outubro 14, 2003

Proto-hipóteses

O Homem, desde o inicio, sempre procurou conforto espiritual e físico perante uma Natureza violenta e indiferente. A consciência humana, dom e maldição da espécie, tornou-nos insatisfeitos e impulsionou a caminhada civilizacional que ainda hoje perdura.

Porém, encontraram-se respostas fundamentalmente diferentes à questão de como confortar a mente e o corpo. Enquanto a primeira necessitava de uma arbitrariedade reconfortante (personificada mais cedo ou mais tarde em deuses diversos), a segunda procurou leis (invariantes perceptíveis e interpretáveis) de modo a controlar, ou no mínimo saber o que esperar do futuro. No primeiro caso, a solução mais primitiva tomou a forma de superstições, actos rituais, iniciáticos que favoreciam o praticante por quaisquer motivos misteriosos (que só o xamã entendia). No segundo caso, procurou-se a interpretação do futuro através de sistemas repetíveis, incluídas no que hoje em dia se designa por ciências ocultas e artes divinatórias.

Ambas as respostas cresceram e criaram estruturas coerentes, intelectualmente mais elaboradas, lapidadas com a passagem e experiência dos Séculos. As primeiras desenvolveram-se em religiões inicialmente politeístas até à expressão máxima do monoteísmo (e da ausência no Budismo). Já as segundas, com a fantástica perspectiva que certos fenómenos Naturais (a Natureza seria indiferente, mas não caótica) seguiam regras inteligíveis, abriram o caminho para a ciência (da astrologia para a astronomia, da alquimia para a química...). Se a necessidade de conforto espiritual iniciou-se numa proto-religião alimentada por superstições arbitrárias, a procura do conforto físico alicerçou-se na facilidade prometida de uma proto-ciência.

Isto indica que possivelmente a superstição e actividades como a leitura das cartas, a quiromancia ou a astrologia tiveram um papel fundamental no desenvolvimento da civilização. Há três, quatro milénios atrás. A tragédia é a sua importância actual.

outubro 09, 2003

Haiku TV

Estranho cordão;
aquele que me liga
ao zapping d'outro.

outubro 07, 2003

Há umas que não resisto...


Calvin&Hobbes - Bill Waterson

Pontos de vista

As palavras lidas escondem o tempo que as separou a escrita.

outubro 06, 2003

O Espirito das Leis

"Holocausto: o esquecimento da exterminação faz parte da exterminação" - Baudrillard

O livro de Richard Miller, A Justiça Nazi (Editorial Notícias), contém uma apologia inicial denominada "O Espirito das Leis". Ele comenta o Direito nazi. Os nazis eram muito cuidadosos com o cumprimento das leis. Das suas leis. Do topo da montanha burocrática, muito do pessoal administrativo, juizes, advogados e outros ligados ao aparelho do Estado, cumpriam procedimentos hediondos e sentiam que os cumpriam segundo o espirito da Lei. Em cada decreto, as assinaturas eram escritas de consciência tranquila, na estrita obediência ao código. As consequentes acções, levadas a cabo por agentes do regime ("ordens são ordens" - a ubíqua e milagrosa frase que redime o gesto) eram por sua vez facilitadas pela obrigação moral própria do povo Alemão, para o qual a desobediência civil era um conceito estranho.

Foi esta preocupação de assegurar as acções, por mais questionáveis que fossem, por um muro protector de leis e regulamentos, que ironicamente serviu de arma para os acusadores de Nuremberga. Estes conheciam melhor o espirito das leis. O Direito não existe independentemente das pessoas que nele acreditam. Miller dá um excelente exemplo: durante uma missa católica romana, os fieis assistem e participam num milagre (o milagre da transubstanciação). Se um conjunto de ateus se reunisse e repetisse - até ao mais ínfimo detalhe - o mesmo conjunto de ritos, o acto não teria qualquer significado. Os nazis eram ateus jurídicos. Reproduziram o sistema legal que os antecedeu, mas esvaziaram o seu significado. Os tribunais não eram mais válidos que a missa imitada, mas providenciaram o sentimento de segurança e conforto que os cidadãos de uma nação habituada a um Estado de Direito, necessitam. Talvez os novos padres falassem com um sotaque estranho, mas repetiam os mesmo ritos e pareciam respeitar as mesmas tradições. A congregação, assim, mantinha-se tranquila. Ninguém pensava abandonar a Igreja. Só que a Igreja já não existia...

