outubro 12, 2004

Inimigo Nosso

Possum Pogo (c) Walt Kelly
We have met the enemy and he is us - Walt Kelly(1952)

outubro 11, 2004

Paragem

Tanto a escrita como a fotografia preservam porque descrevem um processo. Uma refere-se ao possível da linguagem, outra ao cristalizar de um momento.

outubro 08, 2004

Convergência III

Será o livre arbítrio uma ilusão? Será necessário para justificar morais e direitos? É que somos responsáveis por tudo (excepto, disse Sartre, pela própria responsabilidade), quer sejamos capazes de optar livremente ou somente ininteligíveis veículos levando causas a efeitos.

outubro 07, 2004

Aos Georges Bushes (XII)

A globalização tornou-te o mundo mais pequeno, mas não o transforma num espelho para o teu sorriso.

outubro 06, 2004

Cultura e Geografia (parte III)

A maior parte da vivência do Homem foi de recolector-caçador. As raízes da civilização - sedentarismo, viver em cidades, divisão de trabalho, governação, exércitos profissionais, tecnologia - surgiram de uma inovação relativamente recente, a agricultura. A agricultura depende das espécies vegetais e animais domesticáveis, e há muito poucas que o podem ser. Os melhores ecossistemas centravam-se no Crescente Fértil, na China e na América Central e do Sul: os locais onde regionalmente surgiram as primeiras civilizações.

A partir daí a geografia moldou o destino. A Eurásia é o maior bloco terrestre e uma enorme superfície para o eclodir de descobertas locais. Negociantes, viajantes e conquistadores podem transportar e espalhar essas inovações. Pessoas que vivam nos cruzamentos das movimentações históricas podem acumular um pacote de conhecimento muito difícil de obter de outra forma. Para além disso, a Eurásia é uma superfície horizontal, enquanto a América e a África são verticais. Animais e plantas usadas na China podem ser levadas mais facilmente por milhares de quilómetros para a Europa, na mesma latitude e com um clima aproximado. Já mil quilómetros para Sul ou Norte podem mudar um clima temperado para tropical. A transferência de espécies não é tão fácil, um cavalo pode ser usado de Portugal à China, mas a lama dos Andes não sobrevive no ambiente árido do México.
O Mundo
Assim, as culturas da Eurásia foram conquistadoras, não porque naturalmente mais inteligentes mas porque puderam aproveitar melhor a vantagem do principio que duas cabeças pensam melhor do que uma. Qualquer cultura Europeia antiga era uma amálgama de conhecimentos de diferentes partes (alfabeto do Médio Oriente, matemática Egípcia, Grega e Árabe, papel Chinês, cavalos dos Urais...). Já as culturas isoladas de África (pelo Sahara) e da América e Oceânia (pela água) podiam apenas valer-se de tecnologias caseiras. Como resultado, foram incapazes de resistir aos conquistadores multiculturais.

Um caso extremo, conta Diamond, é a Tasmânia onde se encontrava a cultura tecnologicamente mais atrasada da História registada. Ao contrário dos aborígenes australianos, os tasmaneses desconheciam o fogo, o boomerangue, as lanças, não tinham ferramentas especializadas nem sequer em pedra, não tinham canoas e não sabiam pescar. O incrível é estas tecnologias existirem na Austrália há mais de dez mil anos(!). O problema é que a Tasmânia foi separada da Austrália há muito tempo, isolando as respectivas populações. Todas as descobertas ocorridas até então foram-se perdendo na Tasmânia. Talvez porque os recursos na pequena ilha se esgotaram e os descendentes perderam as artes. Ou talvez os artesãos tenham sido todos mortos por uma geração de chefes fanaticamente conservadora. O que quer que tenha ocorrido, implicou na perda dessas tecnologias. Se isso acontecesse numa região Europeia bastava viajar à próxima região. Na Tasmânia não havia próxima região.

outubro 01, 2004

Protecção

Os Amantes - Magritte (1928)

Qual a impermeável face do hábito que hoje usas? Diz-lhe que trocarias sempre o próximo beijo pelo despir dessa mentira.

