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maio 15, 2006

Relatividade

Kong júnior trava o carro, desliga o motor de 215 cavalos e o mundo lá fora pára de andar para trás. Cada uma das quatro portas a rodar e todos no pátio anteriormente vazio. Kong sénior abre a mala do carro e retira, elevando-o como um garrafão de água (ou dois, talvez), um homem que já não é mais que um débito irreparável. O Doutor Spleen retira o alicate polonês do bolso e, através dos gritos mudos pelo pano molhado na boca, inicia um processo de remodelação física da dívida encarnada. São duas da manhã mas o tempo passa com diferentes nuances psicológicas a cada um dos cinco personagens: os irmãos Kong inquietam-se com o nível de óleo do BMW, passado já mais de dez mil quilómetros da suposta revisão e Dabila sente-se, enquanto na revista interpreta a carta de Tarot do seu signo, um pouco enjoado pela feijoada do jantar.

maio 08, 2006

Resoluções Adiadas

Os sonhos são no Homem o ruído que nos aceita qualquer pergunta. Mais. São também a história que atravessa essas perguntas nascidas elas de receios, ânsias ou impulsos retidos pelo difícil do mundo. O Doutor Spleen, de costas para o colchão suíço, observa, com demora e no tecto, os pontilhados aleatórios pelo acumular de humidade. A casa no silêncio de fim de manhã demora a acolher essa viagem onírica de todos os seus dias. O resto dorme, horas passadas, indiferentes às lâminas de luz que cruzam o escuro do quarto (na verdade, também Kong Sénior está acordado e, apesar de manter os olhos fechados, a imaginação percorre uma fantasia pictórica, obscura e demasiado complexa para caber neste parêntesis - é a virtude e o dilema do narrador, pretender saber mais que as suas personagens e, no entanto, dar-lhes a vez possível para as linhas que tem). O Doutor Spleen, entre os padrões que adivinha na humidade, reconhece haver poucas fronteiras menos estimulantes que essa demora arrastada a que se resolveu, um dia, chamar insónia.

maio 02, 2006

Sistemas Formais

Gustav Mahler retira-se da aula de piano de Julius Epstein directamente para a avenida (e é toda uma Viena, nesse luxuoso esplendor de capital de império, que o acolhe) nesse frio de tarde onde o sol se fecha atrás das ruas, a pensar como a escala musical, um sistema tão simples, discreto e formal, lhe abre as portas à criação de mundos à sua medida e da dimensão do seu génio (que aos poucos, com a educação que recebe, depreende que tem). Exactamente 140 anos depois, no centro de outra capital europeia, sobre um frio exactamente igual (e apesar da noção de calor ser uma definição termodinâmica que, à partida, não determina uma causalidade com a dinâmica complexa dos pensamentos humanos, não deixa de ser um factor comum que esta narrativa decidiu tomar em conta, para permitir ao leitor um caminho possível, mesmo que improvável, de explicação), o Doutor Spleen considera o mesmo sobre o método igualmente simples, discreto e formal da culinária.

abril 24, 2006

Engodo

Outro corpo no gelado do chão. Outro assassino morto com a sua própria arma. Não é a tentativa falhada que irrita o Doutor Spleen: tentar é parte da natureza do Homem e falhar é o acto inevitável que conduz à criação das coisas. Não é igualmente a simplicidade dessa tentativa que produz a irritação: não deixa de ser admirável o possível que se abre no optimismo de um modelo elementar e que, no entanto, nos leva longe mesmo que esse longe seja a distância dos nossos pequenos passos. Nem sequer é a vontade de insistir no erro, nesse tentar logrado que nos rouba os anos a pavimentar o caminho: a paisagem que desenhamos do mundo não é um vento que se atravessa mas antes uma cidade que é preciso, com dor e chegada a hora, demolir. O que verdadeiramente irrita o Doutor Spleen é essa arqueologia do engano, esse desenterrar de ideias mortas que leva outros a revisitar o arquivo de erros que é a História.

abril 17, 2006

Incompletude

Mesmo que os detalhes sejam tão opacos como uma parede de betão armado, é bem sabido que a Física determina, com fabulosa aproximação, a trajectória de milhares de corpos celestes nessa dança cósmica que se chama Sistema Solar. É também de conhecimento relativamente público que a teoria quântica estabelece, com enorme rigor, as normas e comportamentos das partículas sub-atómicas. O que talvez não seja tão conhecido é a incapacidade total da mesma Física em criar modelos que determinem se o lançar de uma moeda, como aquela que agora se encontra no ar em via ascendente, cairá na cara ou na coroa da mesma. Dabila nunca conseguiu perceber (nem decorar) qual das faces é a cara de uma moeda de euro, obrigando-o a adivinhar o desfecho de uma aposta pela expressão do parceiro de jogo. O problema presente é que o semblante granítico do Doutor Spleen não lhe permite antever qual dos métodos (o garrote ou a bala na nuca) terá de aplicar à vítima sobre o silêncio esperado que sempre se segue a estas tomadas de decisão.

