setembro 15, 2003

E quem fez os nossos quase invisíveis?

Durante um episódio do Neon Genesis Evangelion deparei com uma interessante metáfora, "O Dilema do Porco Espinho", que se resume ao seguinte: No Inverno, os porcos espinhos procuram o calor uns dos outros, mas quando se aproximam acabam sempre por se magoar.

setembro 12, 2003

Sonhos



A Morte a ler o livro da Vida num cenário à Verdi. Os Sonhos alimentam a Esperança.

setembro 11, 2003

911s

Para nos assustarmos não bastam os fantasmas, são precisos becos-sem-saída.

setembro 09, 2003

Extremos Não Moderados

Quando olhamos em volta, tanto nacional como internacionalmente, observamos que muitas das ideologias que guiaram o Mundo estão a esbater-se. Algumas desapareceram (ou estão em risco de) e outras tendem para uma de duas direcções que podemos chamar simplesmente de extremista e moderada. Ao que tudo indica, os extremistas ganham terreno. As grandes guerras perdem-se na História, a guerra fria não aqueceu, mas um grande conjunto de individuos parece singrar num mar de incompreensão e intolerância. Não só o fundamentalismo Árabe, como também a administração Americana, os Palestinianos e Judeus, o racismo, a ignorância... Curiosamente, para um extremista, o mundo é muito simples: tem duas cores, há bons, e corajosos, maus e covardes, as dúvidas são poucas pois deus e a moral estão do seu lado, as causas e as consequências bem delineadas e definitivamente explicadas (pelo respectivo guia espiritual/secular) e no entanto... encontram sempre outros extremistas que lhes fazem frente! É nesta construção simplificada da realidade, nesse espelho que não reflecte o mundo, que eles se olham e nos levam para um abismo que ainda não conseguimos observar. Os moderados não são sem defeitos, pois tendem a cultivar a indiferença, a dar demasiado para evitar conflitos, a tentar compreender para lá do tempo de decidir. Não é a primeira vez que estas coisas acontecem nem, tenho impressão, será a última...

setembro 05, 2003

Um plano diabólico...

Arrisco aqui uma ideia a dar à TVI. Segue o plano nas suas várias fases:

Fase 1: Unir progressivamente todas as telenovelas que produz (e produziu) num único enredo. Isto pode fazer-se cruzando as personagens de umas telenovelas noutras, até que o espectador - personagem crédulo - não consiga distinguir quem pertence a quem. Resultado: tem de ver todas as novelas (e anúncios) para seguir a vida das personagens que prefere.

Fase 2: Usar as personagens em outros produtos, como o Big Brother. Por exemplo, fazer um Big Brother Vip com as personagens de maior share que se detestam. E claro, utilizar essas imagens na própria telenovela. Assim, todos podíamos ver o que ocorria tanto fora como dentro do enredo. Seria o primeiro passo para misturar a "realidade" com a ficção telenovelistica.

Fase 3: Começar a publicitar nos telejornais as notícias das suas telenovelas e produtos relacionados... Esperem! Eles já fazem esta.

Fase 4: Algumas das personagens (da telenovela) arranjam empregos na TVI e começam a trabalhar como pivots e repórteres. Reparem na vantagem: dois empregos (e tempo de antena) pelo preço de um salário. A partir desta altura, o espectador médio da televisão já não sabe se o actor está a representar ou não (possivelmente, nem o actor).

Fase 5: Dar ao personagem com o maior share, a presidência executiva da TVI, e colocar os actores, quero dizer, as personagens a fazer outras telenovelas. O espectador, a partir deste momento, pode ver telenovelas, telenovelas de telenovelas, e quando estiver preparado (nada como arranjar um realityshow para o efeito), telenovelas de telenovelas de telenovelas. Para além disso, ainda vê filmagens das telenovelas dentro de outras telenovelas. É lindo!

Fase 6: Com o poder financeiro obtido a partir dos anúncios que um share de milhões de espectadores ligados à TV 24 horas por dia (o Estado depois paga as contas dos hospitais e dos psicólogos) e da poupança que a redução de pessoal implica, a TVI (a sigla neste momento já significa "Telenovela Independente") pode começar a comprar bancos, clubes de futebol, talvez mesmo um exército que sejam capaz de criar as próprias notícias para a TVI e os seus pivots (talvez de alguma das telenovelas, já me perdi) poderem ter trabalho, e filmarem notícias decentes, não aquelas que o mundo nos impinge.