Os nazis acreditaram na Lei como um meio para atingir um qualquer fim. Mas o Direito não pode existir sem uma Ética válida, sem a protecção dos indivíduos que sustentam esse mesmo Direito. Se um tribunal é realizado por pessoas que não acreditam nisto, deixa de ser um exercício de justiça. Passa a ser uma farsa, um terrível instrumento de opressão. Os nazis não escreveram e respeitaram leis: arquitectaram e cometeram crimes.

outubro 03, 2003

As estrelas de Vah Gogh

Rui Gil, há uns dias, referiu as estrelas de Vah Gogh. Decidi procurá-las.

Vah Gogh - Noite Estrelada

outubro 02, 2003

Retro-Dilemas

Terá o primeiro que cometeu plágio, executado um acto original?

outubro 01, 2003

Interpretações


A Reprodução Interdita - Magritte
Mais que os olhos, o espelho é a ferramenta que melhor mostra aquilo que queremos ver.

Antigo e Moderno

O crivo de Eratóstenes é um algoritmo com 2300 anos. Aqui está uma solução na moderna (de 1998) linguagem de programação Haskell:
primos = crivo [2..]
where
crivo (p : ns) = p : crivo (filter (notdiv p) ns)
notdiv d n = n `mod` d /= 0
Que falta faz a semântica!

setembro 30, 2003

Big Bang

Neste post informa-se que a empresa Technorati detectou 1 milhão de blogs (!). Segundo as suas estatísticas (que não são exaustivas) 7000 blogs são criados diariamente, uma média de 1 blog a cada 12 segundos!!! Fazemos parte de um Big Bang conceptual de consequências dificilmente previsíveis.

setembro 29, 2003

Efeito Borboleta

Nas arrumações o telecomando caiu, escondido, para debaixo da cama. À noite não o descobriu e começou a ler O Nome da Rosa. Agora já vai no Jacques le Goff.

setembro 26, 2003

"O Inferno são os outros" - mexilhão anónimo

Descobri nesta notícia "Is Google copying Microsoft tactics with Blogger?" que presumivelmente a referida empresa (que comprou o servidor de blogs onde me encontro a escrever) está a fazer dumping oferecendo os serviços mais avançados de graça. Não será esta a mesma estratégia da Microsoft? Disponibilizar serviços tão baratos que a concorrência (com menor dimensão e menos margem de manobra) nao consegue manter-se no activo acabando por falir... Gostava de ver um monópolio que favoreça o mexilhão.

setembro 25, 2003

Weblogs II

Entre os blogs, onde deve residir a Ética? Segundo A Blogger Code of UnProfessional Ethics

My readers:
...know me. They will judge me according to context.
...are smart. They will not be misled by some stray comment I may happen to make.
...are kind. They make allowances and forgive me ahead of time.
In return:
I will speak my mind about what I care about.
I will not revise too much or too carefully: Blogging about opera is still jazz.
I will not anticipate and reply to every objection: Punctilliousness in pursuit of the appearance of propriety kills voice. If I apologize, it will be because I have actually betrayed my readers' trust, not because I may have, might have, or could be misread as having done so.
I pledge to keep the reading of my weblog purely optional.
Pede-se que os leitores sejam inteligentes, conheçam o(s) autor(es) e que «olhem» para os conteúdos «amigavelmente». Talvez seja pedir demais, um processo de amenização subsequente desresponsabilização. O conteúdo de um blog, em termos temporais, reside entre um jornal e um livro. Já o conteúdo, em termos informativos, deve (digo eu) reger-se pelas mesmas linhas de valores que a Ética da comunicação sublinha.

Há, pelo menos, uma diferença em relação aos jornais e aos livros que gostava de salientar. Um blog pode ser alterado em tempo real (um livro também, entre edições, mas as primeiras por cá ficam). Será que é lícito remover uma mensagem passada, ou alterar a sua mensagem de fundo? Será admissível a rescrita de um blog? Serão micro-revisionismos, que modifiquem o sentido da mensagem, aceitáveis? Estarão estes mecanismos fora do âmbito de uma auto-censura? A minha resposta (que vale o que vale) a estas perguntas é não.

ps: falei de auto-censura. Quanto mais bom senso houver, menos se falará desse perigoso instrumento castrador que é a censura (e que detesto).
pps: curiosamente, durante a escrita deste pequeno texto encontrei uma notícia específica sobre a questão de alterar conteúdos de blogs.

setembro 24, 2003

Desparalelismos

"Hoje é a violência da TV. Antes era a das estórias de fadas!"
"Mas essas, explicavam-nas os pais, os avós. A TV não explica nada."

setembro 22, 2003

Weblogs I

Segundo este ensaio, de Rebecca Blood, os weblogs existem, pelo menos, desde 1997, apesar que na altura eram tão poucos que seria possível a um indivíduo segui-los todos. A partir de 1999, com a formação de websites dedicados à gestão de blogs, aconteceu uma explosão de blogs do mais variados tipos, e passou a ser difícil criar uma lista de ocorrências (hoje em dia, criar uma lista de todos os blogs é, na prática, impossível).

