maio 18, 2004

Encontro

Vermeer
Vermeer - Mulher lendo uma carta

Coberta de expectativa ou surpresa, uma carta é expressão de um momento, de um desejo, de um relato. Mensagem que redime o mensageiro, ideia que se lê, intenção que se escreve, memória retida no silêncio desse triplo encontro.

maio 17, 2004

Fluxo

A cada dia acumulamos diferenças que nos alteram. Cada um de nós é um somatório de passados sobrepostos numa série de contigências até este preciso segundo. Talvez explique porque muitas relações não funcionam ao fim de uns anos: quem se juntou já não existe. Somos outros a manter compromissos de outrora.

maio 13, 2004

Ao racista interessado:

O sexo não surgiu para a reprodução. Muitos seres vivos multiplicam-se sozinhos desde há milhares de milhões de anos. O sexo existe para a mistura.

maio 11, 2004

Fronteiras I

Tudo na fronteira é aversão às tensões que a delimitam.

maio 10, 2004

O Ovo da Serpente

Ingmar Bergman realizou, em 1977, "The Serpent's Egg" sobre Abel Rosenberg, um americano que vai viver na Alemanha dos anos 20. Rosenberg apercebe-se da estranha direcção que a nação Alemã parece seguir. Um dos personagens descreve essa estranheza como o ovo da serpente. Inofensivo porém transparente o ovo mostra, a quem o observar, o animal que germina dentro de si. Uma promessa por cumprir. À espera.

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Há 71 anos, no dia 10 de Maio de 1933, em Berlim e noutras cidades várias universidades juntaram pilhas de livros caídos em desgraça pela serpente nazi que enredava lentamente todos os poderes da frágil República Alemã. Esses livros serviram para alimentar enormes fogueiras e discursos que arderam nessa noite. Hitler e o NSDAP tinham acedido ao poder há pouco mais de dois meses. Há três semanas que o novo chanceler alemão dispunha de poder ditatorial. A serpente saíra do ovo e crescia. O pouco que antes havia para resolver transformar-se-ia num Inferno lavrado por dezenas de milhões de mortos.

maio 06, 2004

Aos Georges Bushes (X)

Que seria da virtude sem o vício? Num mundo sem sexo como exerceria o casto a sua hipocrisia?

maio 04, 2004

Diferenças

Os dias correm e limitamo-nos a correr atrás deles. Passamos o tempo a reagir perante o mundo, somos solucionadores de uma sequência infindável de pequenos e grandes problemas. Aprendemos e planeamos para melhorar as respostas, reagimos em conformidade, gerimos as crises dos erros cometidos. Deste limitado ponto de vista, o que nos destingue? Qualquer animal relativamente evoluído é capaz de reagir, aprender, planear. Não é difícil observar uma progressão de capacidades desde os répteis até aos mamíferos, dos Primatas aos Humanos. Deste limitado ponto de vista, existe uma diferença quantitativa do Homo Sapiens em relação às restantes espécies: aprendemos mais, planeamos melhor, aperfeiçoámos a linguagem com a invenção da escrita, construímos sociedades e culturas mais complexas.

Existe igualmente uma diferença qualitativa: a consciência do eu, a análise dos próprios comportamentos, a capacidade de auto-crítica. Esta diferença não serve para responder a perguntas mas para questionar essas mesmas perguntas. Sem ela, é conveniente aceitar a moralidade imposta pela sociedade. É preferível não reler o que já vem acompanhado por algo parecido a uma resposta. É fácil acreditar no branco/preto, no que nos dizem que é certo ou errado, no bom e no mau, o que deve ser ou não censurado.

É verdade que para vivermos em democracia existe a aceitação implícita de um contrato social: cada um de nós transfere um pouco dos seus possíveis para vivermos segundo um padrão de direitos partilhados. Mas nesta transferência não se tem de passar o "eu" para a sociedade. A Ética individual não se esvai na moral actual (que tanto muda). A crítica não tem de parar na convenção do que é errado. O olhar não deve reflectir-se no verniz dos preconceitos. Esse esforço, o esforço que realmente nos destingue dos animais é nosso, nunca dos outros. É um preço demasiado alto a pagar quando decidimos encher de ócio, tédio ou ódio o que nos sobra destes dias que tanto correm.

maio 03, 2004

Viagens

Luis Bacharel - Nocturna, a máquina fantástica
Luis Bacharel - Nocturna, a máquina fantástica

Cada viagem desejada é uma promessa de passado a guardar no futuro. Há aquelas a cumprir na chegada ao destino e há outras a criar no caminho percorrido. Ainda há as que não interessa para onde ou por onde se vai mas como se fazem. É quando o Horizonte se torna mais belo.

abril 30, 2004

Aos Georges Bushes (IX)

A liberdade é muito pesada. Por isso se persiste na ignorância, na arrogância, na invenção de deus. Como se ensina a uma criança que há limites no possível, que não se pode ganhar sempre, a morte?

abril 28, 2004

De facto...

