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janeiro 27, 2010

Transição

Um indivíduo sem outros entra em perigo de dissipação. Cada mente está viciada pelos compromissos de uma cultura. Perder essa cultura é um passo perigoso e de difícil adaptação, só sendo mitigado se passar a interagir noutra cultura. Já uma cultura só existe na dinâmica dos seus elementos. Sem eles passa para o domínio do mito, da arqueologia, aproximada nas reconstruções artísticas e científicas de um eventual futuro. Até ao desaparecimento inevitável, todos, desde o individuo até à sociedade multicultural, sofrem momentos de depressão e crescimento, quedas e renascimentos, ajudas e violências interiores e exteriores, tédio e anomias. Para sobreviver-se a si mesma a pessoa pode deixar-se na memória dos outros, nos pensamentos que escreve, nas acções que comete. A cultura pode fazer história ou, de tempos em tempos, uma diáspora. Em nenhuma delas se fica na mesma.

janeiro 21, 2010

Mínimo máximo

Um hábito social não tem necessariamente de estar certo ou errado. Só se torna errado quando viola os direitos fundamentais de pelo menos um indivíduo. Há aqui uma prioridade implícita, uma que coloca o mínimo de cada um de nós à frente de toda a sociedade que nos sustém.

janeiro 18, 2010

Distâncias

O conflito entre o que posso e o que quero resulta num difícil compromisso que cada um negoceia consigo e com os outros. Essa negociação não é necessariamente mais fácil numa república que num sistema de desigualdade política (em casos limites, onde nada posso ou nada quero, não há sequer negociação) mas as melhores soluções, diz-nos a evidência histórica, encontram-se na república. A ética (o que devo fazer) simplifica o compromisso por condicionar o que desejo fazer, seja pelo uso de normas sociais, seja pela aplicação de argumentos racionais. Mas, sem entrar na dimensão ética, há várias formas de lidar com esta complexidade. Ou diminuir o que quero (o estoicismo, o epicurismo, as ordens monásticas ou o budismo são algumas tentativas históricas) ou pelo aumentar do que posso (através do aumento da liberdade e propriedade individual e do diminuir da coerção da comunidade e do estado que dela preside).

janeiro 08, 2010

Propostas de Leitura

Gostaria de sugerir três livros que considero excelentes e que dizem respeito à divulgação e ao estímulo do pensar crítico (clicando na imagem vão ter à amazon.uk).

Kindly Inquisitors

O livro de Jonathan Rauch é sobre a livre expressão, a sua importância numa sociedade liberal e os seus inimigos modernos. O autor (um jornalista de investigação) escreve com rara clareza sobre os fundamentos e o motivo porque devemos manter e acarinhar uma sociedade baseada nos princípios da dúvida sistemática; na rejeição de últimas palavras e autoridades indiscutíveis; no recolher de evidência e no discutir público de ideias e crenças privadas para que, algumas, possam tornar-se conhecimento público e partilhado por todos até que outras, melhores, as possam substituir; e que ninguém está acima da crítica ou da caricatura (o livro é de 1991 e termina com uma análise da relevância da tentativa de assassinato de Salman Rushdie). Qualquer sumário deste livro (e especialmente, não este) não lhe faz jus. (180 páginas)

How to Think Straight About Psychology

O título deste livro do professor Keith Stanovich é talvez demasiado específico. O livro mostra o que é o método científico de forma exemplar e muito prática, baseando as afirmações que faz e os princípios que defende com vários estudos e exemplos da medicina e da psicologia (mostrando alguns erros modernos que se fizeram, várias vezes com vítimas, por não terem sido seguidos). Desse ponto de vista, não é só relevante pelo conhecimento da Psicologia enquanto Ciência (porque, como o autor indica, a Psicologia é uma palavra que engloba uma vasta áreas de estudos, nem sempre relacionados, algumas das quais usam ferramentas não científicas) mas para qualquer um que se interesse ou estude outra área que utilize o método científico na produção de conhecimento. Muito bem escrito, documentado e sucinto (cerca de 200 páginas).

