fevereiro 26, 2004

Pipotrão

Acedam a uma excelente ferramenta para reforçar a dimensão de discursos políticos - o Pipotrão. Alguns exemplos:
  • Onde quer que nos leve o panorama deste início de século, não se pode abdicar de debater a soma das respostas já ao nosso dispor.

  • Confrontados com a inércia da sociedade, é necessário estudar todas as acções razoáveis.

  • Tendo em vista o panorama dos últimos tempos, não é possível passar sem ocupar a nossa mente com a totalidade das opções justas.

  • Com o estado das coisas actual, temos a obrigação de estudar a maioria das saídas sensatas.
  • O Calvin, ao que parece, descobriu um caminho semelhante:

    fevereiro 25, 2004

    Aos Georges Bushes (V)

    Quando te olhares ao espelho não esqueças Procustes, que mutilava as vítimas ajustando-as às dimensões da mesma cama.

    fevereiro 24, 2004

    Caminho

    Não se pode estar sempre feliz. Nem infeliz (felizmente). Na dor a esperança, no prazer a memória, na intensidade o instante, servem para relembrar-nos disso. Toda a procura de excesso é um atalho para a morte. Mas quem não quer lá chegar?

    fevereiro 20, 2004

    Viagem IX

    A Lua e a Terra
    A face iluminada da Lua (a 3800 Km) surge enquanto a Terra, tão silenciosa a esta distância, começa a mostrar o Sol. Entre estes corpos, vislumbram-se Mercúrio e Vénus.

    Lua é o nome latino de Selena, a deusa grega favorita da maioria dos poetas. Na realidade, é um planeta sem atmosfera, sem vida e sem actividade geológica. Porém, há quem considere que foi essencial no desenvolvimento da vida, com a sua influência gravítica sobre a Terra (que produz o fenómeno das marés - atenção, nada de astrologia!). O website Bad Astronomy apresenta informação relevante sobre a Lua (e sobre a astronomia em geral) desmistificando um conjunto de lugares comuns.

    fevereiro 18, 2004

    Aos Georges Bushes (IV)

    Uma das vantagens do real ser complexo é que ninguém é insubstituível. Há sempre outros com soluções distintas para o mesmo problema que com tanto afinco te e nos preocupas.

    fevereiro 17, 2004

    Investigações

    A cada esforço teu a ideia que queres nova pouco avança para logo se deter em dificuldades inesperadas. Sustentada num edifício de ideias outras, esperas, suficiente para subir degraus do (teu) saber. Talvez desça sem que o percebas mas tal é a vastidão da nossa ignorância.

    fevereiro 16, 2004

    Back from the Future (II)

    Dissolução"Depois de 2032, a integração de câmaras digitais para substituir os olhos dos cegos tornou-se prática comum. O sucesso desta tecnologia deveu-se, acima de tudo, à compreensão da interface que o nervo óptico estabelece entre o sistema ocular e o cérebro. Agora, quase quatro Séculos depois, compreende-se a falha generalizada da ciência da época. É impossível dissecar a estrutura neuronal e sináptica do sistema nervoso central. É inútil deduzir a partir de um sistema dinâmico e da complexidade inerente, o intricado e subtil caminho que resulta na mente Humana. Apenas restou entender como se interage no Mundo, como funcionam os sentidos que relatam uma diminuta faceta da Realidade, como melhorar essas deficientes estruturas (por exemplo, o olhar e a audição) até níveis não imaginados no Século XXI, e - principalmente - como criar novos sentidos (entre os que actualmente possuímos). Foi a partir desta motivação, do quarto passo atrás dado pelo antropocentrismo - depois do advento da Física Moderna na Renascença, da evolução Darwinista do Século XIX e da Psicologia do Século XX - a agora designada Neo-Cibernética estabeleceu que a capacidade de aprendizagem pode transgredir os limites fixados pela Natureza sem ser necessário compreender exactamente a forma como a própria aprendizagem se realiza. [...] o conceito de cyborg deixou de ser assombrado pela violação do corpo pelo metal, pela desagregação do Eu orgânico face ao digital, pela dissolução da invariante psicológica que nos define. [...]" - Introdução à 7ª Edição do "Reser Cyborg"

    fevereiro 13, 2004

    Viagem VIII

    Sirius
    Vénus (a 44 mil Km) diante das centenas de milhar de estrelas visíveis da Via Lactea (retirei as nuvens sulfúricas que cobrem e literalmente assam o planeta, para se observar melhor o seu relevo).

