A Linguagem Verde
Numéricos - A Gematria, o mapeamento das letras Hebraicas a valores numéricos que resultava num número inteiro para cada palavra. Estes números, dado o Hebraico ser o reflexo mais puro da lingua Adâmica, evidenciava relações ocultas entre conceitos aparentemente separados. Um exemplo, Cristo era considerado o receptáculo da paz, dado ambas as expressões serem associadas ao número 801.
Geométricos - A árvore Sefirótica é um grafo de dez nós, existindo 22 caminhos diferentes entre o nó superior e o inferior. Assim, em alguns textos, 22 também representa a árvore da sabedoria.
Sintáticos - onde uma palavra, frase ou dito que normalmente significaria uma coisa, podia significar outra tendo em conta o contexto comum do escritor e do leitor alvo com toda a Tradição supostamente partilhada. Este género de desvio pode ser difícil ou mesmo impossível de detectar nos dias de hoje. A História é a parte sobrevivente da imensidão contextual do Passado. Um exemplo: A linguagem dos passáros também se chamava "a linguagem verde". Porquê? Em Francês, verde é vert. E vert é como termina ouvert (aberto). Ao remover o prefixo, existe uma inversão semântica do significado (como nos prefixos 'des', 'a' ou 'in'). Logo vert que para o leigo significa verde, também significa para o iniciado o contrário de aberto. Assim, a linguagem verde quer dizer a linguagem fechada (a linguagem secreta).
Um dos motivos para este entrecruzar de significados pelos mágicos e alquimistas deveu-se aos processos inquisitoriais da Igreja. Assim, muitas coisas (com valor histórico, raramente científico) estarão escondidas nesses livros esotéricos. O problema é existirem milhares de formas diferentes de interpretar as mesmas frases. Uma vez perdido o século para o qual o texto nasceu, perderam-se essas camadas debaixo do verniz da aparência.


"A digitalização do conhecimento iniciou-se nas últimas décadas do Século XX com a proliferação de protocolos para codificar as diferentes actividades Humanas (literatura, música, imagens, algoritmia, hologramia). Há medida que o corpo do saber Humano ocupava Exabytes, as primeiras ferramentas de acesso a essa informação eram manifestamente passivas (meros leitores e gravadores). O comércio informal de cópias não autorizadas era considerado um problema sério, apesar de se ter mantido numa margem que garantia suficientes lucros para a contínua produção de criações originais [...]


"Depois de 2032, a integração de câmaras digitais para substituir os olhos dos cegos tornou-se prática comum. O sucesso desta tecnologia deveu-se, acima de tudo, à compreensão da interface que o nervo óptico estabelece entre o sistema ocular e o cérebro. Agora, quase quatro Séculos depois, compreende-se a falha generalizada da ciência da época. É impossível dissecar a estrutura neuronal e sináptica do sistema nervoso central. É inútil deduzir a partir de um sistema dinâmico e da complexidade inerente, o intricado e subtil caminho que resulta na mente Humana. Apenas restou entender como se interage no Mundo, como funcionam os sentidos que relatam uma diminuta faceta da Realidade, como melhorar essas deficientes estruturas (por exemplo, o olhar e a audição) até níveis não imaginados no Século XXI, e - principalmente - como criar novos sentidos (entre os que actualmente possuímos). Foi a partir desta motivação, do quarto passo atrás dado pelo antropocentrismo - depois do advento da Física Moderna na Renascença, da evolução Darwinista do Século XIX e da Psicologia do Século XX - a agora designada Neo-Cibernética estabeleceu que a capacidade de aprendizagem pode transgredir os limites fixados pela Natureza sem ser necessário compreender exactamente a forma como a própria aprendizagem se realiza. [...] o conceito de cyborg deixou de ser assombrado pela violação do corpo pelo metal, pela desagregação do Eu orgânico face ao digital, pela dissolução da invariante psicológica que nos define. [...]" - Introdução à 7ª Edição do "Reser Cyborg"

"[...] e assim, em dezembro de 25, foi efectuada a primeira teletransmissão com sucesso de um mamífero inferior que viajou de Nova Yorque até Paris em alguns milésimos de segundo. Não se verificaram nenhuns dos nocivos efeitos secundários que teimavam em surgir nas experiências passadas, como profundas disfunções comportamentais ou cancros malignos da mais variada ordem. [...] desde então, o progresso tecnológico foi imenso. Voluntários humanos experimentaram a sensação de serem reposicionados num outro canto do globo em meros instantes. Nenhuma alteração psicossomática tem sido observada. Na nossa década, até os críticos mais cerrados foram obrigados a admitir: o teletransporte era mais do que uma possibilidade teórica, era uma realidade operacional! [...] A revolução dos transportes não se fez esperar. Uma viagem para as colónias marcianas demora hoje pouco mais de vinte minutos para quem a observa e é instantânea para o viajante. [...] O processo de transmissão passa pela análise atómica do sujeito, pela sua codificação e envio do sinal até ao posto receptor. [...] foi essencialmente neste processo que surgiram os maiores preconceitos. O sujeito não é efectivamente transportado. É antes transformado em informação, sendo restituído por um outro conjunto de átomos disponíveis no destino. O original é duplicado, imediatamente destruído e a matéria prima reciclada. As implicações para a sociedade desta nova visão do Homem ainda são imprevisíveis e será, sem dúvida, um dos mais apaixonantes temas de debate dos próximos anos. No entanto, o autor não é capaz de deixar de pensar sobre uma questão que já teima nos nossos espíritos: O que aconteceria se o original não fosse destruído?"