Irrationality

O psicólogo Stuart Sutherland (morreu em 1998) escreveu um livro muito esclarecedor, repleto de evidência científica, sobre um dado por vezes esquecido pela teoria económica vigente: o nosso cérebro é fonte de múltiplas decisões irracionais. No entanto, a boa notícia é que tendemos a ser irracionais sempre da mesma forma (irracionais mas não aleatórios) o que permite que estudemos este aspecto da psicologia humana para nos conhecermos melhor e tomar melhores decisões quer individualmente, quer colectivamente. Repleto de humor inglês e apoiado em diversos estudos, o autor apresenta-nos, em cada capítulo, tipos comuns de erros, muitos dos quais originam-se pela fraca capacidade natural de entendermos probabilidades, o que mostra como é importante a educação desta matéria (a par, a meu ver, com a ética) aos membros de uma sociedade que pretenda reduzir a sua cota de irracionalidade. Breve, bem humorado e com uma mensagem muito importante (250 páginas)

[adenda] algumas afirmações retiradas do livro de Sutherland:
  • Os grupos tendem a extremar as suas opiniões partilhadas;
  • A construção de estereótipos é uma abstracção irracional, simplificando o mundo através do crescer da injustiça individual;
  • A expressão pública de uma opção torna-a mais difícil de rejeitar no futuro.
  • É mais fácil seguir a acção dos outros do que ir contra essa acção, independentemente da justiça intrínseca das opções. Deste modo reside o perigo, para as pessoas e para o sentido crítico, de participar em multidões.;
  • Obedecer à autoridade ou conformar com os pares é mais fácil que escolher as alternativas.
    A maioria prefere manter a estrutura dos seus valores mesmo que isso sacrifique a lógica, a coerência e a verdade;
  • Individualmente vê-se o outro como sendo bom ou mau e não como uma mistura positiva e negativa de diferentes características (eg, feio e inteligente, bom mas estúpido, carinhoso mas intolerante);
  • Muitos, em vez de voltar atrás numa decisão, optam por extremá-la (por falta de sentido crítico, por terem investido demasiado). Um pequeno erro inicial pode, assim, transformar-se numa tragédia;
  • Para que alguém faça X, erigir um processo iniciático difícil e desagradável, mesmo que nada tenha a ver com X. Esse investimento inicial faz com que o sujeito sinta mais dificuldade de desistir no futuro.

dezembro 05, 2009

Flexibilidade

Aplicar a rigidez de um código moral ou de uma lei ao contínuo variado de uma população traz inevitavelmente pressão sob aqueles que se encontram nos limiares aí definidos. Por isso, espera-se dos responsáveis algum cuidado e contenção nessa ânsia tão humana de desenhar fronteiras.

dezembro 02, 2009

Violência

"[...] serão os terroristas fundamentalistas, sejam cristãos ou islâmicos, realmente fundamentalistas no sentido autêntico da palavra? Será que acreditam mesmo? O que lhes falta é um atributo facilmente discernível em todos os autênticos fundamentalistas, desde os budistas tibetanos até aos Amish americanos: a ausência de ressentimento e inveja, a profunda indiferença em relação ao modo de vida do não-crente. Se os ditos fundamentalistas realmente acreditassem que encontraram o caminho da verdade, porque se sentiriam ameaçados pelos não-crentes, porque os haveriam de invejar? Quando um budista encontra um hedonista ocidental, ele mal o condena, limitando-se a notar que o caminho hedonista para a felicidade derrota-se a si próprio. Em contraste com os verdadeiros fundamentalistas, o pseudo-fundamentalista está profundamente incomodado, intrigado e fascinado pela vida pecaminosa dos não-crentes. Sente-se que, ao lutar com o Outro, eles estão a lutar contra a sua própria tentação. [...] Quão frágil a crença de um muçulmano para se sentir ameaçado pelas estúpidas caricaturas de um jornal dinamarquês de baixa circulação? O terror do fundamentalismo islâmico não está baseado na convicção dos terroristas da sua superioridade e no seu desejo de salvaguardar a sua identidade cultural-religiosa do massacre consumista da civilização ocidental. O problema não é que nós os consideramos inferiores mas que, eles próprios, secretamente se consideram inferiores. [...] Paradoxalmente, o que falta aos fundamentalistas é precisamente a dose dessa convicção «racista» da sua própria superioridade.