    Vénus é o nome latino de Afrodite, deusa do amor. Talvez este seja o nome mais irónico do panteão mitológico no Espaço. O planeta possui temperaturas capazes de derreter o chumbo e pressões atmosféricas 90 vezes maiores que a nossa. Um poderoso exemplo da capacidade do efeito de estufa.

    fevereiro 12, 2004

    Nudez

    O que tem a Verdade para ser tão normal vesti-la de distorções e esquecimentos? Serás tu o seu reflexo, igualmente vestido mas de sucessivas máscaras? Como despi-la? Como despir-te?

    fevereiro 11, 2004

    Testes e validações

    O OzOnO relembrou uma questão interessante dos princípios da computação: o Teste de Turing, a simulação do comportamento humano por um computador ser tão eficaz que possa enganar uma pessoa (de inteligência média, o que quer que isso signifique). Na minha mente, isto levanta dois pontos:
    1) Como sabemos que nós próprios não nos enganamos mutuamente, que os nossos cérebros não simulam a consciência? Haveria vantagem evolutiva em fazer crer aos outros esse facto? Haveria vantagem em nos enganarmos a nós mesmos? Assim os nossos pensamentos seriam um subproduto da evolução (neste caso, do crescimento cerebral) que produziram inesperadamente um fenómeno estranho baptizado Inteligência.
    2) E que tal o reverso do Teste de Turing? Pode uma pessoa simular que é um computador? A resposta é não (tentem multiplicar 41232541354 por 626423233322 num segundo).
    Qual será a validade do Teste de Turing? A vida não se restringe à Terra, a inteligência/consciência/(outro termo da sua preferência) não se restringe ao Homem. Assim o espero.

    fevereiro 10, 2004

    Metas

    Human societies have seldom been accustomed to long-range planning , reluctant to think of the generations. The unborn, the unconceived do not vote on current affairs. We conform our researches to immediate conviction, our projects to immediate desires. Where is the voice of the yet to-be? Without a voice, they will never be. - Frank Herbert

    fevereiro 09, 2004

    Transições

    Ontem passou. É hoje o verniz do passado. O caminho que repito será o mesmo? As pessoas que falo? As palavras que escrevo?

    fevereiro 06, 2004

    Viagem VII

    Mercúrio
    (voltando a casa...) Mercúrio a pouco mais de 12000 Km de distância. A sua temperatura oscila entre os -180ºC e os 430ºC. No lado esquerdo observa-se Marte (o ponto vermelho a 150 milhões de Km) e a Terra (o cinzento a 96 milhões de Km).

    Curiosamente, conhece-se pouco de Mercúrio (que se encontra relativamente perto da Terra). Houve apenas uma missão ao planeta (Mariner 10 em 1974) que fotografou menos de metade da superfície. Como está muito perto do Sol, o telescópio Hubble não o pode focar.

    fevereiro 05, 2004

    Aos Georges Bushes (III)

    Como se entranha um pensamento? Como mastigamos vozes, sons, cores, gestos e lhes deixamos o essencial? Como digerimos mil conceitos, ideias, opiniões, críticas para nos criarmos neles? E principalmente, porquê alguns defecam tanto quando abrem a boca?

    fevereiro 03, 2004

    Back from the Future (I)