A partir daqui resta-nos sentar no sofá e ficar à espera que o Universo expluda...

agosto 27, 2003

Sementes

A nossa TV não me deixa de surpreender. Normalmente, eu diria que é uma boa coisa surpreender-me, mas neste caso... O fosso do mau gosto continua a escavar-se sem nenhum respeito pelos recordes anteriores. A TVI esmaga-nos com o seu poder criativo de produzir telenovelas atrás de telenovelas e de misturar anúncios com notícias e ficções. A SIC arrasta um conjunto de programas de mau gosto (onde se inclui o Herman) que servem de viveiro para a criação de personagens inarráveis misturas de misticismo e de "espectáculo". A RTP1, mesmo assim, tem-se aguentado numa profundidade aceitável desse mau gosto. Esta TV que nos dão (será que a merecemos?) numa mistura subtil de estupidez e de seriedade, onde nos levará? Ou melhor, onde queremos nós ir com ela? Com a capacidade formativa sem igual aliada à gestão progressivamente uniformizadora dos conteúdos televisivos, faz com que a sua importância como "fábrica" de cultura das massas seja imensa! ("Marx ainda não tinha visto nada" - diz-se num cartoon do Calvin&Hobbes). Ela deixa na mente colectiva de um povo (ou povos, se pensarmos que no resto do Ocidente a coisa está na mesma) potenciais sementes nada agradáveis. Quem referiu que quanto maior a simplificação do discurso, mais amplo é o público que o assimila e que nele se revê?

agosto 22, 2003

As melhores palavras

Não são poucas a vezes que acho que deviamos ter tido na escola secundária uma disciplina que focasse a "Arte da Palavra Adequada", i.e., num dado contexto, num dado momento, ter a capacidade de escolher a palavra certa. Dar-nos-ia mais golpe de asa (será esta a melhor expressão?) e talvez melhorasse o sentido de humor nacional. Evitaria a maioria dos supers, ultras, fabulosos, extraordinários, "melhores do mundo", nuncas e "de sempre" que populam as TVs, os jornais e os anúncios... Talvez também prevenisse alguns termos infelizes em tempo real ditos por políticos e mesmo por futebolistas (lá vai o meu optimismo). Um primeiro exercício nesta disciplina seria encontrar um termo que a identificasse: Parabologia?

agosto 19, 2003

Ambiente

Os fogos tiram-nos o país das mãos... São um instrumento na luta que fazemos contra nós próprios enquanto espécie. Por cada hectare destruído, por cada espécie de vegetal ou animal que se fragiliza, somos nós que nos fragilizamos. Cada espécie só existe num determinado ambiente. Quando esse ambiente desaparece, as probabilidades são que essa espécie desapareça também (principalmente a esta velocidade). Quando os "fanáticos" ecologistas salvam uma árvore, um panda ou uma baleia, ajudam a salvar o Homem.

Retornos

Terminada a viagem, começa a gestão das memórias...



O Tempo, esse grande escultor!

julho 31, 2003

Férias...

Já na gestão das expectativas, espero pela viagem à Turquia.



O Bósforo, príncipio e fim de dois continentes

"O que é pior: a ignorância ou a indiferença? Não sei nem quero saber!"

É normalmente aceite que a falta de exercício físico afecta negativamente o corpo. Alguém activo fisicamente tem mais possibilidades de chegar a uma velhice saudável. Já nem todos aceitam (ou sequer pensaram no assunto) é que a falta de exercício mental afecta a própria mente. Alguém inactivo mentalmente vai perdendo capacidades, da mesma forma que alguém que se mantém parado, as perde também. Ao fim de uns anos, a eventual corrida é mais lenta, custa mais a respirar. Também ao fim de uns anos, o eventual raciocínio é menos preciso, a concentração diminui.

Sentar-se, por sistema, no sofá a ver TV (a sintonia é irrelevante, está a dar televisão em todos os canais) parece ser o zénite das duas desactividades reunidas: não nos mexemos nem pensamos! Isolados na camada protectora das almofadas e dos raios catódicos, assinamos lentamente a nossa certidão de incapacidade. Se esta situação é dissiminada nas pessoas mais velhas (e até compreensível - dado a maior parte do nosso triste século XX), mais perturbante é o impacto nos jovens. Esta falta de vontade intelectual resulta, pelo menos, em três níveis de incapacidade:

