julho 08, 2005
julho 06, 2005
julho 04, 2005
Nós
"Nós seguimos em frente, como um só corpo com milhões de cabeças, e dentro de cada um de nós reinava a suave alegria que constitui, provavelmente, a vida das moléculas, dos átomos, dos fagócitos. No mundo antigo, os cristãos compreendiam bem o que isso era: a modéstia é uma virtude, o orgulho é um vício; compreendiam também que Nós vem de Deus, ao passo que Eu vem do Diabo.
Lá ia eu, caminhando ao passo como todos, mas, apesar de tudo, isolado deles. Tremia ainda no seguimento das perturbações recentes, tal como treme a ponte sobre a qual passou um comboio daqueles de antigamente. Tinha consciência de mim mesmo. Ora o conhecimento de si, o reconhecimento da própria individualidade só o têm o olho onde acaba de cair um cisco, o dedo esfolado, o dente dorido. Quando sãos, o olho, o dedo, o dedo não têm existência alguma. Não prova isto claramente que a consciência de si é de facto uma doença?"
Por João Neto às 10:14 0 comentário(s)
junho 30, 2005
Bengalas
É provável que hoje a componente social seja menos relevante e que as bengalas demorem menos a 'infectar' parte significativa da população pela capacidade de transmissão da TV. Não faço colecção de bengalas nem ligo muito, excepto em casos extremos (eu por vezes, uso a bengala 'é um facto' como resposta padrão ou no fim de certas frases), mas não consigo deixar de notar a quantidade de pessoas a usar o 'é assim:'. Esta bengala apoderou-se de jovens a velhos de forma indiscriminada (pelo menos em Lisboa e arredores). Um assunto interessante (mesmo que inútil) conhecer as origens, o fluxo e o ciclo de vida das bengalas linguísticas.
Ps: Se é mau apoiar-se em demasiadas bengalas enquanto se fala, é ainda pior fazê-lo na escrita. É difícil evitá-las todas mas uma revisão cuidada do texto elimina muitas.
Por João Neto às 18:10 0 comentário(s)
junho 29, 2005
Deflação
Por João Neto às 09:13 0 comentário(s)
junho 27, 2005
O Impacto Ambiental de um Texto (parte 2 de 2)
Uma estudante de Daniel Dennet desenvolveu um exemplo que retira esta discussão da terra da fantasia da filosofia para a realidade. Ela trabalha na pesquisa da SIDA e percebe os perigos que envolvem esta actividade:
Digamos que descubro que o HIV pode ser erradicado de um individuo infectado sobre circunstâncias ideais (total cooperação do doente, total ausência de efeitos inibitórios das drogas usadas, total ausência de contaminação de outras linhas de vírus, etc.) com quatro anos de regime terapêutico. Eu posso estar errada. Posso ter calculado algo mal, ter lido de forma errada alguns dados, ter julgado mal os doentes da experiência ou ter feito uma estimativa muito optimista. E posso errar em publicar estes resultados, mesmo que sejam verdade, devido ao seu impacto ambiental: os mass media podem descrever mal a história, podem descrever mal o processo do tratamento. E alguma dessa culpa é minha. Especialmente se eu usar a palavra "erradicar", que no contexto dos vírus significa a eliminação total do planeta, enquanto pretendia referir apenas uma das estirpes do vírus. Por exemplo, uma complacência irracional poderia espalhar-se ("A cura da SIDA já existe logo não me preciso preocupar mais"). As taxas de incidência de grupos de risco voltariam a aumentar. E pior: a globalização do tratamento poderia aumentar a resistência desse vírus porque muitos não levariam o tratamento até ao fim.
[adaptado do "Freedom Evolves" de Daniel Dennet, Penguin Books, 2003]
Por João Neto às 09:13 0 comentário(s)
junho 24, 2005
Inevitabilidade

(c) Jeff Arthur
Por João Neto às 11:36 0 comentário(s)
junho 23, 2005
Troco
Por João Neto às 10:07 0 comentário(s)
junho 21, 2005
O Impacto Ambiental de um Texto (parte 1 de 2)
Os estudiosos e investigadores, nas suas tradicionais torres de marfim, tipicamente não se preocupam com a responsabilidade que têm no impacto "ambiental" do seu trabalho. As leis da difamação não fazem asserções sobre os males que os textos podem trazer a terceiros, mesmo que indirectamente (focam-se somente na difamação propriamente dita). Que mal um matemático ou um crítico literário podem trazer na execução honesta do seu trabalho? Mas em campos onde as apostas são mais altas há uma tradição em ter especial cuidado e tomar responsabilidades particulares para assegurar que nenhum mal ocorra das suas acções (por exemplo, o juramento de Hipócrates tem este papel para os médicos). Engenheiros, sabendo que a vida de milhares de pessoas pode depender da forma como se constrói uma ponte, executam procedimentos específicos para determinar, segundo o melhor conhecimento humano daquele momento, que o desenho e construção desta é segura.