Um blog é um filtro da internet, é um dado ponto de vista do seu criador (não digo “o” ponto de vista, porque o ciberespaço estimula o esquizofrénico que há em nós :-). Pioneiros na arte do micro-conteúdo, os autores dos blogs procuram sumários (como este), resumos de ideias, factos, linhas de raciocínio que possam ser digeridos em poucos minutos através da maleabilidade do hipertexto. Talvez um reflexo da constante aceleração do progresso, do brilho atraente do instante a reflectir o perene, e das formas inteligentes de envernizar o profundo com o superficial. Infelizmente, isto não engloba todos os blogs (provavelmente nem a maioria) mais preocupados com outros tipos de exercícios como o egocentrismo ou a desinformação.

Uma citação de Greg Ruggerio (ver Immediast Underground): "Media is a corporate possession...You cannot participate in the media. Bringing that into the foreground is the first step. The second step is to define the difference between public and audience. An audience is passive; a public is participatory. We need a definition of media that is public in its orientation." [cont.]

setembro 19, 2003

Raciocínios

A indução é um método de raciocínio onde se infere uma generalização a partir de um conjunto de casos particulares. Um exemplo: "Todos os corvos que alguma vez vi eram pretos logo, por indução, todos os corvos (que existem) são pretos". Este mecanismo de generalização é extremamente poderoso, e como tal, pode ser usado com consequências surpreendentes (o melhor exemplo é a própria Ciência com essa a capacidade de generalização que impulsiona o progresso) mas também com efeitos dramáticos (como as induções falaciosas que suportam racismos e xenofobias). Queria referir aqui dois problemas da indução, mesmo quando esta é "bem usada":

* Os corvos de Hempel: Suponhamos que queremos investigar a hipótese “Todos os corvos são pretos”. A respectiva investigação consiste em examinar o maior número possível de corvos. Cada corvo preto encontrado, fará a hipótese mais provável. Ora, logicamente "A implica B" é igual a "não B implica não A". Assim, a hipótese de trabalho é logicamente equivalente a: “Todos os objectos não pretos, não são corvos”. Assim, para cada objecto não preto encontrado, seja uma vaca branca, estamos a confirmar a hipótese!! Isto é um problema de intuição mal-orientada. Não há nada que negue que um objecto não corvo prejudique a hipótese posta, mas também não é decisivo que a confirme ou não. Uma vaca branca também poderia confirmar a hipótese "todos os corvos são amarelos" claramente falsa ao 1º corvo encontrado.

* O Homem de 3 metros: Depois de observar um bilião de pessoas, o estudioso estipula por indução a seguinte lei: "Todos os Homens têm menos de 3 metros". O que ocorreria se encontrássemos uma pessoa de 2.99 metros? Esta observação confirma a lei induzida (de facto, tem menos de 3 metros) mas por outro lado fragiliza a conclusão (se este tem menos de 3 metros por um centimetro, não será lícito haver alguém ligeiramente mais alto?)

Os problemas da indução já fizeram correr rios de tinta, principalmente por filósofos (como a galinha de Russel, que diariamente, de madrugada, observava um homem a trazer-lhe comida concluindo por isso que em todos os dias no futuro assim seria. Até que um dia o mesmo homem apareceu para lhe cortar o pescoço... Que garantias temos que o processo que estudamos terá um comportamento no futuro igual ao que teve no passado?)

setembro 17, 2003

Diversidades

"Speech is a river of breath, bent into hisses and hums by the soft flesh of the mouth and throat" - Stephen Pinker, The Language Instinct

