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dezembro 10, 2008

Basta

"O cepticismo não é irrefutável, mas manifestamente um contra-senso, se pretende duvidar onde não se pode perguntar." Ludwig Wittgenstein, Tratactus Logico-Philosophicus, 6.51
"Eis por que razão não faz sentido ser céptico relativamente ao problema da Imaculada Conceição assim como a tudo o que tenha a ver com a religião. Na religião não há problemas. E se na religião não há problemas também não há perguntas. E se não há perguntas não há dúvidas. Basta estar de joelhos."Ponteiros Parados, 8/Dez, José Ricardo Costa

junho 16, 2008

Fendas

Poderão ser os fanatismos e superstições consequências mentais de certos contextos sociais (de pobreza, de medo, de falta de opções) da mesma forma que as doenças, como a tuberculose ou a sida, o são para o corpo? Se cada contexto social (um ecossistema mental usando uma metáfora biológica) propícia um pano de fundo, um espaço de possibilidades para o desenvolvimento de patologias (como a gripe se multiplica no frio e a malária no calor), que tipo de patologias origina um ambiente de liberdade, de excesso de opções? Irresponsabilidade? Indiferença e indecisão? O tédio?

abril 16, 2008

Retrato

Um regulamento moral é um conjunto de preceitos derivados de uma tradição e mantidos por uma classe profissional de sacerdotes. Esse regulamento, que cria a rede de crenças e que mantém essa classe, é uma burocracia ética cuja própria mudança é sempre mais lenta que as mutações inevitáveis da sociedade. O ónus dessa diferença crescente, entre o que era suposto no passado e no presente, recai, fora esporádicas e imprevisíveis revoluções, na população que alimenta o sacerdócio. O objectivo de uma burocracia não é retratar o real, mas subjugá-lo às arbitrariedades que a prolongam; é um espelho a fingir-se uma janela.

março 03, 2006

Qual?

Desde há séculos e de muitas maneiras, em nome da dignidade humana, falou-se da morte de Deus e do fim do cristianismo. Desde alguns anos, confia-se no «retorno do religioso» e na «nostalgia do absoluto» para notar que a notícia da morte de Deus talvez fosse exagerada e para dizer que o fim da Idade Moderna chegou mais depressa do que o fim das religiões. Mas esse pode ser o caminho da apologética fácil. Não se eliminam séculos de crítica filosófica, de investigação científica, de vida cultural distanciada das Igrejas com declarações generosas, suspensão de alguns anátemas e bons propósitos para o futuro. Seria um engano.

Quando nos referimos a Deus [...] precisamos saber de que Deus falamos. Já Malebranche, um filósofo cristão do século XVII, dizia que «a palavra 'Deus' é equívoca, infinitamente mais do que se possa pensar. Há quem imagine que ama a Deus mas efectivamente ama apenas um imenso fantasma que ele próprio forjou.» [...] Em vez de gritar contra Marx, Nietzsche, Freud, Sartre, etc., importa indagar por que razões não se entenderam com o Deus que aparecia no rosto das Igrejas. Frei Bento Domingues Público 18 Set 2005.

dezembro 21, 2005

Montes de hobbies

Se o ateísmo é uma religião, então não coleccionar selos é um hobby. (de alguém chamado 'snex')

novembro 28, 2005

E assim as invenções tornam-se descobertas...

As teorias científicas são modelos que relacionam certos factos da Natureza para explicar e eventualmente prever eventos que observamos. Têm de ser refutáveis mesmo que sejam capazes de adaptar-se às novas informações que não existiam no momento da sua concepção. Porém, quando as teorias cessam há pelo menos dois destinos muito distintos: ou são eliminadas (por exemplo, o Sol andar ao redor da Terra, o flogisto ou a teoria do éter) ou são consideradas factos (a Terra ser uma esfera e andar à volta do Sol são hoje factos não teorias). Quando é que uma teoria se torna um facto? Quando todas as instituições de uma cultura a aceitam como tal? Um critério (muito abrangente) seria analisar a opinião das individualidades mais tradicionais, nomeadamente as religiosas, sobre o caso em questão. Se usarmos esse critério, a evolução biológica passou, no Ocidente e neste início de século, de teoria a facto dado o Vaticano aceitar que ela existe (o mesmo não ocorre com a selecção natural, recusada por sectores religiosos em desfavor do desenho inteligente).

novembro 25, 2005

q.b.

Não se comunica com o sobrenatural senão por algoritmos. Sendo o domínio do intangível, sobra-nos a experiência de sucesso e insucesso dos rituais tentados. Isto, um pouco de memória selectiva e um corpo organizado de funcionários convictos é suficiente a uma religião. O resto (morais, exegeses, a sublimação das causas) é acessório.

novembro 16, 2005

Boas notícias (we hope)

[Martin Penner, 7 Novembro 2005 no The Australian] The Vatican has issued a stout defence of Charles Darwin, voicing strong criticism of Christian fundamentalists who reject his theory of evolution and interpret the biblical account of creation literally.