abril 10, 2006

Percursos

O real é complexo. Esta afirmação teria a concordância de todos os presentes na sala incluindo o policia corrupto que, para além das dívidas ao jogo, do sustento da intrincada rede de amantes homossexuais e do terror absoluto ao olhar do Doutor Spleen, não costuma pensar muito nestas coisas. Aliás, o real é tão complexo que, por muito trabalho que nele se ponha, serão sempre as perguntas o resultado natural de uma investigação sistemática. Por um lado, esta imensidão do mistério é um convite ao religioso que, sem cuidado, reduz-se ao regresso infantil da necessidade de um Pai/Mãe. Por outro, o não findar das perguntas garante um oceano de oportunidades para cientistas, filósofos e até artistas do divinatório (que entre os padrões do real lá cosem relações improváveis ao saciar dessa sede que são as pessoas). O polícia, não sendo pensador metódico nem astrólogo e que agora sai no silêncio culpado dos traidores, sabe que as oportunidades estarão sempre à nossa frente desde que saibamos que olhos não usar.

abril 03, 2006

Redução

Uma foto não é só um retrato de um instante perdido. Não é somente um possível, uma visão de um lugar cumprido. É também um constatar de duas distâncias, uma temporal que nunca se recupera e uma de espaço entre o olhar e o conjunto que se retrata. O Doutor Spleen permite-se ao prazer autêntico das boas fotografias. Por vezes, meras reproduções de astronomia (que mesmo as falsas cores ou o contraste exagerado não alteram em nada a diferença entre a imagem e a verdadeira dimensão do real), por vezes paisagens moralmente neutras de mar ou terra, por vezes ângulos e partes de corpos estruturados nessa ajuda da iluminação profissional. Nestes últimos, o Doutor Spleen sabe que a separação entre a pessoa que se expõe e o expositor que nele existe é transponível sob o custo de um limitado esforço. Algumas vezes a atravessou para tocar esse mesmo corpo tornando-o, no processo, objecto de outros gostos. Algumas vezes mas poucas. Porque uma distância sempre reduzida deixa de ser distância.

março 27, 2006

Ctrl+Alt+Forget

Um tabuleiro entre os Kong. O bispo empurrado a substituir o cavalo branco. As horas passam. O Doutor Spleen, que na sua juventude atravessou os imensos territórios eslavos, deixou passar em silêncio oito jogadas decisivas e dois xeque-mates. Distraí-se a pensar na metonímia daquelas duas mãos como o seu exército de xadrez (e imagina-o branco). Já ao Inspector Rousseau vê-lo como uma torre negra a defender a inércia burocrática de um governo normal. A verdade é que antes de consolidar este pensamento, a sua mente labiríntica imaginou-o como a rainha branca e quase estremeceu com as possibilidades explicativas que isso provocaria. Quase. Porque o controle que Spleen detém sobre o seu próprio corpo só pode ser equiparado à obsessão que tem sobre o objectivo inconfessado da sua vida.

março 20, 2006

Pontes

A expressão abstracta do segredo profissional, um pouco como o sagrado, é um construir de muros sem reflexo aparente. Os dogmas querem-se indiferentes aos ventos das coisas e são desenhados para produzir tantas ondas como um mar de cimento. Porém, quando a expressão da blasfémia é inadiável não são as convicções que resistem, por muito interiorizadas que tenham sido nessa dura iniciação que é o passado. Foi mais ou menos isto que pensou o psiquiatra, após perder oito dentes num único murro profissional, para se convencer que era mais prudente dizer o que sabia sobre um determinado cliente. Ao Doutor Spleen agradam as tensões da ortodoxia quando postas em causa pela nudez dos acontecimentos. Agradam-lhe também os padrões de marfim humano, cuspidos e agora expostos, no vermelho salpicado do chão daquele gimnodesportivo. E sobre isto agrada-lhe saber que, por muito separados que sejam dois conceitos, há sempre situações em que parecem desenhar, nas suas franjas, um padrão que os liga.