setembro 30, 2004

Procura

Se procurarmos com suficiente afinco as raízes de uma ideia, chegaremos a outra que a sustenta e que levantará semelhantes questões. Neste processo de descoberta entre a primeira e a que agora se nos defronta, algo se repete. Talvez a Verdade esteja fora das respostas, sustendo-as por caminhos para sempre vedados. Ou talvez tudo se sustente a si mesmo. Assim acontece com a Matemática; com os dicionários, onde cada palavra se socorre das outras; connosco, feitos que somos de reflexos.

setembro 28, 2004

Conflito

A escrita é uma arma de dois gumes: inclui a nossa visão na herança do futuro mas, pelo erodir dos momentos passados, permite confundir visão por verdade.

setembro 27, 2004

Cultura e Geografia (parte II)

A mais óbvia diferença entre culturas é que umas são materialmente mais bem sucedidas que outras. Nos últimos milénios, culturas Europeias e Asiáticas têm conquistado e destruído culturas Africanas, Americanas, Australianas e Polinésias. Porque é que o movimento não foi ao contrário? O resposta imediata passa pelo facto que Impérios mais ricos possuem melhores armas, maiores exércitos, melhor tecnologia e uma organização económica e social mais avançada. Mas esta resposta limita-se a empurrar a pergunta inicial. Como certas culturas obtiveram esses ganhos e não outras?

A resposta do século XIX teve bases biológicas, i.e., raciais. Foi atribuída a disparidade às diferenças como as diferentes raças evoluíram. Brancos e amarelos (ou só os brancos, para os mais entusiasmados) eram mais evoluídos que pretos e vermelhos. A teoria seguinte (entrando já no século XX) estipulou que o comportamento é totalmente determinado pela cultura, sendo esta independente da biologia. Infelizmente, esta reformulação (para além de também estar errada) não responde à pergunta inicial: Porque há culturas com mais sucesso material que outras? De facto, não era a pergunta respondida como nem era sequer mencionada, dado que poderia levantar a suspeita que a mera questão insinuava que a superioridade tecnológica relacionava-se com o julgamento moral que uma cultura mais evoluída era "melhor" que uma menos evoluída. No entanto, é inegável que há culturas que obtém melhores condições de vida para os seus membros. E dizer que essa diferenciação é um produto do acaso é simplesmente uma outra forma de esconder o problema no tapete do politicamente correcto.

Mais recentemente, estudiosos como o economista Thomas Sowell e o psicólogo Jared Diamond, apresentaram uma outra proposta. Eles argumentam que a História não é só um palimpsesto de factos mais ou menos inesperados em sequência temporal. O destino das civilizações não depende da raça ou da sorte mas sim da capacidade humana de adoptar inovações externas combinada com as vicissitudes da geografia e da ecologia. [cont.]

setembro 24, 2004

Convergência II

É a individualidade um facto ou uma máscara? É um direito ético ou algo adquirido pela cultura humanista? Devo lutar porque sou pessoa ou porque tenho o direito a sê-lo?

setembro 23, 2004

Convergência

Somos o intervalo desde a percepção do momento à escolha do comportamento. Com o acelerar dos tempos, com a crescente necessidade de respostas rápidas, esse intervalo cada vez é mais pequeno. Ou seja, isto está a ficar apertado!

setembro 21, 2004

Cultura e Geografia (parte I)

(baseado no 4º capítulo do livro "The Black Slate" de Steven Pinker)

A cultura é um conjunto de inovações sociais e tecnologias acumuladas no processo histórico que nos ajuda a viver as nossas vidas. A cultura não é uma colecção arbitrária de regras e símbolos com o objectivo de modelar homens e mulheres.

Esta ideia é útil para entender porque diferentes culturas parecem tão diferentes e, ao mesmo tempo, tão iguais. Quando um grupo se separa da sua comunidade e os laços são cortados (por um acidente geográfico, por hostilidades prolongadas), não existe forma de difundir inovações entre os lados. À medida que cada grupo elabora o seu conjunto de descobertas e convenções, há uma progressiva divergência que produz duas culturas diferentes. Esta ramificação é facilmente visível na evolução das linguagens. Também Darwin tinha utilizado este exemplo como comparação à evolução natural. Normalmente, quanto mais próxima no tempo for a separação, mais próximas são as culturas.