Cardinal Paul Poupard, head of the Pontifical Council for Culture, said the Genesis description of how God created the universe and Darwin's theory of evolution were "perfectly compatible" if the Bible were read correctly. His statement was a clear attack on creationist campaigners in the US, who see evolution and the Genesis account as mutually exclusive.

"The fundamentalists want to give a scientific meaning to words that had no scientific aim," he said at a Vatican press conference. He said the real message in Genesis was that "the universe didn't make itself and had a creator". This idea was part of theology, Cardinal Poupard emphasised, while the precise details of how creation and the development of the species came about belonged to a different realm - science. Cardinal Poupard said that it was important for Catholic believers to know how science saw things so as to "understand things better".

His statements were interpreted in Italy as a rejection of the "intelligent design" view, which says the universe is so complex that some higher being must have designed every detail.

outubro 04, 2005

Conveniência

O que separa as ciências de actividades como a religião ou a astrologia, não é umas dependerem de afirmações falsificáveis e outras não. Todas elas as usam mas apenas os adeptos das primeiras se esforçam por testá-las.

setembro 19, 2005

Troca

É comum considerar as religiões do Livro (e o reflexo nele de um deus único) como o culminar evolutivo da religiosidade. Mas o que acontece quando ao saber escrito nesse livro - e fervorosamente conservado pelo que se chama de ortodoxia - não é permitida mais que uma interpretação? Enquanto se pode congelar um argumento, não é possível fazê-lo com o mundo. Este evolui, a natureza necessita de novas explicações, pensamos de forma diversa em cada século que passa. Se o Livro se torna pedra gravada, a diferença entre o literal que se lê e o literal que se vive torna-se progressivamente maior. Enquanto uma religião sustentada num padrão de ritos e textos contraditórios mais facilmente se adapta à realidade (à impossibilidade de um argumento único aceitam-se melhor vários), o livro sagrado procura, pela força da sua comunidade, deter o mundo. Alguns dirão que a interpretação é sempre necessária; que uma diferença de olhar muda o significado da leitura; que na existência de contradições entre o escrito e o vivido se deve procurar o abuso sem restrições (no Livro se for preciso). Mas a ortodoxia, que recebe o poder deste cessar de mundo, não costuma ouvir mais do que aquilo que lhe interessa.

setembro 02, 2005

Transferência

Já não se procura nos deuses uma forma de domínio sobre a natureza. A tecnologia e o suporte da ciência escoram a civilização. Já não se procura nos deuses a expressão de uma lei divina que nos ordene. A lei civil, legislada e mutável, é uma ferramenta mais apropriada e humana. Já não se procura nos deuses histórias para ferver a imaginação gasta no espremer dos dias. A invenção da literatura e de tudo o resto dão-nos mundos mais complexos e revigorantes que as sagas antigas. Talvez reste aos deuses o segredo nunca desvendado do sentido da vida. Mas o que sabem os seus funcionários (padres, imãs, rabis, xamãs) desse ininteligível? Porque devemos nós, adultos, transferir-lhes o esforço, a responsabilidade e a obrigação de construir esse sentido da vida, já que o fazemos sempre na obra que deixamos? Porque escolher uma moral já pronta em vez de uma ética conquistada? Por ser mais fácil?

março 24, 2005

Desculpas

Do alto da sua perfeição anunciada, as religiões do livro proclamaram o monoteísmo, a tirania do deus único. O dualismo religioso, como a luz e a escuridão de Zoroastro, secou nessa fonte inesgotável que é a fé dos Homens. Mas como explicar o estado do Mundo sem uma tensão de poderes? Uns (re)inventaram Satanás. Outros o livre arbítrio. Outros ainda, uma desculpa para queimar hereges.

fevereiro 11, 2005

Distância

O dogma é uma opinião fossilizada, o coveiro de um cemitério de questões pertinentes; e tão distante da verdade como os seus guardiães estão da multidão que tutelam.

dezembro 28, 2004

Requisitos

Idolatrar é um verbo que precisa de: (i) um sujeito com necessidades urgentes mas com preguiça ou impossibilidade de as satisfazer sozinho; (ii) um complemento directo que seja, ao mesmo tempo, ubíquo e distante (parece difícil mas não é); (iii) um complemento indirecto suficientemente luminoso/barulhento/impressionante que nos convença ser a multidão sinónimo de verdade.

dezembro 20, 2004

Convergência III

Seja a ideologia lapidada de um partido, envernizada no conformismo dos seus seguidores. A que distância se encontra da fé legislada de uma Roma?

dezembro 10, 2004

Diferenças

Para um monoteísta, o Universo tem um sentido: é a misteriosa estória escrita por deus. Para quase todos os outros não há significado para além do que se constrói individual ou culturalmente. Mas o mistério apenas é uma máscara sem rosto. A diferença, assim, talvez não seja tão grande.

julho 26, 2004

Não se pode provar uma negativa universal? (parte II)

Os cientistas preferem as explicações naturais à sobrenaturais, não devido a um preconceito metafísico, mas porque as explicações naturais produzem um melhor entendimento do que nos rodeia. Como Platão disse, dizer que foi Deus não é explicar, é apenas uma desculpa por não ter uma explicação. A eficácia de uma explicação é determinada pela forma como sistematiza e unifica o nosso conhecimento. A extensão desta sistematização é medida por diversos critérios como a simplicidade (o número de asserções que faz), conservadorismo (se se encaixa nas teorias naturais vigentes) e utilidade (se faz novas predições com sucesso).