    Destruturação "[...] e assim, em dezembro de 25, foi efectuada a primeira teletransmissão com sucesso de um mamífero inferior que viajou de Nova Yorque até Paris em alguns milésimos de segundo. Não se verificaram nenhuns dos nocivos efeitos secundários que teimavam em surgir nas experiências passadas, como profundas disfunções comportamentais ou cancros malignos da mais variada ordem. [...] desde então, o progresso tecnológico foi imenso. Voluntários humanos experimentaram a sensação de serem reposicionados num outro canto do globo em meros instantes. Nenhuma alteração psicossomática tem sido observada. Na nossa década, até os críticos mais cerrados foram obrigados a admitir: o teletransporte era mais do que uma possibilidade teórica, era uma realidade operacional! [...] A revolução dos transportes não se fez esperar. Uma viagem para as colónias marcianas demora hoje pouco mais de vinte minutos para quem a observa e é instantânea para o viajante. [...] O processo de transmissão passa pela análise atómica do sujeito, pela sua codificação e envio do sinal até ao posto receptor. [...] foi essencialmente neste processo que surgiram os maiores preconceitos. O sujeito não é efectivamente transportado. É antes transformado em informação, sendo restituído por um outro conjunto de átomos disponíveis no destino. O original é duplicado, imediatamente destruído e a matéria prima reciclada. As implicações para a sociedade desta nova visão do Homem ainda são imprevisíveis e será, sem dúvida, um dos mais apaixonantes temas de debate dos próximos anos. No entanto, o autor não é capaz de deixar de pensar sobre uma questão que já teima nos nossos espíritos: O que aconteceria se o original não fosse destruído?"

    H. Bulam, American Sociological Review, vol. 1303, pp. 7-21, Jan-Mar 2136

    fevereiro 02, 2004

    Gestão

    Ontem e hoje. Que diferença entre estes dois dias? Pequenas alterações na forma, menores no conteúdo. Mas é esse lento acumular condensado num ano, numa década que em cada século tudo muda. Como gerir tanto o tédio como o deslumbramento neste subtil fluxo?

    janeiro 30, 2004

    Viagem VI

    Sirius
    Estamos à distância de 150 milhões de Km de Sirius, a estrela mais brilhante do nosso céu, uma vizinha apenas a 8.6 anos-luz da Terra.

    Deste ponto de vista pode-se observar o nosso Sol: o ponto brilhante, a norte, ligeiramente acima da segunda auréola de luz que rodeia a estrela. Um ponto discreto no meio de milhões.

    janeiro 29, 2004

    As estatísticas e a vida

    Hoje, telejornal, RTP1, hora do almoço, comentário sobre mais um atentado em Israel,
    «... 10 feridos, dentre os quais pelo menos 15 em estado grave...»
    Mas será que já ninguém presta atenção aos números do conflito israelo-palestiniano?

    Seis meses de ruminações

    Fora aqueles que o fazem por motivos premeditados, manter um blog é uma actividade que oscila entre o prazer de um passatempo e a paciência de um cultivo. Torna-se comum encontrarmo-nos a pensar num tema, a ler uma ideia ou a trabalhar uma frase para estas notas acumuladas semanalmente. Pára-se o resto para escrever as fugidias palavras que receamos perder, finge-se atenção enquanto se lapida mentalmente o post de amanhã. Outras vezes, simplesmente, falta o motivo para continuar. Porque terminam metade dos blogs ao fim de um semestre? Não sei, mas talvez seja consequência da tensão entre o acto narcísico de expor aquilo que achamos interessante, estético (e que nos espelha para os outros) e a autocrítica sobre essa exposição. Uma prolonga (por vezes penosamente) o esforço enquanto outra questiona a validade do mesmo. Quando não há tensão ou o blog termina ou prossegue soterrando aquilo que merece a pena ser visto, lido, relembrado. Neste aspecto suponho ser semelhante ao ser-se escritor, que como alguém disse não é por aprender palavras novas que estes se fazem, é por haver coisas a dizer.

    janeiro 27, 2004

    Outros Traços

    Ah este caminho
    que já ninguem percorre
    a não ser o crespúsculo

    Matsuo Banshô (1644-1694)

    janeiro 26, 2004

    Traços

    E nós? O tempo é infinito, o espaço quase. O real é uma linha no vasto plano de possibilidades. Onde está o segmento desenhado pelo Homem? Não sei mas não pares. Escreve. A caneta acabará um dia. Enquanto isso enchemo-la de nós próprios.

    janeiro 24, 2004

    as ideias passadas

    É estranho como certas ideias fluem e refluem ao longo dos tempo, como que à procura de uma época em que sejam aceites. Outras ideias há que, pura e simplesmente, são sucessivamente desacreditadas, porque nos esquecemos que já o foram ou porque a ignorância é latente. Albert Hirschman designa de fracasomania, esta tendência a acharmos sempre que o passado é uma sucessão de erros. No entanto sem nos apercebermos, estamos frequentemente a combinar ideias passadas.