O que causa perplexidade nos ataques «terroristas» é que eles não se encaixam na nossa tradicional oposição do mal como egoísmo ou desapego do bem comum, e do bem como o espírito de sacrifício por uma causa maior. [...] O egoísmo, o interesse dos próprios bens, não é oposto ao bem comum porque é possível deduzir normas altruístas a partir de preocupações egoístas. O individualismo vs. a comunidade, o utilitarismo vs. a asserção de normas universais, são oposições falsas dado que este conceitos produzem os mesmos resultados. Os críticos que se queixam da falta de valores, na presente sociedade hedonista-egoísta, falham totalmente o alvo. A verdadeira oposição do egoísmo não é o altruísmo, a atenção pelo bem comum, mas a inveja, o ressentimento, que me faz agir contra o meu próprio interesse. Freud sabia isto muito bem: a pulsão da morte é oposta ao princípio do prazer bem como ao princípio da realidade. O verdadeiro mal, que é a pulsão da morte, envolve auto-sabotagem. Ele faz-nos agir contra os nossos interesses." Slavoj Zizek, Violence

novembro 24, 2009

Definições

"[...] Os critérios e os métodos anatómicos e patológicos continuam a ter um papel crescente na capacidade dos médicos para detectar alterações na integridade psicossomática do corpo e na distinção entre pessoas que apresentam sinais identificativos de doença e aquelas que não os apresentam.

É importante entender com clareza que a psiquiatria moderna - e a identificação de novas doenças psiquiátricas - começaram não por identificar essas doenças pelos métodos provados da patologia, mas por criar novos critérios do que constituía uma doença: ao critério estabelecido de detectar alterações na estrutura do corpo, foi adicionado o novo critério de detectar alterações na função do corpo; e, como a primeira era obtida pela observação do corpo do paciente, assim a segunda observava o seu comportamento. [...] Assim, enquanto na medicina moderna as novas doenças são descobertas, na psiquiatria moderna elas são inventadas. Por exemplo, a paresia foi provada ser uma doença, a histeria foi declarada uma doença." - Thomas Szasz, The Myth of Mental Illness

novembro 20, 2009

Ligações

Levará a ausência de livre-arbítrio, dado eliminar a opção da escolha, a aceitar uma qualquer versão do historicismo? A liberdade existe como função das possibilidades aceites pela sociedade (sejam legais, morais, económicas ou tecnológicas) onde o eu, nesse local e nesse instante, decide (e sempre da mesma forma, caso fosse possível repetir a tomada da decisão). Mas as escolhas são tão intrincadas, as relações entre si tão complexas e caóticas que apenas se podem estabelecer eventos como causas ou consequências que tenham ocorrido muito perto das acções do presente. Quando nos afastamos no tempo, quando olhamos para o passado ou para o futuro menos recente, a possibilidade de extrapolação decresce exponencialmente. Os eventos começam, furiosos, a cruzar-se, a anularem-se num nevoeiro de dúvidas do qual é quase impossível recolher evidências ou demonstrar profecias.

novembro 16, 2009

Resolução

A resolução racional de um problema depende não só do problema mas também do seu contexto. A solução encontrada por uma cultura distante no tempo ou no espaço pode ser muito diferente da nossa, mesmo que essa solução, na altura, fosse a melhor possível (e quase nunca é, agora ou no passado). Querer forçar soluções obsoletas sem considerar as distinções presentes é um caminho para a criação de novos e até maiores problemas.

novembro 09, 2009

Antropologia

[entrevista à Ípsilon, 9 Setembro de 2009]

Gustavo Rubim: O que o interessa naquilo que os antropólogos portugueses fazem hoje? E o que é que não suporta?

