abril 15, 2005


abril 14, 2005

Detalhes



Saber parar, respirar devagar, deixar-nos ir pelas pequenas coisas são artes difíceis. Existimos mas não nos lembramos porquê, compensamos mais deveres que vontades, perdemos estes dias que nos parecem iguais. Muito do conjunto são detalhes que não vemos. Tudo sucede, eles ficam.

abril 12, 2005

Botões Políticos (parte IV)

Na visão utópica a natureza humana muda com as circunstâncias sociais, logo as instituições tradicionais possuem um valor intrínseco. As tradições são a mão morta do passado, a tentativa de governar a partir do cemitério. Elas devem ser explicitadas de forma a analisar a sua lógica e justiça e a avaliar a sua moral. Através deste teste, muitas tradições falham: o encerrar das mulheres em casa, o estigma da homossexualidade e do sexo pré-marital, as superstições da religião, a injustiça do apartheid e da segregação, os perigos do patriotismo. Práticas como a monarquia absolutista, a escravatura, a guerra e o patriarcado, antes consideradas inevitáveis, desapareceram em muitas partes do planeta através de mudanças de instituições que antigamente eram consideradas como enraizadas na natureza humana. Mais, a existência de sofrimento e injustiça apresenta-nos uma imperativa moral indiscutível. Não sabemos o que podemos conseguir sem experimentar, e a alternativa, resignarmos ao estado do mundo, não é uma opção.

Mas os da visão trágica não se comovem com estes argumentos. Nós somos todos membros de uma espécie com falhas. Colocar a nossa visão moral em prática pode significar impô-la aos outros. A atracção humana por poder e estima, polida por auto-decepção e um sentimento de justiça, é um convite à catástrofe, principalmente se esse poder for direccionado a um objectivo tão quixotesco como a erradicação dos interesses individuais (como disse o filósofo Michael Oakshott, pretender fazer algo impossível é sempre uma demanda que corrompe quem a procura). [cont.]

abril 11, 2005

Culinária

Não deve existir melhor receita para a catástrofe do que aquele que, alimentado pela certeza das suas convicções e despido de qualquer dúvida, chega ao fim do seu caminho.

abril 08, 2005

Intransmissibilidade

Há dores que são só minhas (nossas). Como impressões digitais, só a mim me cabem, não se passam nem se explicam ao outro que tu és.

abril 05, 2005

Botões Políticos (parte III)

Thomas Sowell no seu livro "Um Conflito de Visões" identifica um factor que permite explicar (não completamente mas em grande parte) a existência das crenças nucleares que opõem direita e esquerda. Sowell mostra duas visões da natureza humana, designadas aqui por visão utópica e visão trágica.
  • Na visão trágica os humanos são intrinsecamente limitados no seu conhecimento, sabedoria e virtude; e todos os acordos sociais têm de levar este facto em conta. Esta visão é associada a Hobbes, Edmund Burke, Adam Smith, Friedrich Hayek, Milton Friedman, Isaiah Berlin e Karl Popper, entre outros.
  • Na visão utópica, as limitações psicológicas são artefactos que provêm dos arranjos sociais onde nos inserimos, e não devem ser tomados em conta quando planeamos o futuro. Esta visão é associada a Rousseau, William Godwin, Thomas Paine, John Kenneth Galbraith e Ronald Dworkin, entre outros.
Na visão trágica, os sentimentos morais (por melhores que sejam) cobrem uma camada mais profunda de egoísmo. Este egoísmo não é necessariamente cruel ou violento, mas sim uma preocupação do nosso bem-estar tão forte que raramente pensamos nela ou nos recriminamos por ser assim. A natureza humana não muda. Tradições, como a religião, a família, os costumes sociais, são uma destilação de técnicas repetidamente testadas com sucesso ao longo dos séculos que nos permitem viver mais ou menos bem com os nossos defeitos. Na generalidade, são aplicáveis hoje como o foram há milénios, apesar de ninguém saber explicar convenientemente porquê. Por mais imperfeita que seja, devemos comparar a nossa sociedade com as que existiram no passado e não com qualquer uma imaginada para o futuro. Felizmente, a sociedade funciona mais ou menos bem e devemos tentar mantê-la assim, porque a natureza humana pode, a qualquer oportunidade, levá-la para o abismo. Como ninguém tem a inteligência de prever sequer o comportamento de um só ser humano, ainda menos a dinâmica de uma população, devemos desconfiar de qualquer fórmula que venha de cima para tentar alterar a sociedade já que é provável que surjam consequências mais nefastas que a eventual resolução dos problemas que se promete corrigir. O melhor que se pode esperar são pequenos passos graduais constantemente corrigidos por periódicas avaliações dos sucessos e dos fracassos. Isto também implica que não devemos procurar resolver totalmente problemas sociais como o crime ou a pobreza, porque num mundo de competição o ganho de uma pessoa é a perda de outra. O melhor que podemos fazer é gerir os diferentes meios ao nosso dispor de forma a minimizar os problemas que consideramos mais importantes. [cont.]