Ontem em conversa com jars, ele comentou sobre o programa SETI da NASA de busca de inteligência extraterrestre que, olhando para a nossa espécie, mais valia ter procurado estupidez extraterrestre que deve ser muito mais comum.

abril 27, 2004

Keep walking

Walking Man - Giacometti(1960)

Diz-se que a produtividade é a distância percorrida, não o número de passos dado. E a direcção do caminho? Não interessa?

abril 26, 2004

Aprender

Aprender da escola a ler, contar e pensar. Dito assim, parece fácil a tarefa de aluno e professor. Mas ler não é só ler. É escrever e criar nessas mesmas palavras, é interpretar os outros, procurar sentidos, resolver e desenhar ambiguidades. Mas contar não é só contar. É ver além dos números, descobrir padrões, abstrair o Mundo nas suas invariantes, ver o geral na floresta dos particulares. Mas pensar não é só pensar. É reconhecer o passado das ideias, os caminhos percorridos por magníficos fracassos, é aprender a argumentar e a admitir que se está errado, é beber da ética dos direitos e deveres para saciar a consciência. Dito assim, do fácil pouco sobra neste curto intervalo de escola e vida.

abril 22, 2004

Implicações

O mundo é demasiado complexo para ser inteiramente expresso em qualquer linguagem. Por isso as linguagens refugiam-se na ambiguidade. Daqui decorre que a expressão da Lei esteja sempre à distância do espirito da Lei. Deste intervalo vivem advogados e chico-espertos. E outros.

abril 21, 2004

"There is a crack in everything, that's how the light gets in"

É daquelas citações que perdemos o rasto quando a memória falha. Reencontrei-a na Praia. De Leonard Cohen.

abril 19, 2004

O Gosto Solitário do Orvalho

Quatro seitas
O mesmo sono
sob a lua cheia

Matsuo Banshô (1644-1694)

abril 16, 2004

Reflexos

O Império da Luz - Magritte

Um dia noite, uma noite ainda de dia. A irrealidade da memória traduzida em imagem, reflexo de luz. Partes perdidas, outras talvez nessa estranha casa familiar do meu inconsciente. A mesma luz, a mesma cor ofusca os sentidos que me restam. Se os sonhos são reflexos de memória, eu acordado sou espelho de quê?

abril 15, 2004

Distância

O fascínio do inexplicável reside na distância a que se encontra. Qual o interesse da resposta pronta, vestida de atalho, que a religião oferece?

abril 14, 2004

Aos Georges Bushes (VIII)

"As diferenças?"
"O simples não é básico, o complexo não é complicado."
"O que faço das respostas básicas a perguntas complexas?"
"Desconfia."
"E respostas simples a perguntas complicadas?"
"Escuta."

abril 12, 2004

Raízes

Quando a mensagem do Cristianismo saiu da Palestina para o Mundo, as suas implicações foram sendo questionadas por sábios de outras terras. A missão de evangelizar necessitava de um conjunto de conceitos mais elaborados, de uma Revelação melhor explicada. Era evidente que esta nova fé levantava uma série de questões metafísicas, éticas, cosmológicas que precisavam de resposta. Por sorte, quase tudo já tinha sido tratado pelas velhas escolas pagãs da ciência e filosofia que marcavam o conhecimento do Império Romano (para onde o Cristianismo se expandiu). Muitos dos novos convertidos, detentores de alguma educação, eram formados pelos quadros conceptuais dessas escolas, principalmente pelo Estoicismo (fundada por Zenão de Cítia no Século IV a.C.) que promovia uma doutrina moral onde se propunha suportar a dor e a infelicidade para atingir a felicidade através da razão e da fé nessa razão. A doutrina era baseada numa visão da Natureza como um todo imanente, onde as partes colaboravam num determinado sentido (eventualmente incognoscível). Os Estóicos teriam, assim, sido formados num contexto que lhes disponha favoravelmente a aceitar a Verdade Cristã. Foram convertidos e conversores:
  • O Evangelho de São João começa com "No início era o Logos" (que significa razão, palavra), desde há muito uma das palavras chaves do Estoicismo para explicar como a divindade iniciou a sua relação com o universo.

  • Outro conceito Estóico adoptado foi o "Espírito Santo". Este termo surgiu no desenvolvimento do conceito de "fogo criativo" de Zenão, denominado por um seu discípulo de pneuma ou espírito. Este espirito era uma emanência de Deus no universo, condensado em alma no ser humano.

  • Um outro contacto reside no conceito de Trindade: Pai, Logos e Espirito eram todos nomes estóicos para a unidade de Deus.

  • A progenidade de Deus em relação aos homens e a consequência de sermos todos irmãos, era igualmente uma noção estóica (referido por São Paulo nos Actos dos Apóstolos, 17:28).