Uma das características que marca a nossa época é a enorme explosão de conceitos e ideias que mudaram o mundo. Por outro lado, esta explosão tem provocado as suas vítimas. No ecossistema global são milhares as espécies extintas ou em vias disso. Acho que, infelizmente, precisamos da extinção de uma espécie mediática, como as baleias azuis ou o elefante africano (o dodo já não convence ninguém). Também na cultura existem vítimas que quase ninguém fala. A parte da globalização movida pelos mass media ameaça uma enorme quantidade de línguas e dialectos. Há quem estime que, neste século XXI, desapareçam metade das milhares de línguas humanas. Nem tudo o que se extingue é físico, e este tipo de perdas pode não ser menor para o Homem. Com uma língua vai uma forma de ver e pensar o Mundo, uma forma de encontrar respostas. Para se ter uma ideia desta imensidão e riqueza que a Humanidade produziu nestes milénios, passem por este site que mostra como se conta de 1 a 10 em cinco mil línguas diferentes. Cerca de 2500 destes conjuntos de sons deixarão de ser ouvidos em 2100.

setembro 16, 2003

Perspectivas II



Mercúrio a passar pelo Sol, a alguns milhões de Km de distância [Foto de Stefan Seip]

Como curiosidade Mercúrio era conhecido, no antigo Egipto, como Thoth um deus associado ao conhecimento, inventor da fala, da escrita e da aritmética.

Perspectivas



Todo o fascínio do Sol estará para sempre ligado ao Egipto e aos seus séculos de História. É nele que se revê esta imagem.

setembro 15, 2003

E quem fez os nossos quase invisíveis?

Durante um episódio do Neon Genesis Evangelion deparei com uma interessante metáfora, "O Dilema do Porco Espinho", que se resume ao seguinte: No Inverno, os porcos espinhos procuram o calor uns dos outros, mas quando se aproximam acabam sempre por se magoar.

setembro 12, 2003

Sonhos



A Morte a ler o livro da Vida num cenário à Verdi. Os Sonhos alimentam a Esperança.

setembro 11, 2003

911s

Para nos assustarmos não bastam os fantasmas, são precisos becos-sem-saída.

setembro 09, 2003

Extremos Não Moderados

Quando olhamos em volta, tanto nacional como internacionalmente, observamos que muitas das ideologias que guiaram o Mundo estão a esbater-se. Algumas desapareceram (ou estão em risco de) e outras tendem para uma de duas direcções que podemos chamar simplesmente de extremista e moderada. Ao que tudo indica, os extremistas ganham terreno. As grandes guerras perdem-se na História, a guerra fria não aqueceu, mas um grande conjunto de individuos parece singrar num mar de incompreensão e intolerância. Não só o fundamentalismo Árabe, como também a administração Americana, os Palestinianos e Judeus, o racismo, a ignorância... Curiosamente, para um extremista, o mundo é muito simples: tem duas cores, há bons, e corajosos, maus e covardes, as dúvidas são poucas pois deus e a moral estão do seu lado, as causas e as consequências bem delineadas e definitivamente explicadas (pelo respectivo guia espiritual/secular) e no entanto... encontram sempre outros extremistas que lhes fazem frente! É nesta construção simplificada da realidade, nesse espelho que não reflecte o mundo, que eles se olham e nos levam para um abismo que ainda não conseguimos observar. Os moderados não são sem defeitos, pois tendem a cultivar a indiferença, a dar demasiado para evitar conflitos, a tentar compreender para lá do tempo de decidir. Não é a primeira vez que estas coisas acontecem nem, tenho impressão, será a última...

setembro 05, 2003

Um plano diabólico...

Arrisco aqui uma ideia a dar à TVI. Segue o plano nas suas várias fases:

Fase 1: Unir progressivamente todas as telenovelas que produz (e produziu) num único enredo. Isto pode fazer-se cruzando as personagens de umas telenovelas noutras, até que o espectador - personagem crédulo - não consiga distinguir quem pertence a quem. Resultado: tem de ver todas as novelas (e anúncios) para seguir a vida das personagens que prefere.

Fase 2: Usar as personagens em outros produtos, como o Big Brother. Por exemplo, fazer um Big Brother Vip com as personagens de maior share que se detestam. E claro, utilizar essas imagens na própria telenovela. Assim, todos podíamos ver o que ocorria tanto fora como dentro do enredo. Seria o primeiro passo para misturar a "realidade" com a ficção telenovelistica.

Fase 3: Começar a publicitar nos telejornais as notícias das suas telenovelas e produtos relacionados... Esperem! Eles já fazem esta.