1º) A ignorância da Matemática - aqui não me refiro somente aos problemas típicos de resolver equações nas salas de aulas, mas sim à incapacidade lógica, à falta de noção numérica, à dificuldade de abstracção que muitos têm. Consequências? A falta do conhecimento lógico permite que estejamos muito mais susceptíveis a falácias, a raciocínios distorcidos causas de problemas sociais graves. Um exemplo de um mau raciocínio: se "B é verdade" e "se A implica B", então "A é verdade". Trocando A por "a raça/grupo X é prejudicial à sociedade" e B por "alguns indivíduos da raça/grupo X causam problemas", temos um vislumbre destes problemas. A ignorância numérica (a inumeracia) resulta, nos jornais, nos milhões trocados por milhares, na total incapacidade de comparar valores, de os relativizar com percentagens, a inutilidade de certas estatísticas e das suas interpretações. A falta de abstracção revela-se na aprendizagem de conceitos novos, numa confrangedora inépcia para generalizar, de induzir correctamente (um dos motores da Ciência e da sobrevivência).

2º) A ignorância do Português (da linguagem propriamente dita) - a nossa língua é o meio privilegiado para comunicarmos como sociedade. É através dela que entendemos conceitos complexos e estabelecemos uma vivência social que doutra forma seria impossível. Aprender a língua nativa, mesmo que seja um acto instintivo, é uma actividade que permite recolher múltiplos reflexos de toda uma cultura, com a sua riqueza histórica, com a sua diversidade natural, produto de milhões de pessoas. É possível que esta aprendizagem seja também relevante na definição da nossa mente, que estrutura a forma de pensar, de interpretar o que ouvimos, lemos e sentimos. Alguém com dificuldade de expressão, mesmo com uma boa faculdade de raciocínio tem a capacidade de argumentação limitada (um exemplo disso, é quando se tenta discutir numa língua aprendida já na fase adulta). É mais difícil exprimir o que se pensa. Mas ainda é pior: essa incapacidade também se estende à interpretação: não se entende o que se a lê. E isso deforma a educação num ciclo vicioso terrível. Se não formos capazes de interpretar, como se pode aprender? E se não formos capazes de aprender, como melhorar a interpretação do mundo que nos rodeia?

3º) A ignorância da Filosofia – não estou a falar especificamente de Platão, Tomás de Aquino, ou Kant. Refiro-me à incapacidade de pensar no seu profundo sentido. A Filosofia refere-se ao acto de estruturar um pensamento, de planear um argumento, de organizar várias linhas de raciocínio, de construir um texto, um parágrafo, uma linha (não me serve saber escrever se não tiver nada para dizer). A Filosofia também se encontra nos conceitos da Ética (a Justiça, o sentido de respeito, o respeito à verdade, até do humor, a "irredutível expressão da ética", como Daniel Pennac reparou) e do livre arbítrio (da liberdade e da enorme responsabilidade que daí advém). Quando perdemos a capacidade de pensar por nós mesmos, de tomar decisões adultas honestas, desgastamos aquilo que lentamente nos separou dos animais e que a Civilização tanto lutou para construir.

Estamos perante uma tragédia em câmara-lenta, as mais difíceis de lutar porque pensamos que há sempre tempo para as resolver num outro dia... Quem sabe ou quem quer saber?

julho 29, 2003

Inícios...

O início é sempre uma boa altura - nem que seja para corromper o que se pretende.

Terminei - há uns dias - um livro sobre linguagem. Chama-se The Language Instinct e fala sobre a capacidade inata de qualquer criança aprender, com uma eficiência impressionante, a linguagem dos pais. Para além de questões mais técnicas, o livro foca um ponto relevante - o ser humano (felizmente) não nasce como um quadro em branco onde se pode escrever o que se quiser através da educação. O código genético determina um conjunto de potencialidades que a educação e o ambiente (reprimindo ou expressando) acabam por moldar. A linguagem é uma dessas capacidades.

Um exemplo curioso: o livro relata que nas situações em que um conjunto de pessoas é deslocado geograficamente para um local estranho no meio de outras pessas estranhas (a construção dos caminhos-de-ferro americanos no Século XIX, por exemplo) acaba por nascer um linguajar (a que os linguistas chamam "pidgin") que serve como uma ferramenta de comunicação simplificada. Porém, esse "pidgin" não é uma linguagem, não possui uma gramática estruturada, não permite discursos ou argumentos complexos. No entanto, quando nasce a 2ª geração, as crianças não só aprendem o "pidgin" como o elaboram, criando, entre elas, uma verdadeira linguagem baseada no vocábulo envolvente. Uma linguagem gramaticalmente tão rica como as linguagens estabelecidas (o vocabulário é outra história) e que normalmente chamamos crioulo. Um exemplo simples e poderoso de alguns dos mecanismos inerentes ao nosso cérebro.