Filipe Verde: Vou ser franco: salvo algumas excepções, quase nada. E o que não suporto é muito, e não é específico da antropologia feita em Portugal, que não é diferente da que se faz fora de Portugal. Não suporto a mediocridade das questões, a insignificância e irrelevância dos objectos da sua curiosidade, a falta de cultura científica e o facilitismo relativista da maioria dos praticantes, que são uma espécie de aplicadores burocráticos do que decidiram considerar como uma "metodologia" ou um "olhar". E depois há a assimilação auto-congratulatória da forma contemporânea do preconceito: o politicamente correcto, de que muitas vezes querem tirar dividendos e autoridade política. E contudo a antropologia é talvez (para mim de certeza, e a par da história) a mais interessante das ciências do Homem, com um legado de valor inestimável para a tradição humanística.


novembro 05, 2009

Escolhas

O comportamento inato que me inicia, com os anos acumulados de experiência e aprendizagem, é a semente que me faz cidadão desta sociedade e membro da minha cultura, é o começo desse caminho percorrido que chamamos pessoa e que, em cada instante, designamos por eu. Outra cultura, outro século, e o mesmo início dirigir-se-ia para outro lado, num outro processo, construindo um outro diferente que eu não reconheceria. Cada pessoa não é um caminho de escolhas, mas a deriva possível e inevitável nessa maré que é o ponto de Mundo onde nascemos.

outubro 31, 2009

Critérios

Escolher, entre dois candidatos, o mais inteligente e capaz, não é um critério óptimo para escolher a melhor pessoa para um trabalho. Interessa saber o quão de esforço - em tempo, na seriedade mental, no cuidado - cada candidato irá aplicar às decisões em causa.

outubro 26, 2009

Eu

Um jantar com dois casais, cada um com um filho. Seis pessoas a partilhar uma refeição. Quantos «eus» estarão ali? Para lá da resposta óbvia, gostaria de argumentar que depende do crivo, que a definição do eu é instrumental, um mecanismo de separação e identificação social a que nos habituámos e ao qual transformámos em definição. Se olharmos mais perto para o processo cognitivo, surge-nos uma imagem paradoxal, de um certo prisma parecem ser mais de seis, de outro menos.

Porquê mais que seis? Cada um de nós possui diferentes personas consoante as situações a que, voluntariamente ou não, nos sujeitamos. É trivial que nos comportamos de forma distinta quando no emprego, em casa, nas reuniões familiares, nos transportes públicos, perante uma situação de violência, na guerra. Mas, aparte dessas diferenças, onde se encontra esse verdadeiro eu? Quando estamos com quem nos é mais íntimo? Quando sozinhos? Mesmo nessas situações continuamos a restringir-nos perante o que interiorizamos poder e o que desejamos fazer (seja por força de normas sociais, seja por auto-preservação, seja pelo necessário compromisso que existe mesmo entre aqueles que nos são mais próximos). Onde se encontra esse eu? Talvez a noção de eu seja apenas a ilusão dessa sequência de diferentes representações, um palco que, de outro modo, sem sociedade, sem outros palcos para interagir, sem máscaras para contrapor às nossas máscaras, estaria vazio e não teria sentido. Como um espelho sem nada para reflectir.

Porquê menos que seis? Existem evidências obtidas pela psicologia experimental que o cérebro não reconhece uma fronteira fixa ao que associamos como corpo. Quando fazemos aproximar um objecto da mão de uma pessoa é activado um conjunto de processos neuronais que terão a ver com mecanismos de defesa, de atenção entre outros. Mas, se por exemplo, essa mesma pessoa segurar uma bengala e fizermos aproximar o anterior objecto da bengala, os mesmos processos são activados. O cérebro estende a noção do seu corpo às respectiva extensões (seja uma bengala, seja o carro que guiamos, etc.). Assim, a noção que a nossa mente tem do corpo é mais restrita, menos dinâmica, do que aquela que o nosso cérebro possui. Se esta extensão automática ocorre perante objectos, mais facilmente será vísivel quando seguramos a mão de um filho, de alguém que amamos. Nessa situação, o nosso corpo (cognitivamente, mesmo que não o assumamos mentalmente) estende-se a mais do que uma pessoa. Se interiozarmos isto, se considerarmos e aceitarmos racionalmente esta ligação, o toque, o segurar da mão, o abraço que damos, a ligação física da mãe desde a gravidez à amamentação, podem tornar-se apenas uma faceta dessa ligação. A geografia não é relevante para a associação entre aqueles a que emocionalmente nos sentimos chegados, como é o exemplo mais forte da família e, normalmente em menor grau, dos amigos próximos. Nesta perspectiva, a noção de pessoa, o átomo social, deixa de ser sinónimo do eu, que, mais que uma invariante psicológica, torna-se uma estrutura relacional, uma rede afectiva. Assim, nessa sala, durante o jantar, haja apenas um eu, talvez fugaz, mas por todos partilhado.