Fase 4: Algumas das personagens (da telenovela) arranjam empregos na TVI e começam a trabalhar como pivots e repórteres. Reparem na vantagem: dois empregos (e tempo de antena) pelo preço de um salário. A partir desta altura, o espectador médio da televisão já não sabe se o actor está a representar ou não (possivelmente, nem o actor).

Fase 5: Dar ao personagem com o maior share, a presidência executiva da TVI, e colocar os actores, quero dizer, as personagens a fazer outras telenovelas. O espectador, a partir deste momento, pode ver telenovelas, telenovelas de telenovelas, e quando estiver preparado (nada como arranjar um realityshow para o efeito), telenovelas de telenovelas de telenovelas. Para além disso, ainda vê filmagens das telenovelas dentro de outras telenovelas. É lindo!

Fase 6: Com o poder financeiro obtido a partir dos anúncios que um share de milhões de espectadores ligados à TV 24 horas por dia (o Estado depois paga as contas dos hospitais e dos psicólogos) e da poupança que a redução de pessoal implica, a TVI (a sigla neste momento já significa "Telenovela Independente") pode começar a comprar bancos, clubes de futebol, talvez mesmo um exército que sejam capaz de criar as próprias notícias para a TVI e os seus pivots (talvez de alguma das telenovelas, já me perdi) poderem ter trabalho, e filmarem notícias decentes, não aquelas que o mundo nos impinge.

A partir daqui resta-nos sentar no sofá e ficar à espera que o Universo expluda...

agosto 27, 2003

Sementes

A nossa TV não me deixa de surpreender. Normalmente, eu diria que é uma boa coisa surpreender-me, mas neste caso... O fosso do mau gosto continua a escavar-se sem nenhum respeito pelos recordes anteriores. A TVI esmaga-nos com o seu poder criativo de produzir telenovelas atrás de telenovelas e de misturar anúncios com notícias e ficções. A SIC arrasta um conjunto de programas de mau gosto (onde se inclui o Herman) que servem de viveiro para a criação de personagens inarráveis misturas de misticismo e de "espectáculo". A RTP1, mesmo assim, tem-se aguentado numa profundidade aceitável desse mau gosto. Esta TV que nos dão (será que a merecemos?) numa mistura subtil de estupidez e de seriedade, onde nos levará? Ou melhor, onde queremos nós ir com ela? Com a capacidade formativa sem igual aliada à gestão progressivamente uniformizadora dos conteúdos televisivos, faz com que a sua importância como "fábrica" de cultura das massas seja imensa! ("Marx ainda não tinha visto nada" - diz-se num cartoon do Calvin&Hobbes). Ela deixa na mente colectiva de um povo (ou povos, se pensarmos que no resto do Ocidente a coisa está na mesma) potenciais sementes nada agradáveis. Quem referiu que quanto maior a simplificação do discurso, mais amplo é o público que o assimila e que nele se revê?

agosto 22, 2003

As melhores palavras

Não são poucas a vezes que acho que deviamos ter tido na escola secundária uma disciplina que focasse a "Arte da Palavra Adequada", i.e., num dado contexto, num dado momento, ter a capacidade de escolher a palavra certa. Dar-nos-ia mais golpe de asa (será esta a melhor expressão?) e talvez melhorasse o sentido de humor nacional. Evitaria a maioria dos supers, ultras, fabulosos, extraordinários, "melhores do mundo", nuncas e "de sempre" que populam as TVs, os jornais e os anúncios... Talvez também prevenisse alguns termos infelizes em tempo real ditos por políticos e mesmo por futebolistas (lá vai o meu optimismo). Um primeiro exercício nesta disciplina seria encontrar um termo que a identificasse: Parabologia?

agosto 19, 2003

Ambiente

Os fogos tiram-nos o país das mãos... São um instrumento na luta que fazemos contra nós próprios enquanto espécie. Por cada hectare destruído, por cada espécie de vegetal ou animal que se fragiliza, somos nós que nos fragilizamos. Cada espécie só existe num determinado ambiente. Quando esse ambiente desaparece, as probabilidades são que essa espécie desapareça também (principalmente a esta velocidade). Quando os "fanáticos" ecologistas salvam uma árvore, um panda ou uma baleia, ajudam a salvar o Homem.

Retornos

Terminada a viagem, começa a gestão das memórias...



O Tempo, esse grande escultor!

julho 31, 2003

Férias...

Já na gestão das expectativas, espero pela viagem à Turquia.



O Bósforo, príncipio e fim de dois continentes

"O que é pior: a ignorância ou a indiferença? Não sei nem quero saber!"