As raízes psicológicas da cultura podem explicar porque alguns hábitos mudam mais facilmente que outros. Algumas práticas colectivas possuem uma inércia enorme porque impõem um custo pessoal muito elevado ao primeiro indivíduo que tentar mudá-las (as religiões estão repletas de exemplos). Outras mudanças só são possíveis por um acordo tácito da própria comunidade (como passar a conduzir à direita em Inglaterra).

Mas as culturas mudam, por vezes, de forma drástica. No Ocidente actual, a preservação da cultura tradicional é considerada uma grande virtude. Porém, muitas culturas não têm a mesma opinião. Quando há uma percepção generalizada que um outro comportamento social é melhor que o tradicional, as culturas absorvem, plagiam, copiam elementos do exterior com uma velocidade surpreendente (a febre dos telemóveis em Portugal...). As culturas não são monólitos parados no tempo, são porosas, possuem uma dinâmica permanente. O mesmo se passa com a linguagem: apesar da eterna lamentação dos puristas e das ameaças das respectivas academias, nenhuma linguagem actual se manteve igual por cem anos. Também as cozinhas tradicionais possuem raízes muito superficiais: as batatas na Europa, os tomates na Itália ou as malaguetas na Índia vêm de plantas do Novo Mundo. [cont.]

setembro 20, 2004

Fronteiras V

Será o livre arbítrio a contingência do que (ainda) não sabemos?

setembro 17, 2004

Glossolalia

O episódio biblico da Torre de Babel relata como os descendentes de Noé desafiaram o poder de Deus, ao iniciar uma construção para atingir os céus. Para impedir tal esforço, Deus deu a cada homem uma lingua diferente, impossibilitando a comunicação e, assim, malogrando o projecto. Fica a dúvida de saber se o castigo se deveria ao pecado da soberba ou teve o intuito de minar a confiança do homem na sua própria capacidade. Mas o castigo trouxera algo positivo: a variedade linguistica destruida no Dilúvio. De um acto fanático de poder surgira uma semente de diversidade e uma renovada força. Não são os deuses a escrever direito por linhas tortas. Nós é que lemos qualquer tipo de folha.
A construção da Torre de Babel
A Torre de Babel - Peter Breugel

ps: Este mito, aparentemente, derivou da construção de um enorme zigurat, na cidade da Babilónia, cuja construção foi retida por uma insurgência social. No século VI a.C., o Rei Nabucodonosor concluiu a construção desse zigurat (tinha noventa metros de altura numa base de um hectare) terminando a famosa "Torre de Babel".

setembro 15, 2004

Contacto

O sentido só se obtém através de negociação e subsequente partilha. No nada só há ausência, no início só possibilidade. É na necessidade do outro que o meu se cumpre.

setembro 13, 2004

Forma

Magritte (1933)
A Resposta Imprevista - Magritte

Nem sempre a resposta é na forma dessa tua pergunta.

setembro 09, 2004

Back from the Future (IV)

Metropolis"Tudo começou com as unidades móveis de comunicação. Na espiral de mercado, esta tecnologia incorporou uma crescente gama de equipamentos que nada tinham a ver com o objectivo inicial de telefonar. As imagens em tempo real provocaram os primeiros impactos nas relações humanas mais instáveis, era agora possível exigir ao outro que mostrasse onde se encontrava num dado momento. Com a incorporação de sistemas de localização por satélite, o controlo tornou-se invisível e permanente. Alguém obsessivamente ciumento podia monitorar cada metro percorrido do conjugue. Mas o indivíduo ainda era capaz de desligar a sua unidade e tornar-se novamente anónimo. Não durou muito. Rapidamente, num contexto de combate ao medo e à crescente necessidade de segurança que permearam a vivência da sociedade de consumo dos séculos XXI e XXII, foram adoptados mecanismos biométricos generalizados (retina, DNA, padrões de feromonas). As unidades pessoais (cada cidadão estava obrigado por lei a usar uma) podia identificar a posição de todos que por ela se cruzavam ao mesmo tempo que controlava a situação do seu proprietário. A vantagem? Qualquer acidente, qualquer violência ou problema era instantaneamente assinalado e identificado. A corrupção e o crime quase desapareceram. A desvantagem? Mesmo desligando a própria unidade, já não se podia fugir ao 'controle protector' da sociedade. As poucas críticas que se levantaram, as Cassandras do seu tempo, não tiveram (nunca têm) suficiente força. Depois de duas, três gerações, o sistema de protecção tornou-se padrão, o cordão umbilical que a maioria temia perder. Muitos turistas, visitantes de locais inóspitos, sofriam a privação desse véu de segurança ubíquo que os mantinha seguros na Europa, na América, no Japão ou na China desenvolvida. [...] Em 1948, George Orwell escreveu um romance sobre uma sociedade omnipresente, baseada numa tecnologia de controle capaz de esmagar a liberdade individual para motivar valores e objectivos colectivos. Cento e cinquenta anos depois, por um caminho diferente do temido por Orwell (a via do totalitarismo), os cidadãos do Primeiro Mundo encontraram-se num cenário demasiado semelhante. Só que o caminho foi demasiado suave. Cada alteração, cada porta agora aberta, fora suficiente lenta para ocorrer despercebida. Como a face que não se olha ao espelho até nele ver o rosto do horror." - Sinh Naltaen, "O Degenerar da Segurança: 2001-2193", 2ª Ed.