  • Até alguns comportamentos dos seus seguidores são semelhantes: o ascetismo, o afastamento da sociedade para melhor meditar eram efectuados por professores estóicos que depois foram imitados pelos seus equivalentes cristãos. Herdaram-se termos: o que praticava auto-controlo era um "ascetic"; aquele que se afastava do mundo era um "monachi" sendo o local de retiro denominado "monasterium".
Como curiosidade final, os Estóicos chamavam por vezes ao Universo a Cidade de Deus. Foi este o título da magna obra de Santo Agostinho (Civitas Dei), um dos maiores teólogos da Igreja. (adaptado de um texto de Maxwell Staniforth)

abril 06, 2004

Correlação

A inércia de um preconceito é proporcional ao número de pessoas que nele acreditam.

abril 05, 2004

Palimpsesto

As cidades crescem nas ruínas do passado, camada sobre camada de esquecimento e História. De igual modo as religiões - diferentes reflexos dessa fé que dificilmente se mostra - crescem sobre o antigo sagrado agora profano. O sangue que correu para mudar de espelho.

abril 01, 2004

Os blogs também

(c) Bill Waterson

março 31, 2004

Sedna, ou, Como se passa de 9 para 8 planetas descobrindo outro

Sedna é o objecto mais distante do Sistema Solar jamais observado (a imagem da esquerda mostra a orbita do planeta em relação ao resto do sistema solar). A temperatura estimada à superfície deste corpo celeste é tão baixa (cerca de -240ºC) que o nome escolhido no baptismo foi a da deusa (imagem da direita) das criaturas marinhas dos esquimós Inuit.

A sua descoberta veio equacionar novamente qual a definição de planeta. Este conceito pode ser analisado sobre diversos critérios: 1) Um planeta é um corpo esférico? O Sol também é, (2) É um corpo que absorve mais energia do que aquela que emite? Nesse caso, Jupiter e Saturno não seriam planetas. (3) É um corpo com uma massa dentro de um intervalo [X,Y]? Esta parece ser a forma "menos má" de classificar planetas. Por um lado temos o problema das fronteiras (e se aparece um corpo com X menos 1 grama? Já não é planeta?) bem como existirem satélites maiores que corpos ditos planetas (por exemplo, a Lua é maior que Plutão).

Este conceito não é essencial para a Ciência mas é conveniente haver um termo relativamente objectivo para classificar os corpos do Sistema Solar (planetas, satélites, planetóides, asteróides...). Muitos cientistas consideram que Plutão não é um planeta (bem como Sedna). A descoberta de Sedna vem colocar novamente a questão que não são dez os planetas que orbitam em redor do Sol, nem sequer são nove, são oito.

março 30, 2004

Posse

Propriedade. A noção requer dois lados, relação que a cultura (e o código moral que dela emana) regem nos seus possíveis. Hoje é o que é. Mas qual o lado que possui? Eu às coisas? A coisas a mim?

março 29, 2004

Novo ponto na Blogoesfera

Um dicionário de silêncios. Eis um projecto que tanto quanto sei ainda não se fizera. Apesar de desconhecer os motivos dessa ausência, eu e o João do Estranho Amor iniciámos um.

Há silêncios que não se perdem se os quebrarmos. Espero que este assim seja.

[adenda, Julho 2009] O Dicionário de Silêncios terminou em Março de 2006. Parte do seu conteúdo, os 100 contos finais, estão a ser revistos e republicados no blog Soslaio.

Fenómenos e Interpretações

A Ciência é diferente das outras explicações do Universo. Quando se argumenta sobre este assunto é necessário separar o fenómeno da explicação do mesmo. Por exemplo, não se deve discutir os sintomas da "possessão diabólica". Em certos casos, eles existem e é inútil colocá-los em causa. A Ciência pode tentar explicá-los (uma disfunção psico-somática como a epilepsia, talvez uma reacção pós-traumática) apesar de não garantir mais que uma aproximação da verdade. Já a explicação popular nascida na Religião medieval (Satã) é infantil, supersticiosa e errada. É aqui que se deve centrar o esforço da desmistificação.

março 25, 2004

Escolhas

A Religião fornece réplicas, adornos numa cidade já construída. A Ciência dá respostas, tijolos num deserto infinito.

março 24, 2004

Simplificações

Muito da Filosofia, da Ciência, da Religião baseia-se em ideias simples de enunciar. Porque são necessários tantos livros, tantos argumentos? Deve ser possível explicar o conceito de romance num único parágrafo, mas substituiria isso a minha biblioteca?

março 23, 2004

Dissecação


O livro de jogos de Alfonso X (Rei de Castilha e Leão, 1221-1284) e um campeonato do mundo de xadrez no início deste milénio. A evolução de um jogo que acompanha a nossa História sobre um curioso azul de fundo. No século XIII o xadrez era um universo por explorar. Hoje é um quase deserto de descobertas, dissecado por gerações de génios e softwares especializados.

março 22, 2004

Dicotomias

A dúvida. Fonte que alimenta a Ciência e angustia a Fé. Em ambas é possível usar a razão para lidar com ela. Ou a fogueira.