É normalmente aceite que a falta de exercício físico afecta negativamente o corpo. Alguém activo fisicamente tem mais possibilidades de chegar a uma velhice saudável. Já nem todos aceitam (ou sequer pensaram no assunto) é que a falta de exercício mental afecta a própria mente. Alguém inactivo mentalmente vai perdendo capacidades, da mesma forma que alguém que se mantém parado, as perde também. Ao fim de uns anos, a eventual corrida é mais lenta, custa mais a respirar. Também ao fim de uns anos, o eventual raciocínio é menos preciso, a concentração diminui.

Sentar-se, por sistema, no sofá a ver TV (a sintonia é irrelevante, está a dar televisão em todos os canais) parece ser o zénite das duas desactividades reunidas: não nos mexemos nem pensamos! Isolados na camada protectora das almofadas e dos raios catódicos, assinamos lentamente a nossa certidão de incapacidade. Se esta situação é dissiminada nas pessoas mais velhas (e até compreensível - dado a maior parte do nosso triste século XX), mais perturbante é o impacto nos jovens. Esta falta de vontade intelectual resulta, pelo menos, em três níveis de incapacidade:

1º) A ignorância da Matemática - aqui não me refiro somente aos problemas típicos de resolver equações nas salas de aulas, mas sim à incapacidade lógica, à falta de noção numérica, à dificuldade de abstracção que muitos têm. Consequências? A falta do conhecimento lógico permite que estejamos muito mais susceptíveis a falácias, a raciocínios distorcidos causas de problemas sociais graves. Um exemplo de um mau raciocínio: se "B é verdade" e "se A implica B", então "A é verdade". Trocando A por "a raça/grupo X é prejudicial à sociedade" e B por "alguns indivíduos da raça/grupo X causam problemas", temos um vislumbre destes problemas. A ignorância numérica (a inumeracia) resulta, nos jornais, nos milhões trocados por milhares, na total incapacidade de comparar valores, de os relativizar com percentagens, a inutilidade de certas estatísticas e das suas interpretações. A falta de abstracção revela-se na aprendizagem de conceitos novos, numa confrangedora inépcia para generalizar, de induzir correctamente (um dos motores da Ciência e da sobrevivência).

2º) A ignorância do Português (da linguagem propriamente dita) - a nossa língua é o meio privilegiado para comunicarmos como sociedade. É através dela que entendemos conceitos complexos e estabelecemos uma vivência social que doutra forma seria impossível. Aprender a língua nativa, mesmo que seja um acto instintivo, é uma actividade que permite recolher múltiplos reflexos de toda uma cultura, com a sua riqueza histórica, com a sua diversidade natural, produto de milhões de pessoas. É possível que esta aprendizagem seja também relevante na definição da nossa mente, que estrutura a forma de pensar, de interpretar o que ouvimos, lemos e sentimos. Alguém com dificuldade de expressão, mesmo com uma boa faculdade de raciocínio tem a capacidade de argumentação limitada (um exemplo disso, é quando se tenta discutir numa língua aprendida já na fase adulta). É mais difícil exprimir o que se pensa. Mas ainda é pior: essa incapacidade também se estende à interpretação: não se entende o que se a lê. E isso deforma a educação num ciclo vicioso terrível. Se não formos capazes de interpretar, como se pode aprender? E se não formos capazes de aprender, como melhorar a interpretação do mundo que nos rodeia?

3º) A ignorância da Filosofia – não estou a falar especificamente de Platão, Tomás de Aquino, ou Kant. Refiro-me à incapacidade de pensar no seu profundo sentido. A Filosofia refere-se ao acto de estruturar um pensamento, de planear um argumento, de organizar várias linhas de raciocínio, de construir um texto, um parágrafo, uma linha (não me serve saber escrever se não tiver nada para dizer). A Filosofia também se encontra nos conceitos da Ética (a Justiça, o sentido de respeito, o respeito à verdade, até do humor, a "irredutível expressão da ética", como Daniel Pennac reparou) e do livre arbítrio (da liberdade e da enorme responsabilidade que daí advém). Quando perdemos a capacidade de pensar por nós mesmos, de tomar decisões adultas honestas, desgastamos aquilo que lentamente nos separou dos animais e que a Civilização tanto lutou para construir.

Estamos perante uma tragédia em câmara-lenta, as mais difíceis de lutar porque pensamos que há sempre tempo para as resolver num outro dia... Quem sabe ou quem quer saber?