Quando um académico aspira a ter impacto no mundo "real" (em oposição com o mundo "académico") precisa adoptar as atitudes e hábitos destas disciplinas mais aplicadas. É necessário responsabilizar-se pelo que se diz, reconhecendo que as palavras escritas, se acreditadas por outros, podem provocar consequências profundas para o bem e para o mal. E não é só isso. É preciso reconhecer que estas palavras podem ser mal interpretadas e, até certo grau, é-se responsável pelas prováveis más interpretações da mesma forma que se é pelos efeitos da versão correcta. [cont.]
Por João Neto às 11:03 0 comentário(s)
junho 20, 2005
Os mesmos outros
Por João Neto às 09:08 0 comentário(s)
junho 17, 2005
Invariante
Por João Neto às 11:24 0 comentário(s)
junho 16, 2005
Distorção
Por João Neto às 10:06 0 comentário(s)
junho 14, 2005
Matemática vs. Ciência
Por João Neto às 14:58 0 comentário(s)
junho 09, 2005
Inércia
O normal é um intricado nó de convenções muito difícil de desatar.
Por João Neto às 08:41 0 comentário(s)
junho 07, 2005
Perda
Por João Neto às 10:11 0 comentário(s)
junho 06, 2005
Comédia
(só numa semana) Um presidente que aposta biliões de dólares no carvão para combater o desafio energético do futuro. Um senador que faz campanha numa mega-igreja ao lado de fundamentalistas religiosos (a dizerem-se uma ameaça ao Estado laico, a dizerem-se tolerantes mas chamando doentes mentais aos homossexuais). Empresas que proíbem os empregados de fumarem nas suas casas (fazendo análises periódicas à urina). Professores desaconselhados de usar tinta vermelha nas avaliações por ser traumatizante. A qualidade dos comediantes é também um reflexo da sociedade onde se inserem, e os do Daily Show são tão brilhantes como medonha é a aberração que alguns querem transformar os EUA.Por João Neto às 08:36 0 comentário(s)
junho 03, 2005
Diabolo

Por João Neto às 09:37 0 comentário(s)
junho 02, 2005
Errar é Humano
Entender não é desculpar. Desculpar não é esquecer. Esquecer é um erro.
Por João Neto às 14:32 0 comentário(s)
maio 31, 2005
Agir, mas...
Por João Neto às 15:22 0 comentário(s)
maio 19, 2005
Despotismo vs. Política (última parte)
Um início de sabedoria em política é a atenção aos sinais de mudança. Como teatro de ilusões, a política não se revela facilmente ao olho distraído. Realidade e ilusão são duas categorias centrais no estudo político. O problema começa logo nos nomes das instituições. O domínio mundial da nomenclatura ocidental – parlamento, constituições, direitos, sindicatos, tribunais, jornais – parece sugerir que o mesmo género de política se mundializou. Não podia ser mais diferente! Dois exemplos. No Japão existe a figura do 1º Ministro mas um estadista estrangeiro rapidamente se apercebe da limitação deste para executar políticas nacionais. Em 1936, Stalin promulgou a constituição mais avançada do mundo durante as gigantescas purgas da elite soviética através de tribunais falsos.
Há uma tendência para confundir a natureza da política, através de argumentos elaborados que nos convencem ser as nossas ideias melhores que a dos nossos antepassados. Todas as culturas acreditam que os seus valores são os correctos mas, hoje em dia, estamos estranhamente presos aos nossos preconceitos. A doutrina do progresso, por exemplo. A moda actual é rejeitar esta doutrina e salientar o quanto somos o reflexo da cultura presente. Esta aparente forma de cepticismo parece libertar-nos da arrogância anterior. Mas esta aparência é uma ilusão e uma falsa humildade, mascarando a convicção dogmática que a nossa própria abertura faz este relativismo humano superior ao dogmatismo do passado e à intolerância das outras culturas. Quem pensa e escreve sobre política deve avisar contra os perigos do paroquialismo. Este facto é tão verdade agora como sempre foi.
