Isto não seria só um dilema, seria uma tragédia.

[adaptado do "Freedom Evolves" de Daniel Dennet, Penguin Books, 2003]

junho 24, 2005

Inevitabilidade


(c) Jeff Arthur
O cruzar de uma fronteira encerra sempre uma ameaça de conflito. Mas como e porque evitá-lo?

junho 23, 2005

Troco

Assusta-nos a ideia que o mundo seja injusto. E se fosse ao contrário? Se tudo o que somos fosse a medida exacta do que já fizemos? Qual destes mundos seria maior fonte de desespero?

junho 21, 2005

O Impacto Ambiental de um Texto (parte 1 de 2)

[adaptado do "Freedom Evolves" de Daniel Dennet, Penguin Books, 2003]

Os estudiosos e investigadores, nas suas tradicionais torres de marfim, tipicamente não se preocupam com a responsabilidade que têm no impacto "ambiental" do seu trabalho. As leis da difamação não fazem asserções sobre os males que os textos podem trazer a terceiros, mesmo que indirectamente (focam-se somente na difamação propriamente dita). Que mal um matemático ou um crítico literário podem trazer na execução honesta do seu trabalho? Mas em campos onde as apostas são mais altas há uma tradição em ter especial cuidado e tomar responsabilidades particulares para assegurar que nenhum mal ocorra das suas acções (por exemplo, o juramento de Hipócrates tem este papel para os médicos). Engenheiros, sabendo que a vida de milhares de pessoas pode depender da forma como se constrói uma ponte, executam procedimentos específicos para determinar, segundo o melhor conhecimento humano daquele momento, que o desenho e construção desta é segura.

Quando um académico aspira a ter impacto no mundo "real" (em oposição com o mundo "académico") precisa adoptar as atitudes e hábitos destas disciplinas mais aplicadas. É necessário responsabilizar-se pelo que se diz, reconhecendo que as palavras escritas, se acreditadas por outros, podem provocar consequências profundas para o bem e para o mal. E não é só isso. É preciso reconhecer que estas palavras podem ser mal interpretadas e, até certo grau, é-se responsável pelas prováveis más interpretações da mesma forma que se é pelos efeitos da versão correcta. [cont.]

junho 20, 2005

Os mesmos outros

Eu sei que são todos idiotas mas chamamos racista àquele que associa um preconceito a uma pele diferente, xenófobo a um estrangeiro, machista às mulheres. E aos que menosprezam desfigurados, marrecos, coxos, surdos, cegos, paralíticos? Estetas?

junho 17, 2005

Invariante

Mesmo com emails, chats, telemóveis, sms/mms/3Gs, blogs, os quilómetros que nos separam dos amigos continuam os mesmos.

junho 16, 2005

Distorção

A perfeição é um espelho distorcido. O que somos parece um defeito e a imagem que queremos reflectida um impossível que nos consome.

junho 14, 2005

Matemática vs. Ciência

A Matemática não é uma Ciência. A Matemática cria verdades por definição. Nesta sinfonia de padrões, tudo é tautologia. Um teorema não é uma invenção, é um quase óbvio nesse fio de implicações chamado demonstração. Na Ciência não há verdades dessas. Na Ciência não há verdades. Há somente imagens que explicam fragmentos do imenso da realidade. Nela, as teorias não são verdades por definição, são modelos, ferramentas que ajudam a lidar com os padrões de uma natureza não totalmente caótica. Na Matemática qualquer lado fraco é motivo de desconfiança, qualquer incoerência é mortal. Na Ciência, o que fica por explicar é tanto garantia contra o dogma como direcção de caminho.

junho 09, 2005

Inércia

O normal é um intricado nó de convenções muito difícil de desatar.

junho 07, 2005

Perda

Preocupamo-nos com uma eventual supremacia da vigilância. Sermos talvez observados faz-nos sentir perder os fragmentos ilegais, imorais, as fantasias indizíveis do nosso possível. Mas pouco se fala da presença deste ruído envolvente, da forma como tudo à volta nos impede de pensar, substituindo a nossa crítica por algo que nesse barulho se chama escolha. Perde-se liberdade de muitas formas. A mais assustadora não costuma ser, infelizmente, a mais insidiosa.

junho 06, 2005

Comédia

(só numa semana) Um presidente que aposta biliões de dólares no carvão para combater o desafio energético do futuro. Um senador que faz campanha numa mega-igreja ao lado de fundamentalistas religiosos (a dizerem-se uma ameaça ao Estado laico, a dizerem-se tolerantes mas chamando doentes mentais aos homossexuais). Empresas que proíbem os empregados de fumarem nas suas casas (fazendo análises periódicas à urina). Professores desaconselhados de usar tinta vermelha nas avaliações por ser traumatizante. A qualidade dos comediantes é também um reflexo da sociedade onde se inserem, e os do Daily Show são tão brilhantes como medonha é a aberração que alguns querem transformar os EUA.

junho 03, 2005

Diabolo


Hieronymus Bosch

O quanto da coragem não se mede pelo perigo que se enfrenta, mede-se sim na vitória sobre o medo que a alimenta. No receio máximo que é a morte, os outros não são mais que instrumento desse íntimo que nos termina.

junho 02, 2005

Errar é Humano

Entender não é desculpar. Desculpar não é esquecer. Esquecer é um erro.