setembro 08, 2004

Aos Georges Bushes (XI)

Alimentar o medo tem efeitos inesperados. O medo é menos dócil que um leão enfurecido.

setembro 06, 2004

Comparações

A Fé está para a Eucaristia como a Ética para a Justiça. Sem a primeira, a segunda nada significa.

setembro 03, 2004

Erros nossos

Nós como Humanidade temos a subtil missão de cometer todos os erros possíveis, sejam eles de mão, mente ou coração. A tragédia é não falarmos uns com os outros para que não ocorram mais de uma vez.

setembro 01, 2004

Necessidades

Uma enciclopédia é um edifício de explicações cujas entradas se constróem de entradas mais antigas. Um dicionário é uma rede de significados onde cada termo altera subtilmente termos próximos e opostos. A enciclopédia, uma síntese, um efeito dominó de ignorância e erro humano. O dicionário, um labirinto que se sustenta a si próprio, para sempre e irremediavelmente incoerente. Fazem-me tanta falta os dois...

agosto 30, 2004

Restos

A História são as sobras que o Homem salva do esquecimento de si próprio. Depois dos deuses, da alma, da centralidade, querer matá-la é desistir da imortalidade que nos resta.

julho 28, 2004

Um ano de Ruminações

Nos últimos tempos li/reli quatro livros cuja temática é a restrição da liberdade individual face à arbitrariedade de um colectivo mais ou menos abstracto. Estes livros são:
  • 1984 de George Orwell. A vida de Winston Smith num regime ditatorial que absorveu todos os aspectos públicos e privados dos seus habitantes."It was terribly dangerous to let your thoughts wander when you were in any public place or within range of a telescreen. The smallest thing could give you away. A nervous tic, an unconscious look of anxiety, a habit of muttering to yourself—anything that carried with it the suggestion of abnormality, of having something to hide."
  • Fahrenheit 451 de Ray Bradbury. O despertar de Guy Montag de um mundo de conteúdo simplificado onde livros são objectos para queimar. "Give the people contests they win by remembering the words to more popular songs.... Don't give them slippery stuff like philosophy or sociology to tie things up with. That way lies melancholy."
  • O Processo de Franz Kafka. Joseph K. vê-se como réu de um processo judicial que não entende. "Não é necessário aceitar tudo como verdadeiro mas apenas aceitar aquilo que é necessário."
  • Darkess at Noon ("O Zero e o Infinito" nas Ed. Europa-América) de Arthur Koestler. Nicholas Rubashov é um membro da velha guarda revolucionária da União Soviética (este livro é o único dos quatro que ocorre num país concreto e trata de acontecimentos verídicos mesmo que ficcionados) que se vê enredado nas purgas estalinistas dos anos 30. "A sua tarefa é simples: dourar o que é certo, enegrecer o que está errado. A política da oposição está errada. A sua tarefa é, pois, fazer com que a oposição se torne desprezível; fazer com que as massas compreendam que a oposição é um crime e que os dirigentes da oposição são criminosos. É esta a linguagem simples que as nossas massas compreendem. Se começar a falar das suas complicadas motivações, só conseguirá criar confusão nos espíritos."
Os mundos descritos, desde Kafka até Koestler, são visões pessimistas de um futuro que não ocorreu ou que falhou. A liberdade individual (numa grande parte do planeta...) tem sobrevivido a guerras mundiais, a regimes totalitários, à corrupção, à ignorância, à indiferença. Protegem-nos a democracia, o estado de direito, a justiça, a liberdade de expressão cuja filha mais recente é a blogoesfera. E nesta, mesmo imersa em lixo e desinformação, é difícil esconder o seu pulsar de originalidade, de novas ideias e pontos de vista, de prosa, poesia, imagens, informação, de atenção ao que a rodeia. Nem tudo são pesadelos de prisões ou promessas de fronteiras. Aqui construímos horizontes e canções sobre esses horizontes.