    janeiro 22, 2004

    Aos Georges Bushes (II)

    Sempre foi perigoso restringir a realidade às nossas convicções e preconceitos.

    janeiro 20, 2004

    Revisualizar

    Magritte - A Fada Ignorante
    E se o Bing Bang fosse uma explosão de NADA permitindo o movimento ao TUDO que sobrou?

    janeiro 19, 2004

    FW: SEM URGÊNCIA

    Dou por mim a apagar os mails intitulados «FW: Urgente» (ou, pior ainda, «FW: URGENTE») com grande ligeireza. Será que esta difusão em grande escala da informação transforma rapidamente o activismo em blasé? Ou será que pura e simplesmente me cansei das fotos de crianças perdidas e dos tipos estranhos de sangue? De qualquer forma, o meu grupo sanguíneo é tão normal que nunca os posso ajudar - será isto uma razão ou uma justificação?

    O que falta

    Na essência do Homem encontra-se uma vontade de entendimento, um desejo de compreensão, uma ânsia de controlar uma Natureza indiferente. Por isso nomeamos as coisas, catalogamo-las para as tomar, adormecendo sobre o conforto dessa posse. Mas o mundo é infindo, quantas palavras nos faltam para descrever o real? O que sente o astrónomo quando pressente a infinitude do Universo? O atleta no instante da vitória Olímpica. O silêncio do deserto. Os olhos do carrasco no olhar da vítima. O místico no momento do êxtase. Uma mãe quando, por nada, perde um filho.

    janeiro 15, 2004

    Viagem V

    Plutão e Caronte
    Plutão (a 2600 Km) com o seu parceiro planetário Caronte (a 22000 Km) nas fronteiras internas do Sistema Solar. A temperatura em ambos é de cerca de 45 Kelvin (-228ºC). É uma ironia que os seus nomes sejam, desde a Antiguidade, associados aos calores infernais. Em cima observa-se a galáxia M31 quase a 3 milhões de anos-luz de distância.

    Actualmente, muitos consideram Plutão como sendo um planetóide, o maior da cintura de Kuiper formada por milhões de corpos que circundam o Sistema Solar para além de Neptuno (ainda mais longe encontra-se a nuvem de Oort).

    janeiro 14, 2004

    Fragmentos

    Somos prisioneiros do nosso tempo. Às verdades (e às outras) só as entendemos deformadas pelas convicções e preconceitos que nos definem. Podemos ler o Inferno de Dante ou a Canção de Rolando mas seriamos capazes de interiorizar o universo de um Homem medieval? Como será o aspecto de uma verdade futura? Entenderia Galileu a Teoria da Relatividade? Demócrito a Teoria Quântica? Como soaria o Ulisses de Joyce ao Ulisses de Homero?

    janeiro 13, 2004

    Pergunta

    Quando a injustiça tem razão, o que acontece à razão?

    janeiro 12, 2004

    Nomic

    Peter Suber no seu livro "The Paradox of Self-Amendment"[1] refere num anexo as regras de um jogo muito curioso denominado NOMIC. Neste jogo, uma das regras é a possibilidade de alterar as próprias regras (!). Assim, apesar das regras iniciais informarem que o jogador que atingir 100 pontos ganha, isso pode ser alterado desde que uma maioria qualificada (consoante as regras do momento) assim esteja de acordo. Um outro modo de ganhar é se algum jogador detectar uma contradição do conjunto de regras actuais que o impeça de jogar (será possível mudar esta regra?). Uma interessante forma de misturar legislação, jurisprudência (o processo de acumulação histórica) e doutrina (a interpretação sobre os primeiros dois) num jogo para vários.

    Existem diversas partidas a decorrer baseadas neste conceito. Um deles, Agora está activo desde 1993! Um outro exemplo é um dos jogos favoritos do Calvin e do Hobbes:

    Calvinball
    Que regra se troca hoje?

    [1] O livro discute a capacidade - e as consequências daí decorrentes - de certas leis se puderem auto-alterar criando contradições críticas no sistema legal.