abril 04, 2005

Padrões


Aqui está mais um exemplo da nossa capacidade em encontrar padrões onde não existem: não bastava as de Marte, quem sabe se não há crânios espalhados em Titã...

abril 01, 2005

Aula

Uma aula não deve ser uma eucaristia. Nesta há o assegurar de um hábito, a tranquilidade do gesto repetido, a força da palavra que é pedra de margem, a serenidade de um deus responsável pelos alicerces da Terra. Numa aula há o incómodo da coisa nova, o difícil desenrolar de uma história, a força da palavra que é ideia de ponte, o aprender que de milagres apenas este de sermos.

março 31, 2005

Simplicidade

A verdade quer-se nua, a informação livre.

março 29, 2005

Botões Políticos (parte II)

O segundo tópico refere-se às diferenças entre políticas de esquerda e direita. A divisão entre as tradições sociológica e económica está alinhada com esta divisão da política, mas só de forma aproximada. É evidente que o Marxismo é da primeira tradição, enquanto o mercado livre é da segunda. Porém, Durkheim e Parsons, ambos da tradição social, eram conservadores. Locke e Rousseau, da tradição do contrato social, são patronos do liberalismo e Rousseau mesmo de pensadores revolucionários (um contrato social, como qualquer contrato, pode tornar-se injusto tendo-se de renegociar progressivamente ou através de uma revolução). Assim, a discussão relativa ao estudo da natureza humana provocada pelas diferenças entre as duas diferentes tradições não é a mesma que a provocada pelas diferenças entre políticas de direita e esquerda.

O eixo esquerda-direita atravessa um conjunto impressionante de crenças distintas. Se alguém defende um corpo militar forte, é uma boa aposta que também defende um sistema penal rigoroso. Um defensor da economia de mercado tende a dar mais valor ao patriotismo, à estrutura familiar e à religião, é tendencialmente mais velho que novo, pragmático que idealista, censório que permissivo, defensor do mérito e não do igualitarismo, dos passos graduais em vez de revoluções, da baixa de impostos, e estará mais provavelmente num negócio do que na função pública. Já na posição oposta encontramos o mesmo tipo de aglomerados: se é alguém simpatizante da reabilitação social e de programas governamentais de ajuda, é provável que seja tolerante com as diferenças (como o homossexualismo), um pacifista, um igualitário e um secularista.

Porque será que a opinião sobre comportamentos sexuais está relacionado com políticas militares? O que tem a religião a ver com impostos? Antes de tentar entender porque as crenças de uma pessoa se identificam com uma estrutura mental conservadora ou liberal, é necessário entender como estas estruturas se constroem. [cont.]

março 24, 2005

Desculpas

Do alto da sua perfeição anunciada, as religiões do livro proclamaram o monoteísmo, a tirania do deus único. O dualismo religioso, como a luz e a escuridão de Zoroastro, secou nessa fonte inesgotável que é a fé dos Homens. Mas como explicar o estado do Mundo sem uma tensão de poderes? Uns (re)inventaram Satanás. Outros o livre arbítrio. Outros ainda, uma desculpa para queimar hereges.

março 22, 2005

Atalhos


Uma ponte é caminho entre margens, nada garante ser seguro. Um espelho é reflexo da tua cara, nada assegura que te reconheças. O silêncio é outra forma de palavra, nada te diz que carregue verdade.

março 21, 2005

Diferença

O erro está para o preconceito como a dúvida para a certeza. Quando confrontados, pedimos desculpa dos primeiros, ficamos ofendidos pelos segundos.

março 17, 2005

Botões Políticos (parte I)

(adaptado do capítulo 16 do livro "The Blank Slate" de Steven Pinker)

As ciências que estudam a natureza humana pressionam dois tópicos políticos muito controversos. O primeiro refere-se à nossa ideia de sociedade:
  • Na tradição sociológica, a sociedade é uma entidade orgânica coesiva. As pessoas são vistas como intrinsecamente sociais, partes de um superorganismo. Esta é a tradição de Platão, Hegel, Marx, Durkheim, Weber, Kroeber, Lévi-Strauss, do pós-modernismo e das ciências sociais.
  • Na tradição económica e do contrato social, a sociedade é um arranjo negociado por agentes racionais e com interesses próprios. A sociedade emerge quando um conjunto de indivíduos acorda em sacrificar alguma da sua autonomia em troca de segurança contra terceiros. Esta é a tradição de Maquiavel, Hobbes, Locke, Rousseau, Smith e Bentham. É a base da maioria dos modelos económicos actuais e das análises custo-benefício nas decisões públicas.