julho 26, 2004

Não se pode provar uma negativa universal? (parte II)

Os cientistas preferem as explicações naturais à sobrenaturais, não devido a um preconceito metafísico, mas porque as explicações naturais produzem um melhor entendimento do que nos rodeia. Como Platão disse, dizer que foi Deus não é explicar, é apenas uma desculpa por não ter uma explicação. A eficácia de uma explicação é determinada pela forma como sistematiza e unifica o nosso conhecimento. A extensão desta sistematização é medida por diversos critérios como a simplicidade (o número de asserções que faz), conservadorismo (se se encaixa nas teorias naturais vigentes) e utilidade (se faz novas predições com sucesso).

Explicações sobrenaturais são inerentemente inferiores às naturais. Por exemplo, são menos simples porque assumem a existência de entidades sobrenaturais (fantasmas, poltergeist, anjos, deuses, relações não triviais como na astrologia); não explicam os fenómenos de forma conveniente, produzindo mais perguntas que respostas; são menos conservativas porque é normal violarem leis naturais; não são úteis porque não são aptas para preverem acontecimentos novos. Por isso os cientistas as evitam.

[...] E se não existir uma razão natural plausível para algum fenómeno? Poderá isso justificar a existência de Deus? A nossa incapacidade para encontrar uma explicação conveniente pode simplesmente ser devido à nossa ignorância sobre o funcionamento das leis naturais. Muitos fenómenos que já tiveram explicações sobrenaturais como vulcões, terramotos e doenças são agora entendidos como fenómenos naturais. Como Santo Agostinho entendeu, os milagres não são contrários à Natureza, são contrários ao nosso conhecimento da Natureza.

Dada a inferioridade das explicações sobrenaturais e a incompletude do nosso conhecimento, os teístas apenas deveriam oferecer uma explicação sobrenatural de um fenómeno se conseguissem provar ser impossível encontrar uma explicação natural para o mesmo. Ou seja, para invalidar a prova científica da não-existência de Deus, os teístas têm de provar uma negativa universal: que nenhuma explicação natural para o fenómeno pode ser encontrada. E isso, acredito, é uma negativa universal que nenhum teísta será capaz de encontrar.

julho 23, 2004

Big Brother?

Microscopias
Preocupam-me mais os Little Brothers

julho 21, 2004

Fronteiras IV

Felizmente que muitos de nós concordam que excesso de certezas, abuso de preconceitos e intolerância aos outros que diferentes é mau e produz péssimos resultados. Mas não largues tudo. Escolhe com cuidado porque nem tudo é relativo, há ideias a serem defendidas e há quem não mereça confiança. Manter a mente aberta é bom mas que não ta caia ao chão por ser grande a janela.

julho 20, 2004

Não se pode provar uma negativa universal? (parte I)

(traduzido do artigo Can Science Prove that God Does Not Exist? de Theodore Schick, Jr. Free Inquiry magazine, Vol. 21, 1. )

"Não se pode provar uma negativa universal" é a resposta típica para afirmar que a Ciência não pode provar que Deus não existe. Uma negativa universal é uma afirmação que algo não existe em lado algum. Como não é possível examinar todo o Universo (segue o argumento) não se pode provar conclusivamente a não-existência de algo. No entanto, o princípio que não se pode provar uma negativa universal é uma negativa universal. Ele afirma que não existem provas de negativas universais. Mas se não há provas, então ninguém pode provar que não se pode provar negativas universais! E se ninguém pode provar que não se pode provar, então é logicamente admissível que se pode provar uma negativa universal. Assim, este princípio auto-refuta-se: se é verdadeiro, é falso.