Explicações sobrenaturais são inerentemente inferiores às naturais. Por exemplo, são menos simples porque assumem a existência de entidades sobrenaturais (fantasmas, poltergeist, anjos, deuses, relações não triviais como na astrologia); não explicam os fenómenos de forma conveniente, produzindo mais perguntas que respostas; são menos conservativas porque é normal violarem leis naturais; não são úteis porque não são aptas para preverem acontecimentos novos. Por isso os cientistas as evitam.

[...] E se não existir uma razão natural plausível para algum fenómeno? Poderá isso justificar a existência de Deus? A nossa incapacidade para encontrar uma explicação conveniente pode simplesmente ser devido à nossa ignorância sobre o funcionamento das leis naturais. Muitos fenómenos que já tiveram explicações sobrenaturais como vulcões, terramotos e doenças são agora entendidos como fenómenos naturais. Como Santo Agostinho entendeu, os milagres não são contrários à Natureza, são contrários ao nosso conhecimento da Natureza.

Dada a inferioridade das explicações sobrenaturais e a incompletude do nosso conhecimento, os teístas apenas deveriam oferecer uma explicação sobrenatural de um fenómeno se conseguissem provar ser impossível encontrar uma explicação natural para o mesmo. Ou seja, para invalidar a prova científica da não-existência de Deus, os teístas têm de provar uma negativa universal: que nenhuma explicação natural para o fenómeno pode ser encontrada. E isso, acredito, é uma negativa universal que nenhum teísta será capaz de encontrar.

abril 15, 2004

Distância

O fascínio do inexplicável reside na distância a que se encontra. Qual o interesse da resposta pronta, vestida de atalho, que a religião oferece?

abril 12, 2004

Raízes

Quando a mensagem do Cristianismo saiu da Palestina para o Mundo, as suas implicações foram sendo questionadas por sábios de outras terras. A missão de evangelizar necessitava de um conjunto de conceitos mais elaborados, de uma Revelação melhor explicada. Era evidente que esta nova fé levantava uma série de questões metafísicas, éticas, cosmológicas que precisavam de resposta. Por sorte, quase tudo já tinha sido tratado pelas velhas escolas pagãs da ciência e filosofia que marcavam o conhecimento do Império Romano (para onde o Cristianismo se expandiu). Muitos dos novos convertidos, detentores de alguma educação, eram formados pelos quadros conceptuais dessas escolas, principalmente pelo Estoicismo (fundada por Zenão de Cítia no Século IV a.C.) que promovia uma doutrina moral onde se propunha suportar a dor e a infelicidade para atingir a felicidade através da razão e da fé nessa razão. A doutrina era baseada numa visão da Natureza como um todo imanente, onde as partes colaboravam num determinado sentido (eventualmente incognoscível). Os Estóicos teriam, assim, sido formados num contexto que lhes disponha favoravelmente a aceitar a Verdade Cristã. Foram convertidos e conversores:
  • O Evangelho de São João começa com "No início era o Logos" (que significa razão, palavra), desde há muito uma das palavras chaves do Estoicismo para explicar como a divindade iniciou a sua relação com o universo.

  • Outro conceito Estóico adoptado foi o "Espírito Santo". Este termo surgiu no desenvolvimento do conceito de "fogo criativo" de Zenão, denominado por um seu discípulo de pneuma ou espírito. Este espirito era uma emanência de Deus no universo, condensado em alma no ser humano.

  • Um outro contacto reside no conceito de Trindade: Pai, Logos e Espirito eram todos nomes estóicos para a unidade de Deus.

  • A progenidade de Deus em relação aos homens e a consequência de sermos todos irmãos, era igualmente uma noção estóica (referido por São Paulo nos Actos dos Apóstolos, 17:28).

  • Até alguns comportamentos dos seus seguidores são semelhantes: o ascetismo, o afastamento da sociedade para melhor meditar eram efectuados por professores estóicos que depois foram imitados pelos seus equivalentes cristãos. Herdaram-se termos: o que praticava auto-controlo era um "ascetic"; aquele que se afastava do mundo era um "monachi" sendo o local de retiro denominado "monasterium".
Como curiosidade final, os Estóicos chamavam por vezes ao Universo a Cidade de Deus. Foi este o título da magna obra de Santo Agostinho (Civitas Dei), um dos maiores teólogos da Igreja. (adaptado de um texto de Maxwell Staniforth)

abril 05, 2004

Palimpsesto

As cidades crescem nas ruínas do passado, camada sobre camada de esquecimento e História. De igual modo as religiões - diferentes reflexos dessa fé que dificilmente se mostra - crescem sobre o antigo sagrado agora profano. O sangue que correu para mudar de espelho.