março 13, 2006

Transferência

Dabila acompanha, três passos atrás, a trajectória do Doutor Spleen. Nos becos escuros do pior bairro da cidade, são como um vento deixado de duas sombras. Vê-se miséria, lixo, uma violência mal contida, o fundo onde se concentram as vassouradas da civilização. Para a maioria, aquela travessia seria uma recordação de horror. Para Spleen é o passeio nocturno de um hábito semanal. Por onde passam, são olhos que se desviam, corpos que se afastam, um tremor que se adivinha. Pode ter-se medo da escuridão por lá haver espaço para esconder monstros, concordaria Dabila se fosse outra pessoa. E quando se é o monstro?

março 06, 2006

Normalidade Elástica

A monotonia, como os abismos ou o vácuo, é um conceito que se alimenta da ausência dos seus incompatíveis. Qualquer um dos Kong e mesmo Dabila, na sua estratégia conceptual de não pensar em nada, acham que um pouco de acção, de diversidade normal no dia-a-dia seria bem-vinda. Eu incluo o termo normal porque nenhum dos três é capaz de separar o recomeço dos assassinatos culinários, perpetrados pelo Doutor Spleen, da vivência diária em que se encontram. Uma coisa que eles não seriam capazes de deduzir (e, por isso, Spleen não fala no assunto apesar de lhes reconhecer a capacidade de entender) é que ao repetir um acto um número suficiente de vezes, por maior que lhe seja o desvio, essa diferença torna-se conciliável e entra, assim, na fronteira do monótono. Desta forma se explica que a novidade teórica da colmeia como substituto estético do cerebelo seja menos motivo de conversa que os sapatos novos da menina do bar.

fevereiro 27, 2006

Impossibilidade v.2.0

"Tudo pode acontecer menos o impossível" foram as palavras moldadas em verdade indiscutível que ouviram de Santos, o gerente do restaurante, enquanto lavava o chão com lixívia perfumada. Kong sénior, em pé e de volta da casa-de-banho, argumentou ser essa uma frase óbvia porque baseada numa definição. Essa diferença (i.e., entre obviedades e verdades), mais ou menos esbatida pela ignorância de cada um, era a diferença que ia do ponto de partida, dos axiomas que confiamos, até ao ideal da chegada (Kong sénior não acreditava na materialidade de uma só resposta definitiva mas aceitava, com alguma fogosidade, a pertinência das perguntas). O Doutor Spleen mantém-se metódico no corte da fotografia do Inspector Rousseau e indiferente à discussão stereo que o envolve. Para ele, impossível é como fazer uma máquina que, recebendo um ovo mexido, produza um ovo intacto. Impossível até se meter na máquina uma galinha.

fevereiro 20, 2006

Relações

O dia começa durante as escadas. Naqueles cinco andares quanto suor quantos degraus pisados? O Doutor Spleen não gosta de elevadores e não gosta de quem gosta de elevadores. Os seus ajudantes, incapazes de perceber suficiente matemática para definir uma operação transitiva, sabem por experiência ser ajuizado acompanhar aquele passo rápido que, em cada repetição, deixa um degrau por pisar (para ser exacto, os degraus ímpares se assumirmos o primeiro de cada lance como o degrau zero, por onde ele teima em começar). Degrau zero é, aliás, uma expressão usada por Spleen nos mais inesperados momentos e que designa, segundo Kong sénior, o menor elemento da cadeia que é preciso esmagar (não há consenso, porém, nesta interpretação). Kong sénior pensa muito neste assunto durante as repetidas insónias à luz brilhante do meio-dia (que as persianas quase seculares não conseguem deter) e cuja relevância temática é multiplicada pelos cento e quarenta quilos de músculo e gordura que carrega nestes fins de noite.

fevereiro 13, 2006

Navegação

O Doutor Spleen nem sempre confia no sistema dedutivo/empírico do método científico. Apesar de admitir a sua força conceptual (e esta admissão é-nos constatável pelo estatuto especial de narrador, no qual estou, por acaso, investido, já que Spleen não discute epistemologia), ele acredita que o instinto e a sensibilidade proveniente dos insondáveis abismos da psique humana são ferramentas essenciais à obtenção do génio e das acções que o caracterizam. Dessa forma, o acto que conjuga a sua determinação com os impulsos dos seus desejos é, em parte, um improviso, um navegar imprevisto ao sabor dessa tempestade que são os factos. Tudo isto, mesmo que um pouco abstracto, é o que lhe atravessa agora a mente após usar o manípulo do contentor de lixo para suprimir os quatro agentes do Inspector Rousseau daquela elaborada armadilha.