De facto existem muitas negativas universais que foram provadas. Parmenides (há 2500 anos) afirmou que não podem existir contradições lógicas: não há solteiros casados, nenhum circulo é quadrado, e não existe o maior número porque estas noções são contraditórias. Elas violam a mais fundamental lei lógica: a lei da não-contradição (nada pode ter e não ter uma dada propriedade). Uma forma de provar uma negativa universal é provar que uma dada noção é contraditória (também se designa inconsistente). Para provar que Deus não existe, basta demonstrar que a concepção de Deus é inconsistente:
  • O teísmo tradicional define Deus como o ser supremo, do qual não se pode conceber maior, como Santo Agostinho disse. Sabemos que não existe um número supremo X - se existisse, o número 2^X era um número maior (contradição). Muitos acreditam que a noção de um ser supremo é análoga ao de um número supremo.
  • Outros (o cristianismo, por exemplo) afirmam que Deus é perfeitamente justo e misericordioso. Se é perfeitamente justo, todos terão o que merecem. Se é perfeitamente misericordioso, perdoará a todos. Mas não parece ser possível ser as duas coisas. Assim, esta noção pode ser inconsistente.

Estão são apenas algumas inconsistências encontradas nas definições tradicionais de Deus. [...] Os teístas afirmarão que se estas noções forem bem entendidas não existe contradição lógica. E se tiverem razão? Se for logicamente possível existir Deus? Será que isso implica que não se pode provar a inexistência de Deus? Não, para provar que algo não existe basta provar que é epistimologicamente desnecessário, ou seja, que esse algo não é necessário para provar nada. A Ciência tem provado a não-existência de vários conceitos desta forma, como o flogisto, o éter e o planeta Vulcão. As provas cientificas não são como as provas lógicas, não precisam estabelecer as suas conclusões para lá de qualquer dúvida. Basta que as suas conclusões estejam para lá de qualquer dúvida razoável, sendo justificação suficiente para lhes dar valor.

O flogisto, o éter e o planeta Vulcão são entidades teóricas postuladas para explicar certos fenómenos. O flogisto foi usado para explicar o calor, o éter para justificar a propagação da luz através do espaço, e Vulcão para acertar as perturbações da órbita de Mercúrio. A Ciência, desde então, mostrou que os respectivos fenómenos podem ser explicados sem invocar estes conceitos. Ao demonstrar a sua inutilidade, ficou provada a sua inexistência.

Deus é uma entidade teórica postulada pelos teístas para explicar diversos fenómenos, como a origem e o desenho do Universo ou a origem da vida. A Ciência moderna prossegue o seu caminho para explicar todos estes fenómenos sem a ajuda de Deus. Como Laplace disse ao Czar da Rússia: "não preciso dessa hipótese". Ao provar que Deus não é necessário para explicar nada, a Ciência mostra que há tanta razão para acreditar em Deus, como para acreditar no flogisto, no éter ou em Vulcão. [cont.]

julho 16, 2004

Ecos

Habituámo-nos ao convívio das máquinas até ao ponto de estruturarem a sociedade. Esta impressão de normalidade chega mesmo ao afecto (pelo carro, computador, telemóvel). Procuramos agora recheá-las de raciocínio e emoção mecânica. Mas o mundo da máquina é o do inorgânico: o padrão da repetição, da geometria do constante, da obstinação gelada do imutável. De facto, toda a evolução do mundo orgânico procurou afastar-se deste deserto. Vivemos rodeados por ecos de fracassos: vírus, bactérias, insectos.

julho 15, 2004

Pontos de vista

Serão as características intersecção casual de matéria e oportunidade aos olhos do observador? Se a alma de uma flor ou da Vénus de Milo estão em ti, onde se encontra a tua?

julho 13, 2004

Geração

Decidi procurar na Internet informação sobre massacres a civis pós-Holocausto. Sabia que haveria muitos mas não sabia que eram tantos. Deixo aqui uma lista - certamente incompleta - dos eventos que produziram a morte a mais de dez mil civis. Os números desta lista são aproximações muito grosseiras (e não necessariamente fiáveis) dos verdadeiros números que, por sua vez, são aproximações grosseiras da realidade das vidas que se perderam. Sinceramente não sei se o pior da tragédia é o mal que provoca ou a indiferença que gera.