outubro 22, 2009

Ferramenta

Se fosse possível repetir com total exactidão, i.e., o mesmo mundo mental e externo, uma qualquer situação do passado em que tomamos uma decisão, que hipótese haveria na segunda vez em tomar uma decisão diferente? A resposta a esta experiência mental só pode ser uma: não haveria qualquer hipótese de tomar uma outra decisão. A resposta contrária teria de se justificar indicando que diferença seria essa, se todo o mundo fosse igual, e essa diferença teria de reintroduzir algum tipo de dualismo (um espírito, uma alma, algo imaterial, não físico) ou um evento totalmente aleatório (e.g., algo quântico). Nem um nem outro são respostas satisfatórias do ponto de vista do livre-arbítrio pessoal (sendo que o dualismo é um preço demasiado alto). Como o conceito de deus foi importante para a dinâmica das sociedade antigas, o livre-arbítrio é-o nesta sociedade baseada na justiça e na responsabilidade. Mas um conceito não precisa de existência concreta para se mostrar relevante.

outubro 19, 2009

Import / Export

As nossas acções, se suficientemente iteradas, são automatizadas pelo cérebro obtendo, assim, uma certa independência. A experiência é uma interiorização, um libertar de recursos, uma opção ganha para desviar a atenção para o que é novo, potencialmente perigoso ou desejável. A juntar ao que o cérebro controla desde o nascimento (o bater do coração, por exemplo) programamos, ao longo da vida, as mais diversas rotinas (como comer, tomar banho, guiar, fazer sexo). Cada automatismo é uma cedência do eu ao seu corpo, um perder dessa trajectória difusa que é a personalidade em detrimento da comunidade multi-celular que a sustenta. Pode-se ver nisso uma ameaça. Pode olhar-se como uma homenagem. Do eu mental que os outros próximos partilham ao robot físico que a sociedade precisa, usa e reconhece.

outubro 14, 2009

Mísero rimar aos media

Gritar o rumor sem sentido de humor.
Fixar a histeria no assunto do dia.
Os factos são caros, cada opinião um tostão.
Sem cérebro a pensar dói menos falar.

outubro 12, 2009

Pastoreio

Ser antílope é menos exigente do que viver-se leopardo. Vai-se com o grupo, repete-se quase tudo e pensa-se quase nada. A comida, essa, é muita. Já para o felino é uma chatice: o isolamento de ser raro, a pressão do futuro imediato, a exigência sempre intensa da caça. Porém, dorme-se descansado. Homenagem ao FLV do Mar Salgado e autor do livro "Amor e Ódio"

setembro 29, 2009

Definições e Limites

A maioria define a normalidade e, por arrasto, os seus extremos, como a loucura ou o génio. Mas, por maior que seja, nem sempre decide bem, nem sempre age correctamente, não é dela o domínio da verdade.