fevereiro 06, 2006

Equilíbrio

O tempo é isso mesmo. Não mais nem menos. De resto há espaço, energia e (segundo dizem) informação. Kong Jr. lê os jornais à procura do anúncio que melhor se encaixe no padrão referido. Anda nisto há três dias e pela sua voz passaram algumas das possibilidades mais mirabolantes (aquelas que, segundo a sua limitada mas compulsiva mente, mais se aproximam). O Doutor Spleen ouve, corta as unhas e nele misturam-se dois sentimentos. Por um lado - e sem qualquer emoção primária à mistura - apetece-lhe estrangulá-lo com paciência e demorada preparação. Por outro, sorri pelo constatar diário que a realidade e o mundo que nela habita são fontes inesgotáveis de ideias e oportunidades. Este último tem (como o leitor poderia ter concluído sozinho mas vivemos num mundo de facilidade e não serei eu a mudá-lo) ganho sobre o primeiro.

janeiro 30, 2006

Temperança

Spleen gosta de jardins. Queimados. Por isso, de tempos a tempos (até porque possui a perfeita noção que uma necessidade ou prazer reiterado e alimentado sem restrições consome o produto mais depressa que a capacidade em repô-lo), pede a Dabila para incendiar com precisão geométrica um desses parques de cidade. Esta tarefa é mais complicada do que parece, pois um jardim é uma intersecção de caminhos não inflamáveis por entre um conjunto de árvores mais ou menos dispersas. Para além disso, não é fácil encontrar um hotel de cinco estrelas com, pelo menos, um décimo andar e uma boa vista para o espectáculo que ele a ele mesmo proporciona. Não há jantares grátis, mas sempre se podem fazer com estilo.

janeiro 23, 2006

Transição

Das partes intactas exposto um padrão geométrico. Dos fluidos saídos um mapa desenhado, um final imagem abstracta de um princípio. A emergência é um conceito atractor da atenção de diversas áreas do conhecimento. Será possível obter mais que a soma das partes a partir da interacção dessas mesmas partes? Será o fluxo interno de um sistema responsável por propriedades relevantes e não triviais? Ou será apenas mais um assunto que, depois do superficial das coisas novas, cairá em desuso por incapacidade de criar ferramentas úteis? O Doutor Spleen, apesar de não possuir motivados interesses por estas questões, entende (tanto metafísica como empiricamente) que o desagregar de um homem é um acto unidireccional na produção de um «não-homem», por muito cirúrgico que seja o algoritmo usado.

janeiro 16, 2006

Consequências

Os quatro, calados, no restaurante. São três da manhã e encontram-se cercados de mesas a aturar cadeiras invertidas. No balcão, uma mão numa toalha molhada e outra num copo de vinho várias vezes enchido, o gerente espera em silêncio pelo fim daquela angustia semanal. Spleen não gosta de barulho enquanto janta (almoça?) (o Doutor Spleen não gosta de muita coisa, é certo, e este facto deixa-nos com a esperança de conseguir descrever aqui, no decorrer dos meses, o conteúdo selecto dessa lista). Dabila cometeu o desacerto de encomendar arroz de marisco não descascado. Agora vê-se de alicate na mão e a pensar se arrisca o número de decibéis para forçar a carapaça de um crustáceo. Kong sénior (que engole, eficaz, duas doses de bolonhesa) pensa no efeito dominó das pequenas decisões.

janeiro 09, 2006

Exactidão

O Doutor Spleen não só gosta de súplicas desesperadas como detesta sentimentos de esperança crédulos. Uma vítima apenas atinge a plenitude do seu papel se perceber a irreversibilidade da sua posição. De que vale a preparação cénica do contexto, a sequência de eventos que militarmente prepara, se a vítima insiste em argumentar a um qualquer arrependimento da sua parte, à suplica por um sentimento de piedade? Esta insistência irracional na ideia de salvação, esta crença não suportada na redenção de última hora do transgressor retira-lhe algum do prazer deste processo. Por isso, Spleen detesta optimistas e pessimistas (que não possuem diferenças essenciais no que toca a distorcer as coisas) e procura, com afinco e por vezes com exagerado esforço, um verdadeiro realista.

janeiro 03, 2006

Aritmética e Reflexos

Spleen olha-se ao espelho. Cada vez que nele pára mais que o infinitésimo banal para aparar a barba ou retocar qualquer desvio de aparência, vê-se como um homem metade eremita, metade conquistador e metade negligente (na aritmética da personalidade, qualquer soma finita de metades dá sempre mais ou menos um). Spleen sabe que no espelho, com suficiente esforço ou abandono, se encontram demasiadas máscaras a não ser que uma espessa camada de ignorância ou imbecilidade (as subtis matizes de diferenças entre estes dois conceitos quase - por algumas vezes, quando a metade eremita estava mais forte - fizeram-no iniciar uma carreira de romancista russo) impeça qualquer possibilidade de limpar a maquilhagem de um rosto. Isso apenas revela que o espelho é o canivete suíço dos problemas mentais.