Bolívia 1955-67 Conflito com a Guerrilha 200,000 mortos civis
Chile 1974 Execuções da Junta Militar 20,000 mortos civis
Colômbia 1949-62 Liberais vs. Conservadores 200,000 mortos civis
Colômbia 1970s-90s Governo vs. Guerrilha Comunista 120,000 mortos civis
Guatemala 1966-89 Governo vs. URNG 100,000 mortos civis
Nicarágua 1978-79 Guerra Civil 40,000 mortos civis
Peru 1981-89 Sendero Luminoso 20,000 mortos civis
Peru 19?? Comissão da Paz e Reconciliação 60,000 mortos civis
Egipto/Israel 1967-70 Guerra dos Seis Dias e pós-guerra 50,000 mortos civis
Síria 1981 Massacre pelo Governo da Irmandade islâmica de Hamah 10,000 mortos civis
Turquia 1984-89 Governo vs. Partido Trabalhista Curdo 10,000 mortos civis
Bangladesh 1971 Guerra civil, intervenção Indiana 1,000,000 mortos civis
Iraque 1960s-1980s Massacre dos Curdos 100,000 mortos civis
Iraque 1991 Guerra com EUA 100,000 mortos civis(?)
Iraque 2003/4 Guerra com EUA 10,000 mortos civis
Guerra Irão/Iraque 1980s 1,000,000 mortos civis
Índia 1946-48 Processo de Partição 800,000 mortos civis
Índia 1965 Índia vs. Paquistão 13,000 mortos civis
Afeganistão 1980s,90s Guerras continuas 1,000,000 mortos civis
Tadjiquistão 1992 Guerra Civil 60,000 mortos civis
Tchechénia 1990s Conflito com Rússia 30,000 mortos civis
Camboja 1975-78 Governo de Pol Pot 2,000,000 mortos civis
Camboja 1978-90 Invasão Vietname e guerra civil 20,000 mortos civis
China 1946-50 Guerra civil 5,000,000 mortos civis
China 1949-54 Reforma Agrária 4,500,000 mortos civis
China 1949-54 Supressão da contra-revolução 3,000,000 mortos civis
China 1965-75 Revolução Cultural 1,613,000 mortos civis
Indonésia 1965-66 Massacres relacionados com golpe de estado 500,000 mortos civis
Indonésia 1975-89 Anexação de Timor Leste 90,000 mortos civis
Sri Lanka 19??-hoje Conflito governo - Tigres Tamil 50,000 mortos civis
Coreias 1950-53 Guerra da Coreia 3,000,000 mortos civis
Laos 1960-73 Guerra Civil, conflito com Indónesia 12,000 mortos civis
Laos 1975-87 Governo vs Frente Libertação Nacional 30,000 mortos civis
Filipinas 1972-87 Governo vs. Movimento Muçulmano (MNLF, MILF) 20,000 mortos civis
Vietname 1945-54 Guerra da Independência com França 300,000 mortos civis
Vietname 1960-75 Guerra com EUA 1,200,000 mortos civis
Angola 1961-75 Guerra da Independência com Portugal 300,000 mortos civis
Angola 1980-88 Guerra civil 500,000 mortos civis
Algéria 1992-2002 Governo vs. FIS e GIA 100,000 mortos civis
Burundi 1972 Hutus vs. Governo 80,000 mortos civis
Burundi 1988 Hutus vs. Governo 200,000 mortos civis
Nigéria 1967-70 Guerra Civil 1,000,000 mortos civis
Ruanda 1956-65 Tutsis vs. Governo 102,000 mortos civis
Ruanda 1995 Hutu vs Tutsi 1,050,000 mortos civis
Somália 1990-93 Guerra civil 250,000 mortos civis
Sudão 1955-hoje Guerra Civil 1,900,000 mortos civis
Uganda 1971-78 Massacres Idi Amin 300,000 mortos civis
Uganda 1981-85 Massacres Governo Obote 300,000 mortos civis
Uganda 1981-89 Resistência Nacional vs. Governo 100,000 mortos civis
Congo 1960-64 Conflito de Independência(?) 100,000 mortos civis
Congo 1998-hoje Guerra civil 3,000,000 mortos civis
Jugoslávia 1990s Guerra civil 300,000 mortos civis

Principais fontes: [1,2]