(adaptado do livro Politics de Kenneth Minogue)
Por João Neto às 12:58 0 comentário(s)
maio 17, 2005
Mistura
Por João Neto às 16:50 0 comentário(s)
maio 16, 2005
Igualdade
Por João Neto às 10:49 0 comentário(s)
maio 13, 2005
Despotismo vs. Política (parte III)
Um desses sinais é a distinção entre a esfera privada e a esfera pública. A esfera privada é aquela da família, da consciência individual, do conjunto de interesses e das escolhas pessoais de cada um. Esta vida privada não seria possível sem a estrutura pública do estado que garante um sistema legal apropriado. A política apenas sobrevive desde que este sistema entenda e respeite os seus próprios limites (senão caímos novamente num sistema despótico apolítico). Como Péricles referiu: "Somos tolerantes e livres nas nossas vidas privadas, mas nos assuntos públicos sujeitamo-nos às Leis". A fronteira entre público e privado encontra-se em constante mudança. A homossexualidade e a religião eram considerados assuntos públicos, agora são (maioritariamente) da esfera privada. É o facto de se reconhecer e respeitar esta fronteira que separa a política do despotismo. [cont.]
Por João Neto às 14:22 0 comentário(s)
maio 12, 2005
Separação
Por João Neto às 09:07 0 comentário(s)
maio 10, 2005
Suporte
Por João Neto às 09:32 0 comentário(s)
maio 09, 2005
Despotismo vs. Política (parte II)
O despotismo aflui tão naturalmente da conquista militar (onde a maioria das sociedades se originou) que a criação de uma ordem civil ou política é visto como um acontecimento assinalável. Os europeus conseguiram-no em três ocasiões e em duas delas a experiência colapsou. A primeira ocorreu nas cidades estado gregas, que se afundaram em despotismo após a queda de Alexandre. A segunda foi com os Romanos, cujo próprio sucesso criou um Império tão heterogéneo que só um poder despótico foi capaz de travar a sua desagregação. O falhanço da primeira destas experiências gerou o Estoicismo e outras filosofias de afastamento. A segunda resultou num ambiente propício para o crescimento de uma religião: o Cristianismo. Do Cristianismo e dos reinos bárbaros do ocidente surgiram as versões medievais de política que, lentamente, se desenvolveram nas políticas actuais, a terceira ocasião, que vivemos e não sabemos qual o seu destino final. [cont.]
Por João Neto às 08:52 0 comentário(s)
maio 06, 2005
Escolha?
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Por João Neto às 09:04 0 comentário(s)
maio 04, 2005
Reverso
Por João Neto às 11:07 0 comentário(s)
maio 02, 2005
Invariante de Alexa
Não há dinheiro, não há palhaços.
Por João Neto às 09:56 0 comentário(s)
abril 29, 2005
Despotismo vs. Política (parte I)
(adaptado do livro Politics de Kenneth Minogue)
O despotismo é uma categoria com grandes variações. De uma forma ou doutra, as civilizações não europeias têm sido quase invariavelmente geridas despoticamente. A imaginação ocidental, no entanto, tem geralmente repelido os déspotas – os cruéis faraós, os imperadores Romanos enlouquecidos (como Nero ou Calígula), os exóticos e longínquos imperadores da Índia e da China. Na Europa, o desejo pelo poder despótico tem de se disfarçar a si próprio. Várias vezes, povos europeus são seduzidos por formas embrulhadas em ideais (como o nazismo ou o comunismo soviético). Este facto deve recordar-nos que a possibilidade de despotismo não é remota nem no tempo nem no espaço.
Hoje define-se despotismo (como a ditadura e o totalitarismo) como uma forma de governo. Isto teria estarrecido os Gregos, cuja própria entidade (e senso de superioridade sobre os outros povos) era baseada na distinção que faziam de si em relação ao despotismo dos seus vizinhos a Este. O que os Gregos sabiam acima de tudo é que não eram orientais. Admiravam as culturas de impérios como o Egípcio ou o Persa mas, normalmente, desdenhavam a forma como eram governados. Chamavam a esses sistemas despotismo porque não eram diferentes da relação entre um mestre e os seus escravos. Consideravam intolerável a desigualdade entre os líderes e os cidadãos e, mais de dois mil anos depois, nós herdámos o mesmo sentimento de rejeição. [cont.]
Por João Neto às 10:50 0 comentário(s)