A teoria da Evolução moderna balança para o lado da segunda tradição. Defende que as adaptações do organismo e das suas estratégias comportamentais tendem a favorecer o indivíduo e não a comunidade, a espécie ou o ecossistema onde se insere. A organização social surge quando os benefícios de longo prazo do indivíduo compensam os ganhos imediatos. O altruísmo recíproco é apenas o conceito tradicional do contrato social redefinido em termos biológicos. Todas as sociedades - animais ou humanas - estão repletas de conflitos de interesse e são mantidas por uma dinâmica mista de domínio e cooperação.

É claro que os humanos não são solitários e não inauguraram a vivência em grupo após assinar um contrato. A sociedade é central à existência humana desde que esta existe. Mas a lógica do contrato social pode ter catalizado a evolução de capacidades mentais que tendem a manter-nos em grupos porque os benefícios eram maiores que os custos. Com um diferente conjunto de contingências (um outro ecossistema ou outra história evolucionária, por exemplo) e poderíamos agora ser parecidos com os orangotangos (que são animais solitários). [cont.]

março 15, 2005

Diferença

Aprendemos a tolerar os outros, as opiniões dos outros. Não vivemos isolados, somos parte não centro das atenções, partilhamos um caminho negociado todos os dias. Mas disso o que aceitamos? Que diferença entre o que respondemos por educação e o que comungamos? O que nos faz trocar algo já nosso pelo possível de uma promessa?

março 14, 2005

Fronteira

O Deserto e o Oceano são dois dos prazeres mais atávicos da Humanidade. Eles induzem o lado réptil e anfíbio adormecidos pela complexidade da consciência.

março 11, 2005

Haiku

O Real é um rio
eu e tu redes de nós;
O que pescamos?

março 10, 2005

1/2

Banalizamos tudo. Reduzimos em excesso aquilo que vemos, que somos, que construímos. Tudo é óptimo ou tudo é péssimo. Não temos passado para lá daquele que interessa à crítica do presente. Somos profetas de futuros evidentes mas não contabilizamos fracassos. Acreditamos saber os argumentos que interessam mas não ouvimos o que não entendemos. Nesta comunhão com o óbvio, perde-se muito do que faz falta. Somos apenas metade, ferramentas das nossas próprias palavras.

março 08, 2005

Top 7

Quais os sentidos mais importantes? A visão? A audição? Sem o sentido de humor e o sentido de respeito (nosso e dos outros), para além de indiferente, o Universo valeria muito menos.

março 07, 2005

O primeiro BUG

O primeiro caso de um bug (em inglês, um bicho tipo insecto) num programa. Uma traça encontrada no painel F do relé electromecânico 70 de um computador Mark II. Os operadores afixaram a traça no relatório dizendo que o computador tinha sido 'debugged', criando assim o termo computacional ainda hoje usado.

março 04, 2005

Motivação

O esquecimento é inevitável mas não está provado que o mereças.

março 03, 2005

Linha

Existe uma arte que separa o querer do tentar.

março 01, 2005

Ser

O que somos? Quantos possíveis nos fazem? Que santos e monstros se encerram no eventual da vida humana? Como ter certeza da nossa moral, dependente que está no mundo de fora? Como garantir aos outros o eu que lhes dou?

fevereiro 28, 2005

Usenet

A Usenet fez 25 anos. É uma porta da rede global muito anterior aos browsers que todos nós usamos hoje, onde se encontram grupos de discussão sobre os mais variados temas (existem dezenas de milhares). O Google na sua missão compulsiva de cartografar a Internet, disponibiliza um serviço onde armazena cerca de 850 milhões de mensagens escritas durante a vida da Usenet. A maioria das mensagens são lixo, são irrelevantes, muitas são ecos de instantes de dúvida, de ira, de deslumbramento, de preconceitos, de uma sinceridade anónima, de mentiras com agenda, de ignorância, de estupidez, de sabedoria, de loucura, de um presente passado que se perdeu à excepção dessa mensagem guardada nos cofres digitais da Google. Pode não ter importância nenhuma para os historiadores do futuro mas, como disse Vítor Hugo, a fisionomia dos anos formam o carácter do século.

fevereiro 25, 2005

Distância

O abismo são os passos que temos pânico em dar. Não é a profundidade nem as trevas, nem o vento que as habita. Não é o desconhecido do outro mas do eu. É a natureza, nossa, contra nós próprios. É o espelho imaginado enquanto não levantamos os olhos para nos vermos nele.

fevereiro 22, 2005

Modos

Há uma grande diferença entre ensinar apelando à convicção ou à confiança. E este problema é partilhado quer por doutores de Religião quer por professores de Ciência.

fevereiro 21, 2005

Violência (última parte)

Mas o círculo pode diminuir. Muitas atrocidades são acompanhadas por tácticas de desumanização como o uso sistemático de nomes pejorativos, condições degradantes ou vestes humilhantes. Estas tácticas alteram a perspectiva individual transformando pessoas em 'não-pessoas'. Isto facilita a proliferação da tortura ou do assassínio sem que surjam dilemas morais da parte dos agressores.