setembro 25, 2009

Lances

O sistema judicial não é sinónimo da Justiça, nem sequer é uma instância desse ideal impossível. Este sistema, a que por coerção social nos sujeitamos, é um jogo. Um jogo com regras muito complexas, mutáveis (teria sempre de o ser, nos seus detalhes, para espelhar a dinâmica do mundo) e construídas, maioritariamente, por pessoas que dela precisam para o seu sustento financeiro (advogados, juízes, juristas...). Dirão que as regras têm de ser definidas por especialistas, o que faz sentido. Mas pensaria o leigo, tendo em consideração que o Direito é uma venerável disciplina milenar, que o resultado disso seriam leis estáveis, coerentes, legíveis e pouco ambíguas. Mas o resultado, não raras vezes, é tudo menos isso. Quem não versado nas leis, ao tentar ler um decreto que lhe interesse, depara-se com um texto denso, quase impenetrável. Um texto que foge a uma interpretação concreta, que dê uma explicação simples sem exigir uma travessia labiríntica, por outros decretos, numa causalidade sem fim aparente e que derrota o leitor deixando-o desamparado. Serão as regras deste jogo necessariamente tão complexas ao ponto de ninguém externo ao mundo legal as possa entender sem ajuda desse mesmo mundo legal? Quando um conjunto de pessoas detém a feitura das regras do jogo que depois o usa para ganhar dinheiro e estatuto, há uma pressão, uma tentação fundamental, de tornar a sua própria presença inevitável. Isso seria, só por si, muito pouco ético. Mas receio que seja pior. O palimpsesto legal é tão imenso que é capaz de suportar vários níveis de especialistas. É tão fragmentado e complexo que existem sempre refúgios e saídas, excepções de excepções de excepções que tornam, para quem tenha a mestria necessária, até o mais óbvio numa embrulhada legal que aborta qualquer conclusão rápida ou mesmo, ao limite, qualquer conclusão justa. Imagino um advogado como um jogador de um xadrez barroco, com milhares de regras e ressalvas, a tentar ganhar, com lealdade, a partida ao seu cliente. Só que a qualidade do jogador que o cliente é capaz de contratar para a sua defesa é proporcional à sua capacidade financeira. Nem todos podem contratar grandes mestres de xadrez. Assim, qualquer caso, por mais injusto que seja, por mais culpa que um dos litigantes tenha, por mais desvantagem inicial que possua, é, em última análise, a qualidade do jogador que determina o resultado da partida. Só que o resultado da partida deveria ter mais a ver com essa difícil, mas irredutível coisa, que é a realidade do que aconteceu.

julho 06, 2009

Três E's

Para muitos dos problemas actuais há três áreas do saber fulcrais para sermos capazes de analisar as informações que nos estão disponíveis e formar uma opinião crítica. Elas são a Estatística, a Economia e a Ética. Vejamos brevemente cada uma. A matemática como é dada presentemente, depois da aritmética, geometria e álgebra, tem muito do seu tempo atribuído ao estudo das funções, dos limites e do contínuo, i.e., das bases da análise e do cálculo que, apesar da sua importância na tecnologia e em muitas ciências, não é relevante no dia-a-dia da maioria das pessoas e, deste modo, fornece argumentos à sua falta de utilidade prática. Porém, as noções de probabilidade, os defeitos e virtudes do aleatório e da informação incompleta, as estimativas e outros conceitos relacionados encontram-se diariamente nos jornais, na recolha e avaliação dos factos, nas decisões legais, médicas ou políticas. E sendo conceitos que os seres humanos têm dificuldade inata (estudada e documentada) em analisar e comparar, mais um motivo haveria para a sua relevância e urgência. Já a importância da Economia, numa sociedade complexa como a nossa, onde decisões ideológicas que sacrificam a razão económica só não são consideradas crime (nos cenários aquém da catástrofe explícita) pela nossa razoável ignorância nesta área. Mesmo que diferentes prioridades económicas sejam resultado de políticas igualmente defensáveis (por exemplo, investir mais na saúde do que na educação, ou vice versa), outras decisões há, populares, eleitoralistas, sectoriais, que são objectivamente prejudiciais à riqueza comum da sociedade, favorecendo poucos e prejudicando muitos. Somente uma população informada do ABC económico seria capaz de distinguir estes tipos de decisões e impedir políticas empobrecedoras que, deste modo, escapam ao escrutínio público. Finalmente, a Ética: aprender os fundamentos deste saber, analisar a sua história passada para melhor ver as limitações do presente, entender o quão relevante é a liberdade do outro e reflectir nos argumentos sobre a justiça, a igualdade política ou a dimensão e as restrições do estado. Tudo isto é essencial para esclarecer e justificar uma base às questões e problemas que se nos deparam como indivíduos, como elementos de maiorias e minorias, como sociedade. É uma coincidência todas começarem por E mas a Estatística, a Economia e a Ética possuem outra coisa em comum e esta não é por acaso: todas são exercícios racionais sobre recursos limitados. Também, nesse aspecto, são pontes importantes entre nós e a realidade que gerimos, dádivas a esse difícil de se ser adulto.