O psicólogo social Philip Zimbardo mostrou que estes mecanismos podem ser efectivos mesmo com estudantes universitários. Zimbardo criou uma prisão simulada numa cave da Universidade de Stanford. Aleatoriamente, seleccionou estudantes para os papéis de guardas e prisioneiros. Os 'prisioneiros' usavam vestimentas degradantes, grilhetas e outros acessórios sendo referidos não por nome mas por um número. Rapidamente, os 'guardas' começaram a abusar da sua posição, brutalizando-os – obrigavam-nos a fazer flexões colocando-se nas suas costas, molhavam-nos com extintores, obrigavam-nos a limpar retretes só com as mãos – de tal modo que Zimbardo teve de terminar as experiências com medo da segurança física dos 'prisioneiros'!

Na outra direcção, o círculo pode aumentar pela observação de algum sinal de humanidade da parte da vítima. George Orwell, aquando da sua experiência na guerra civil espanhola, disse um dia ter um soldado inimigo na sua mira, e só não disparou porque este corria enquanto segurava as calças com as mãos. "Não o matei pelo detalhe das calças. Tinha vindo para matar Fascistas, mas um homem que segura as próprias calças não é um ‘Fascista’, ele é um semelhante como um de nós.". Claro que não nos devemos iludir com este exemplo (Orwell foi um das principais vozes morais do século XX). As pessoas são capazes de colocar desconhecidos dentro do seu círculo moral, mas provavelmente, o comportamento por defeito é deixá-los de fora.

fevereiro 17, 2005

Má forma

De todos os exercícios, são os de hipocrisia que me deixam em pior forma.

fevereiro 16, 2005

Embrulho

O que é moderno vem sempre coberto na superfície atraente da novidade.

fevereiro 14, 2005

Violência (parte III)

O primeiro passo para se entender a violência é colocar de lado a nossa repulsa pelo conceito o tempo suficiente para examinar como e quando o seu uso traz vantagens em termos individuais e evolutivos. Para isto é necessário inverter o problema – não tentar explicar porque a violência ocorre – mas sim porque é evitada. A moralidade não entrou no Universo com o Big Bang, permeando-o como radiação de fundo. Ela foi descoberta pelos nossos antepassados após biliões de anos de um processo moralmente indiferente chamado selecção natural.

A selecção natural é impulsionada pela competição, o que significa que os produtos da selecção natural – máquinas de sobrevivência usando a metáfora de Richard Dawkins – devem, por defeito, fazer o que for preciso para sobreviverem e se reproduzirem. Se um obstáculo surge no caminho, ele deve ser neutralizado ou eliminado. Para um indivíduo, estes obstáculos podem incluir outros indivíduos, por exemplo, alguém que monopolize recursos essenciais como terra ou comida. Esta visão cínica pode não parecer verdade porque não estamos habituados a ver os outros como meros elementos do exterior que possam ser neutralizados como erva daninha. A não ser que sejamos psicopatas, nós simpatizamos com os outros e não os vemos como obstáculos ou presas. Esta simpatia, porém, não tem prevenido um sem número de atrocidades ao longo da história. A contradição pode talvez ser resolvida se assumirmos que as pessoas possuem um "círculo moral" que as faz incluir não toda a humanidade, mas apenas membros do seu clã, vila ou tribo. Dentro do círculo, as pessoas são alvos de simpatia, fora do círculo apenas elementos externos como rochas, rios ou animais.

Esta observação que as pessoas podem ser moralmente indiferentes a quem esteja fora do círculo moral sugere de imediato uma possibilidade para a redução da violência: entender a psicologia deste mecanismo de forma a alargá-lo a toda a Humanidade. Este alargamento parece estar a ocorrer ao longo dos últimos milénios, motivado pelo constante crescimento das redes de reciprocidade entre as diferentes culturas, tornando cada mais pessoas mais úteis vivas que mortas. Este processo é ajudado pela tecnologia que facilita o acesso à literatura estrangeira, às viagens, ao conhecimento da História e da Arte que ajuda a projectar-nos nas vidas daqueles que no passado foram inimigos mortais. [cont.]